Israel

(Por General Pezarat Correia, in O diario.info, 18/06/2025)


Israel é uma fortaleza militar, pilar do poderio dos Estados Unidos da América (EUA) numa das áreas geoestratégicas mais sensíveis da Terra, a bacia do Mediterrâneo euro-afro-asiático.

Acresce que Israel é produto do processo de descolonização do Império Otomano, na sequência da Guerra Mundial 1914-1918 (IGM) que, maquiavelicamente, como sempre foi marca da política imperial britânica, Londres procurou gerir por forma a preservar os seus interesses. Por mandato da Sociedade das Nações (SDN) ao Reino Unido (RU) coubera, entre outros territórios, a administração da Palestina, onde coabitavam, pacificamente, comunidades cristã, judaica e muçulmana. Esta era largamente maioritária enquanto a judaica era apenas de cerca de 50.000 pessoas, distribuídas por vários colonatos, pela cidade portuária de Telavive e com significativa presença em Jerusalém, partilhada com cristãos e muçulmanos. Em 1919, o secretário de estado dos Negócios Estrangeiros britânico Arthur Balfour, pressionado pela influente comunidade judaica do RU, difunde a célebre Declaração Balfour prometendo aos judeus o “lar judaico na Palestina”. À maioria árabe, que não foi ouvida nem achada nesta decisão arbitrária da potência para-colonial, limitou-se a dizer “cheguem-se para lá que isto agora passa a ser terra judaica”. Foi neste contexto que, em 1948, depois da Segunda Guerra Mundial (IIGM), nasceu o estado de Israel.

Com ele nascia também o conflito na Palestina, com a sistemática perseguição e expulsão da comunidade árabe e atração de judeus para alterar a correlação demográfica das várias comunidades, com a progressiva e violenta expansão territorial de Israel à custa dos Estados vizinhos, com a transformação de Israel num Estado de regime de apartheid onde a maioria árabe foi forçada à emigração ou à sujeição a um estatuto discriminatório na sua própria terra. À Palestina, com um território privado de continuidade, com acesso aos recursos aquíferos vitais para uma comunidade maioritariamente camponesa controlado por Israel, com circulação nas estradas condicionada, com acessos ao exterior limitados, é negada a possibilidade de constituir um Estado. Entretanto Israel, a seu bel-prazer e com proteção armada face a uma autoridade palestiniana desarmada, vai construindo colonatos nas terras da Palestina potencialmente mais produtivas.

Toda esta política de Israel tem sido objeto de reiterada condenação pela Organização das Nações Unidas (ONU). Israel é o Estado membro com maior número de resoluções da ONU por cumprir. Beneficiando de um estatuto de exceção e impunidade, não respeita nenhum acordo, mesmo aqueles que assinou. O Acordo de Oslo, concluído em 1993 que, apesar de leoninamente favorável a Israel, consagrava a solução dos dois Estados, selou-se pelo assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin por um israelita a mando nunca se apurou de quem. É hoje letra morta para os atuais dirigentes sionistas. Com a complacência dos dirigentes políticos ocidentais que patrocinaram aquele acordo.

Quando, depois da vitória na IIGM, os EUA se substituíram ao RU como potência marítima global, assumiram por inteiro o patronato de Israel como a fortaleza garante do seu domínio imperial no Médio Oriente. Pelo valor posicional geoestratégico no cruzamento dos eixos norte-sul e leste oeste, pelo controlo regional dos recursos energéticos, como agente perturbador numa zona civilizacionalmente muito instável, Israel é uma praça fundamental de Washington na sua ambição de preservar um estatuto que, na realidade, já não detém, o de líder de um sistema mundial unipolar.

Por isso chegou ao ponto de, violando todos os acordos, nomeadamente o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, dotar Israel de armas nucleares. Mas clandestinamente, porque não se assume como tal. Daqui a inqualificável hipocrisia com que vemos Israel, com o apoio do ocidente alargado, proclamar que o Irão nunca poderá dotar-se de armas nucleares. Israel é o último Estado com legitimidade para esta exigência. O certo é que, fazendo-o, está à beira de lançar o mundo numa terceira guerra mundial que, a acontecer, atingirá o paroxismo de um conflito com armas nucleares.

Ninguém quer ver o óbvio: a desnuclearização do Médio Oriente não passa pelo impedimento do Irão à arma nuclear, passa, isso sim, pelo desarmamento nuclear de Israel. Então, sim, será legítimo impedir que o Irão atinja esse patamar.

Como a hipocrisia não tem limites, Israel, o Estado mais agressivo e desestabilizador em todo o Médio Oriente, tem, no dizer das cabeças iluminadas que nos governam, o direito a defender-se. Direito que é negado aos palestinianos, há décadas sujeitos à permanente pressão agressiva de Israel, que atualmente se traduz no genocídio cruel, racional, a frio, de um povo, ao qual o mundo assiste passivamente.

Deixo aqui uma profecia para o futuro, a que já não assistirei: a paz na Palestina já não passa pelos dois Estados. Israel tornou essa solução uma miragem. A solução passará por um só Estado, a Palestina, laico, onde conviverão todos, cristãos, judeus, muçulmanos, ao qual regressarão os milhões de palestinianos que a perseguição sionista obrigou ao exílio.

Nós, europeus, todos, temos pesos nas consciências pelas perseguições a que, durante séculos, condenámos os judeus. Que atingiu as raias do inimaginável na Alemanha nazi e nos países por ela ocupados. Agora estamos a procurar sanar as nossas culpas e aliviar as nossas consciências, solidarizando-nos com os judeus à custa dos palestinianos. Só que não foram os palestinianos os agentes das perseguições seculares aos judeus. FOMOS NÓS.

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11 pensamentos sobre “Israel

  1. Entretanto um responsável iraniano que os assassinos sionistas anunciaram ter morto nos ataques de 13 de Junho apareceu ontem em Teerão vivo e a mexer bem as quatro barbatanas.
    Sendo que o Irão nunca desmentiu os anúncios de morte dos assassinos sionistas isto prova também que o monopólio da dissimulado não pertence mais a esta cambada.
    Alias, o golpe dos 100 drones de brincar lançados na mesma sexta feira enquanto os israelitas bombardeavam impunemente por terem sabotado a defesa anti aérea foi de mestre e devia ficar nos anais da arte da guerra.
    Foi uma operação que pôs todos os comentadeiros a beira de um orgasmo de molhar as calças com conversas sobre tigres de papel e uma rápida capitulação do Irão.
    Nessa mesma noite viu se que a coisa não seria assim tão fácil com muita coisa a cair sobre Tel Aviv e Haifa.
    Depois foi aquilo que se viu.
    Agora cabe ao Irão ficar de olho aberto porque os sionistas são uns gente vingativa como ninguém e nunca perdoarao uma sova como a quem levaram nestes 12 dias de guerra.

  2. Entretanto um chefe militar israelita afirmou que o foco agora e destruir o pouco que resta em Gaza e que campanha do Irão não terminou.
    Não aprenderam nada com a sova que apanharam e a crueldade continua firme.
    E se agora o Irão lhes jogasse mais umas batatas quentes em cima certamente ninguém iria dizer que o Irão tem direito a defender se e garantir a sua segurança ante um vizinho destes.
    Vão ver se o mar da megalodonte.

  3. Ainda ontem Mark “eutanásia” Rutte teve a pouca vergonha de dizer que o ataque a instalações nucleares do Irão nao violava o direito internacional.
    Na mesma linha se teem pronunciado os vassalos europeus.
    Esta gente não tem mesmo vergonha nenhuma.

  4. O General Pedro Pezarat Correia teve um papel indireto mas importante na Reforma Agrária após o 25 de Abril de 1974, especialmente enquanto Comandante da Região Militar do Sul (RMS) entre novembro de 1974 e julho de 1975 — período decisivo no avanço das ocupações e nacionalizações no Alentejo e Ribatejo.

    📌 Contexto geral da Reforma Agrária (1974–1976)

    A Reforma Agrária foi um dos processos mais radicais da revolução portuguesa, com ocupações de terras por trabalhadores agrícolas, criação de Unidades Coletivas de Produção (UCPs) e expropriações de latifúndios no sul do país (Alentejo e Ribatejo).

    Enquadrava-se na política do “controlo operário” e “socialização dos meios de produção” durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC).

    🎖 Papel de Pezarat Correia

    1. Comandante da Região Militar do Sul (RMS)

    Responsável militar máximo no sul do país, incluindo o Alentejo, epicentro da reforma agrária.

    O Exército — e particularmente a RMS — teve um papel ambíguo mas determinante:

    Garantia de ordem pública;

    Mediação de conflitos entre grandes proprietários e trabalhadores agrícolas;

    Em muitos casos, tolerância (ou até apoio logístico) às ocupações.

    ➡️ Pezarat Correia nunca reprimiu os movimentos de ocupação — pelo contrário, a RMS sob o seu comando foi frequentemente vista como favorável ao avanço da reforma agrária, embora sem intervenção militar direta.

    2. Simpatia pelas transformações sociais

    Embora militar, Pezarat Correia identificava-se com a ala progressista do MFA, próxima do Grupo dos Nove (como Melo Antunes).

    Defendia uma transição revolucionária com base democrática, mas reconhecia a legitimidade das transformações sociais no campo, desde que mantidas dentro da legalidade revolucionária.

    🗣 Declarações e memórias

    Pezarat Correia, mais tarde, descreveu o seu papel como de “contenção pacífica”, reconhecendo que:

    > “A Região Militar do Sul não podia estar contra o povo — e o povo no Alentejo queria as terras para trabalhar em conjunto.”

    Também criticou os recuos subsequentes nos anos 80, quando muitas UCPs foram desmanteladas, terras devolvidas a antigos proprietários ou vendidas a privados, considerando que isso foi:

    > “Um retrocesso histórico e uma traição aos que ousaram fazer diferente.”

    ✅ Em resumo

    Não foi o arquiteto político da Reforma Agrária, mas foi figura militar-chave num dos momentos mais sensíveis da sua implementação.

    Não ordenou nem reprimiu ocupações, permitindo o seu desenrolar dentro de uma lógica de transformação social.

    Foi, portanto, um facilitador silencioso e respeitado desse processo no plano militar.

  5. Brilhante, subscrevendo-se em particular:
    «Deixo aqui uma profecia para o futuro, a que já não assistirei: a paz na Palestina já não passa pelos dois Estados. Israel tornou essa solução uma miragem. A solução passará por um só Estado, a Palestina, laico, onde conviverão todos, cristãos, judeus, muçulmanos, ao qual regressarão os milhões de palestinianos que a perseguição sionista obrigou ao exílio.»
    Um estado como o da África do Sul, onde hoje convivem negros e brancos!

    • Touché. Eu realço a seguinte passagem deste artigo clarividente e sucinto:

      “Como a hipocrisia não tem limites, Israel, o Estado mais agressivo e desestabilizador em todo o Médio Oriente, tem, no dizer das cabeças iluminadas que nos governam, o direito a defender-se. Direito que é negado aos palestinianos, há décadas sujeitos à permanente pressão agressiva de Israel, que atualmente se traduz no genocídio cruel, racional, a frio, de um povo, ao qual o mundo assiste passivamente.”

    • Há muitos anos que digo o mesmo. Tal como Pezarat Correia, também cá não estarei para ver, mas sei que é fatal como o destino. A alternativa também é fatal, mas essa no sentido literal. Cogumelos laranja democraticamente servidos por todo o planeta, sem distinção de cor, “raça” ou peso da carteira! Oremos! Não serve de nada, mas sempre consolará alguns.

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