A verdadeira “ruptura” em Davos

(Pepe Escobar, in Resistir, 24/01/2026)


Independentemente do que os bárbaros possam estar a fazer, o facto que importa é que a China já está na fase seguinte, em que se espera que substitua os Estados Unidos como o principal mercado consumidor do mundo.


O velho mundo está a morrer, e o novo mundo luta para nascer:   agora é o tempo dos monstros.

Antonio Gramsci


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Davos 2026 foi um caleidoscópio demente. A única maneira possível de chafurdar no lamaçal era pôr os auscultadores e recorrer à Band of Gypsys, esmagando as barreiras sónicas e afogando uma série de acontecimentos francamente terrificantes, incluindo uma ligação Palantir-BlackRock, o encontro entre a Big Tech e a Big Finance; o “Plano Diretor” para Gaza; e a aguda desorientação na arenga do neo-Calígula, aqui na versão de 3 minutos.

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6 pensamentos sobre “A verdadeira “ruptura” em Davos

  1. E que o tempo dos monstros acabe antes de impingirem aos 80 milhões de habitantes do Irão um passado dos cornos e uma monarquia absoluta.
    Que não haja mais nenhum país a enfrentar a destruição.
    Já agora, que daqui a duas semanas saibamos ir votar e não tenhamos o nosso mini Trump.

  2. Caro Manuel Chico: As condições materiais estão dadas para que o capitalismo seja superado – temos informação, temos conectividade, temos possibilidade de cooperação e de produção em níveis nunca antes imaginados.
    Todavia, estas condições, se são necessárias, mesmo imprescindíveis, não são suficientes. Falta que se apresentem, ou melhor, que se organizem os protagonistas que podem impulsionar a mudança.
    Tais protagonistas, também indispensáveis, dada a dominância do tipo de subjetividades moldadas pelo neoliberalismo – individualismo exacerbado, competição desenfreada, perceção do outro não como irmão, mas como inimigo – têm dificuldade em surgir e em se organizarem.
    Os partidos políticos são o que sabemos, as exceções à regra podem ter boa vontade, ser bem intencionados, mas dormiram no posto! Os meios académicos – onde se deveria produzir conhecimento que permitisse compreender a realidade para a transformar – estão tomados pelo conservadorismo e não têm coragem nem fibra para fazer ruturas e, pelo menos nas humanidades, continuam a ‘discutir o sexo dos anjos’ como se se tratasse de assunto de extrema relevância.
    De modo que o meu conforto é em certo sentido também ele pensamento voluntarista: quero acreditar que sim – que em certa altura, quando as contradições se tornarem mesmo insolúveis , a bomba vai estourar, os monstros vão morrer, e das entranhas do velho vai nascer um outro mundo.

  3. A China tem se afirmado no mundo sem disparar um tiro e sem instalar bases militares que são um pesadelo para os habitantes locais em todo o mundo mesmo que tragam algum benefício econômico.
    E eu sei o que estou a dizer porque vi.
    Durante alguns anos visitei uma criatura que tinha a desdita de viver próximo da base americana de Rammstein a maior base desses trastes na Europa.
    Os proprietários de casas beneficiavam de alugar casas a soldados e oficiais muitos dos quais reconheciam que na sua terra até fome tinham passado e por isso tinham visto o exército como uma tábua de salvação e aquela casa era a primeira casa digna desse nome que tinham tido. Porque ate aí tinham vivido em caravanas ou casas de madeira a mercê de frio, furações e tufões conforme a zona geográfica de onde vinham.
    O pior era o resto. Mulher era peça de caça. Os soldados vinham por comissões de três anos, alguns ja com casamentos marcados nas terras deles, juntavam se a uma qualquer alema que ia na conversa e no fim da comissão ala que se faz tarde deixando muitas vezes a desgraçada com um filho sem pai.
    Se hoje em dia na Alemanha isso já não e o drama que podia ser noutros tempos a experiência era sempre traumática.
    Porque a desgraçada muitas vezes tendo a visão idilica da America achava que iria com ele quando a comissão acabasse. E via se com um filho que nao teria pai.
    E o assédio tornava uma ida a discoteca a noite uma experiência perigosa. E não so para jovens.
    Uma criatura de mais de 40 anos, parecida com uma baleia ainda contava a noite em que, do alto de dois casamentos, não vira melhor que dizer que era lésbica para acabar com o assédio de um já tocado que não desistia de querer comer xoxota de baleia naquela noite.
    O que fazia de uma simples ida a discoteca um lugar pouco seguro para quem não tivesse picha.
    De resto, famílias com filhos entravam em stress se alguém olhava um pouco mais fixamente para as suas crianças.
    E a subserviência das autoridades locais era absoluta. Uma noite de neve e temperaturas negativas demos com a estrada de acesso entre a aldeia e a cidade de Kaiseslautern cortada pela polícia americana sem que os locais interviessem.
    Um soldado bêbado tinha arranjado maneira de estampar o carro numa árvore. Fora para o Inferno mais cedo.
    Graças ao santo protector dos cachalotes pelos carros com ar condicionado. Porque dezenas de carros que se foram juntando dos dois lados da via estiveram ali quase duas horas até que o traste e o carro foram retirados.
    Uma criatura teve de dar um Golden Retriever que tinha a uma instituição que tratava de crianças autistas e com outras alterações de foro neurológico com o recurso a cães por ter sido intimada a desfazer se do cao por um vizinho americano se queixar que o cão ladrava muito. Por sinal a besta também tinha um cão que não só ladrava como tentava tirar um bife a qualquer um que se cruzasse com ele mas as queixas dos vizinhos caiam sempre em saco roto.
    Uma mulher portuguesa aturou durante 20 anos um bêbado sem préstimo que a espancava cruelmente e até levava as putas para casa.
    E ela tentou vezes sem conta fugir.
    Mas como o marido era “protegido dos americanos” a Segurança Social perseguia a em vez de a ajudar e quem lhe alugava casa dizia ao fim do primeiro mês que não a podia ter mais ali.”Ele tirava me os filhos porque era protegido dos americanos”.
    E ela não tinha mais remédio que voltar para o seu Inferno.
    Foi só quando o primeiro filho tinha mais de 20 anos e o segundo estava quase na maioridade, e ela as voltas com um cancro que a levou a ter as mamas cortadas rente, seis meses após um acidente em que a besta, bêbado como um carro enfiou o lado do pendura do carro debaixo de um camião, tendo ela quebrado as costelas todas, e ainda em tratamento de quimioterapia, que largou a besta e roubou a Portugal. Não queria morrer nas unhas daquela besta.
    O resultado disto tudo e que quem não ganha alguma coisa com o assunto tem os americanos pelos cabelos.
    E se isto e assim na Europa imaginemos como será na América Latina ou nas Filipinas.
    Por isso e bom que ainda haja quem seja capaz de se impor no mundo sem estas barbaridades todas.
    Mas algum dia terá de usar as armas porque estes trastes só respeitam e só conhecem a força.
    Daí que esteja a fazer bem em também acumular poder militar.
    Não tivesse a Rússia feito isso e já os nazis teriam chacinado a população do Dombass e marchariam em Moscovo.
    E a China não precisa de voltar a ter os japoneses a fazer chacinas como a de Nanquim em mais uma guerra proxy a pretexto de Taiwan que e o que parece estar na calha.
    Porque os bárbaros não aceitam perder e fazer a guerra e o único meio que conhecem.

  4. “O velho mundo está a morrer, e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros. “Gramsci

    “Em Davos, He Lifeng deixou bem claro que a China está determinada a tornar-se “o mercado do mundo”; e que o aumento da procura interna está agora “no topo da agenda económica [da China]”, como refletido no 15º plano quinquenal que será aprovado em março próximo em Pequim.”

    Selecionei estes dois excertos do texto de Pepe Escobar porque, no louco império do caos em que estamos a viver, em certo sentido, são as únicas boas notícias que nos transmite.
    António Gramsci, marxista italiano, crítico do fascismo e de Mussolini, foi encarcerado em 1927 e morreu em 1937 pouco depois de ter sido libertado. Foi uma voz premonitória – percebeu o seu tempo e advertiu para o cenário terrível que se aproximava – mas manteve um otimismo reconfortante, ou que pelo menos me reconforta – ainda vamos penar muito, mas o tempo dos monstros vai passar; o capitalismo, no seu estertor e no estado predatório em que se encontra, vai implodir e um novo mundo vai ser possível.
    A segunda boa noticia informa que afinal ainda ‘há um adulto na sala’, alguém com bom senso na nave dos loucos, que talvez consiga ajudar a conduzi-la a bom porto, alguém preocupado em trabalhar, produzir, e distribuir mais equitativamente o produto e não “simplesmente” em roubar, matar e aproveitar-se das fragilidades dos outros. . .

    • “… um otimismo reconfortante, ou que pelo menos me reconforta – ainda vamos penar muito, mas o tempo dos monstros vai passar; o capitalismo, no seu estertor e no estado predatório em que se encontra, vai implodir e um novo mundo vai ser possível.” Penso que soim, mas, pelo sim pelo não é bom que não nos fiemos na virgem das implosões e tratemos nós disso fazendo-o explodir. Parece-me que só a luta organizada o poderá fazer. No mais também concordo

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