(Ricardo Paes Mamede, in Facebook, 07/03/2021)

(Não sei porque carga de água o Facebook colocou-me ontem no feed este artigo do Ricardo Paes Mamede de 2021. Msitérios da Inteligência Artificial. Mas não é que o texto está mais que atual, talvez até, hoje, ainda mais pertinente e atual que em 2021?!
Por isso resolvi publicá-lo, com a quase certeza de que muitos dos leitores da Estátua se identificam com este testemunho.
Estátua de Sal, 26/02/2025)
Não falha. Sempre que elogio em público o PCP ou anuncio o meu voto naquele partido, há sempre quem diga que sou um comunista disfarçado.
Para quem o diz, o facto de insistir em afirmar-me como social-democrata tem duas explicações possíveis: ou quero passar a mensagem dos comunistas de forma encapotada, para a tornar mais aceitável (ou seja, sou um dissimulado); ou tenho receio de me afirmar comunista, porque seria menos aceite nos meios sociais em que circulo e penalizado por isso (ou seja, sou um oportunista).
Qualquer uma das explicações, a ser verdade, daria de mim a imagem de alguém que nunca acerta no alvo. É que, como dissimulado, sou muito pouco discreto nas posições que assumo. Como oportunista, não ganho muito: os que são menos de esquerda desconfiam das minhas posições; os que se têm como revolucionários desconfiam sempre das minhas intenções.
Uma outra explicação possível é que sou mesmo social-democrata (numa acepção em desuso, é certo) e que faço questão de o afirmar. Sou crítico do capitalismo, pelos seus efeitos nas desigualdades sociais, na instabilidade económica e na desumanização dos indivíduos. Desconfio do efeito das relações de mercado em muitos domínios das interações humanas. Olho para as relações de trabalho e para as relações entre países como sendo fortemente assimétricas, e vejo essas assimetrias como um problema para a Humanidade.
Acredito na boa vontade de muitos, mas também que isso não chega para combater a exploração e o imperialismo – as injustiças e as desigualdades não poderão ser contidas sem a organização, a mobilização e a luta coletiva dos trabalhadores e dos povos.
Em Portugal, estas ideias, e algum deste vocabulário, são associadas aos partidos revolucionários de esquerda. No entanto, em muitos outros países, até aos anos 70, muitos dirigentes de partidos sociais-democratas (por vezes intitulados trabalhistas ou socialistas) não hesitariam em subscrever tudo aquilo. Hoje já é raro, mas não impossível.
O facto de não ser comunista tem pouco a ver com os crimes do estalinismo, com a falta de liberdade nos países do chamado socialismo real ou com as posições do PCP sobre a Coreia do Norte. Conheço comunistas de sobra – dentro e fora do PCP – que também não se reveem em nada disto (na verdade, as posições do PCP sobre estas matérias não correspondem às caricaturas que delas se fazem – ainda que muitas vezes se prestem a isso).
Há outras coisas que me afastam do comunismo. Não vislumbro relações humanas onde a exploração e a opressão estejam ausentes. Se me dedicasse a imaginar um mundo ideal (não é o caso), não vejo razões para a inexistência de propriedade privada dos meios de produção, nem do trabalho assalariado, como princípio. Acredito que é possível construir um mundo mais decente – ainda que longe de qualquer ideal – mesmo não tendo em perspetiva uma transformação revolucionária. Salvo alguns casos peculiares, os comunistas que conheço veriam isto como uma desqualificação para qualquer pessoa que se afirmasse como comunista. E com razão.
A questão é que o social-democrata que sou não encontra no PS (o partido oficial da social-democracia em Portugal), muito menos no PSD (que usurpou o nome da ideologia em causa) um espaço político com que se identifique. Na prática, como tenho dito várias vezes, um social-democrata à moda antiga em Portugal encontra-se mais vezes em sintonia com o PCP e com o BE, do que com o PS ou o PSD.
Sei que este texto não vai evitar que me chamem dissimulado ou oportunista (ou ambos). Não é coisa que me tire o sono. Mas pode ser que não tenha de repetir o discurso tantas vezes.
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O que se pretenda ler ou interpretar como “benévolo por parte do Facebook” o ressurgimento deste post de R P Mamede de 2021, talvez tenha mais a ver com o “golpe final” aos partidos marionetas do capital (o PS e PSD) que, depois de terem feito o trabalho de retirarem expressão em votos à verdadeira política de esquerda para o país e tudo terem feito para desacreditar os comunistas, nesta fase de decadência do império já são menos úteis que a extrema direita em crescimento exponencial.
Bem visto… 🙂
Este senhor, cujas análises, em matérias de economia, várias vezes apreciei, muito em função do deserto de ideias em que vivemos e do reacionarismo gritante de outros opinadores televisivos, não é, com certeza, dissimulado nem oportunista; mas em minha opinião – e ela vala o que vale – é equívoco.
E é equivoco porque, conversa para lá, conversa para cá, afinal não explica o que é? Dizer-se social democrata à moda antiga o que significa? Ao adjetivar de ‘antiga’ a sua social democracia, pretenderá conferir-lhe respeitabilidade? É que sobre a moderna ‘estamos conversados’.
E já agora, francamente, de um economista de formação esperava uma atitude mais objetiva e alguma precisão; assim, por exemplo, eu também ‘não vejo razões para a inexistência de propriedade privada dos meios de produção”, mas vejo razoes para rejeitar um sistema em que os ‘meios sociais de produção’ sejam predominantemente privados, isto é, explicando melhor, vejo razoes para rejeitar o capitalismo enquanto sistema hegemónico, penso que tem de ser superado e que mais tarde ou mais cedo (melhor mais cedo) vai ser superado.
A titulo de adenda, lembro que uma coisas é ‘propriedade privada dos meios de produção’ e outra ’propriedade privada dos meios sociais de produção’. Ás vezes o problema está mesmo nos detalhes.
Boa tese contra capitalismo selvagem do PS para a direita.
Continuação de bom trabalho.
Antonio Rodrigues
Assino.