Professor: maldita profissão

(António Guerreiro, in Público, 21/06/2024)

António Guerreiro

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Tal como acontece com outras situações, acontecimentos e misérias que costumam suscitar exclamações de nacionalismo negativo, às avessas, do tipo: “Isto, só neste país”, também a falta de professores não é só neste país, está longe de ser um problema exclusivo de Portugal. A França e a Alemanha – para mencionar as duas grandes potências da União Europeia – estão actualmente a viver o mesmo problema.

Lá, como cá, o prestígio da profissão de professor é uma coisa do passado, de um tempo em que os professores podiam não ser um grupo profissional muito bem pago, mas faziam parte de uma burguesia que tinha outros privilégios (por exemplo: tempo e autonomia), entretanto suprimidos. Não fazendo já parte de uma burguesia que goza de um excedente de tempo (férias longas, horários semanais curtos), os professores tornaram-se uma classe proletarizada. Pior do que isso: uma classe sujeita a violência, permanentemente confrontada com as suas próprias impossibilidades e com as impossibilidades da instituição-escola.

Estas considerações sobre tal assunto nasceram da circunstância de ter visto e ouvido, há alguns dias, num jornal televisivo, dois ilustres professores a comentar as recentes medidas deste governo para tentar resolver o problema da falta de professores: um, António Carlos Cortez professor de Língua Portuguesa e Literatura Portuguesa no Colégio Moderno (também poeta, crítico e ensaísta); o outro, Nuno Crato, professor universitário, ministro da Educação entre 2011 e 2015. Ambos são muitas vezes convocados para falar publicamente sobre assuntos da escola e da educação, e ambos (cada um à sua maneira; no caso de Nuno Crato, à maneira de ex-ministro que se isenta de quaisquer responsabilidades) dizem coisas muito sensatas, que os cidadãos gostam de ouvir. Este é aliás um domínio em que todos têm qualquer coisa a dizer porque toda a gente passou pela escola. Essas coisas sensatas ditas pelos que acumularam experiência e saber nesta matéria referem-se geralmente à transmissão do saber e à formação e informação, numa perspectiva que evoca quase sempre um discreto humanismo e alguma nostalgia.

Chama-me a atenção nestes discursos o facto de quem os profere dar uma ideia da escola como se ela fosse toda a mesma, como se entre o Colégio Moderno e uma escola das periferias urbanas não houvesse um muro invisível a separá-los, como se as questões da “superestrutura” pedagógica (relacionadas com programas, matérias, horizontes de saber, ideologias tecnocráticas) pudessem ser transferidas de um lado para o outro, pressupondo uma ideal comunidade escolar isenta das fronteiras que passam no interior das cidades e até no interior de muitas escolas. A escola – e aí reside um grande problema – não é uniforme, ao contrário do que parecem sugerir os discursos sempre muito bem-intencionados e muito sensatos destes professores. A escola é, pelo contrário, muito diversa – terrivelmente diversa. E um professor do Colégio Moderno que fizesse uma viagem a algumas escolas que se situassem pouco mais à frente, no mesmo eixo urbano, sentiria certamente uma grande estranheza. Se lá ficasse por uns dias, em missão de professor, iria perceber que a escola se impõe como uma experiência física total. E talvez lamentasse não ter tido, na sua formação de professor, sessões de ortofonia. Também iria perceber que o seu desencanto de longa data é, ainda assim, um luxo decadentista a que nem todos os professores têm direito. O desencanto é uma espécie de spleen, uma afectação que tem o seu elemento diletante.

Dizer que a escola não é uniforme é dizer pouco. A luta de classes pode ter desaparecido, até nas fábricas, nos anos 80 do século passado. Mas na escola ela persiste e não dá sinais de abrandar.

Nathalie Quintane, uma consagrada escritora francesa e professora numa escola no sul de França, narrou a sua “epopeia”, em versos livres, enquanto aluna, estudante e professora, ao longo dos mais de trinta anos em que atravessou o vasto território da “Éducation Nationale”. Trata-se de um livro de 2021, intitulado Um hamster à l’école. É como um hamster que esta professora se sente: alguém que faz a roda girar a grande velocidade e que fica extremamente concentrada no efeito de óptica que a velocidade produz. A imagem do hamster exprime uma surda estranheza face ao estatuto de professora. Se não fosse o seu investimento na literatura, confessou Nathalie Quintane numa entrevista, “acho que teria mergulhado numa longa depressão, mais ou menos denegada”.


5 pensamentos sobre “Professor: maldita profissão

  1. Agora uma coisa de outro tempo até poderia e deveria voltar eram as casas de função dado que não se pensa desistir de mandar os docentes para cascos de rolha.Evitavam se barbaridades como professores a viver em tendas ou no carro.

  2. Ser professor e uma carga de trabalhos.Temos uma certa direita que acha que tudo se resume a uma falta de autoridade dos professores.
    Deixassem os profs voltar a castigar os malandros com a menina dos cinco olhos e tudo estaria resolvido.
    Haveria novamente um mar de gente a querer ser professor.
    Ora o buraco e mais em baixo.
    O problema e essa aberração de colocar professores do Sul no Norte e do Norte no Sul.
    De fazer os desgraçados ter de concorrer todos os anos e num ano poderem ir parar ao Minho e no outro ao Algarve.
    Conheci um sujeito de Campo Maior que num ano foi colocado no o Norte, no ano seguinte em Portimão e no outro ano em Vila Real de Santo Antônio.
    Se todos os anos precisam do mesmo número de professores numa determinada escola porque e que um professor chega a levar 20 anos a correr portugal de les a les até finalmente se efectivar?
    Dizia essa pobre criatura de Campo Maior que a sorte e que ele gostava do que fazia pois que podia estar descansado na sua terra a trabalhar para o Nabeiro.
    Não se queixava o homem da tal falta de autoridade de quê fala a direita até porque era senhor de 1;90 e 120 quilos.
    Mas queixava se de relatórios intermináveis que o faziam perder o tempo e o feitio. E,claro,da vida de saltimbanco que se tornava ainda mais penosa pelo facto de ter mulher e dois filhos.
    E cá me parece que se não fosse muita malta ser mesmo carola,a falta de profs seria ainda pior.
    Alguma coisa vai ter mesmo que mudar.E nao passa pelo regresso da menina dos cinco olhos.

  3. Agora percebo porque é que Cavaco Silva, apesar das dificuldades financeiras decorrentes da sua minguada reforma, não responde ao apelo do ministério da educação para dar umas aulas como professor reformado. Deve ter medo de ir parar ao Prior Velho, onde os alunos se soldarizariam com o seu triste fado ou aos Maristas onde a clientela abominaria a sua degradação socio-económica. Preso entre estes dois receios, passou a ter dúvidas e não se consegue decidir.

  4. Acompanhei de perto a formação da minha filha,e vi de tudo…É como o modelo social, o dinheiro que “falta”, não existe, mas vai para o sector rico, como se precisasse.
    Nos países onde a escola desempenha o seu papel, a educação não é um objeto político com o qual os responsáveis possam brincar! Brincar com o futuro de um país é simplesmente irresponsável.
    Sim, o liberalismo é para onde nos querem levar… Abrir caminho ao sector privado, aos bobos e a todas as suas castas para acabar lentamente com os serviços públicos como a educação, a saúde, para privatizar… em suma, o capitalismo, sempre capitalista. O dinheiro torna-se cada vez mais um flagelo à medida que o tempo passa, porque actualmente tudo está concentrado e orientado a esse nível.

    Desde então, a depreciação sistemática dos valores sociais, humanos, culturais e intelectuais pelo discurso comercial inverteu radicalmente esta relação entre a escola e o resto da sociedade. Anúncios, entretenimento, histórias de “self-made men” que ridicularizam a escola, professores apresentados como perdedores incapazes de ganhar dinheiro, glorificação do egoísmo, do cinismo e da ganância, desvalorização sistemática do social, do comum, do coletivo, apologia comercial da “quebra de códigos” em todos os anúncios… etc… etc…
    As crianças de hoje estão constantemente sujeitas a uma quantidade desmesurada de propaganda, obscenamente financiada por um negócio sem fé nem lei, e que sistematicamente destrói os valores que a escola é suposto transmitir.

    De facto de a educação nacional estar a ser descurada, infelizmente, é muito simples: a educação não permite que o PIB cresça, por isso aparecem umas reformas mal feitas, com a intromissão de empresas privadas, para dar lições de como formar futuros trabalhadores bem formatados e operacionais.
    Tudo começou muito antes disso, com a denegação das ciências humanas e sociais. Tudo começou aí!

    É pena que os professores reajam sempre apenas de forma epidérmica e emocional. Um sentimento não é suficiente para resolver uma crise. É preciso ser capaz de se desligar do que nos rodeia para sermos mais convincentemente objectivos. É preciso sair do papel de burocrata, no sentido administrativo, e tomar uma posição unânime. Unir todos numa só voz e enterrar as competições mesquinhas. E não se contentar em recolher experiências apresentadas como sacrifícios, boa vontade em nome de pequenas vitórias.

    Se as coisas estão realmente a correr mal (e penso que estão há muito tempo), então as greves não são uma resposta viável. Um verdadeiro movimento de professores deveria ser capaz de paralisar o país (uma vez que as escolas funcionam como creche nacional para a força de trabalho do país, cujo único capricho é enviar todos os “cidadãos” legalmente activos para o trabalho, a fim de engrossar os cofres da elite e consolidar a escravatura social em nome do Capital), recusando-se a receber crianças em condições tão degradantes e deletérias! Por exemplo, os camponeses: quando se revoltam, bloqueiam uma parte da economia.

    Dizer que as escolas são democráticas, igualitárias e todas essas tretas é não saber do que se está a falar… A obrigação contradiz essa propaganda. É ainda mais ERRADO conhecer a história da escola e a sua invenção puramente utilitária ao serviço de sucessivas políticas como instrumento de manipulação do povo. E depois, não há nada de fraterno em juntar pás cheias de crianças, para as repreender sempre que saem de um molde não só pobre mas também tão estreito como o ensino privado denunciado.

    A nossa sociedade é o fruto da escola… A escola está ela própria ao serviço do capitalismo que finge denunciar. Por ignorância? Isso é fácil.

    A escola está mais do que intimamente ligada ao determinismo social, uma vez que confirma as aspirações das elites, porque é fabricada e dirigida por elas, a coberto de uma publicidade demagógica.

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