Para dar “visibilidade” à lei e à ordem, como diz o primeiro-ministro?

(Pacheco Pereira, in Público, 21/12/2024)

Operação da PSP no Martim Moniz, em Lisboa, na tarde desta quinta-feira

Para um partido como o PSD, cujo fundador unia duas influências dominantes, a da doutrina social da Igreja e a da social-democracia europeia, é uma mancha de vergonha.


“Visibilidade?” Certamente. De que há em Portugal pessoas que vivem e trabalham e que não têm a cor certa, não têm a religião certa, não vestem como nós, não têm os nossos costumes e que não falam ou falam mal português. E que, ao não ser isto tudo, dá “visibilidade” a que essa gente estranha é criminosa. Uma rua inteira cheia de “monhés”, “banglas” e nepaleses e resultou “na detenção de duas pessoas e na apreensão de quase 4000 euros em dinheiro, bastões, documentos, uma arma branca, um telemóvel e uma centena de artigos contrafeitos” (o que em qualquer feira do país é fácil de apanhar). Os 4000 euros não se sabe muito bem de quê. Para uma rua inteira, é pouco e eu conheço muitas ruas em Lisboa em que seria possível apanhar o mesmo, ou muito mais, dependendo do sítio, e se acrescentássemos Cascais, então estaríamos a falar de centenas de milhares de euros. E se a operação se estendesse a algumas sedes partidárias, então haveria mais bastões.

Pode-se e deve-se falar de insegurança, real e de percepção, pode-se e deve-se falar de emigração, legal e ilegal, sem vir logo com o anátema do Chega. Aliás, um dos erros crassos da esquerda é não defrontar esses problemas, eliminando-os logo como sendo de mera percepção, o que em si mesmo deveria merecer atenção e cuidado. As estatísticas são apenas um lado da questão e pouco valem em muitos bairros da cidade. A esquerda esquece que muitos dos que sofrem mais com a insegurança gerada, por exemplo, pelo tráfico de droga, pela existência de gangues, de formas endémicas de violência associadas ao controlo de territórios, e pela participação criminosa de emigrantes, brasileiros, de gente do Leste, de chineses, de africanos já nascidos em Portugal, são os mais pobres, os mais excluídos, os que vivem em bairros onde tudo é perigoso, para si mesmos e para a sua família, os seus filhos em particular.

E a esquerda também esquece que, se há um problema de percepção da criminalidade, acima da criminalidade real, isso se deve a que as cidades estão cada vez mais agressivas, os transportes cada vez mais demorados, as ruas com o caos do trânsito mais cansativas e perigosas, e no convívio entre pessoas há cada vez menos educação e um trato mais hostil. E deve-se a que há menos dinheiro, mais facilidade na distracção pelo vazio, menos saber e conhecimento, e que todos dispõem hoje de instrumentos que destroem a sociabilidade, e são usados para o controlo de proximidade, como os telemóveis.

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A operação do Martim Moniz foi feita para este mundo de insatisfação, ressentimento, culpabilidade dos outros, de medo. É por isso que, no caso das pessoas encostadas à parede na Rua do Benformoso, neste caso, o Governo do PSD e CDS comportou-se como o Chega, em ideologia, em política, em racismo e actuou como o Chega. Ora Chega já basta um.

Eu respeito as diferenças, ideológicas e políticas de religião e de cor. Combato, nas diferenças de costumes, a menorização da mulher no mundo muçulmano, a excisão feminina e a retirada das meninas das escolas logo que chegam à puberdade para se casarem, no caso dos ciganos. Isso deve ser combatido sem complacência, como a violência doméstica entre caucasianos brancos.

Mas se se quer falar de crimes, quando é que são encostados à parede os que vivem do emprego ilegal, pagando salários de miséria, sem quaisquer direitos laborais, os que obrigam a trabalhar em condições extremas em temperaturas altíssimas nas estufas, os que exploram esse proletariado da bicicleta que atravessa as nossas cidades com mochilas de alimentos a qualquer hora do dia ou da noite?

Desses emigrantes há muito quem goste porque vive de os explorar. E sentam-se nas mesas das altas negociações com o Governo em nome da “modernização da agricultura” ou do turismo, e são recebidos com todos os salamaleques, que por acaso é uma palavra de origem árabe. Ou os que nunca mais permitem a construção de uma mesquita no Martim Moniz para atirar os muçulmanos para mesquitas ilegais em apartamentos onde grassa o fundamentalismo, ou que os obrigam a orar na rua, para ainda acentuar mais o medo da ignorância.

Para um partido como o PSD, cujo fundador unia duas influências dominantes, a da doutrina social da Igreja e a da social-democracia europeia, é uma mancha de vergonha. E podem ter a certeza, agora que se divertem com a simplificação de achar que a divisão esquerda-direita é a que separa críticos da operação e seus apoiantes, que então a Santa Igreja Católica Apostólica Romana estaria aqui bem do lado da esquerda, se se dessem ao trabalho de ler o Catecismo da Igreja Católica ou, no PSD, de lerem o seu Programa original, a sua concepção humanista da pessoa humana, a quem esta fila de “banglas”, “monhés” e nepaleses encostados às paredes provocaria repugnância e denúncia.

E deveriam perguntar-se: se fosse eu a caminhar pela rua, teria sido encostado à parede e revistado?

O autor é colunista do PÚBLICO

4 pensamentos sobre “Para dar “visibilidade” à lei e à ordem, como diz o primeiro-ministro?

  1. Já agora, a pessoa da minha família apanhada por um culto fundamentalista cristão nunca seguiu as directivas do culto no sentido de espancar a prole a mínima asneira.
    A ser assim, no meu caso concreto, nunca me teriam faltado barbatanas de baleia no focinho.
    Mas muitas vezes mulheres decentes, com maridos que as tratam abaixo de cão, são presas desses cultos porque estes explicam a sua situação de dependência de grunhos e lhes dão pelo menos a certeza de ser amadas por Deus.
    Mas não é preciso ir a mourama para encontrar menorização das mulheres por via religiosa.

  2. E já agora deixem se de tretas diversas sobre os coitadinhos que porque não teem transportes a tempo e horas, ganham mal e vêem se a rasca para pagar as rendas de casa teem razão para serem fascistas e grunhos.
    Por mim não dou a chegano nenhum nenhuma atenuante.
    A esse preço tinha me eu tornado nazi até há pelo menos 10 anos atrás.
    Cheguei a ganhar 900 euros em dois empregos que me faziam trabalhar 12 a 14 horas por dia e o dinheiro só chegava para uma refeição decente por dia.
    Mas nunca me passou pela cabeça tornar me fascista pois que nem negros nem ciganos nem mouros tinham nada a ver com isso.
    Por isso quem se torna fascista e grunho sim senhor e devia ir ver se o mar da tubarão branco cheio de larica.

  3. Hipocrisia tem hora mas com certa gente não tem hora nenhuma.
    Se e para combater a menorização da mulher no mundo muçulmano convinha não termos destruído todos os estados que, com os defeitos que tivessem, permitiam que as mulheres fossem tratadas como gente, a saber Iraque, Libia e Síria.
    Depois deixem se de tretas e comecem a olhar para dentro de casa e para as milhentas seitas e cultos evangélicos que por aí andam.
    Onde as mulheres não podem usar calças porque e coisa de homem mesmo que esteja um frio de rachar pedras.
    Onde e dito que devem estar submissas aos seus maridos pois que esta na Bíblia que o marido e o cabeça da mulher.
    Onde e dito que não podem ensinar na congregação pelo que a vida sacerdotal lhes e vedada.
    Onde se defende o uso liberal do castigo físico das crianças porque está na Bíblia que “quem poupa a sua vara estraga o seu filho”.
    E não venham dizer que isto não e assim porque a minha infância foi passada num culto desses. Sei bem do que escrevo.
    A única diferença entre as sociedades ocidentais e as islâmicas e que as ocidentais se laicizaram.
    Por isso as mulheres começam a ter uma medida de liberdade com que era impossível sonhar no início do Século passado em que nem tinham direito a votar.
    Há comunidades cristas nos Estados Unidos em que as mulheres nem teem o direito a cortar o cabelo.
    Em Portugal dezenas de mulheres morrem todos os anos as maos de maridos e companheiros, milhares são brutalidades e não encontram proteção por estas autoridades tão lestas a perseguir gente muçulmana.
    Se fossem tão lestos a perseguir estes grunhos como foram a encostar gente a parede no Martim Moniz talvez não acabassem mortas tantas mulheres.
    Que fique claro uma coisa. Todas as religiões, mesmo todas, discriminam a mulher.
    E se algumas alteraram o discurso e por pragmatismo e não por acharem mesmo que o que está escrito nos textos sagrados e uma barbaridade.
    O que dá as mulheres ocidentais melhor vida que nas sociedades muçulmanas e o laicismo mas as dezenas de desgraçadas mortas todos os anos só em Portugal poderiam ter nascido na Arábia Saudita que era igual.
    E enquanto tivermos juízes que fundamentam as sentenças na Biblia, o Neto da Moura não foi o único, estão as mulheres muito mal deitadas.
    Se e para meter o pau e para meter o pau em todo o lado. E, já agora, não andarem a pensar invadir a terra dos outros a pretexto de libertar as suas mulheres.
    Em resumo, não vamos matar o Mohammed porque achamos que a Latifa precisa de ajuda.
    Porque em regra a Latifa fica pior ainda se não tiver morrido num bombardeamento libertador.
    Vão ver se o mar da megalodonte.

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