Síria, após 13 anos de terrorismo de estado dos EUA, o que podemos esperar?

(Finian Cunningham in Observatoriocrisis, 10/12/2024, Trad. da Estátua)

A destruição da Síria é outro grande crime cometido pelo imperialismo ocidental liderado pelos Estados Unidos. É errado especular que houve qualquer tipo de “acordo” entre Assad e os seus aliados na Rússia e no Irão.


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Em menos de 13 dias, uma coligação de grupos jihadistas apoiados pelos EUA assumiu o controlo da Síria. A ofensiva, que começou em 27 de novembro, culminou com a renúncia precipitada do presidente sírio, Bashar al-Assad, e com a sua fuga para a Rússia. Foi confirmado que Assad e sua esposa estavam em Moscou em 9 de dezembro.

Assad afirmou que tomou a decisão de preservar a paz na Síria. A Rússia alegou que não estava envolvida na sua tomada de decisão.

A ostentação dos políticos americanos e europeus reflete anos de investimento das potências ocidentais na mudança de regime na Síria, um investimento que parece ter finalmente valido a pena.

É errado especular que houve algum tipo de traição ou “acordo” por parte de Assad e dos seus aliados da Rússia e do Irão para deixar o país render-se. Sim, o que é verdade é que o exército e as autoridades sírias capitularam num tempo vertiginoso, mas é ingénuo conjeturar sobre uma manobra mais tortuosa nos bastidores, como a Rússia ou o Irão deixando o seu aliado sírio à mercê dos insurgentes.

A Síria estava simplesmente quebrada e exausta por anos de agressão e desgaste por parte do Ocidente. Havia pouco que a Rússia ou o Irão pudessem fazer para a salvar enquanto país aliado.

O colapso final da Síria não ocorreu depois de uma blitzkrieg de 13 dias, mas depois de 13 anos de terrorismo ininterrupto por parte dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus da NATO.

A fase anterior do terrorismo por procuração patrocinado pelos EUA (2011 a 2020) foi interrompida pela intervenção da Rússia, do Irão e do Hezbollah, mas os agentes ocidentais não foram definitivamente derrotados. Em retrospetiva, isso pode ser visto como um erro estratégico fatal.

A continuação da guerra por procuração após 2020 baseou-se na imposição de sanções económicas e comerciais devastadoras à Síria, pelos Estados Unidos e pela União Europeia.

A guerra por outros meios também envolveu forças militares dos EUA e da Turquia que ocuparam ilegalmente o território sírio no norte, leste e sul, permitindo o roubo das exportações de petróleo e trigo da Síria. Durante a sua presidência anterior, Trump vangloriou-se abertamente de “roubar o petróleo da Síria”.

Assim, desde 2011, quando a administração Obama colocou a mira na Síria para a mudança de regime, até à queda de Damasco no fim de semana, o país suportou uma guerra de desgaste de 13 anos. Mesmo depois da relativa paz obtida graças à intervenção da Rússia e do Irão a partir de 2020.

Os sírios foram privados de alimentos, medicamentos e combustível e mais de metade da sua população foi deslocada das suas casas. A economia síria estava em ruínas. A sua moeda tinha perdido todo o valor, ajustando-se à inflação a cada hora. Quando os insurgentes apoiados pelo Ocidente lançaram a sua ofensiva em 27 de Novembro a partir do enclave norte de Idlib, não sobrou nada do Estado sírio que pudesse oferecer qualquer resistência. Aleppo, Hama, Homs e a capital caíram como dominós.

A principal facção insurgente é Hayat Tahrir al-Sham (HTS), liderada por Mohammed al-Jawlani. A HTS é uma organização terrorista banida internacionalmente que até os Estados Unidos designaram oficialmente como um grupo ilegal. O Departamento de Estado oferece uma recompensa de 10 milhões de dólares pela captura do seu líder.

Mas, no jogo de guerra por procuração dos EUA, o HTS e o seu líder são ativos de Washington. Desde 2011, os americanos e os seus parceiros da NATO usaram a Al Qaeda, o ISIS, a Frente Jabhat al Nusra (mais tarde HTS) com fornecimentos de armas e combatentes jihadistas da Líbia, Turquia e outros países para manter a agressão à Síria e infligir-lhe horrores.

A comunicação social ocidental propagou a farsa ao se referir cinicamente aos terroristas como “rebeldes moderados”. Diz-se que a base militar gerida pelo Pentágono em Al Tanf, no sul da Síria, serve para treinar “rebeldes moderados”, quando na realidade são extremistas jihadistas que estão a ser armados.

Na semana passada, antes do ataque final à capital síria, Damasco, Al-Jawlani, o comandante do HTS, deu uma entrevista em horário nobre à rede noticiosa norte-americana CNN para reabilitar a sua imagem de líder estadista em vez da de líder terrorista, supostamente procurado.

Al-Jawlani diz que os dias em que ele e a sua organização eram parceiros do ISIS e da Al Qaeda ficaram para trás. E a CNN e outros meios de comunicação ocidentais fazem tudo o que podem para que essa afirmação pareça plausível. Ah, que final feliz!

Nesta fase inicial, não está claro se a Síria estará agora atolada num derramamento de sangue sectário, com represálias e assassinatos em massa que caracterizaram a fase anterior da guerra por procuração patrocinada pelos EUA, quando xiitas, alauitas e cristãos foram decapitados por serem “apóstatas e infiéis”.

De forma ameaçadora, nesta altura, os Estados Unidos e Israel começaram imediatamente a bombardear o país, alegando cinicamente que estavam a tentar estabilizar a situação.

Os rápidos acontecimentos na Síria surpreenderam o mundo inteiro. Quem teria pensado, há apenas duas semanas, que Assad acabaria no exílio em Moscovo? A reação dos Estados Unidos, de Israel e de outros líderes ocidentais é quase de descrença no que consideram uma grande sorte.

A Rússia e o Irão parecem ter ficado realmente surpreendidos. A guerra por procuração da NATO na Ucrânia, às portas da Rússia, tem, sem dúvida, sobrecarregado os recursos militares russos. O Irão está preocupado em proteger o seu próprio país da agressão israelita.

O presidente dos EUA, Joe Biden, e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, falaram com entusiasmo sobre a nova “oportunidade” na Síria. Ambos alegaram ter tido algo a ver com o triunfo da insurgência terrorista. Netanyahu assumiu o crédito pela sua guerra genocida em Gaza e no Líbano por enfraquecer os aliados da Síria, o Hezbollah e o Irão.

Biden foi ainda mais descarado ao explicar como o terrorismo de estado americano destruiu a Síria e abriu o caminho para que os seus aliados jihadistas tomassem o poder. Ele disse: “A nossa abordagem mudou o equilíbrio de poder no Médio Oriente através de uma combinação de apoio aos nossos parceiros, sanções, diplomacia e força militar direcionada”.

No duplo discurso de Washington, “apoio aos parceiros, sanções e força militar seletiva” traduz-se em patrocinar terroristas para subjugar uma nação, guerra económica para enfraquecê-la e agressão ilegal para forçar a submissão final. A destruição da Síria é outro grande crime cometido pelo imperialismo ocidental liderado pelos Estados Unidos.

Fonte aqui.


 

6 pensamentos sobre “Síria, após 13 anos de terrorismo de estado dos EUA, o que podemos esperar?

  1. Nada do que venha dos novos poderes na Síria em termos de atrocidades nos devia espantar. Isto era de esperar. Já no período entre 2011 e 2015 assistimos a gente desta a executar ate crianças. De uma única redada 200 crianças foram fuziladas.
    Do seu lado, crianças de apenas sete anos foram filmadas a ser submetidas a treinos cruéis e a cometer atrocidades.
    Algumas dessas crianças que cometeram atrocidades eram de países europeus e nem sequer eram árabes.
    O que nos mostra outra coisa, por muito que os pategos nos digam. A barbaridade não e o “monopólio” desta ou daquela etnia e religião.
    Por isso toda a gente as comete e nisso e pródigo também o exército norte americano em todos os cenários onde põe botas no terreno.
    Vamos sem dúvida assistir a muitas mortes, muitas execuções, que serão certamente relativizados, (eram apaniguados de Assad que cometeram atrocidades) como seus relativizada a morte de Assad e talvez de toda a sua família se o homem não tem fugido a tempo.
    Relativizar e justificar barbaridades quando sao os nossos amigos a comete las e outra coisa em que somos bons.
    Outra coisa que nos vão dizer nos próximos dias e que a queda do regime sírio foi fruto de uma Blitzkrieg de 13 dias.
    Não meus pategos, foi o resultado de três anos de bloqueios, sanções, insultos sobre os líderes do país, roubo descarado de produtos essenciais como o petróleo e o trigo.
    Estamos a falar de um povo a quem, ao longo de 13 anos, lhe foi tirado literalmente o pao da boca.
    Aqui há uns anos passou um documentário sobre mulheres ucranianas libertadas de redes de prostituição. Todas afirmavam não saber ao que iam. Tinham lhes prometido empregos bem pagos para os seus padrões de miséria, na hotelaria.
    Uma assistente social dizia que nem em todos os casos isso era verdade. “Muitas sabem ao que vao. Mas pensam, nada pode ser pior que isto. O problema e que pode ser sempre pior”.
    Muitos altos oficiais sírios podem ter sido efectivamente subornados mas a maior parte do povo deve ter pensado “nada pode ser pior que isto e com um governo amigo do Ocidente pode ser que o nosso trigo e petróleo voltem a ser nossos”.
    Muitos certamente já perceberam que pode sempre ser pior. Are porque muitos não percebem a essência rapinante do Ocidente.
    Os recursos dos outros não são deles, são nossos e continuaremos a rouba los qualquer que seja o poder que lá esteja.
    A propósito da invasão do Iraque, Donald Rumsfeld foi claro como o meio dia, “não pudemos esperar. O país está em cima de um mar de petróleo”. Reparem na nuace, o país não tem um mar de petróleo, está em cima de um.
    Que a tragédia siria e as execuções em plena rua sirvam pelo menos para que todos os países que teem alguma coisa para roubar, percebam que vale a pena fazer alguns sacrifícios e lutar com tudo o que teem.
    Porque a vida sob o domínio desta gente e dos seus procuradores não e vida. E terror em estado puro e não e só para mulheres e minorias sexuais. E para todos.
    Quando o Estado Islâmico tomou o norte do Iraque um homem que fugira com a família contava a sua saga. Os trastes tinham disparado sobre eles. Ele perdera um olho. Um dos três filhos fora gravemente ferido no abdômen e provavelmente iria morrer.
    Mesmo assim o homem achava que a fuga tinha valido a pena. “A vida e impossível, se não tens barba executam te, se não vais a mesquita, executam te, se estás a porta da tua casa a hora das orações executam te. executam te por tudo e por nada”.
    E isto que espera os sírios sob o domínio dos rebeldes moderados.
    E que tal como a dupla Coelho Portas queria ir além da troika, estes selvagens muitas vezes vao além da sharia quando se trata de matar gente como quem mata cães.
    Porque sao selvagens arregimentados e muitos tão muçulmanos como eu.
    Em 2014 perguntavam a um membro da comunidade muçulmanos em França se estava de acordo com a colagem dos muçulmanos ao terrorismo. “Não, porque 95 por cento das vítimas dessas selvagens sao muçulmanos”.
    E a verdade e que por muito que esses cerdos persigam cristãos, a maior parte das suas vítimas sao gente muçulmana decente que apenas quer seguir com as suas vidas em paz. Como o desgraçado que arriscou a sua vida e a da sua família para fugir de Mossul, que sofria uma ocupação de bárbaros.
    Se Rússia e Irão podiam e deviam ter feito mais alguma coisa para garantir que o povo sírio fosse aquecido e alimentado e não começasse a achar que nada podia ser pior?
    Isso de certeza mas agora e tarde para andarmos a tentar perceber como e que esta tragédia podia não ter acontecido.
    O que temos e um povo que vai começar a sofrer coisas que farão o que sofreram ate agora parecer uma brincadeira de crianças.
    E isto e uma lição para todos quantos pensam que ainda e possível negociar com esta gente.
    E não, meus pategos a esquerda. A queda do regime sírio só e uma boa notícia para os apoiantes de nazis e sionistas.
    Para os sírios e o início de uma noite sem fim.

  2. E os massacres já começaram. Hoje em Hama, oficiais do exército sírio foram publicamente executados após “julgamentos” mais que sumários.
    Talvez se tenham deixado subornar para desistir de lutar, se assim foi não tiveram nem dois dias para gozar o preço da traição.
    Se simplesmente se renderam deviam saber que contra essa gente e lutar ou fugir. Não há terceira opção e quem se rende acaba morto.
    Entretanto temos canais televisivos como o Now a dizer que foi desmantelado um “matadouro” de Assad.
    O espaço parecia ser uma prisão como qualquer outra mas a verdade e que os novos poderes não precisam de prisões.
    Como bem se viu nas execuções públicas que já começaram.
    O mesmo canal diz que os “rebeldes” já organizaram pacificamente um governo de transição.
    Tudo no melhor dos mundos.
    Quem não se vê nas ruas são as mulheres, deve ser porque está frio.
    De resto nem uma palavra sobre os incessantes bombardeamentos israelitas e o avanço sionista no Sul do país.
    Os nossos dirigentes, os mesmos que nos envolveram numa experiencia científica com resultados desastrosos estão orgulhosos da sua obra de destruição de um país e sonham fazer o mesmo com a Rússia e a China.
    Sentem se agora mais fortalecidos para essa missão sagrada de destruir qualquer um que lhes resista. Qualquer um que diga não.
    Se Assad não tivesse fugido seria mais um a ser assassinado, provavelmente com requintes de crueldade para gaudio do bando de psicopatas que temos a mandar em nos.
    E se sofrermos atentados tanto melhor. Terão bons motivos para nós limitarem a liberdade em nome da segurança, conseguirão diabolizar os muçulmanos todos e levarao a que conhecemos a normalizar e ate justificar os horrendos crimes sionistas.
    Teem tudo a ganhar com tudo isto.
    Mas se temos até gente de esquerda a dizer que a queda de Assad e uma boa notícia, porque sempre uma boa notícia a queda de um ditador não há nada a fazer.
    Não sei o que pode haver de bom na queda de um regime secular e a sua substituição por uma horda de selvagens que executa gente em praça pública.
    Mas estes cabrões lá sabem.
    Entretanto os bons europeus ja suspenderam a possibilidade de cidadãos sírios pedirem asilo.
    Trata se mesmo de entregar todo um povo a mais extrema barbárie, entre os fundamentalistas islâmicos sedentos de sangue e os igualmente cruéis sionistas.
    Os americanos definiram um objectivo após o famigerado 11 de Setembro. Destruir seis países no espaço de cinco anos. A saber, Afeganistão, Iraque, Libia, Somália, Sudão e Síria. Levou mais de 20 mas conseguiram daí o orgulho na sua obra que mostram agora.
    A destruição da Siria foi a demonstração de que conseguem sempre os seus objectivos de destruição leve o tempo que levar.
    E tendo em conta o desprezo dessa gente pelas nossas vidas, já amplamente demonstrado, isso devia assustar nos a todos e não so as populações dos seus alvos.
    Um mundo dominado só por esta gente e certamente um mundo em que não quero viver.

    • No rodapé da RTP3 passava: “ISIS executa 50 e tal soldados do exército sírio em fuga”…
      …”(bons) rebeldes” a lutar pela liberdade…

  3. Agora já não há “guerra de agressão não-provocada para ninguém”… As muitas hienas e os abutres estavam apenas a esquartejar o moribundo Estado Sírio, prestando um serviço ao “ecossistema de segurança” do Velho Mundo, sob os desígnios do Novo, uma “Nova Ordem Mundial baseada em regras” arbitrárias que variam ao sabor do tempo e das administrações, que defendem os nossos superiores valores civilizacionais e a democracia, e por vezes, quando dá jeito, o Direito Internacional.
    Alerta Pategos!

    • Agora é transpor para o que se passa na Ucrânia (salvo as diferenças entre os neo-nazis banderistas e os jihadistas terroristas islâmicos, que ao que parece até se ajudam mutuamente), e talvez se acendam umas luzinhas de Natal (que promete ser calorosos lá para os lestes e os levantes) em algumas cabecinhas “iluminadas” (a.k.a. pategos)!

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