O Novo Atlantismo de Marco Rubio

(A l e x a n d r e D u g i n, in MultipolarPress.com, 16/02/2026, Trad. Estátua)

Alexander Dugin sobre a recalibração estratégica do Ocidente em Munique.


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O discurso do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na Conferência de Segurança de Munique, em 14 de fevereiro de 2026, diferiu significativamente do discurso análogo proferido pelo Vice-Presidente JD Vance na mesma conferência, um ano antes.

O discurso de Vance no ano passado foi, em essência, um triunfo do MAGA — a ideologia sob cuja bandeira Donald Trump chegou ao poder após vencer as eleições presidenciais pela segunda vez. O vice-presidente dos EUA apresentou aos europeus (a maioria dos quais globalistas) o novo rumo de Washington para fortalecer os Estados Unidos – afirmando-se como um polo totalmente soberano no contexto de um mundo multipolar -, bem como o fim da era do globalismo. Vance não escondeu o seu desprezo pelos europeus e criticou duramente a sua ideologia liberal de esquerda. A ausência de invocações e maldições histéricas de russofobia no seu discurso foi percebida pela elite euro globalista quase como uma “posição pró-russa”. A impressão geral foi de que o atlantismo havia entrado em colapso e que o Ocidente coletivo se havia dividido em dois sistemas independentes: o nacionalismo americano (América Primeiro) e um fragmento do globalismo fracassado representado pela União Europeia.

Desta vez, o Secretário de Estado Marco Rubio discursou em Munique. A sua peroração refletiu as transformações pelas quais a política externa dos EUA passou nesse período. É importante destacar que o próprio Rubio é um neoconservador; ele orienta-se para o fortalecimento da solidariedade atlântica, a continuidade e até mesmo a intensificação da política hegemónica na América Latina (foi Rubio quem promoveu a invasão da Venezuela, a deposição de Maduro, bem como a intervenção e a mudança de regime em Cuba) e o aumento das tensões com a Rússia. Ao mesmo tempo, Marco Rubio busca adaptar-se à retórica conservadora de Trump e critica a agenda liberal de esquerda (embora de forma muito mais branda do que o movimento MAGA — e Vance em particular).

Em primeiro lugar, Rubio tranquilizou os líderes da UE quanto à preservação da solidariedade atlantista. Segundo ele, “num momento em que as manchetes anunciam o fim da era transatlântica, que fique claro para todos que esse não é o nosso objetivo nem o nosso desejo, porque, para nós, americanos, embora a nossa casa seja no Hemisfério Ocidental, seremos sempre filhos da Europa”. E acrescentou: “Para os Estados Unidos e para a Europa: nós pertencemos um ao outro”.

A era transatlântica, portanto, continua. Ao mesmo tempo, no espírito do neoconservadorismo clássico, Rubio enfatizou a dimensão estratégica da Europa. Ele afirmou: “Queremos que a Europa seja forte. …o nosso destino está e sempre estará entrelaçado com o vosso, porque sabemos que o destino da Europa nunca será irrelevante para o nosso”. O Secretário de Estado também assegurou que nada ameaça a NATO: “Não procuramos a separação, mas sim revitalizar uma antiga amizade e renovar a maior civilização da história da humanidade. O que queremos é uma aliança revigorada…”

Rubio criticou o sistema de valores da esquerda liberal; contudo, explicou principalmente a falácia das falsas esperanças dos democratas liberais — a sua complacência e confiança na garantia de domínio global após o colapso da URSS. Rubio disse: “Mas a euforia desse triunfo levou-nos a uma ilusão perigosa: a de que havíamos entrado, entre aspas, ‘no fim da história’; que todas as nações seriam agora democracias liberais; que os laços formados pelo comércio e somente pelo comércio substituiriam a nacionalidade; que a ordem global baseada em regras — um termo banalizado — substituiria o interesse nacional; e que viveríamos em um mundo sem fronteiras, onde todos se tornariam cidadãos do mundo. Essa foi uma ideia tola que ignorou tanto a natureza humana quanto as lições de mais de 5.000 anos de história humana registrada.”

Embora Rubio não tenha mencionado a Rússia diretamente no seu discurso, à margem de sua visita, ele lamentou os “horrores da guerra“, afirmando que “não sabemos se os russos estão falando a sério sobre acabar com a guerra” e que “vamos continuar a testar isso“, ao mesmo tempo em que assegurava que os Estados Unidos continuariam a pressionar a Rússia por meio de sanções económicas e do fornecimento de armas à Europa, que, em última instância, chegariam à Ucrânia. Nesse ponto, Rubio pareceu estar mais alinhado  com o Velho Mundo, argumentando que, juntamente com a Europa, os EUA continuariam a tomar medidas para pressionar a Rússia a sentar-se à mesa de negociações.

No entanto, Rubio faltou a uma reunião de líderes europeus com Zelensky sobre a Ucrânia, realizada à margem do fórum, e, em vez disso, foi encontrar-se com Orbán — e isso.só por si, provocou críticas dos euro-globalistas, que consideraram tal comportamento um “desafio”.

Rubio concluiu o seu discurso na conferência num tom otimista, insinuando que o “novo xerife”, na pessoa de Donald Trump, é muito menos terrível do que muitos acreditam, e que, na realidade, a sua agenda internacional não difere muito dos planos dos globalistas, embora apresentada sob uma embalagem peculiar e extravagante. A própria figura de Rubio — um neoconservador e globalista — tinha o propósito de confirmar essa tese. Ele terminou o seu discurso com as palavras: “A América está a traçar o caminho para um novo século de prosperidade, e mais uma vez queremos fazer isso juntamente com vocês, nossos estimados aliados e nossos amigos de longa data”.

Se deixarmos as emoções de lado, a visita do Secretário de Estado Marco Rubio à Europa para a Conferência de Munique marca uma mudança significativa na política da administração americana em comparação com o ano passado. A nova estratégia de segurança nacional declarou que, a partir de agora, os Estados Unidos se concentrariam no Hemisfério Ocidental, o que foi interpretado como um retorno à Doutrina Monroe (América para os americanos) e uma rutura com o Velho Mundo. Rubio esclareceu que não é esse o caso e que todas as estruturas atlantistas permanecem em vigor.

Assim, com certo grau de certeza, pode concluir-se que, ao longo do último ano, a política dos EUA se distanciou muito do projeto revolucionário do MAGA e está a aproximar-se de uma versão radical do neoconservadorismo e do realismo atlantista.

Partindo das posições com que Trump iniciou o seu segundo mandato presidencial, a Rússia e os Estados Unidos tinham perspetivas de chegar a um acordo sobre novas bases para uma nova ordem mundial. Especialmente porque nós, Vance, o próprio Trump e Rubio, concordamos que a antiga ordem mundial liberal-globalista, “baseada em regras”, já não existe. Não nos teríamos oposto particularmente a um fortalecimento dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, e Vladimir Putin teve a oportunidade, em Anchorage, de discutir a sua visão global com o presidente americano. O problema da Ucrânia dificilmente poderia ter sido resolvido, mas Washington poderia muito bem ter-se retirado dessa guerra, concentrando-se nos seus próprios problemas. Uma deterioração nas relações entre os Estados Unidos e a União Europeia também teria sido vantajosa para nós, ao mesmo tempo que um retorno aos valores tradicionais coincidia plenamente com a nossa própria ideologia patriótica e conservadora. Com o MAGA, tínhamos todas as chances de encontrar um terreno comum.

Contudo, em determinado momento, o próprio Trump começou, nas suas políticas, a distanciar-se do movimento MAGA e a aproximar-se dos neoconservadores. Paralelamente, o papel de Marco Rubio no sistema político ganhou relevo. As negociações sobre a Ucrânia, já problemáticas e até mesmo ambíguas desde o início, aproximaram-se gradualmente de um impasse.

Mais importante ainda: isso afetou muito mais do que as relações russo-americanas. O governo dos EUA adotou estratégias neoconservadoras (em essência, uma tentativa de salvar a hegemonia ocidental e o mundo unipolar) também em várias outras áreas: pressão sobre os BRICS, ataques contra o Irão, o sequestro de Maduro e o aumento das sanções contra a Rússia. E agora, Marco Rubio, na Conferência de Munique, articulou um programa de novo atlantismo — menos liberal e mais realista, mas ainda assim o mesmo. Continua, pois, a ser um mundo unipolar, e de forma alguma uma nova ordem mundial de grandes potências.

Os caminhos da civilização russa e da civilização ocidental estão a divergir cada vez mais (embora esse processo tenha começado há muitos séculos). Devemos estar preparados para isso.

Fonte aqui.


5 pensamentos sobre “O Novo Atlantismo de Marco Rubio

  1. Tem tudo para acabar mal porque nunca abandonamos o espírito de pilhagem que sempre caracterizou a Europa Ocidental e que foi transmitido aos seus “filhos” das Americas.
    Instalados sobre terra roubada a populações que foram na sua quase totalidade exterminadas.
    Era difícil fazer pior.
    E agora os “filhos” vêem convidar os “país” para que juntos voltem ao colonialismo de Séculos passados.
    Claro que isto tem tudo para acabar mal mas o que e certo e que a esperança desta gente e sangrar a Rússia ate que esta se renda.
    Ora a ultima vez que a Rússia fez algo parecido foi nos anos Ieltsin e se a coisa assim tivesse continuado talvez a Rússia já não existisse como estado independentemente.
    Porque por esta altura já uns 20 milhões de russos teriam morrido de fome e de frio e outros tantos emigraram.
    Estimativas mais conservadoras estimam em três milhões de mortos por fome e frio e outros tantos emigrantes nos cerca de seis anos que aquele bêbado sem préstimo (des)governou o país.
    E os que hoje tentam derrotar a Rússia teriam arranjado um pretexto para atacar pois que por esta altura até o arsenal nuclear estaria fora de ação.
    Porque nunca esta gente aceitou que os russos eram seus iguais e que só teriam a ganhar em negociar legalmente com eles.
    Mas isso era impossível porque nunca nos história esta gente negociou lealmente com outros povos do mundo.
    Sim, isto tem tudo para acabar mal mas ninguém vai poder dizer que tivemos azar.
    O que tivemos foi falta de vergonha na cara. E isso as vezes paga se muito caro.
    E se há povo que o devia saber somos nós. A aventura colonial mal planeada de D. Sebastião até a independência nos custou.
    Foram 60 anos de domínio estrangeiro e 27 anos de guerra cruel para voltarmos a ser um país.
    Agora pode correr muito pior mas enquanto acreditarmos que a Rússia quer isto para alguns coisa e que nos vai invadir se não for derrotada na Ucrânia não há maneira de sairmos disto.

  2. Certíssimo! Só faltou explicar devidamente quem lucra com a demonização do urso, a quem convém que ele continue a ser apresentado como o inimigo perpétuo, o inimgo de estimação. Nunca por nunca nenhum dos comentadeiros de serviço à nojenta propaganda imperial (Nojeiro, Milhafre e Cª) entendeu ou foi capaz de explicar porquê a Rússia tem de ser encarada como activo a abater, tal como defendia a Ordem Teutónica, Napoleão, Hitler e os líderes das chamadas democracias ocidentais. Nunca ninguém se deu ao trabalho de pensar que a Europa teria tudo a ganhar com uma relação construtiva, intensa, normal com a Federação e tudo a perder com o oposto. Mas a mais profunda estupidez, a mais abjecta subserviência aos interesses do império anglo-americano é sempre a driving force que comanda as cliques instaladas no velho continente. Não passam de uns execráveis vendidos, uns prostitutos profissionais travestidos de gentinha pretensamente digna. Isto tem tudo para cabar bastante mal. E depois virão dizer que tivemos azar. É difícl fazer pior.

  3. Para quem na Rússia, nos Estados Unidos e até na Europa, entre tanta gente farta de pagar esta guerra na Ucrânia acreditou naquele bandalho do Trump tudo isto pode ser um balde de água fria.
    Mas não deve ser surpresa nenhuma.
    Nunca em nenhuma época da história o Ocidente viu os russos como seus iguais em humanidade e em direitos como seres humanos.
    A Rússia sempre foi vista como um território a explorar, a conquistar.
    A sua gente como uma gente que podia ser reduzida a mais cruel escravidão tal como os “infiéis” muçulmanos ou os negros ou índios, sendo que sobre estas últimas duas categorias se lançaram inúmeras discussões sobre se teriam alma, ou seja, se seriam realmente seres humanos.
    Com muita gente a concluir que não pois que se eram capazes de cantar também os papagaios o eram. Sim, houve quem dissesse disso para justificar o extermínio das populações das Americas.
    Por isso e que estas estão cheias de “filhos da Europa” como esses bandalhos do Trump e do Rubio.
    No caso dos russos não interessava nada que também fossem cristãos.
    Por isso a história das relações entre o Ocidente e a Rússia e uma história de invasões e razias de pilhagem.
    Depois, quando os russos se começaram a organizar e a conquistar territórios de onde os invasores saiam, tanto a Ocidente, Polonia e Finlândia, como a Sul e Oriente, os actuais territórios do Cazaquistão, Turquemenistão e outros, foram sempre os russos a ser considerados culpados.
    Já a Europa Ocidental podia ir pilhar e destruir populações na Ásia, na América, na Oceania, na África, que era sempre por bons motivos.
    Era para levar aos selvagens a luz da civilização e do Cristianismo.
    Se pelo caminho pilhavam os seus recursos até lhes estavam a fazer um favor pois que eles eram demasiado selvagens para os utilizar.
    A Europa Ocidental ate combateu ao lado dos turcos, os seus inimigos de séculos, contra a Rússia, na Guerra da Crimeia.
    Isto não cabia na cabeça de ninguém mas houve em quem achava que era preciso deter aquela gente diferente, distante, cruel.
    Tivemos quem aqui escrevesse duas vezes sobre uma especial crueldade russa.
    Temos comentadeiros a regozijar se com as baixas russas na guerra proxy na Ucrânia, reais ou inventadas.
    O Ocidente, a Europa e os que se dizem seus filhos continuam a querer o que quiseram Napoleao e Hitler.
    Se alguém acreditou que um antigo negociante sem escrúpulos, cruel como vi poucos e violador de mulheres ia mudar alguma coisa enfiou uma peta de todo o tamanho.
    Vamos continuar a pagar a guerra contra esses subhumanos, pretos da neve, white niggers, o tempo que esta cambada de ladrões racistas quiser. Ou até a Rússia perder a paciência e despejar umas batatas bem quentes sobre aquela auto estrada das invasões ocidentais.
    Raios partam a Ucrânia que não para de nos ir ao bolso.

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