(A l e x a n d r e D o u g u i n e, in Euro-synergies, 04/11/2024, Trad. da Estátua)

Alexandre Douguine revela que o Deep State é uma cabala ocidental corrupta, infiltrada nos Estados Unidos e na Europa para manipular as eleições, esmagar líderes populistas como Donald Trump e impor a sua agenda liberal-globalista, fazendo-se passar por um protetor da democracia enquanto subverte implacavelmente a vontade do povo.
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O termo “estado profundo” é hoje cada vez mais utilizado no discurso político, passando do jornalismo para uma linguagem política comum. No entanto, o próprio termo está a tornar-se um tanto vago, surgindo diferentes interpretações. É, portanto, essencial olhar mais de perto o fenómeno descrito como “Estado Profundo” e compreender quando e onde este conceito começou a ser utilizado.
Esta frase apareceu pela primeira vez na política turca na década de 1990, descrevendo uma situação muito específica na Turquia. Em turco, “estado profundo” é derin devlet. Isto é crucial porque todos os usos subsequentes deste conceito estão de alguma forma ligados ao significado original, que surgiu pela primeira vez na Turquia.
Desde a época de Kemal Atatürk, a Turquia desenvolveu um movimento político e ideológico específico conhecido como kemalismo. Baseia-se no culto de Atatürk (literalmente, “Pai dos Turcos”), no secularismo estrito (rejeição do fator religioso não só na política, mas também na vida pública), no nacionalismo (enfatizando a soberania e a unidade de todos os cidadãos na comunidade étnica da Turqui, num cenário político diversificado), modernismo, europeísmo e progressismo. O kemalismo representou, em muitos aspetos, uma antítese direta da visão de mundo e da cultura que dominava o religioso e tradicionalista Império Otomano. Desde a criação da Turquia, o kemalismo foi e continua a ser, em grande parte, o código dominante da política turca contemporânea. Foi com base nestas ideias que o Estado turco foi estabelecido, sobre as ruínas do Império Otomano.
O kemalismo dominou abertamente durante o reinado de Atatürk e, posteriormente, este legado foi transmitido aos seus sucessores políticos. A ideologia kemalista baseava-se na democracia de estilo europeu, mas o poder real estava concentrado nas mãos da liderança militar do país, particularmente no Conselho de Segurança Nacional (CSN). Após a morte de Atatürk, a elite militar tornou-se a guardiã da ortodoxia ideológica do kemalismo. O CSN turco foi criado em 1960, após um golpe militar, e o seu papel aumentou significativamente após outro golpe em 1980.
É importante notar que muitos oficiais superiores do exército turco e oficiais de inteligência eram membros de lojas maçónicas, misturando assim o kemalismo com a maçonaria militar. Sempre que a democracia turca se desviou do kemalismo – seja para a direita ou para a esquerda – os militares anularam os resultados eleitorais e lançaram um ciclo de repressão.
No entanto, o termo derin devlet só apareceu na década de 1990, precisamente quando o islamismo político crescia na Turquia. Foi aqui que, pela primeira vez na história turca, surgiu um conflito entre a ideologia do estado profundo e a democracia política. O problema surgiu quando islamitas, como Necmettin Erbakan e o seu apoiante Recep Tayyip Erdoğan, prosseguiram uma ideologia política alternativa que desafiava diretamente o kemalismo. Esta mudança abrangeu tudo: o Islão substituiu o secularismo, estreitaram-se os laços com o Oriente, em comparação com o Ocidente, e a solidariedade muçulmana substituiu o nacionalismo turco. No geral, o salafismo e o neo-otomanismo suplantaram o kemalismo. A retórica antimaçónica, nomeadamente a de Erbakan, substituiu a influência dos círculos maçónicos militares seculares por ordens sufistas tradicionais e organizações islâmicas moderadas, como o movimento Nur de Fethullah Gülen .
Neste ponto, a ideia de estado profundo (derin devlet) surgiu como uma imagem descritiva do núcleo político-militar kemalista na Turquia, que se considerava acima da democracia política, cancelando eleições, prendendo figuras políticas e religiosas e posicionando-se acima da democracia política e dos procedimentos legais da política de estilo europeu. A democracia eleitoral só funcionou quando se alinhou com a linha de ação do exército kemalista. Quando surgia uma distância crítica, como no caso dos islamitas, o partido que venceu as eleições e até liderou o governo poderia ser dissolvido sem explicação. Nestes casos, a “suspensão da democracia” não tinha base constitucional – o exército não eleito agia com base no “oportunismo revolucionário” para salvar a Turquia kemalista.
Mais tarde, Erdoğan lançou uma guerra em grande escala contra o Estado profundo da Turquia, que culminou no julgamento de Ergenekon em 2007, onde quase todos os líderes militares da Turquia foram presos sob o pretexto de que estavam a planear um golpe de Estado. No entanto, Erdoğan mais tarde desentendeu-se com o seu antigo aliado, Fethullah Gülen, que estava profundamente enraizado nas redes de inteligência ocidentais. Erdoğan restaurou o estatuto de muitos membros do Estado profundo, formando com eles uma aliança pragmática, principalmente no terreno comum do nacionalismo turco. O debate sobre o secularismo foi atenuado e adiado e, especialmente depois da tentativa fracassada de golpe de Estado dos Gülenitas em 2016, o próprio Erdoğan começou a ser rotulado de “Kemalista Verde”. Apesar disso, a posição do Estado profundo na Turquia enfraqueceu durante o confronto com Erdoğan, e a ideologia do kemalismo diluiu-se, embora tenha sobrevivido.
Principais características do estado profundo
Da história política moderna da Turquia podemos tirar várias conclusões gerais. Um Deep State pode existir e faz sentido quando:
1) Existe um sistema eleitoral democrático;
2) Acima deste sistema existe uma entidade político-militar não eleita ligada a uma ideologia específica (independentemente de um determinado partido vencer);
3) Existe uma sociedade secreta (do tipo maçónico, por exemplo) que reúne a elite político-militar.
O estado profundo revela-se quando surgem contradições entre as normas democráticas formais e o poder desta elite (caso contrário, a existência do estado profundo permanece obscura). O estado profundo só é possível mesmo em democracias liberais nominais. Em sistemas políticos abertamente totalitários, como o fascismo ou o comunismo, não há necessidade de um Estado profundo. Aqui, um grupo ideologicamente rígido reconhece-se abertamente como a autoridade máxima, colocando-se acima das leis formais. Os sistemas de partido único enfatizam este modelo de governação, não deixando espaço para oposição ideológica e política. Só nas sociedades democráticas, onde não deveria existir nenhuma ideologia dominante, é que o Estado profundo emerge como um fenómeno de “totalitarismo oculto”, que manipula a democracia e os sistemas multipartidários à vontade.
Os comunistas e os fascistas reconhecem abertamente a necessidade de uma ideologia dominante, tornando o seu poder político e ideológico direto e transparente (potestas direta, como disse Carl Schmitt). Os liberais negam ter uma ideologia, mas têm. Influenciam, portanto, os processos políticos baseados no liberalismo como doutrina, mas apenas indiretamente, através da manipulação (potestas indirecta). O liberalismo só revela a sua natureza abertamente totalitária e ideológica quando surgem contradições entre ele e os processos políticos democráticos.
Na Turquia, onde a democracia liberal foi emprestada do Ocidente e não se enquadrava bem na psicologia política e social da sociedade, o Estado profundo foi facilmente identificado e nomeado. Noutros sistemas democráticos, a existência desta autoridade ideológica totalitária, ilegítima e formalmente “inexistente”, tornou-se evidente mais tarde. No entanto, o exemplo turco é de grande importância para a compreensão deste fenómeno. Tudo aqui é tão claro quanto um livro aberto.
Trump e a descoberta do estado profundo nos Estados Unidos
Agora vamos concentrar-nos no facto de que o termo “estado profundo” apareceu nos discursos de jornalistas, analistas e políticos nos Estados Unidos durante a presidência de Donald Trump. Mais uma vez, o contexto histórico desempenha um papel decisivo. Os apoiantes de Trump, como Steve Bannon e outros, começaram a falar sobre como Trump, tendo o direito constitucional de determinar o curso da política americana enquanto presidente eleito, encontrou obstáculos inesperados que não podiam ser atribuídos simplesmente à oposição do Partido Democrata ou à inércia burocrática.
Gradualmente, à medida que esta resistência se intensificava, Trump e os seus apoiantes começaram a ver-se não apenas como representantes da agenda republicana, tradicional para anteriores políticos e presidentes de partidos, mas como algo mais. O seu foco nos valores tradicionais e as suas críticas à agenda globalista atingiram não apenas os seus adversários políticos diretos, os “progressistas” e o Partido Democrata, mas também uma entidade invisível e inconstitucional, capaz de influenciar todos os principais processos da política americana – finanças, grandes empresas, meios de comunicação, agências de inteligência, sistema judiciário, grandes instituições culturais, instituições educacionais de ponta, etc. – de forma coordenada e direcionada.
Parece que as ações de todo o aparato governamental deveriam seguir o curso e as decisões de um Presidente dos Estados Unidos legalmente eleito. Mas descobriu-se que não era esse o caso. Independentemente de Trump, num nível mais elevado de “poder paralelo”, estavam em curso processos incontroláveis. Assim, o estado profundo foi descoberto nos próprios Estados Unidos.
Nos Estados Unidos, tal como na Turquia, existe sem dúvida uma democracia liberal. Mas a existência de uma entidade político-militar não eleita, ligada a uma ideologia específica (independentemente da vitória de um determinado partido) e possivelmente membro de uma sociedade secreta (como uma organização de tipo maçónico), era completamente imprevista para os americanos. Portanto, o discurso sobre o Estado Profundo durante este período abriu os olhos de muitos, passando de uma “teoria da conspiração” para uma realidade política visível.
É claro que o assassinato não resolvido de John F. Kennedy, a provável eliminação de outros membros do seu clã, numerosas inconsistências em torno dos trágicos acontecimentos de 11 de Setembro e vários outros segredos não resolvidos da política americana levaram os americanos a suspeitar da existência de uma espécie de “poder oculto” nos Estados Unidos.
As teorias da conspiração populares propuseram os candidatos mais improváveis – desde cripto comunistas até reptilianos e Anunnaki. Mas a história da presidência de Trump, e mais ainda a sua perseguição após a derrota para Biden e as duas tentativas de assassinato durante a campanha eleitoral de 2024, tornam necessário levar a sério o estado profundo nos Estados Unidos. Não é mais algo que pode ser ignorado. Ele existe, ele age, ele é ativo e ele… governa.
Conselho de Relações Exteriores: rumo à criação de um governo mundial
Para explicar este fenómeno, devemos primeiro recorrer às organizações políticas americanas do século XX, que foram as mais ideológicas e procuraram funcionar para além das divisões partidárias. Se tentarmos encontrar o núcleo do Estado profundo entre os militares, as agências de inteligência, os magnatas de Wall Street, os magnatas da tecnologia e outros, é pouco provável que cheguemos a uma conclusão satisfatória. A situação é muito individualizada e difusa. Em primeiro lugar, devemos prestar atenção à ideologia.
Deixando de lado as teorias da conspiração, duas entidades destacam-se como as mais adequadas para desempenhar este papel: o CRE (Conselho de Relações Exteriores), fundado na década de 1920 por apoiantes do Presidente Woodrow Wilson, um ardente defensor do globalismo democrático, e o movimento muito posterior de neoconservadores americanos, que emergiram do meio trotskista outrora marginal e gradualmente ganharam influência significativa nos Estados Unidos.
Tanto o CRE como os neoconservadores são independentes de qualquer partido. O seu objetivo é orientar a política americana como um todo, independentemente de qual o partido que esteja no poder num determinado momento. Além disso, estas duas entidades possuem ideologias claras e bem estruturadas: o globalismo liberal de esquerda, no caso do CRE, e a hegemonia americana afirmada, no caso dos neoconservadores. O CRE pode ser visto como sendo os globalistas de esquerda e os neoconservadores como os globalistas de direita.
Desde o seu início, o CRE propôs-se a transformar os Estados Unidos de um Estado-nação num “Império” democrático global. Contra os isolacionistas, o CRE avançou a tese de que os Estados Unidos estão destinados a tornar o mundo inteiro liberal e democrático. Os ideais e valores da democracia liberal, do capitalismo e do individualismo foram colocados acima dos interesses nacionais. Ao longo do século XX, salvo uma breve interrupção durante a Segunda Guerra Mundial, esta rede de políticos, especialistas, intelectuais e representantes de corporações transnacionais trabalhou para criar organizações supranacionais: primeiro a Liga das Nações, depois as Nações Unidas, o Clube Bilderberg, o Comissão Trilateral, etc. A sua tarefa era criar uma elite liberal global unificada que partilhasse a ideologia do globalismo em todas as áreas: filosofia, cultura, ciência, economia, política, etc. As atividades dos globalistas dentro do CRE visavam estabelecer um governo mundial, envolvendo o desaparecimento gradual dos Estados-nação e a transferência de poder de antigas entidades soberanas para uma oligarquia global, composta pelas elites liberais do mundo, formada de acordo com os modelos do Ocidente.
Através das suas redes europeias, o CRE desempenhou um papel ativo na criação da União Europeia (um passo concreto em direção a um governo mundial). Os seus representantes – especialmente Henry Kissinger, o líder intelectual da organização – desempenharam um papel fundamental na integração da China no mercado mundial, uma medida eficaz para enfraquecer o bloco socialista. O CRE também promoveu ativamente a teoria da convergência e conseguiu exercer influência sobre os líderes soviéticos desde o final da era soviética, até Gorbachev. Sob a influência das estratégias geopolíticas do CRE, os últimos ideólogos soviéticos escreveram sobre a “governabilidade da comunidade mundial”.

Nos Estados Unidos, o CRE é uma organização estritamente apartidária, que reúne tanto os democratas, de quem é um pouco mais próximo, como os republicanos. Serve como sede do globalismo, com iniciativas europeias semelhantes – como o Fórum de Davos de Klaus Schwab – a funcionar como subsidiárias. Nas vésperas do colapso da União Soviética, o CRE estabeleceu uma filial em Moscovo, no Instituto de Estudos Sistémicos chefiado pelo académico Gvishiani, de onde emergiu o núcleo dos liberais russos da década de 1990 e a primeira onda de oligarcas ideológicos.
É claro que Trump se encontrou precisamente com esta entidade, apresentada nos Estados Unidos e em todo o mundo como uma plataforma inofensiva e prestigiosa, para a troca de opiniões entre especialistas “independentes”. Mas, na realidade, é uma verdadeira sede ideológica. Trump, com a sua agenda conservadora à moda antiga, ênfase nos interesses americanos e crítica ao globalismo, entrou em conflito direto e aberto com ela.
Trump pode ter sido presidente dos Estados Unidos apenas durante um breve período, mas o CRE tem uma história que abrange mais de um século e que determina a direção da política externa americana. E, claro, durante os seus cem anos no poder, o CRE formou uma vasta rede de influência, espalhando as suas ideias entre os militares, funcionários públicos, figuras culturais e artistas, mas especialmente nas universidades americanas, que se tornaram cada vez mais ideologizadas ao longo do tempo. Oficialmente, os Estados Unidos não reconhecem qualquer dominação ideológica. Mas a rede do CRE é altamente ideológica. O triunfo global da democracia, o estabelecimento de um governo mundial, a vitória completa do individualismo e da política de género – estes são os objetivos mais emblemáticos, dos quais é inaceitável desviar-se.
O nacionalismo de Trump, o seu programa América Primeiro e as suas ameaças de “drenar o pântano globalista” representaram um desafio direto a esta entidade, guardiã dos códigos do liberalismo totalitário (como de qualquer ideologia).
Mate Putin e Trump
Pode considerar-se o CRE uma sociedade secreta? Dificilmente. Embora favoreça a discrição, ele geralmente opera abertamente. Por exemplo, logo após o início da operação militar especial russa, os líderes do CRE (Richard Haass, Fiona Hill e Celeste Wallander) discutiram abertamente a viabilidade de um assassinato do Presidente Putin (uma transcrição desta discussão foi publicada no site oficial do CRE). O estado profundo americano, ao contrário do estado turco, pensa globalmente. Assim, os acontecimentos na Rússia ou na China são considerados por aqueles que se consideram o futuro governo mundial como “assuntos internos”. E matar Trump seria ainda mais fácil – se não conseguissem prendê-lo ou expulsá-lo das eleições.
É importante notar que as lojas maçónicas têm desempenhado um papel fundamental no sistema político americano desde a Guerra da Independência americana. Como resultado, as redes maçónicas estão intimamente ligadas ao CRE e servem como agências de recrutamento para ele. Hoje, os globalistas liberais já não precisam de se esconder. Os seus programas foram totalmente adotados pelos Estados Unidos e pelo Ocidente como um todo. À medida que o “poder secreto” se fortalece, gradualmente deixa de ser secreto. O que antes deveria ser protegido pela disciplina do segredo maçónico tornou-se agora um programa global aberto. Os maçons não hesitaram em eliminar fisicamente os seus inimigos, mesmo que não falassem sobre isso abertamente. Hoje eles fazem-no. Essa é a única diferença.
Os neoconservadores: dos trotskistas aos imperialistas
O segundo centro do estado profundo são os neoconservadores. Originalmente, estes eram trotskistas que odiavam a União Soviética e Estaline porque, segundo eles, a Rússia não tinha construído um socialismo internacional, mas um socialismo “nacional”, isto é, um socialismo num só país. Como resultado, argumentam eles, uma verdadeira sociedade socialista nunca foi criada e o capitalismo não foi plenamente realizado. Os trotskistas acreditam que o verdadeiro socialismo só poderá emergir quando o capitalismo se tornar global e triunfar em todo o lado, misturando irreversivelmente todos os grupos étnicos, povos e culturas, ao mesmo tempo que aboliu tradições e religiões. Só então (e não antes) chegará o momento da revolução mundial.

Os trotskistas americanos concluíram, portanto, que devem ajudar o capitalismo global e os Estados Unidos como seu porta-estandarte, ao mesmo tempo que procuram destruir a União Soviética (e mais tarde a Rússia, a sua sucessora), bem como todos os Estados soberanos. O socialismo, acreditavam eles, só poderia ser estritamente internacional, o que significava que os Estados Unidos tinham de fortalecer a sua hegemonia e eliminar os seus adversários. Só quando o Norte rico estabelecer o domínio completo sobre o Sul empobrecido e o capitalismo internacional reinar supremo em todo o lado é que as condições estarão maduras para passar para a próxima fase do desenvolvimento histórico.
Para levar a cabo este plano diabólico, os trotskistas americanos tomaram a decisão estratégica de entrar na grande política – mas não diretamente, uma vez que ninguém nos Estados Unidos votou neles. Em vez disso, infiltraram-se nos principais partidos, primeiro através dos Democratas e depois, depois de ganharem impulso, também através dos Republicanos.
Os trotskistas reconheceram abertamente a necessidade da ideologia e encararam a democracia parlamentar com desdém, vendo-a simplesmente como uma cobertura para o grande capital. Assim, juntamente com o CRE, formou-se outra versão do Estado profundo nos Estados Unidos. Os neoconservadores não ostentaram o seu trotskismo, mas sim apelaram aos militaristas americanos tradicionais, aos imperialistas e aos apoiantes da hegemonia global. E é contra essas pessoas, que até Trump praticamente dominavam o Partido Republicano, que Trump teve de lutar.
Democracia é uma ditadura
Num certo sentido, o estado profundo americano é bipolar, ou seja, tem dois polos:
1) o polo globalista de esquerda (CRE) e
2) o polo globalista de direita (os neoconservadores).
Ambas as organizações são apartidárias, não eleitas e carregam uma ideologia agressiva e proactiva que é, em essência, abertamente totalitária. Em muitos aspetos eles estão alinhados, divergindo apenas na retórica. Ambos se opõem ferozmente à Rússia de Putin e à China de Xi Jinping, e são contra a multipolaridade em geral. Nos Estados Unidos, ambos se opõem igualmente a Trump, porque ele e os seus apoiantes representam uma versão mais antiga da política americana, desligada do globalismo e focada em questões internas. Tal posição de Trump é uma verdadeira rebelião contra o sistema, comparável às políticas islâmicas de Erbakan e Erdogan, que outrora desafiaram o kemalismo na Turquia.
Isto explica porque é que o discurso em torno do Estado profundo surgiu com a presidência de Trump. Trump e as suas políticas conquistaram o apoio de uma massa crítica de eleitores americanos. No entanto, descobriu-se que esta posição não correspondia às opiniões do Estado profundo, que se revelou agindo duramente contra Trump, indo além do quadro legal e atropelando as normas da democracia. A democracia somos nós, declarou essencialmente o estado profundo americano. Muitos críticos começaram a falar em golpe de estado. E foi essencialmente isso que aconteceu. O poder paralelo nos Estados Unidos entrou em conflito com a fachada democrática e começou a parecer cada vez mais uma ditadura – liberal e globalista.
O Estado Profundo Europeu
Consideremos agora o que o Estado Profundo poderia significar no caso dos países europeus. Recentemente, os europeus começaram a notar que algo incomum está a acontecer com a democracia nos seus países. A população vota de acordo com as suas preferências, apoiando cada vez mais vários populistas, especialmente os de direita. No entanto, uma entidade dentro do Estado suprime imediatamente os vencedores, sujeita-os à repressão, desacredita-os e remove-os à força do poder. Vemos isso na França de Macron com o partido de Marine Le Pen, na Áustria com o Partido da Liberdade (FPÖ), na Alemanha com a Alternativa para a Alemanha (AfD) e com o partido de Sahra Wagenknecht, e na Holanda com Geert Wilders, entre outros. Eles vencem eleições democráticas, mas depois são afastados do poder.
Uma situação familiar? Sim, isto parece-se muito com a Turquia e o papel do exército kemalista. Isto sugere que estamos também a lidar com um Estado profundo na Europa.
Torna-se imediatamente claro que em todos os países europeus esta entidade não é nacional e funciona segundo o mesmo modelo. Este não é apenas um estado profundo francês, alemão, austríaco ou holandês. É um estado profundo pan-europeu, parte de uma rede globalista unificada. O centro desta rede está no estado profundo americano, principalmente no CRE, mas esta rede também envolve estreitamente a Europa.
Aqui, as forças liberais de esquerda, em estreita aliança com a oligarquia económica e os intelectuais pós-modernos – quase sempre de origem trotskista – formam a classe dominante não eleita mas totalitária da Europa. Esta classe vê-se como parte de uma comunidade atlântica unificada. Essencialmente, são a elite da NATO. Mais uma vez podemos recordar o papel semelhante do exército turco. A NATO é o quadro estrutural de todo o sistema globalista, a dimensão militar do estado profundo coletivo do Ocidente.

Não é difícil localizar o Estado profundo europeu em estruturas semelhantes ao CRE, como a secção europeia da Comissão Trilateral, o Fórum de Davos de Klaus Schwab e outras. É esta autoridade que a democracia europeia enfrenta quando, tal como Trump nos Estados Unidos, tenta fazer escolhas que as elites europeias consideram “más”, “inaceitáveis” e “repreensíveis”. E não se trata apenas das estruturas formais da União Europeia. O problema reside numa força muito mais poderosa e eficaz que não assume qualquer forma jurídica. Estes são os portadores do código ideológico que, de acordo com as leis formais da democracia, simplesmente não deveria existir. São os guardiões do liberalismo profundo, que respondem sempre com severidade a qualquer ameaça que surja dentro do próprio sistema democrático.
Tal como no caso dos Estados Unidos, as lojas maçónicas desempenharam um papel importante na história política da Europa moderna, servindo como sede de reformas sociais e transformações seculares. Hoje, as sociedades secretas já não são realmente necessárias, pois há muito que funcionam de forma aberta, mas a manutenção das tradições maçónicas continua a ser parte integrante da identidade cultural da Europa.
Chegamos assim ao mais alto nível de uma entidade antidemocrática e profundamente ideológica, que opera em violação de todas as regras e normas legais e detém o poder absoluto na Europa. Este é um poder indireto, ou uma ditadura oculta – o Estado profundo europeu, como parte do sistema unificado do Ocidente coletivo, vinculado pela NATO.
O Estado Profundo na Rússia na década de 1990
A última coisa que resta a fazer é aplicar o conceito de estado profundo à Rússia. Deve-se notar que no contexto russo este termo é usado muito raramente, se é que é usado. Isto não significa que não exista nada semelhante a um Estado profundo na Rússia. Pelo contrário, sugere que nenhuma força política significativa com apoio popular crítico o confrontou ainda. No entanto, podemos descrever uma entidade que, com um certo grau de aproximação, pode ser chamada de “estado profundo russo”.
Na Rússia, após o colapso da União Soviética, a ideologia estatal foi banida e, a este respeito, a Constituição russa alinha-se perfeitamente com outros regimes ditos liberais-democráticos. As eleições são multipartidárias, a economia é baseada no mercado, a sociedade é secular e os direitos humanos são respeitados. Do ponto de vista formal, a Rússia contemporânea não difere fundamentalmente dos países da Europa, da América ou da Turquia.
No entanto, existia na Rússia uma espécie de entidade implícita e apartidária, especialmente durante a era Yeltsin. Na época, esta entidade era designada pelo termo geral “A Família”. A Família desempenhava as funções de um estado profundo. Embora o próprio Yeltsin fosse o presidente legítimo (embora nem sempre legítimo no sentido lato), os outros membros desta entidade não eram eleitos por ninguém e não tinham autoridade legal. Na década de 1990, a Família consistia no círculo íntimo de Yeltsin, oligarcas, oficiais de segurança leais, jornalistas e ocidentais liberais. Foram eles que implementaram as principais reformas capitalistas do país, empurrando-as desafiando a lei, alterando-as como quisessem ou simplesmente ignorando-as. Eles não agiram puramente por interesse do clã, mas como um verdadeiro estado profundo: baniram certos partidos, apoiaram artificialmente outros, negaram o poder aos vencedores (como o Partido Comunista e o LDPR) e concederam-no a indivíduos desconhecidos e indiscriminados, controlaram a mídia e o sistema educacional, reatribuíram indústrias inteiras a figuras leais e eliminaram aquilo que não lhes interessava.
Naquela época, o termo “estado profundo” não era conhecido na Rússia, mas o fenômeno em si estava claramente presente.
Deve notar-se, no entanto, que em tão pouco tempo após o colapso do sistema de partido único abertamente totalitário e ideológico, um Estado profundo totalmente desenvolvido não poderia ter-se formado de forma independente na Rússia. Naturalmente, as novas elites liberais integraram-se simplesmente na rede global ocidental, extraindo dela tanto a ideologia como a metodologia do poder indireto (potestas indireta) – através de lobbying, corrupção, campanhas mediáticas, controlo da educação e estabelecimento de normas sobre o que era benéfico e o que era prejudicial, o que era permitido e o que deveria ser proibido. O Estado profundo da era Yeltsin rotulou os seus oponentes de “castanhos-avermelhados”, bloqueando preventivamente desafios sérios tanto da direita como da esquerda. Isto indica que existia uma forma de ideologia (oficialmente não reconhecida pela Constituição) que serviu de base para tais decisões sobre o que era certo e o que era errado. Essa ideologia era o liberalismo.
Ditadura liberal
O estado profundo só aparece dentro das democracias, funcionando como uma instituição ideológica que as corrige e controla. Este poder sombrio tem uma explicação racional. Sem esse regulador supra democrático, o sistema político liberal poderia mudar, porque não há garantia de que o povo não escolherá uma força que ofereça um caminho alternativo à sociedade. Isto é precisamente o que Erdoğan na Turquia, Trump nos Estados Unidos e os populistas na Europa tentaram fazer – e conseguiram parcialmente. No entanto, o confronto com os populistas obriga o Estado profundo a sair das sombras. Na Turquia isto foi relativamente fácil, uma vez que o domínio das forças militares kemalistas estava em grande medida em linha com a tradição histórica. Mas no caso dos Estados Unidos e da Europa, a descoberta de uma sede ideológica que funciona através da coerção, de métodos totalitários e de frequentes violações da lei – sem qualquer legitimidade eleitoral – surge como um escândalo, porque desfere um duro golpe na crença ingénua no mito da democracia.
O Estado Profundo baseia-se numa tese cínica, no espírito do Animal Farm de Orwell: “Alguns democratas são mais democratas do que outros”. Mas os cidadãos comuns podem ver isso como uma forma de ditadura e totalitarismo. E eles estão certos. A única diferença é que o totalitarismo de partido único opera abertamente, enquanto o poder paralelo que está acima do sistema multipartidário é forçado a esconder a sua própria existência.
Isso não pode mais ser escondido. Vivemos num mundo onde o Estado Profundo passou de uma hipótese de teoria da conspiração para uma realidade política, social e ideológica clara e facilmente identificável.
É melhor encarar a verdade. O estado profundo é real e é uma coisa séria.
Fonte aqui.
Ele de certeza que não foi.
Claro que os homens não são trotskistas, são sim uma cambada de aldraboes que tratam de cortar com as liberdades todas em troca de dar aos grunhos o poder de espancar a sua família quando lhe der na gana desde que não matem um porque isso dá muito nas vistas.
Defendem uma rede de submissões que começam de todos nós a Deus, continuam na mulher em relação ao marido, nos filhos em relação ao pai que a mãe não percebe nada dessas coisas, nos empregados em relação ao patrão e nada de exigir direitos laborais que isso e coisa do diabo.
E devemos todos trabalhar até ao limite da exaustão porque “maos ociosas fazem o trabalho do diabo”.
Homossexuais devem ser discriminados o mais possível e se possível curados sendo que para isso todos os meios são válidos.
Já houve bandalhos desses a defender a pena de morte para os homossexuais o que os coloca ao lado dos fundamentalistas religiosos muçulmanos que tanto dizem abominar.
Alias, o seu basear de tudo quanto fazem numa suposta vontade de Deus coloca os a uma distância de Trotsky maior que a que vai do Sol a Plutão.
Para dizer que quem na realidade manda nos Estados Unidos não e quem os borregos elegem presidente não é preciso ir buscar nem Trotsky nem ninguém.
Basta ver que a ruina física e mental que e Biden e que já era em 2020 para ver que ele nunca poderia ter gerido de facto os Estados Unidos.
Claro que ele partilhava o ódio neo conservador a Rússia em geral e a Putin em particular. Por isso conseguia ser de algum modo convincente até quando perdia o filtro e chamava assassino ao seu homólogo russo.
A diplomacia exige alguma contenção mas aquilo já não dava para mais.
Por isso alguém lá mandou nos últimos quatro anos e ele de certeza que não doi. Mas se calhar não é preciso ir buscar um estado profundo mas sim as elites democratas interessadas na destruição da Rússia e na pilhagem dos seus recursos iniciada na era Yeltsyn. Um bêbado sem prestimo que também provavelmente não mandou muito mas a quem ainda temos de agradecer ter tirado as armas nucleares das garras da Ucrânia ou isto já poderia ter acabado muito mal.
Alias, calculo que os neo conservadores que também entre os democratas os há já devem testar muito arrependidos de não terem ajudado os nazis a conseguir o seu próprio arsenal clandestino.
Porque aquela gente acredita mesmo que Deus impedirá a destruição total do mundo, sendo mortos apenas “os maus” pelo que não se importam de fazer todos os jogos perigosos.
Ate porque segundo a Bíblia os maus votados a destruição e a humanidade quase toda.
E no fim do mundo uns poucos escolhidos herdarão a Terra.
E o eles acreditarem piamente nisto que os torna um perigo para todos nós.
O fanatismo religioso é partilhado por muita da elite americana e eles não são um estado assim tão laico. Ou as suas notas não diriam “In God we trust”.
E isso que os diferencia da Europa desde a sua génese e e isso que nos põe a todos nós em perigo.
Porque eles acreditam mesmo que façam as asneiras e atrocidades que fizerem Deus vai acabar por por mão nisto e salvar os “bons”. Que sao eles, as suas famílias, e pouco mais.
Ora isto está a anos luz de distancia do desgraçado do Trotsky.
* com um exemplo doméstico
REFUTAÇÃO DAS FALSIFICAÇÕES HISTÓRICAS DE DUGIN SOBRE A GENEALOGIA IDEOLÓGICA DOS NEOCONS AMERICANOS
Sobre a genealogia e o teor das duas doutrinas de Alexandre Duguin ⎼ uma doutrina geopolítica e geoeconómica (“Neo-Eurasianismo”) e uma doutrina estritamente política (“Populismo Integral” ou “Quarta teoria política”) ⎼ tive já o ensejo de me pronunciar, longamente, noutra ocasião (5-12-2022) e noutro lugar (Tertúlia Orwelliana) (v. “Assassinatos de Estado, fantasmagorias ideológicas, patranhas mediáticas e moralismo farisaico”, https://tertuliaorwelliana.blogspot.com/2022/12/assassinatos-de-estado-fantasmagorias.html). Por isso, dispenso-me de voltar ao assunto.
Aqui, limitar-me-ei a lembrar que não tenho qualquer simpatia pelas suas doutrinas — o que não me impediu de me solidarizar com ele quando ocorreu o abjecto e cobarde assassinato de que foi vítima a sua filha, Darya Dugina, cometido por agentes dos serviços secretos ucranianos (“US believes Ukrainians were behind an assassination in Russia”. New York Times, 5 de Outubro de 2022) e que, tudo indica, o visava a ele próprio.
Neste comentário, vou concentrar-me apenas numa série de falsidades históricas que Dugin repete várias vezes neste seu artigo. É uma série que está organizada em torno de um tema central da argumentação de Dugin: a sua afirmação de que “trotskismo” é uma das correntes políticas que deram origem aos neoconservadores (“neocons”) americanos. É uma afirmação completamente estapafúrdia e uma invencionice.
Convém saber, antes de mais, que o “trotskismo” é um termo criado pelos seus adversários e inimigos políticos. Os ditos “trotskistas” autodenominavam-se “bolcheviques-leninistas”. Em Agosto de 1940, porém, Lev Trotsky, é assassinado na Cidade do México, onde estava exilado, por um agente da NKVD (serviços secretos da União Soviética) enviado por Estaline (a este respeito, ver o relato que Pavel Sudaplatov [director das “Operações Especiais” da NKVD] fez do modo como organizou o assassinato de Trotsky no seu livro “Operações Especiais — Memórias de uma Testemunha Indesejada” [Publicações Europa-América, 1994]. Para uma análise abrangente do assunto, ver o artigo de Osvaldo Coggliola, “O assassinato de Trotsky”, https://aterraeredonda.com.br/o-assassinato-de-trotsky/).
É só a partir dessa data que os bolcheviques-leninistas que compartilhavam as ideias políticas e sociais de Lev Trotsky, passaram, gradualmente, a aceitar intitular-se com o nome que os seus inimigos lhes deram (“trotskistas”). Inicialmente, isso foi feito com relutância, apenas como um crachá, um substituto coloquial de “bolcheviques-leninistas”. Mais tarde, porém, isso passou a ser feito como quem usa um distintivo honorífico, como uma condecoração. O romancista Leonardo Padura, que escreveu um romance sobre o assassinato de Trotsky (“O homem que gostava de cães”, 2009), explicou, no essencial e de uma maneira muito clara, a razão de ser desta mudança de atitude:
«O assassinato de Trotsky foi um crime ideológico, simbólico [ou seja, foi o assassinato da figura mais importante, a seguir a Lenine, do partido bolchevique que tomou o poder na Rússia, em Outubro de 1917, n.e.]. Porque já não estava no poder, a figura de Trotsky atingiu a dimensão que ainda tem e que explica que encontremos pessoas que dizem ‘eu sou trotskista ou tenho simpatia pelo trotskismo’, mas é muito difícil encontrar alguém que diga ser estalinista ou ter simpatias pelo estalinismo» (“Mort de Léon Trotski: un assassinat commandité par Staline”. Géo avec AFP. 19/08/2020, actualizado em 21/08/2023). [n.e.= nota editorial]
Tudo o que Dugin afirma sobre o “trotskismo” no seu artigo é falso, a saber: 1) «originalmente estes [entender: os neoconservadores americanos, n.e.] eram trotskistas que odiavam a União Soviética /…/»; 2) «Os trotskistas acreditam que o verdadeiro socialismo só poderá emergir quando o capitalismo se tornar global e triunfar em todo o lado, misturando irreversivelmente todos os grupos étnicos, povos e culturas, ao mesmo tempo que abole tradições e religiões. Só então (e não antes) chegará o momento da revolução mundial»; 3) «Os trotskistas americanos concluíram, portanto, que devem ajudar o capitalismo global e os Estados Unidos como seu porta-estandarte, ao mesmo tempo que procuram destruir a União Soviética (e mais tarde a Rússia, a sua sucessora), bem como todos os Estados soberanos. O socialismo, acreditavam eles, só poderia ser estritamente internacional, o que significava que os Estados Unidos tinham de fortalecer a sua hegemonia e eliminar os seus adversários»; 4) «Para levar a cabo este plano diabólico, os trotskistas americanos tomaram a decisão estratégica de entrar na grande política — mas não diretamente, uma vez que ninguém nos Estados Unidos votou neles. Em vez disso, infiltraram-se nos principais partidos, primeiro através dos Democratas e depois, depois de ganharem impulso, também através dos Republicanos».
Estas afirmações não são apenas falsas, são completamente estapafúrdias, puras invencionices, e, como veremos, insultuosas da memória de dezenas de milhares de trotskistas que perderam a vida na defesa dos seus ideais socialistas e da União Soviética; um produto da imaginação malévola do seu autor para levar água ao seu moinho. Qualquer pessoa minimamente conhecedora da história do movimento internacional dos trabalhadores assalariados sabe que são falsas e fantasiosas. Mas qualquer pessoa intelectualmente honesta pode chegar à mesma conclusão, compulsando a bibliografia relevante. E não falta por onde escolher — por exemplo, os 27 volumes das obras de Lev Trotsky, disponíveis no Marxists Internet Archive [https://www.marxists.org/francais/ trotsky/oeuvres/volumes.htm], ou uma selecção dos seus livros e artigos, disponível no Classiques des sciences sociales de l’Université du Québec à Montréal [https://classiques.uqam.ca/classiques/trotsky_
leon/trotsky_leon.html].
Para a história do trotskismo nos EUA, ver James Cannon, The History of American Trotskyism (Second Pathfinder edition 1972, second printing 1974); Bryan D. Palmer, James P. Cannon and the Emergence of Trotskyism in the United States, 1928-38 (Haymarket Books, 2023); Trotskyism in the United States. Historical Essays and Reconsiderations. coordenação de Paul Le Blanc, George Breitman, and Alan Wald (Haymarket Books, 2016); e os 3 volumes coordenados por Paul Le Blanc, Bryan D. Palmer e Thomas Bias, US Trotskyism 1928–1965 Part I: Emergence. Left Opposition in the United States. Dissident Marxism in the United States; US Trotskyism 1928–1965 Part II: Endurance. The Coming American Revolution; US Trotskyism 1928–1965 Part III: Resurgence Uneven and Combined Development. Dissident Marxism in the United States (Brill, 2019; Haymarket Books, 2019).
Estas obras, entre outras, refutam completamente as alegações supramencionadas de Dugin. É exactamente por isso que Dugin não avança uma única prova do que diz. Não o poderia fazer porque não existem.
A fonte de Dugin, neste particular, parece ter sido um tal Kerry R. Bolton, num artigo intitulado “America’s ‘World Revolution’: Neo-Trotskyist Foundations of U.S. Foreign Policy” (Foreign Policy Journal, May, 3, 2010).
A tese de Bolton é a seguinte. 1) entre os precursores intelectuais dos neocons estão cinco homens: Max Schachtman, James Burnham, Sydney Hook, Tom Khan, Stephen Schwartz. 2) Foram eles que avançaram, nos anos 1940-1950, ideias básicas que os neocons iriam desenvolver a partir dos anos 1960. 3) E o que estes cinco homens teriam em comum seria o facto de serem todos “trotskistas”.
Vou deixar de lado as proposições 1) e 2), não porque sejam inatacáveis, mas porque não
afectam (mesmo que fossem verdadeira) o ponto principal, que é este: a proposição 3) é falsa.
Todavia, como nos ensinou o poeta António Aleixo, «Para a mentira ser segura/E atingir profundidade/Tem de trazer à mistura/Qualquer coisa de verdade».
No caso em apreço, a qualquer coisa de verdade é isto: os dois primeiros homens da lista de Bolton foram “trotskistas” durante 12 anos no caso de Schachtman e 7 anos no caso de Burnham, antes de romperem com Trotsky e o “trotskismo”. Schachtman e o seu grupo foram excluídos do Socialist Workers Party (SWP) ⎼ o partido trotskista americano ⎼ em Abril de 1940. Burnham demitiu-se formalmente do SWP em Agosto de 1940. Na sua carta de demissão declarou que renunciava também ao “marxismo” e a qualquer actividade militante.
O ponto principal da ruptura de Schachtman e Burnham com Trotsky e o trotskismo foi a posição relativa à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. A 4.ª Internacional (a organização fundada por Trotsky e os trotskistas em 1938) adoptou a posição de defesa incondicional e crítica da União Soviética no grande conflito armado então em curso. Defesa “incondicional” da União Soviética — ou seja, defesa das conquistas sociais e económicas pós-capitalistas existentes nesse país, independentemente e apesar dos erros e crimes cometidos por Estaline e a sua oligarquia dirigente. Defesa “crítica” — ou seja, sem silenciar as críticas da 4.ª Internacional àquelas duas entidades. Schachtman e Burnham opunham-se a esta posição de Trotsky e do trotskismo. Para eles, não havia nada que valesse a pena defender na União Soviética, que deveria ser encarada como qualquer outro Estado beligerante na Segunda Guerra Mundial inter-imperialista. A partir da sua ruptura com o trotskismo, Schachtman evoluiu gradualmente para a ala sindical (AFL-CIO) da social-democracia americana, cuja figura de proa era então Walter Reuther.
O terceiro homem da lista, Sidney Hook nunca foi trotskista. Era um filósofo de orientação social-democrata que, no final dos 1930, ajudou Trotsky nos seus esforços para limpar o seu nome numa Comissão de Inquérito especial encabeçada pelo filósofo John Dewey, que investigou as acusações delirantes feitas contra Trotsky (e outros dirigentes da velha guarda do partido bolchevique) durante os chamados “Julgamentos de Moscovo” e as grandes purgas sangrentas no seio do Partido Comunista da União Soviética. que lhe estão associados. À medida que envelhecia, Hook foi-se situando cada vez mais à direita no espectro político americano.
Os restantes dois homens da lista de Bolton nunca foram trotskistas. Eram admiradores de Schachtman — não do Schachtman membro do Partido Comunista da América (1921-1928), membro da Liga Comunista [trotskista, n.e.] da América (1928-1934), membro do SWP trotskista (1937-1940), mas do Schachtman que rompeu com o trotskismo em 1940 e que se orientou velozmente para a social-democracia.
Não obstante tudo isto, Bolton não hesita em apelidar estes cinco ex-trotskistas e não-trotskistas de “neo-trotskistas” (!!) e de lhes atribuir, nessa qualidade, a paternidade das ideias dos neocons americanos. Dugin vai ainda mais longe e, sem nunca citar Bolton e sem nunca identificar ninguém pelo nome, deixa cair o prefixo “neo-” e apelida de “trotskistas” (!!!) os membros do seu fantasmático grupo de precursores dos neocons americanos. O procedimento é conhecido no contexto político-discursivo: chama-se “amálgama” e consiste em misturar alhos com bugalhos.
O carácter ostensivamente abusivo e enganador deste procedimento pode ser realçado como um exemplo doméstico. O que diríamos nós de Dugin (ou de Bolton) se ele decidisse apelidar de “comunistas” (ou “neo-comunistas”) Silva Marques (presidente do grupo parlamentar do PSD em 1995) e Zita Seabra (vice-presidente do grupo parlamentar do PS em 2005-2007), e de “maoístas” (ou “neo-maoístas”) Pacheco Pereira (presidente do grupo parlamentar do PSD em 1995 e vice-presidente do “Parlamento” Europeu entre 1999 e 2004) e Durão Barroso (presidente do PSD de 1999-2004, primeiro-ministro de Portugal em 2002-2004 e presidente da Comissão Europeia de 2004 a 2014), com base no seu passado anterior ao 25 de Abril de 1974 ou nos anos de brasa de 1974-1975 ?
Fica, pois, claro que o propósito desta nota de leitura não é o de defender uma corrente política — na ocorrência o trotskismo. Se assim fosse, a argumentação seria outra e não seria eu a desenvolvê-la, porque não pertenço a nenhum, nem me identifico com nenhum partido político existente, parlamentar ou extraparlamentar. O propósito desta nota de leitura é, tão-somente, repor a verdade tão maltratada pelo senhor Dugin neste particular.
Muito bem, também reparei nessa mistificação de chamar “trotskistas” aos neo-cons americanos, que é um disparate tão grande e alienante que só pode vir de um ideólogo descomprometido com o rigor analítico e a verdade histórica, reescrevendo a ciência política como tanto se usa hoje para iludir os leigos e manipular pategos.
Estive para referir-me a isto, mas nunca teria a sua capacidade discursiva nem o conhecimento bibliográfico e histórico para desmontar as falácias e identificar a origem provável desta tese absurda. Grato pela sua demonstração, necessária e esclarecedora.
Muito bem.
A análise de Dugin peca porque ele é, como Hugo Dionisio refere, um idealista e não um materialista dialético e, portanto, parece não querer perceber que, enquanto a estrutura capitalista se mantiver – reparemos que ele não refere uma única vez de forma substantiva o capitalismo – a estrutura politica, no essencial, continua inalterada e a exploração do trabalho e da vasta maioria da população mundial mantem-se, sejam quais forem as formas politicas assumidas. É apenas uma questão de cosmética justificativa.
Nas sociedades pré-capitalistas já havia, como é obvio, a apropriação da mais valia por uma elite, mas era justificada pela diferença de estatuto entre governantes e governados e daí que, pretensamente, era a organização politica que a determinava.
Com o capitalismo e com o liberalismo que lhe serve de respaldo, dá-se um ‘progresso’ significativo; essa apropriação é justificada pelas transações livremente estabelecidas entre indivíduos, eles próprios livres e iguais, quer dizer há um contrato de trabalho livremente estabelecido entre iguais, alegadamente em beneficio dos dois lados, logo a exploração é mascarada, porque não há exploração direta, como no caso da escravatura ou da servidão da gleba (dos estádios históricos anteriores).
Como consequência imediata deste diferente arranjo, a esfera política pôde ‘aparecer’ como independente da esfera económica e pretende-se por isso – porque aparece como independente – que seja ‘neutral’ e que possa dirimir eventuais conflitos entre os diferentes interesses da sociedade civil, só que esta pretensão é falaciosa porque «de facto», se não de direito, o poder politico está ao serviço de quem detém o poder económico, e só por má fé, ignorância, ou ingenuidade se pode pensar o contrário.
Neste enquadramento, o Estado mediador, em vez de estar no meio, pende de facto para um dos lados, mas isto é ocultado e ignorado; deste modo, “a natureza especificamente capitalista do estado capitalista torna-se opaca.
Toda esta situação aparece omissa na analise de Dugin, portanto, na minha modesta opinião, é mais um a tentar comer-nos por parvos/as. Que faça bom proveito a quem manjar”. Eu já há algum tempo deixei de pagar para esse peditório!!!
Daí que, com ou sem estado profundo (mais ou menos secreto), o que importa é saber onde está o poder económico, quem o controlo e como as pessoas são alienadas da sua capacidade de intervenção nas decisões, políticas, que interessam a todos e que apenas são tomadas por alguns em seu próprio beneficio.
Não estando de acordo com toda a análise, não posso deixar de ver nela algum sentido e actualidade. Acusações de “irregularidade” sempre que as eleições não dão para o lado pretendiodo pelos EUA são já uma prática normal. A assunção de que o ocidente é “liberal” e vive na “ordem baseada em regras” que ninguém sabe quais são, mas sabemos todos quem as faz, também constitui, hoje, uma realidade evidente. Um estado que assuma, desde logo, frontal e abertamente, a sua ideologia de classe e estabeleça as formas governativas que transmitem o poder a essa classe, é um estado mais honesto e menos insidioso do que o totalitarismo invertido, do qual filósofos americanos falaram. Não quer dizer que seja “totalitário” e nãos e enquadre num estadod e direito. Embora numa ordem jurídica com regras substancialmente diferentes. Quem acreditar que o poder de Xi nãos eenquadra na lei e constituição chinesas, ou que os planos quinquenais, as regras institucionais não são criadas de acordo com a lei chinesa, não conhece a China moderna. O liberalismo é o mais totalitário pois, entrando de forma subliminar, escondida, como uma “não ideologia”, como “um pragmatismo”, apanha as pessoas desarmadas e aliena-as de tudo o que é seu: das suas raízes, nacionalidade, género, cultura, produto do seu trabalho, tradições, crenças… Não existe nada mais totalitário do que uma forma governativa que molda inexoravel e de forma subliminar as nossas vidas. Isto está estudado e reflectido por muita gente, incluindo liberais como Ben Chul Han. Para além da atribuição – deterministica – da lógica totalitária ao comunismo e ao socialismo, apenas porque assumem uma ideologia, quando se tratam de ideologias libertadoras e quando o termo “totalitarismo” é uma invenção liberal para atirar contra os governantes que, na maioria democraticamente (porque suportados na vontade popular, com ou sem eleições liberais (as eleições liberasi são uma forma de escolha, apenas isso, a democraticidade está na suscptibilidade de identificação entre o povo e uma forma de governo e a sua aprovação pela praxis diária ou por sistemas sufrágicos), esta análise não faz uma ligação entre a escolha de populismos reacionários, abertamente fascistas e neonazis e a onda de revisionismo histórico que o neliberalismo promoveu, aliando-se, nesse revisionismo à extrema direita. Esse revisionismo, impregnado nos manuais escolares, associado à propaganda anticomunista e antisocialista, porquanto constituírem a única alternativa ao estado capitalista (mesmo que não lhe chamem socialismo, o caminho alternativo passará sempre pela socialização e colectivização da propriedade, por oposição á sua liberalização e privatização), criou as condições, não apenas para a legitimação da ordem neoliberal, mas para a procura de alternativas onde estas não existem e em modos que favoreçam, mesmo assim, as oligarquias. Dugin sabe bem – porque é muito inteligente – que nãos e pode esperard e Trump ou de Meloni, ou Le Pen, políticas de classe a favor dos trabalhadores, que se afirmem através da transição de riqueza produzida, das classes proprietárioas, para o trabalho. E Dugin sabe que, a distribuição de mais riqueza pelos trabalhadores, só pode encontrar-se do lado socialista. Na Itália de Meloni, na Hungria de Orban, a vida do povo continua má. Na Rússia melhora, mas suportada numa imensa propriedade pública, dos sectores estratégicos, e de um potencial instalado e sabedoria histórica, herdados da URSS. Ou seja, com uma contribuição importante de duas coisas: maior grau de socialização da propriedade que possibilita impostos mais baixos mantendo serviços públicos; menor incidência do revisionismo histórico, pois Putin percebe o papel da URSS, memso nãos eidentificando ideologicamente. Mas, como homem pragmático e inteligente, consegue reflectir nos aspectos positivos de muitas das politicas prosseguidas. A educação soviética, de grande qualidade, protege o povo russo do revisionismo do plástico ocidental. Estas relações materiais – tal como a concentraçãod e riqueza a operars-e no ocidnete e cuja tendência na Rússia e China são inversas – são decisivas para se perceber a procura pelos “populistas” de direita. Quanto ao etsdo profundo e às análises que faz, Dugin está correcto noutra coisa: num sistema socialista não existe estado profundo, pois este afirma-se como é; mas num estado fascista, o estado profundo existe na mesma, na medida em que o sistema apresenta-se com uma cara que não é a sua. Basta ver como operavam aqui os fascistas. Mas, memso assim, num estado fascista é mais fácil reconhecer o poder real. A forma mais insidiosa, enganadora e alienadora, a forma superior do sistema capitalista, é a neoliberal. Especialmente o americano, em que uma candidata a presidente necessita de teleprompt nos discursos. E é escolhida apenas e tão só, por ser mulher, o que constitui um desprezo absoluto pelas mulheres e pela sua capacidade e dignidade. Quantas mulheres nos EUA seriam mais capazes de serem presidentes do que Kamala? E quantas estariam dispostas a serem fantoches do poder real? Nesse caso, Trump é mais honesto, é o que é, e pretende não enganar. É interessante que, o aparentemente mais autoritário dos dois, é o que, democráticamente está mais em linha com as pretensões de mudança e é o que mais reflecte as ansiedades de mudança nos EUA. Mas podemos confiar nele? Claro que não. Não apenas pelo que é, mas pelos valores que representa. Nos EUA, este é o máximo a que se pode democraticamente aspirar, em termos de mudança. Bernie Sanders tentou algo mais humanista, e logo lhe disseram os barões neoliberasi que, para isso, preferiam votar Trump. Votar Trump era, para eles, preferível do que votar social democrata. Está tudo dito. Esta “democracia” já não suporta, sequer, a tese da convergência, de que fala Dugin. Apenas admite a acumulação rápida, a pilhagem e a concentração. Os povos terão de se organizar e procurar outros escapes e alternativas ode estas não existam. Não podem esperar grandes mudanças em sistemas eleitorais neoliberais, pois esses estão feitos para a casa ganhar. O máximo a que pode almejar, apenas na Europa e outros países pluripartidários, consiste em paliativos social democratizantes. Mas logo serão derrubados, apesar do seu sucesso económico (vide Portugal e agora Espanha). O problema desta gente não és e a economia cresce, mas para quem cresce. Esta dimensão da organizaçãod as massas também nada diz a Dugin, que olha para a política numa perspectiva messiânica, de cima para baixo, em que as elites dominam a partir de cima as massas. O seu olhar não é ele mesmo democrático. Da´´i que, uma vez mais, venha o erro do totalitarismo socialista ou comunista. Desvios de direita em sistemas detes também existem, desvios autoritários, indisciplina e revisionismos. Contudo, nenhum destes sistemas nasce e cresce sem: organização das massas populares em torno de um projecto e um partido que o aplique; mobilização das classes populares e aliados pela conquista do poder; protecção do poder pela força da maioria, isto é, pela força das massas populares, que conquistam as ruas, as empresas, os meios de produção. Existe algo mais democrático do que um poder construído assim? Claro que não. Só as classes populares unidas vencem a oligarquia minoritária. A maioria vence a minoria e o terreno revolucionário constitui o mais democrático e transparente dos terrenos. Aí revelam-se todas as identidades. Na prática revolucionária e na sua análise concreta, não é possivel esconder a ideologia. Basta analisarmos o PREC em Portugal e o papel que o PS teve. Se assumisse o papel que dizia representar, democraticamente o PREC teria vencido e as forças reacionárias teriam sido eliminadas. Hoje não teriamos uma classe patronal atrasada, reacionária e mesquinha. Na pior das hipóteses ter-se-ia constituído uma burguesia mais progressista e aberta. AO invés, ficámos com as estruturas mentais do antigamente. Essa conquista teria sido amplamente democrática, porque suportada na maioria. O que vem depois da revolução são formas de exercício do poder, mas a fundação desse poder é profundamente democrático. No nosso país, o papel do PS consistiu na rejeição dessa construção democrática e na legitimação, cobarde, insidiosa, do poder reacionário instituído. É por isso que, hoje, 50 anos depois, temos um Chega ou uma IL. Na era liberal, em Portugal, na revolução francesa e americana, também o poder fundacional era democrático. A degeneração democrática deste sistema dá-se porque o capitalismo em que assenta o poder da burguesia, então aliada às classes populares através de promessas de liberdade, igualdade e fraternidade, acaba a subverter a democracia e a promover uma anormalidade e irregularidade democráticas, que favorece a reacção. Engels falou disto e Marx também. A irregularidade democrática em que vivemos (escolha superficial sem projecto; figuras sem projecto e sem vontade própria; partidos que governam com minorias parlamentares suportados no poder da elite; admissãod e partidos fascistas e racistas; ataque à igualdaded e tratamento na comunicação social) favorece a extrema direita e os populismos reacionários e demagógicos. A regularidade democrática, as regras claras, o jogo transparente, protege os revolucionários e os progressistas. Dugin também não foca este aspecto, de que Engels e Marx falaram a respeito da Comuna de Paris. E não fala destas coisas porquê? Porque não é um materialista. Dugin é uma espécie de Hegeliano, que não rejeita a dialética, mas apenas a vê no espírito e na na matéria. E como tal, adopta esta posição messiânica, atribuindo mais importância às figuras do que às relações materiasi subjacentes. Não obstante, o artigo é excelente e tem um enorme potencial para nos fazer pensar e questionar. Não estar de acordo não significa não reconhecer a qualidade da análsie. Apenas não me identifico com os pressupostos. Mas quem sou eu para criticar Dugin?
Excelente comentário. Vou transformar em artigo. 🙂
Obrigada Hugo Dionísio.
Estimo as melhoras