A NATO quer a guerra

(Jeffrey D. Sachs, In Outras Palavras, 15-07-2024)

Em Washington, aliança militar liderada pelos EUA assumiu o giro contra a China, a ampliação do conflito na Ucrânia e o sonho hegemonista dos neocons. O que era arrogância, em 1992, converte-se num delírio muito perigoso. Por quê?


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Em 1992, o excepcionalismo da política externa dos EUA tornou-se ainda mais intenso. Os EUA sempre se consideraram uma nação extraordinária, destinada à liderança, e o fim da União Soviética em dezembro de 1991 convenceu um grupo de ideólogos politicamente comprometidos – que vieram a ser conhecidos como neoconservadores ou neocons – de que o país deveria agora governar o mundo como a única superpotência incontestável. Apesar dos inúmeros desastres da política externa conduzida pelos neoconservadores, a Declaração da OTAN de 2024 continua a promover a agenda desse pequeno grupo, o que leva o mundo para mais perto de uma guerra nuclear.

Os neoconservadores foram originalmente liderados por Richard (“Dick”) Cheney, que era secretário de Defesa em 1992. Todos os presidentes desde então – Clinton, Bush, Obama, Trump e Biden – seguiram a agenda neocon da hegemonia dos EUA, levando Washington a guerras eletivas perpétuas, entre elas as da Sérvia, Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Ucrânia, bem como a expansão implacável da OTAN para o leste, apesar de uma promessa clara feita pelos EUA e pela Alemanha ao presidente soviético Mikhail Gorbachev, em 1990, de que a OTAN não se moveria um centímetro nesse rumo.

A ideia central dos neoconservadores é que os EUA devem ter domínio militar, financeiro, econômico e político sobre qualquer rival em potencial, em qualquer parte do mundo. Ela é direcionada especialmente a potências rivais como a China e a Rússia e, portanto, coloca os EUA em confronto direto com elas. A arrogância norte-americana é impressionante: a maior parte do mundo não quer ser liderada pelos EUA, muito menos por um Estado norte-americano claramente movido pelo militarismo, elitismo e ganância.

O plano neocon para o domínio militar dos EUA foi explicitado no Projeto para um Novo Século Americano. Inclui a expansão incessante da OTAN para o leste e sua transformação: de uma aliança defensiva contra a extinta União Soviética em uma aliança ofensiva voltada a promover a hegemonia dos EUA. A indústria armamentista dos EUA é o principal financiador e apoiador político dos neoconservadores. Ela liderou o lobby para a ampliação da OTAN para o leste a partir da década de 1990. Joe Biden tem sido um neocon convicto desde o início – primeiro como senador, depois como vice-presidente e agora como presidente.

Para alcançar a hegemonia, os planos neocon baseiam-se em operações de mudança de regime da CIA; guerras eletivas lideradas pelos EUA; bases militares dos EUA no exterior (atualmente são cerca de 750, em pelo menos 80 países); militarização de tecnologias avançadas (guerra biológica, inteligência artificial, computação quântica etc.); e uso incansável da guerra de informações.

A busca pela hegemonia dos EUA levou a uma guerra aberta na Ucrânia entre as duas maiores potências nucleares do mundo, a Rússia e os Estados Unidos. A guerra na Ucrânia foi provocada pela determinação incontida dos EUA de expandir a OTAN para a Ucrânia, apesar da fervorosa oposição da Rússia, bem como pela participação dos EUA no violento golpe de Maidan (fevereiro de 2014), que derrubou um governo neutro, e pelo enfraquecimento, pelos EUA, do acordo de Minsk II, que garantia autonomia para as regiões etnicamente russas do leste da Ucrânia.

A Declaração de 2024 considera a OTAN uma aliança defensiva, mas os fatos dizem o contrário. A OTAN envolve-se repetidamente em operações ofensivas, inclusive de mudança de regime. A OTAN liderou o bombardeio da Sérvia para dividir essa nação em duas partes, tendo estabelecido uma importante base militar na região separatista de Kosovo. A OTAN tem desempenhado um papel importante em muitas guerras eletivas dos EUA. Os bombardeios da OTAN na Líbia foram usados para derrubar o governo de Moammar Qaddafi.

A busca dos EUA pela hegemonia, que era arrogante e insensata em 1992, é absolutamente ilusória hoje, uma vez que o país claramente enfrenta rivais formidáveis, capazes de competir com os ele no campo de batalha, na implantação de armas nucleares e no desenvolvimento e implantação de tecnologias avançadas. O PIB da China é hoje cerca de 30% maior do que o dos EUA quando medido a preços internacionais, e a China é a produtora e fornecedora mundial de baixo custo de muitas tecnologias verdes essenciais — incluindo 5G, energia fotovoltaica, energia eólica, veículos elétricos, energia nuclear modular e outras. A produtividade da China tornou-se tão grande que os EUA reclamam do “excesso de capacidade” chinês.

Infelizmente, e de forma alarmante, a declaração da OTAN repete as ilusões dos neoconservadores.

A Declaração declara falsamente que “a Rússia é a única responsável por sua guerra de agressão contra a Ucrânia”, apesar das provocações dos EUA que levaram à eclosão da guerra em 2014.

A Declaração da OTAN reafirma o Artigo 10 do Tratado de Washington, segundo o qual a expansão da aliança para o leste não é da conta da Rússia. No entanto, os EUA nunca aceitariam que a Rússia ou a China estabelecessem uma base militar na fronteira dos EUA (por exemplo, no México), como os EUA declararam pela primeira vez na Doutrina Monroe em 1823 e têm reafirmado seguidamente desde então.

A Declaração de 2024 reafirma o compromisso da OTAN com as tecnologias de biodefesa, apesar das crescentes evidências de que os gastos dos EUA com biodefesa nos chamados Institutos Nacionais de Saúde(NIH) financiaram a criação em laboratório do vírus que pode ter causado a pandemia de Covid-19.

A Declaração da OTAN proclama a intenção de continuar a instalar mísseis antibalísticos Aegis (como já se fez na Polônia, Romênia e Turquia), apesar de a retirada dos EUA do Tratado Anti-Mísseis Balísticos (ABM) e a instalação de mísseis Aegis na Polônia e na Romênia terem desestabilizado profundamente a arquitetura de controle de armas nucleares.

A Declaração da OTAN não expressa nenhum interesse em uma paz negociada para a Ucrânia.

A Declaração de 2024 reforça o “caminho irreversível da Ucrânia para a plena integração euro-atlântica, incluindo a adesão à OTAN”. No entanto, a Rússia nunca aceitará a adesão da Ucrânia à OTAN, e portanto trata-se de um compromisso “irreversível” com a guerra.

Washington Post relata que, na preparação para a cúpula da OTAN, o presidente Joe Biden tinha sérias dúvidas sobre a promessa de um “caminho irreversível” para a adesão da Ucrânia à OTAN, mas seus assessores ignoraram essas preocupações.

Os neoconservadores criaram inúmeros desastres para os EUA e para o mundo, inclusive várias guerras fracassadas, um acúmulo maciço da dívida pública norte-americana impulsionado por trilhões de dólares de gastos militares desnecessários com guerras e o confronto cada vez mais perigoso com a China, a Rússia, o Irã e outros. Os neoconservadores levaram o Relógio do Juízo Final (da guerra nuclear) a apenas 90 segundos para a meia-noite, em comparação com 17 minutos em 1992.

Para o bem da sua segurança e da paz mundial, os EUA devem abandonar imediatamente a busca neocon pela hegemonia em favor da diplomacia e da coexistência pacífica.

Fonte aqui.


JEFFREY D. SACHS

Jeffrey D. Sachs é Professor da Universidade de Columbia, é Diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia e Presidente da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Ele atuou como conselheiro de três secretários-gerais da ONU e atualmente atua como advogado dos ODS sob o secretário-geral António Guterres.

5 pensamentos sobre “A NATO quer a guerra

  1. EXPRO MUNDO JÁ NÃO É O QUE ERA, BASTA UM «PAUZINHO» NA «ENGRENAGEM» PARA O PARALISAR!
    TAL COMO UMA SIMPLES «FAÍSCA» PARA UM GUERRA NUCLEAR PODER SER DESENCADEADA!

    Jornal Expresso:

    Uma falha informática a nível global está a afetar vários setores na manhã desta sexta-feira. De acordo com a BBC, alguns dos mais afetados são a banca, companhias aéreas e meios de comunicação social, com a estação televisiva SkyNews a não conseguir emitir em direto.

    Na Austrália, país particularmente afetado, vários voos foram suspensos e as telecomunicações estão com falhas, tal como os terminais de multibanco nos supermercados.

    Em Berlim, o tráfego aéreo esteve parado até às 8h e também em Espanha vários aeroportos foram afetados.
    Nos EUA, as linhas dos serviços de emergência estão em baixo em estados como Alasca, Arizona, Indiana, Minnesota, New Hampshire e Ohio.

    A causa desta disrupção ainda é desconhecida, mas muitos dos setores afetados relacionam o problema com sistemas da Microsoft, nota também a estação britânica.

    O DownDetector, site que monitoriza apagões informáticos, dá conta de falhas nos serviços de telecomunicações em Portugal, designadamente na Vodafone, Meo e NOS. Além disso, estarão a ser afetados os serviços da Microsoft365, Teams e Azure, estes últimos também ligados à Microsoft, e o banco Santander Portugal.

    Até ao momento, nenhum dos aeroportos está a ser afetado, segundo informação avançada pela ANA – Aeroportos à SIC Notícias.

    Segundo o ‘The Telegraph’, multiplicam-se os relatos de computadores com sistema operacional Windows a desligarem-se subitamente, mostrando o “ecrã azul da morte” e entrando em modo de recuperação.

    “Está a acontecer algo muito estranho neste momento”, avaliou Troy Hunt, investigador de cibersegurança, numa publicação na rede social X citada pelo jornal britânico.

    O especialista considera que este poderá ser o maior apagão informático alguma vez registado. “Não creio que seja demasiado cedo para dizer: esta será a maior falha informática da histórica”, declarou, acrescentando que “o impacto financeiro disto já é difícil de imaginar”.

    O ‘The Telegraph’ refere que estará em causa um problema com um antivírus da empresa de cibersegurança Crowdstrike, que aparentemente está a bloquear os computadores.

    “A Crowdstrike tem conhecimento de relatos de falhas no Windows relacionadas com o Sensor Falcon”, informou a empresa no seu site.

    À NBC, a empresa revelou que o apagão resultou de um problema com a sua última atualização, que a Crowdstrike estará a tentar reverter neste momento a nível mundial.

    O produto da Crowdstrike é, geralmente, apresentado como o primeiro sistema de cibersegurança a utilizar Inteligência Artificial (IA) no seu funcionamento.

    Numa mensagem publicada na X, a Microsoft informou que está a adotar “medidas de mitigação” para os problemas técnicos e interrupções reportados por várias empresas em vários pontos do mundo, estando os serviços da gigante tecnológica “em vias de ser recuperados”.

    O MUNDO JÁ NÃO É O QUE ERA. BASTA UM «PAUZINHO» NA «ENGRENAGEM» PARA O PARALISAR…

  2. Sempre disse que a guerra é inevitável.

    A Terceira Guerra Mundial é um ideal ocidental. Os escolhidos ou “ungidos” da Nato tomaram o poder de assalto, Olaf e o seu gasoduto, Ursula e a Pfizer, e outros,que equipe! Zelensky como modelo de democracia.

    Para a “morte” há sempre dinheiro. Para a “vida” ainda estamos à procura dele!

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