Há 50 anos, o exílio – um testemunho pessoal

(Carlos Fino, in Facebook, 04/06/2021, Revisão da Estátua)


“Quem, ao andar pelo crepúsculo ou ao descrever uma época do seu passado, não sentiu em algum momento que uma coisa infinita se perdera?” – Jorge Luís Borges, in Antologia pessoal – Cia das Letras, 2008.


A minha geração foi a última, antes do 25 de abril, a ter de emigrar por razões políticas. O relato que hoje trago aqui na primeira pessoa é por isso apenas um pequeno fragmento do quadro geral de um destino comum que cada qual percorreu à sua maneira e que só pelo testemunho de muitos poderá completar-se.

No dia 4 de junho de 1971, cumprem-se hoje 50 anos, dava início a uma viagem que iria mudar para sempre a minha vida. Confinado sem sair, havia três meses, numa casa de apoio em Lisboa, para evitar ser preso pela PIDE – na sequência de um movimento de greve às aulas seguido de cargas policiais nas universidades – há muito que ansiava por esse momento.

De início, o “retiro” fora um alívio: pai e filho – da família que me acolhera (depois de outras duas o terem recusado) -, eram simpáticos, esforçando-se por me deixar à-vontade. Mas a verdade é que estava sempre presente um sentimento de inquietação; e à medida que os dias passavam, a ansiedade crescia, quase se tornando paranoica: bastava, num olhar furtivo pela janela, descortinar alguém parado do outro lado da rua, para logo imaginar um cerco à casa seguido de toque na porta e prisão.

Contra essa angústia, já de pouco valia a gentileza dos meus anfitriões nem o espírito de militância com que tentavam fortalecer a minha coragem; por exemplo, colocando, num gira-discos da sala de jantar, enquanto tomávamos as refeições, os coros do exército soviético, canções da resistência francesa ou – repetidamente – o Hasta Siempre, Comandante Che Guevara

No fim de semana anterior, a minha namorada, a Isabel, viera com toda a cautela clandestina despedir-se, num apaixonado encontro de amor e lágrimas em que partilhámos uma cestinha de morangos que ela trouxera consigo de Vila Franca – afinal, éramos a geração dos Beatles: Strawberry Fields Forever

Na mesma altura, entregaram-me o passaporte – o meu, original, já vencido, com a data de validade toscamente alterada pelo PCP, a que pertencia desde que entrara para a universidade. Fiquei, naturalmente, apreensivo: contra a minha expectativa e ao arrepio de uma certa aura de competência técnica, via-se claramente que o documento havia sido rasurado, o que só vinha acrescentar perigo ao perigo. Mal sabia eu o que ainda estava pela frente.

Na madrugada da partida, uma sexta-feira, lá estava o carro à minha espera – conduzido pelo economista Lindim Ramos, membro destacado do partido, que conhecia do MDP/CDE, em que eu participara ativamente durante as “eleições” de 1969.

Foi ele que me deu a notícia, mal me sentei ao seu lado: naquela mesma madrugada, horas antes, a ARA fizera ir pelos ares a central de telecomunicações, perturbando a reunião da NATO que decorria no palácio da Ajuda, em Lisboa. Nossa Senhora! – pensei para comigo – que raio de data haviam de escolher para me levarem daqui para fora… O que só prova que o braço civil do Partido nada sabia do que fazia o seu braço armado.

Mas a máquina estava em movimento e não havia lugar para recuo. Embora com cautela redobrada, colocando como disfarce uns óculos ultra graduados que me desfiguravam o rosto, lá fomos, sempre tensos, passando por sucessivas brigadas da GNR, mais numerosas nas estradas do que era habitual, em direção a Viana do Castelo, onde fui entregue, longas horas depois, para passar a noite em casa de um advogado da oposição de quem nunca soube o nome.

Uma bela casa, junto à praia, ao longo da qual, na enevoada madrugada seguinte, me despedi de Portugal num triste e solitário passeio à beira-mar que me trouxe à memória Camões, enquanto no meu espírito ecoavam os versos da Cantiga sua partindo-se, de João Roiz de Castel-Branco, que conhecia na interpretação de Adriano Correia de Oliveira: “partem tão tristes, os tristes…

A partir daí, o meu destino estava nas mãos dos passadores, a quem os meus pais, por vias travessas, haviam pago dez contos de réis (então uma pequena fortuna) para me ajudarem a passar a fronteira a salto. Foram buscar-me ao fim do dia e rumámos a norte – eu, com 22 anos, ainda imberbe, sentado entre dois matulões no banco de trás e outros dois à frente.

À entrada de Chaves, já noite, novo susto. De repente, o condutor vira-se para trás e diz, alarmado: “Está ali a GNR!”. Para meu grande espanto, um dos passadores a meu lado saca de uma pistola e exclama, imperativo: “Se eles mandarem parar, a gente atira!”

Menino de sua mãe, entalado entre dois homenzarrões, fiz-me ainda mais pequeno e ao mesmo tempo cresci.

Nesse preciso momento, finalmente entendi que toda a movimentação política em que me envolvera não era um simples jogo romântico de juventude. Podia ser e era uma questão de vida ou de morte. Como no exaltante poema de Gabriel Celaya cantado por Paco Ibáñez, “La poesia es una arma cargada de futuro”, compreendi na sua inteireza que também nós estávamos “tocando el fondo”.

Esse foi, para mim, verdadeiramente, um instante de metamorfose. A poucos metros da ponte romana de Trajano, sobre o Tâmega, numa escura noite de verão, naqueles momentos de alta tensão em que o carro passou pela GNR e tudo podia terminar de um momento para o outro numa troca de tiros, morria o adolescente e nascia o adulto.

Já numa aldeia junto à fronteira, sem saber bem onde estava, novo sobressalto devido aos homens fardados de castanho que via por ali. “Não se preocupe” – disse-me um dos meus companheiros de viagem – “São guardas florestais; eles só querem saber quantos é que trazemos porque recebem por cabeça..” Por fim, na morada do camponês que também fazia parte do esquema, esgotado pela viagem e pelas emoções, caí rapidamente no sono, não sem reparar que a filha do dono da casa era bela e tão loira quanto a broa de milho que pouco antes repartira entre nós todos.

Lá pelas quatro da madrugada, o senhor João acordou-me: “Está na hora, meu amigo, vamos lá!” Guiado por ele, respirando o ar fresco da manhã, atravessámos campos e atalhos durante algum tempo e pouco depois estávamos do outro lado da fronteira, onde sobre uma tosca mesa de madeira, me esperava o desayuno: um copo de vinho.

O contacto galego passou-me o bilhete para a camioneta e lá embarquei rumo a Orense, vendo pela janela do assento em que me refugiei, estampada nas paredes dos povoados que íamos atravessando, a velha palavra de ordem do regime franquista: “Arriba España! Viva Franco!

Embora aliviado por ter conseguido atravessar a fronteira, ainda continuava inseguro, sem saber bem como as coisas iriam terminar. Com um passaporte rasurado e pouco dinheiro no bolso, tudo ainda podia terminar mal, muito mal mesmo. Eis senão quando, numa das paragens, vejo entrar dois guardas-civis de tricórnio preto reluzente. O meu ritmo cardíaco acelerou rapidamente. Pronto – vêm-me buscar! – pensei eu.

E quase tive a certeza quando vi um deles caminhar na minha direção. Tinha o coração na boca, aos saltos… Afinal, o bom do guarda veio apenas sentar-se no lugar vago a meu lado e nem sequer me dirigiu palavra… Se ele soubesse quem tinha ali…

Já em Orense, fui buscar o bilhete de comboio para Paris a uma agência de viagens que também devia fazer parte do esquema; era para lá que convergia o grupo que passara a fronteira a salto – cada um por si, primeiro, mas agora ali todos juntos: jovens operários, mulheres de várias idades que se iam juntar aos maridos em França e alguns – poucos – estudantes como eu, partilhando com o nosso povo o mesmo destino.

Uma imprevidência que dava nas vistas e podia chamar a atenção da polícia – pensei – ao mesmo tempo que no meu cérebro ecoavam os versos e a música de Manuel Freire: Ei-los que partem…

Carteira de identidade de refugiado das Nações Unidas, estatuto que obtive, em Bruxelas, alguns meses depois de ter passado a fronteira a salto

Só quando, finalmente, entrei no comboio para França comecei a acreditar que poderia estar livre de perigo; mas mesmo aí houve momentos de inquietação quando outros portugueses começaram a dizer que sem passaporte em condições, uma vez chegados a Hendaia, das duas uma: ou se atravessava o rio a nado, ou nos submetíamos ao capricho sexual dos guardas…

Afinal, para minha grande sorte, nem uma coisa nem outra – os guardas não viram ou fingiram não ver a rasura do passaporte, apenas perguntando onde iria viver em Paris – as humildes águas furtadas de um operário emigrante membro do PC que se dispusera a ajudar e cuja direção eu levava escrita num papelinho, dentro do passaporte.

Atravessados os Pirenéus, deixando para trás os retrógrados Portugal de Salazar/Caetano e Espanha de Franco, finalmente estava livre: os comboios andavam mais rápido e tinham cheiro a limpo, as mulheres tinham outra elegância e a paisagem era mais verde, menos árida.

Podia, enfim, respirar e sorrir, ainda sem me dar conta que estava apenas no começo de um longo e complicado exílio, faz agora precisamente meio século. Mas tudo era preferível ao sufoco em que se vivia num regime que não tolerava a liberdade e insistia em nos mandar para uma guerra perdida. Non, je ne regrette rien…

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10 pensamentos sobre “Há 50 anos, o exílio – um testemunho pessoal

  1. “Partem tão tristes, os tristes”… que mais dizer?
    Sou filho de um emigrante (que já não foi de assalto – para a Alemanha), conheço o drama daquela tristeza, infinita, convulsiva, olhos enublados e encovados, dos tristes que partiam, com o coração dilacerado pela saudade dos que amavam!
    Nefando país este!
    À margem: obrigado, Carlos Fino, pela sua lucidez, independência e rigor do que transmite.

  2. Para quem ainda não sabe, o Chega da Dinamarca chegou ao poder e a vida de muita gente por lá tem complicado.
    Já pouco resta dos direitos sociais que faziam a inveja de gente como os tugas.
    Aos imigrantes até andam a ser dadas aulas de “valores dinamarqueses” e tretas análogas porque que é lá isso de malta muçulmana se estar nas tintas para torrar dinheiro em presentes de Natal? E péssimo para a economia. Já basta que os c*broes não bebam cerveja mas pelo menos ainda não se instaurou o consumo compulsivo de cerveja Karlsberg.
    Vão todos ver se o mar da Kraken.

  3. A propósito dos desgraçados tempos passados, segue uma amostra dos desgraçados tempos futuros em que passados seremos todos nós, mas a ferro! Eizi-os, aos futuros e gloriosos tempos:

    “The Danish agency for palaces and culture is reportedly removing the 4×6 metre Den Store Havfrue (the Big Mermaid) from Dragør Fort, part of Copenhagen’s former sea fortifications, because it does not align with the cultural heritage of the 1910 landmark.
    Politiken’s art critic, Mathias Kryger, has branded the statue “ugly and pornographic”. Sorine Gotfredsen, a priest and journalist, wrote in the newspaper Berlingske: “Erecting a statue of a man’s hot dream of what a woman should look like is unlikely to promote many women’s acceptance of their own bodies.”
    “A debate has erupted in Denmark over the fate of a mermaid statue that is to be removed from public view after being decried as “ugly and pornographic” and “a man’s hot dream of what a woman should look like”.”

    Aqui:
    Denmark to reportedly remove ‘ugly and pornographic’ mermaid statue https://www.theguardian.com/world/2025/aug/04/denmark-mermaid-statue-pornographic-removal?CMP=share_btn_url

    Já faltou mais para os talibãs que nos apontam os caminhos da virtude deportarem ou exilarem para armazéns ou tugúrios sem luz as estátuas gregas e romanas da Antiguidade, que expõem nos museus desta bendita civilização ocidental a sua apolínea ou venusiana nudez… perdão, queria eu dizer a sua “pornográfica” nudez! Aquilo é só corpos femininos perfeitos, idealizados pelos “sonhos molhados” de machos trogloditas! E também corpos masculinos não menos perfeitos, só possíveis nos “sonhos molhados” de mulheres obviamente depravadas!

    E os armazéns ou tugúrios sem luz serão o destino mais feliz, já que, para muita dessa “pornografia” parida pela depravação dos antigos, a alternativa, em nome de Nossa Senhora da Santíssima Reciclagem, da economia de recursos e, vá lá, das alterações climáticas, será, provavelmente, o camartelo! Ainda um dia teremos a suprema felicidade de, numa qualquer “calçada portuguesa”, pisar os restos da Vénus de Milo! Ou do Pénis de Quilo, sabe-se lá!

    A esta orgulhosa (vá-se lá saber porquê) civilização ocidental mais adequado seria chamar-lhe “oxidental”, que a antiga ‘patine’ cada vez é mais ferrugem do que outra coisa qualquer! Ferrugem, caruncho, ranço e decomposição acelerada!

  4. Tenho uma experiencia um pouco diferente, muito menos heroica e poética( não me lembro de ter ouvido nenhuma canção da resistência nem me lembro de nenhuns versos de qualquer poesia. Um amigo apresentou-me um passador em Viana do Castelo, paguei 5 contos e fui ter ao local combinado às horas combinadas. Era uma taberna por cima do rio Minho. Estavam lá mais uma dezena de turistas com passaporte de coelho igual ao meu. O passador meteu-nos num barquito, atravessámos o rio e fomos ter a uma estação da RENFE. compramos bilhete para Andaya e quando o comboio chegou embarcamos e só descemos na fronteira co França onde os gendarmes nos deram uma autorização de permanência provisória válida por quinze dias. Nem canções, nem poemas, só isto.

  5. O problema e que hoje ninguém tem noção do que foi o fascismo e do que pode ser o seu regresso.
    Ainda ontem uma besta dizia que terá sempre de trabalhar ganhe um dia o Chega as eleições ou não.
    Não soube o que responder quando lhe perguntei se está preparado para trabalhar sem direito a horário e sem receber um tostão se estiver doente, entre outras aleivosias.
    O mesmo atrasado mental com quem quase andei ao tabefe na véspera das eleições queixava de de que um polícia se tinha excedido com ele, exigindo identificação quando toda a gente na terra sabe bem quem ele e por ter um estabelecimento muito conhecido e o tal polícia também sabia.
    Ora tratei de morder a língua porque estou no ginásio para recuperar algum do peso que perdi, mal e porcamente já cá canta mais de metade, e não para me empachar com alarves.
    Mas quando o freguês saiu sempre fui dizendo que e essa impunidade policial de abordar qualquer um porque sim que o Chega pretende.
    E o que será se um mau polícia como aquele tiver mesmo a tal “autoridade”.
    Ao menos sejam coerentes, porra.
    Mas acho que infelizmente anda por aí muita gente que a juntar a um bom bocado de ruindade e burra que nem um cepo e não pensa que o regresso do fascismo será mau para todos, mas mesmo todos.
    Não só imigrantes, ciganos, negros, pobres em geral e a metade da população que não tem picha.
    Vão ver se o mar da megalodonte.

  6. Memórias a vir ao de cima, algumas compartilhadas, antes de teres mudado de espaço. Pontapé no passado fascista!

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