A Europa, de novo: a cultura da paz e a cultura da guerra

(José Sócrates, in Diário de Notícias, 14/04/2025)

E é isto a Europa…

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O que vejo de pior no recente discurso sobre o rearmamento da Europa é a forma como ele é apresentado — simples questão de bom senso, dizem. Não é uma escolha, não é uma opção política, é apenas bom senso. E sendo uma questão de bom senso, não é necessário debate, nem boas razões — a coisa é autoexplicativa: a invasão russa da Ucrânia e o abandono americano da guerra não deixam alternativa. Assim se constrói o pensamento único — chamando-lhe bom senso.

A pressão do jornalismo pela política de rearmamento é tão forte que qualquer personagem que a ponha em causa é imediatamente banida para o espaço marginal que as democracias reservam aos doidos e aos hereges — não devem ser levados a sério. Eis, portanto, a nova cultura política europeia: o discurso da paz é radical, o da violência é normal. A paz é a retórica dos fracos.

O discurso nas televisões europeias aparece dominado por aquilo a que alguém chamou de fenômeno da “estupidez estruturalmente induzida”. Bem observado: se a proposta de produzir mais armas tem como principal razão de ser a ameaça russa, ela é realmente muito estúpida. Salvo melhor opinião, que não estou a ver qual seja no domínio dos fatos, a invasão da Ucrânia não aumentou a ameaça russa, mas revelou, isso sim, a sua fraqueza. Se o exército russo não conseguiu em três anos derrotar a Ucrânia, não estou a ver como poderia invadir com sucesso a Europa ocidental.

Depois, o argumento do abandono americano. É certo que a atual administração fragilizou a aliança transatlântica e afetou a confiança em que se baseia o artigo 5º da OTAN (um ataque a um é um ataque a todos). Estou de acordo. No entanto, a guerra da Ucrânia veio derrubar um mito de décadas — o de que a Europa precisa dos Estados Unidos para se defender. Há muito que isso deixou de ser verdade.

A Europa tem mais homens, mais tanques e mais jatos de combate que a Rússia. A Europa gasta mais em defesa do que a Rússia (os membros europeus da OTAN gastaram 476 bilhões de dólares em 2024 enquanto a Rússia gastou cerca de 140 bilhões). Estes dois indicadores parecem-me suficientes para contrariar o argumento base da corrida aos armamentos.

Temos ainda o argumento do regime: a ideia implícita de que o regime russo se funda numa necessidade incontrolável de expansão. O perigo russo, dizem os novos belicistas europeus, o verdadeiro perigo russo, é a sua memória histórica imperial. É essa condição que torna a vizinhança com a Rússia perigosa e que obriga os seus vizinhos a prepararem-se para a guerra. Este discurso tem raízes antigas — o perigo eslavo como razão militar. No entanto, nunca houve imperialismo sem força militar e a Rússia não a tem. E se não a tem não constitui uma ameaça.

Por outro lado, se queremos falar de pulsões primárias coletivas, convirá lembrar que os séculos 19 e 20 foram os séculos dos impérios europeus. E, assim sendo, se a história molda a atitude dos países, não se percebe por que razão a Rússia é mais perigosa que a Europa ocidental. O argumento não faz sentido, ou melhor, só faz sentido para quem julga a Rússia como inimigo eterno e os russos como pessoas não dotadas de razão.

Finalmente: o que significa realmente o rearmamento europeu? O que é que se pretende? Por mim, só vejo uma mudança critica — a do rearmamento alemão. Essa será a mudança essencial, tudo o resto será insignificante face ao que agora existe. É isso que a Europa deseja? Fazer regressar os jogos da balança de poder ao interior da Europa? Fazer regressar as desconfianças e os medos? Quantos anos passarão até que a França comece a temer o poder militar do seu vizinho alemão? Quando tempo demorará até que a Inglaterra comece de novo a fazer contas sobre como evitar o domínio do continente por uma única potência militar?

Há uns anos ouvia os dirigentes políticos sul-americanos elogiar a combinação de políticas de economia de mercado e de proteção social do estado a que demos um nome que nos orgulhava — o modelo social europeu. Ouvia-os falar com admiração do projeto de partilha de soberania que inspirou o Mercosul. Nessa altura o projeto europeu irradiava para o mundo como um projeto de paz, um projeto de defesa dos direitos humanos e de respeito pelo direito internacional.

Agora, a Europa está reduzida a isto — a falar de guerra, de armas e de inimigos existenciais. Como se a paz fosse impossível e a guerra eterna. O que está a acontecer na Europa não é apenas uma mudança de prioridades políticas, mas uma séria e profunda mudança de cultura política — a cultura da paz pela cultura da guerra.

11 pensamentos sobre “A Europa, de novo: a cultura da paz e a cultura da guerra

  1. Para os russofobos a ideia de uma Rússia fraca e música para os ouvidos. Para quem sonha com a pilhagem dos seus recursos também.
    Para quem sonha com a destruição da Rússia, para os bêbados que no café que fica próximo de minha casa que ladravam “os russos deviam ser banidos da terra” a ideia da fraqueza russa só pode dar lhes alento para que se sacrifiquem agora para que tenhamos as armas que nos permitirão ganhar mais tarde. E destrui los.
    Tudo bem que defender a ideia de uma Rússia forte leva ao mesmo resultado. O medo leva os bovinos a ter medo de que se não nos armarmos para fazer a guerra eles vão mesmo entrar por aqui a dentro.
    O que e preciso que se diga e que os russos são iguais a nós, fracos ou fortes. Não teem uma crueldade especial nem são inferiores nem precisam disso para nada. Mas parece que todos teem medo de dizer o óbvio.
    Por isso se deixarmos de apoiar os herdeiros espirituais dos que já mataram 27 milhões de pessoas há 80 anos teremos alguma hipótese de ter paz.
    Se seguirmos o caminho da honestidade, da solidariedade e da paz poderemos ter algum futuro. Mas parece que e blasfémia dizer isso.
    E, definitivamente, nao e esse o caminho que os nossos governantes querem seguir.
    Gostemos ou não defender a ideia da grande fraqueza da Rússia só dá alento a quem aposta na sua destruição definitiva. E são muitos, anestesiados pela propaganda.
    Tivemos articulistas a defender por duas vezes a especial crueldade russa. Foi o caso de Miguel Sousa Tavares que me mereceu uma reação que alguém poderia classificar como “agressão”.
    O que tem de ser desmontado e o discurso racista, russofobico, a ideia de que essa gente e diferente, pior e e mesmo preciso que lhes façamos a guerra.
    Por muito que nos chamem mariquinhas e preciso dizer isso.
    E e nisso que mesmo muitos dos que se opoem ao rearmamento a troco das nossas vidas falham.
    E mesmo preciso desmontar o racismo, ver os outros como iguais, o discurso sobre a força ou fraqueza da Rússia só dá alento aos que querem sacrificar nos numa guerra.
    Mas compreendo que haja quem ainda acredite que e o medo a Rússia que move esta gente e não o mesmo racismo que os fez achar normal as guerras de pilhagem pura contra o Iraque, a Líbia e a Síria.
    E não vou em cantigas, e de racismo e pilhagem que se trata, desde as invasões de suecos, polacos, Napoleão e Hitler, desde que se fez tudo para levar aquela gente a eleger um bêbado como Ieltsin que assistiu impávido e sereno a pilhagem do seu país.
    Por isso as vezes saem umas reações azedas.
    Mas a grande patranha e o grande sarilho em que estamos metidos também vai acabando com a santa pachorra que me resta.
    Ver gente como a Van der Pfizer que me fez ver a morte com enxada e tudo agora armada em guerreira contra os bárbaros prometendo voltar a virar me a vida do avesso desta vez para comprar armas da me cabo da pachorra.
    A propósito, lembram se da Maria Luís Albuquerque que disse que as reformas dos portugueses, que na esmagadora maioria dos casos já eram uma miséria, tinham de baixar?
    Pois do seu alto tacho europeu ja veio defender que as pensões dos europeus devem pagar o rearmamento. E ninguém lhe deu uma trapada de m*rda no focinho.
    Que grande patranha e que grande sarilho em que estamos metidos.
    Sempre contra o racismo vil!

  2. Muito boa a leitura que o “Estátua de Sal” fez do artigo de Sócrates. Há de certeza muita gente incomodada com esta opinião do ex-PM, nomeadamente da área do PS, e será a esses que o artigo especialmente se destinará! É importante que o movimento de oposição à guerra e ao rearmamento da Europa se alargue, e este contributo de Sócrates é relevante. Neste sentido, não compreendo a posição de Zé Oliveira Vidal, mais parecendo ser motivada por sectarismo escusado e pernicioso.

  3. E impossível que um burro velho como Sócrates não saiba que a Rússia não está a combater só a Ucrânia mas todo o Ocidente.
    O Ocidente e não so.
    Antes da falhada contra ofensiva do Verão de 2023 eram muitos os sites de recrutamento de desesperados em África e Médio Oriente a quem acenavam com salários a rondar os três mil euros mensais, uma quantia imensa para quem vive na miséria, e cidadania nos Estados Unidos ou Reino Unido.
    Sabemos hoje que a maior parte dos que responderam a chamada encontraram a cidadania foi na terra dos pés juntos.
    Entretanto a Ucrânia antes via norte coreanos e agora vê chineses. Mais uns tentativa canhestra de levar europeus a achar normal mandar tropas oficiais para esta guerra, que mercenários que serviram ou servem em exércitos europeus e norte americanos já lá estão há muito.
    So portugueses já pelo menos três encontraram a morte nos campos da Ucrania.
    Por isso não e só a Ucrânia que a Rússia tem de derrotar mas todo o Ocidente.
    Chamar fraco a quem se bate contas todo o Ocidente há três anos pode efectivamente ser uma boa maneira de conseguir ter um texto publicado porque não acredito que um burro velho que de parvo não tem nada gostemos ou não dele e acreditemos ou não na sua inocência acredite mesmo nisso.
    Na sua ação política teve pelo menos o mérito de lutar até ao fim para que nao fossemos cilindrados pela troika. Foi bem conhecido o desabafo de um desses técnicos, “o homem e intratável”. Já o Passos Coelho ate fazia venias.
    Uma coisa e certa. Estamos metidos numa grande patranha e num grande sarilho porque esta gente não quer armas para que fiquem a ganhar po e a enferrujar.
    Esta cambada quer mesmo guerra e não vejo que volta podemos dar a isto.

  4. Há aqui um truque da imprensa. Os mais impreparados/distraídos não deram por esse truque, mas eu vou explicar tudinho.

    Para começar, é preciso saber como se defender da propaganda: fazer perguntas, muitas mesmo. E questionar tudo!

    Por exemplo, porque é que Sócrates tem artigo publicado no DN?

    Porque repete, várias vezes, várias mentiras da propaganda ocidental.

    1) “a Rússia é fraca” – não é uma citação, mas é o sentido do que Sócrates escreveu várias vezes de várias formas.

    Realidade:

    – a Rússia conquistou território equivalente algo que está para além de Portugal inteiro, e quase chega à soma de Países Baixos e Bélgica (se considerarmos a Crimeia);

    – a Rússia avança em TODAS as frentes, a uma velocidade coerente com uma estratégia de atrição (do inimigo) e do mínimo de baixas (para si);

    – a Rússia, sozinha, sem apoio financeiro nem militer de ninguém, fez isto tudo quando do outro lado está uma coligação financeira e militar do ocidente inteiro;

    – neste momento, quem quer que seja sério, sabe que a Rússia ganhou esta guerra proxy, e a única dúvida é saber em que momento exacto atingirá TODOS os seus objectivos, que continuam a ser exatamente os mesmos declarados no início da intervenção militar.

    – aliás, a Rússia faz isto sem se endividar, com défice público perto de zero, com crescimento de +4% ao ano, com pleno emprego, com moeda própria estável, com exportações para todo o Mundo, com um complexo militar industrial que suplanta o ocidente todo (e ainda lhe sobra para exportar para os seus aliados, como Índia e Argélia e companhia), e sem sequer precisar de mobilização!
    Não direi que é com uma perna às costas, mas é de se lhe tirar o chapéu!

    – pelo contrário, a Ucrânia está derrotada, depende totalmente dos seus donos em Washington e seus financiadores em Bruxelas e arredores, perdeu mais de 1 milhão de homens (bem mais de 300 mil são mortos, os restantes são feridos irrecuperáveis), perdeu 3 (TRÊS) exércitos em termos de material (o inicial, o da NATO made-in USSR, e o da NATO made-in-Ocidente), perde em tudo excepto nos pequenos drones (onde existe equilíbrio de ambos os lados), precisa de mobilizar +30 mil homens por mês só para fazer face às perdas, recua em todas as frentes, e é um país totalmente falido onde já começou a haver luta interna (ex: o ditador VS os que querem eleições).

    – é por isso que os EUA, planeadores e provocadores desta guerra proxy devido a, eles sim, uma estupidez imperial, estão agora a fazer de conta que “querem paz”.
    Isso permite duas coisas: primeiro, lavar a face de mais um falhanço; segundo, colocar a conta à frente do focinho dos vassalos Europeis, enquanto os EUA seguem com a estupidez imperial para se focarem na agressão ao Irão e China.

    Se Sócrates dissesse estes factos, nenhum órgão da MainStreamMedia ocidental (aka FakeNews) o publicaria.

    Mas como Sócrates se fartou de repetir, pelas suas palavras, que “a Rússia é fraca”, obviamente os avençados da USAID no DN adoraram este artigo…

    E mais, a força de um país não é o que define se é imperior/ameaçador ou não. O que define isso são os princípios.
    Os EUA e a UE (e os sionistas em israel), mesma nesta fase de total decadência, continuam a ser imperialistas/agressores.
    Já a Rússia e a China, as super-potências líderes do Mundo Multipolar, não têm qualquer pretensão imperial nem querem agredir ninguém.

    Há mais uma mentira chave neste artigo do Sócrates:

    ” É certo que a atual administração fragilizou a aliança transatlântica ”

    Não! A NATO tem agora mais dinheiro a ser gasto. Logo, está ainda mais forte/agressiva/ameaçadora.
    A falácia do “Trump abandonou-nos” é o pilar chave da propaganda armamentista na Europa, e é parte do plano dos próprios EUA.
    O que é que o imperador Trump diz desde 2016? Exige aos vassalos que gastem mais com a NATO.
    Ora, é exatamente isso que os vassalos estão a fazer.
    Não há qualquer separação, há apenas o que os EUA planearam: divisão de trabalho. Os EUA focam-se no Irão e depois na China, enquanto a Europa paga as despesas da agressão contra a Rússia.
    Esta m*rda está em documentos oficiais dos EUA, do Pentágono, da Casa Branca, do Congresso! Só não vê quem quem quer!

    Portanto fiquei só com uma dúvida: Sócrates é ingénuo, ou está a tentar fazer dos outros parvos?
    Tendo em conta que é publicado na MSN ocidental/portuguesa, então é obviamente a segunda opção.
    É uma tarefa em tudo semelhante à de Pedro Nuno Santos, Ana Gomes, ou Rui Tavares, Mariana Mortágua, e companhia: uma aparência de “esquerda” e de “anti” imperialismo e “anti” belicismo, mas apenas com o objetivo de fazer chegar pontos chave da propaganda do império belicista até às mentes do seu público/eleitorado alvo.

    Cada vítima desta propaganda, ao ter na sua tola a ideia implantada e repetida ad nauseam de que “a Rússia é fraca” e “não consegue ganhar a guerra na Ucrânia” e “os EUA do Trump abandonaram a Europa”, vai ficar muito mais manso para depois consentir a corrida ao armamento para a continuação desta guerra proxy até ao último ucraniano, e se tornar incompatível com aqueles (PCP em Portugal, BSW na Alemanha, só para dar 2 exemplos) que são realmente de Esquerda e anti-imperialistas e anti-belicistas.

    Foi este o truque. E a Estátua de Sal caiu que nem um patinho…

    • Meu caro, publico o Sócrates há muitos anos, desde que o prenderam, numa ação de lawfare à chegada ao aeroporto. Logo, aqui não há “patinhos” nem lindos nem feios. Acho que você ficou a meio caminho na análise. Dizer que a Rússia é “fraca” – não o sendo, como você provou e o Sócrates sabe disso -, só pode ser estratégia do autor para concluir o mais importante do texto: QUE O REARMAMENTO DA EUROPA NÃO TEM MOTIVO PLAUSÍVEL E QUE INVOCAR A AMEAÇA RUSSA É UMA HISTÓRIA DA CAROCHINHA PARA LEVAR OS CIDADÃOS EUROPEUS A ACEITAR OS SACRIFICIOS QUE TAL VAI ENVOLVER. Olhe, dizer que a Rússia é “forte” é o que convém que seja dito e que diz a Von der Leyin para justificar esmifrar-nos os tais 800 mil milhões de euros!
      Se calhar, se Sócrates dissesse só que o rearmamento da Europa não tem sentido nem justificação, talvez não lhe publicassem o artigo, ou publicavam na mesma porque Sócrates tem amigos e sobretudo porque Sócrates, ainda hoje, vende e faz vender jornais. Assim, o homem teve que “embrulhar” a conclusão mais importante do texto na apregoada “fraqueza da Rússia”. Perante tal, o DN “engoliu” a coisa e publicou, “caindo que nem um patinho”. E a seguir veio você, também a engolir a coisa, e a cair também no embuste do Sócrates – pato por pato passámos a ter dois… 🙂
      Moral da história: não minimize o Sócrates nem a Estátua. O Sócrates é burro velho, já cá anda há muito tempo – até chegou a Primeiro-ministro -, e a Estátua anda cá, há mais tempo ainda.
      Mande sempre.

  5. Grande Estátua, sempre atenta. Não sabia que o artigo do Sócrates também estava no DN, descobri o link que ontem aqui deixei na caixa de comentários de outro blogue e pensei que só fora publicado no Brasil.

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