EUA: uma história marcada por guerras, derrotas e aversão à paz

(Frei Betto in Diálogos do Sul, 10/03/2026)

Numa indústria cujos lucros dependem da perpetuação de conflitos, a perspectiva de paz permanece um ideal distante. (“Paz”, cartoon de J. S. Pughe – Harper’s Weekly, Vol. 57, No. 1465, março de 1905)

Em seus 250 anos de história, os EUA conheceram menos de 20 anos sem estar envolvidos em guerra.


Desde sua fundação em 1776, os EUA construíram o mais poderoso complexo militar que o mundo já conheceu. Hoje, o arsenal ianque controla 40% das armas do planeta. No entanto, essa potência de fogo nem sempre se traduziu em vitórias inequívocas. 

A imagem da nação estadunidense como um país pacífico é desmentida pelos dados históricos. Nem sempre seus presidentes tiveram a coragem de Trump de declarar que almejavam “a paz pela força”. 700 anos antes da era cristã, o profeta Isaías proclamou uma verdade incontestável, para qual os poderosos quase nunca tiveram olhos para ler e ouvidos para escutar: “A paz só virá como fruto da justiça” (32,17). 

Em seus 250 anos de história, os EUA conheceram menos de 20 anos sem estar envolvidos em guerra. Segundo John Menadue, a poderosa nação do Norte nunca passou uma década sem guerra. O período mais longo sem conflito bélico durou apenas cinco anos, entre 1935 e 1940, devido ao isolacionismo a que foi condenada pela Grande Depressão. 

Nem sempre os EUA saíram vitoriosos das guerras nas quais se envolveram. A derrota mais humilhante foi no Vietnã (1955-1975). Apesar dos intensos bombardeios promovidos pelos ianques e do uso de todos os recursos proibidos pelas convenções internacionais, como napalm, o heroico povo vietnamita alcançou a vitória. Os EUA prantearam a morte de 58 mil soldados. 

Todo o horror provocado pelo governo estadunidense no Vietnã está retratado nos filmes Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola; em duas produções dirigidas por Oliver Stone, Platoon (1986) e Entre o Céu e o Inferno (1993); e Nascido para Matar, de Stanley Kubrick (1987).

Outra derrota foi na guerra ao Iraque (2003-2011). Iniciada sob a mentira oficial de que aquele país produzira armas de destruição em massa, a agressão ianque resultou na derrubada de Saddam Hussein ao custo de lançar o país num caos. As mesmas forças políticas de antes ainda governam o Iraque.

A derrota mais recente foi no Afeganistão (2001-2021). A agressão estadunidense no intuito de eliminar a organização terrorista Al-Qaeda, que havia derrubado as Torres Gêmeas de Nova York, e expulsar o Talibã do governo resultou, como no Vietnã, na saída caótica dos invasores. O custo da ocupação foi de 2,3 trilhões de dólares! As convicções do povo afegão se mostraram mais resilientes que o poder de fogo dos invasores. 

Agora, Trump adota uma nova estratégia ao atacar a Venezuela e o Irã: evitar a presença de tropas no terreno inimigo e centrar os ataques no uso da sofisticada máquina de guerra digital, conduzidas por IA, como drones e mísseis. E o objetivo não é mais implantar o modelo ocidental de democracia, e sim subjugar o governo local aos interesses da Casa Branca. 

O complexo industrial-militar é dominado por cinco grandes conglomerados — Lockheed Martin, Northrop Grumman, General Dynamics, RTX e Boeing —, que dividem a maior parte dos contratos. Mas um novo grupo de empresas mais inovadoras, como Anduril, Palantir e SpaceX, tem levantado bilhões em investimentos privados para modernizar a indústria, aproveitando-se de novas tecnologias como drones e inteligência artificial.

Em termos de PIB, o peso do setor é significativo, embora esteja abaixo dos picos da Guerra Fria. Em 2024, os gastos militares dos EUA somaram US$ 997 bilhões (incluindo pensões e gastos correlatos), de acordo com o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Isso representa cerca de 3% do PIB americano. 

O governo chinês acaba de anunciar aumento de 7% no orçamento militar. A China não ultrapassa 1,7% do PIB na defesa (300 bilhões de dólares), o que permite investir mais em ciência, inovação e tecnologia. Daí o interesse da Casa Branca em obrigar os chineses a se envolverem em conflitos armados. Para efeito de comparação: os EUA gastam mais em defesa do que a soma dos investimentos de China, Rússia e Índia juntos.

A história dos EUA é indissociável da guerra. A excepcionalidade americana, tantas vezes invocada em discursos, foi forjada em conflitos decisivos, desde a expansão para o Oeste até as intervenções no Oriente Médio. Os períodos de paz verdadeira foram meros intervalos na marcha beligerante que moldou o país.

Derrotas como as do Vietnã, Iraque e Afeganistão expuseram os limites do poderio militar. Mostraram que tanques, drones e bilhões de dólares são insuficientes para dobrar resistências nacionalistas, complexidades culturais e a falta de legitimidade local. A dificuldade em “conquistar a paz” após uma vitória militar inicial é uma lição recorrente que Washington reluta em aprender.

O custo dessas guerras — tanto o preço pago pelos contribuintes, quanto o fardo humano suportado por soldados e civis — alimenta um complexo industrial-militar que, como alertou Eisenhower, exerce influência desmedida sobre a política externa. Numa indústria cujos lucros dependem da perpetuação de conflitos, a perspectiva de paz permanece um ideal distante, de vez em quando apenas um breve parêntese na longa história do inveterado belicismo da nação estadunidense.

O tempo nos dirá como os EUA haverão de se safar do atoleiro que se enfiaram agora ao atacar o Irã.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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7 pensamentos sobre “EUA: uma história marcada por guerras, derrotas e aversão à paz

  1. A guerra é ilegal face ao direito internacional, o velho, já que o novo está a ser escrito agora, ilegal porque não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU.

    Hoje o CS aprovou uma resolução proposta pelo Bahrein, e como se lê no link, Rússia e China abstiveram-se:
    https://rtbrasil.info/noticias/31188-conselho-seguranca-onu-aprova-resolucao-ira/

    E o representante russo no CS da ONU vem com esta conversa:
    https://ria.ru/20260311/nebenzya-2080079202.html

    (tradução via máquina – não vá algum ‘traditore’ a sério apontar erros)

    ONU, 11 de março — RIA Novosti. Os autores da resolução do Conselho de Segurança da ONU que condena os ataques do Irã contra países do Oriente Médio propõem ignorar a agressão não provocada dos Estados Unidos e de Israel, afirmou o representante permanente da Rússia, Vasily Nebenzya.

    Pouco antes, o Conselho de Segurança adotou uma resolução exigindo que a República Islâmica cesse os ataques contra países árabes. No entanto, o documento não menciona nem condena as ações de Washington e Tel Aviv .

    “Se alguém não familiarizado com assuntos internacionais ler isso, inevitavelmente ficará com a impressão de que Teerã, por sua própria vontade e com intenções maliciosas, realizou um ataque não provocado contra países árabes. Os ataques contra o próprio Irã, sem mencionar aqueles que os planejaram e executaram, não apenas não são discutidos no documento — são simplesmente ignorados”, disse Nebenzya.

    O diplomata acrescentou que a resolução poderia até ser interpretada como uma permissão para continuar a agressão contra o Irã . Ao mesmo tempo, os EUA estão usando ativamente suas bases na região para fins ofensivos, e não defensivos, enfatizou o representante permanente.

    “Com suas ações agressivas, Washington essencialmente traiu os Estados do Golfo. A resolução adotada é incapaz de alcançar a paz no Oriente Médio. Ela apenas exacerbará as diferenças entre os principais atores”, observou ele.

    Nebenzya também expressou decepção com o fato de o Conselho de Segurança não ter adotado uma resolução russa que pedia um cessar-fogo e condenava os ataques contra civis.
    …”

    Voltamos à abstenção da Rússia e China, que depois levou à destruição da Líbia.

    O que leva os dois a não vetar?

    Os que discordam que se diga que a China e a Rússia, são só declaraçõers para a acta com “apoiamos” e “condenamos”, que ficam eufóricos com artigos de jornalistas a cantarem loas à China, que expliquem a falta de actos, tão simples como o veto.

  2. O que faz duvidar da sanidade mental de boa parte da humanidade e o facto de tanta gente acreditar que e em nome da democracia, da liberdade e dos direitos humanos que os Estados Unidos levam a guerra e a morte ao mundo desde a sua fundação.
    Nunca percebi porque e que há tanta gente a acreditar que um país que não respeita os direitos humanos na sua própria terra pode fazer uma guerra para promover os direitos que não tem.
    Uma jornalista espanhola pro americana dizia a propósito da ocupação do Iraque por uma soldadesca que violava e matava que os Estados Unidos precisavam de lá ficar muito tempo.
    Porque era preciso criar instituições democráticas, uma policia que respeitasse os direitos dos detidos e substituir o sistema de assistência dominado pelos fundamentalistas religiosos por um sistema de segurança social digno desse nome, e isso durava anos.
    Ora como podiam os Estados Unidos levar a um país aquilo que não teem no seu?
    A polícia nos Estados Unidos e letal, o sistema carcerário e um dos mais cruéis do mundo, não teem nada que se pareça com um sistema social universal, sendo que este e muitas vezes assegurado justamente por entidades religiosa com muito de fundamentalista, no caso de cunho cristao, como diabo e que iam assegurar isso no Iraque?
    Como e que vao levar democracia e liberdade seja onde for se não a teem no seu país?
    Teem uma ditadura bicéfala que faz as mesmas barbaridades quem quer que se sente na cadeira do poder.
    Mas sempre que destroem um país a pretexto de o libertar há sempre burros a zurrar dizendo que estão a fazer aquilo que e certo.
    Senhores pro americanos, vao ver se o mar da tubarão branco faminto. Um grande cardume deles.

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