O curto prazo na Síria

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 10/01/2025)

A posição ideológica dos novos dirigentes começa a tornar-se evidente. A secularidade síria corre o sério risco de ser coisa do passado, como sugerem os primeiros sinais vindos do Ministério da Educação.


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Com a queda de Damasco, a 8 de dezembro de 2024, e a instauração de um novo regime chefiado por Ahmad al-Sharaa (Jolani), o novo senhor todo-poderoso da Síria, líder da organização terrorista denominada Hayat Tahrir al-Sham (HTS), iniciou-se uma nova era no país e no Médio Oriente. O novo regime, chefiado por um jihadista com a cabeça a prémio por Washington, foi recebido de braços abertos no Ocidente. Damasco tem sido palco de um inusitado rodopio de visitas de delegações estrangeiras.

Apesar destas credenciais, o mesmo Jolani, que liderou em Idlib um mini califado, passou a ser apresentado como defensor de um projeto político democrático, inclusivo e respeitador das minorias. Para o credibilizar e tornar tolerável, os seus patrocinadores, entenda-se Ancara, apararam-lhe a barba e substituíram-lhe o turbante pelo fato e gravata. Entretanto, Jolani já disse que eleições só dentro de quatro anos e uma nova Constituição daqui a três. Até quando conseguirá Jolani manter a aparente moderação, tão necessária à sua legitimação internacional?

Se em Damasco, onde se concentram as cadeias de televisão, tem havido contenção por parte do HTS, o mesmo não se pode dizer na periferia da capital e nas zonas costeiras de Latakia e Tartus, onde os assassinatos e a perseguição de alauitas e xiitas são diárias, e em cidades como Homs, onde as vítimas são cristãos.

Em resposta a estas situações, a tensão social tem vindo a aumentar. Grupos de militares fiéis ao antigo presidente Bashar al-Assad confrontaram em Latakia milícias afetas ao HTS. Por outro lado, não é claro até quando o presidente Recep Erdogan e Jolani vão conseguir segurar os grupos jihadistas próximos do ISIS e da Al-Qaeda, que fazem parte do HTS, constituídos por estrangeiros oriundos do Cáucaso, Ásia Central e Médio Oriente que, descontentes com a “complacência” do atual regime com os infiéis e Israel, pedem sangue. Sem falar no que está a acontecer no norte do país, entre a Turquia e as milícias sírias curdas apoiadas pelos EUA, e a possibilidade de um confronto militar entre a Turquia e Israel.

O verniz da moderação já começou a estalar. A posição ideológica dos novos dirigentes começa a tornar-se evidente. A secularidade síria corre o sério risco de ser coisa do passado. Os primeiros sinais vieram do Ministério da Educação, rápido a introduzir alterações nos programas escolares e a impor uma linguagem politicamente correta, que reflete a visão de um mundo que renega a ciência em favor da teologia. O Darwinismo foi enterrado. A disciplina “A Origem da Vida e o seu Desenvolvimento na Terra” foi retirada do programa.

Também a disciplina de história foi vítima dos novos imperativos ideológicos. Foi eliminada a referência ao papel das mulheres na história do país. “Zenobia e as rainhas sírias” estão em vias de desaparecerem dos manuais escolares. Com os indícios de um futuro sombrio a avolumarem-se, tudo sugere que a já péssima situação do povo sírio não melhore, mesmo com o alívio das restrições da ajuda humanitária dos EUA à Síria.

2 pensamentos sobre “O curto prazo na Síria

  1. Os novis senhores da Síria são piores que os antigos.
    Quando e que nos dizem uma coisa que a gente não saiba?
    Desde quando e que regimes patrocinados pela corja de ladrões ocidentais melhorou a vida a alguém?
    A escravatura existia em África. Fomos lá acabar com ela? Não, fomos indústrializar a actividade e acabamos a transportar para fora do seu continente 20 milhões de seres humanos ao longo de séculos, recorrendo aos piores dentre eles.
    E ainda diziamos que lhes estávamos a salvar as almas pois que os desgraçados eram baptizados antes de entrarem nos barcos.
    Na América Latina,assim que um Governo tentava dar ao povo uma vida decente e vender os seus recursos a um preço justo logo se congregava a elite local e os militares corruptos para por tudo de volta ao seu lugar.
    Tratamos sempre de apoiar os piores de entre os povos porque assim também alimentamos os nossos delírios de superioridade moral.
    Quando no Ocidente há uma catástrofe há roubos, violações e o raio que o parta e só o exército não rua impede que seja pior ainda.
    E ver o que acontece nos Estados Unidos sempre que há um furacão e ver a dignidade e o espírito de entreajuda com que os desgraçados que levaram com o tsunami no Sudoeste Asiático em 2004 agiram.
    O que seria se aquilo se tivesse passado na Califórnia?
    Por isso acho engraçado o espanto e a perplexidade quando percebem que, mais uma vez, o Ocidente apoiou assassinos que tornam a vida do povo ainda pior.
    Valha lhes um burro aos coices.

  2. o Ahmad al-Sharaa só vai estar de bem com os EUA enquanto interessar aos EUA, quando deixar de lhes interessar vai lhe acontecer o mesmo que aconteceu ao Sadan, o Sadan, talibans os EUA eram muito amigos assim comoo os talibans e vimos no que deu, o Ocidente canta conforme os EUA o mandarem cantar, não passam de paus mandados, basta ver o que se tem passado desde o fim da II Guerra Mundial, penso que com os actuais dirigentes da UE isto vai acabar mesmo muito mal para a Europa.

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