Portugal é uma Ilha?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 22/02/2024)

(Este texto é revelador da insignificância dos nossos políticos e do espectáculo de martionetas que são os debates e a camapnha eleitoral. Sobre o que se passa na cena internacional os nossos políticos nada têm a dizer. A razão é simples: Portugal não risca nada a esse nível: somos uma colónia das mais pequenas e fazemos o que os mandantes ordenam. Mas, ao menos, podiam ter a honestidade de não prometer níveis de crescimento miríficos para a economia – alicerçados na panaceia estafada do choque fiscal -, sem saberem quais os planos de Bruxelas, do BCE, de Washington, e já agora, de Moscovo.

Estátua de Sal, 24/02/2024)


Portugal é uma Ilha? Quem ouvir os jornalistas que interrogam os políticos em campanha e o enxame de comentadores que esvoaçam sobre eles como moscas varejeiras só pode concluir que sim. E mais, uma ilha fora do tempo e do espaço, por onde não passam correntes marítimas nem anticiclones. Um território no meio do nada.

Ouvindo os assuntos que os jornalistas e respetivos enxames colocam aos políticos descobrimos que Portugal não sofre influências externas — não ouvi uma única questão sobre os impacto da guerra na Ucrânia, nem do genocídio de Gaza, nem da ação dos guerrilheiros d Iémen sobre as rotas marítimas do comércio, nem sobre as consequências do corte da Europa Ocidental coma Rússia, nem da desindustrialização e deslocalização das indústrias alemãs, o motor europeu, nem sobre a emergência dos BRICs e a nova moeda de troca mundial, nem sobre a má relação da União Europeia com o Mercosul, nem sobre o conflito no interior da oligarquia dos Estados Unidos entre os adeptos da intervenção externa como motor da economia (Democratas, maioritariamente) e os adeptos do investimento interno (Republicanos maioritariamente), nem sobre a relação entre o Euro e o Dólar, nem sobre a política do BCE (que é decisiva para a questão da habitação, por exemplo), nem sobre os pesadíssimos investimentos previstos na Europa para despesas militares a pretexto de uma ameaça de invasão Russa que tem sido difundida, em detrimento de investimentos produtivos.

Portugal é uma ilha? Parece que sim. Tudo é prometido sem que seja formulada a questão: como? Já agora, como vai ser mantido o turismo no Algarve sem água? E que impacto é que tem a redução do IVA na restauração se não tivermos clientes para se “restaurarem”?

O que responderá um dirigente político à pergunta: Quanto oferece de aumento de salários, seja o mínimo, o médio, o do setor privado ou da função pública, se o governo não controla nenhum dos fatores do custo de vida, se estes dependem da situação mundial, das guerras, das alianças, da bolsa de valores de Wall Street? No entendimento dos fotógrafos à la minute que surgem nos ecrãs nem vale a pena perguntar, nem comentar o que não foi dito. Penso que terá sido Cícero quem escreveu que o inimigo da verdade não é apenas a mentira, mas principalmente o silêncio.

O silêncio sobre os fatores determinantes do que está em jogo nas eleições é revelador da manipulação a que estamos sujeitos, levando-nos a discutir o puzzle de arranjos para formar um governo, se A casa com B e rejeita C. Se B não casa com C, mas se junta e conta com a complacência da sogra de A. É disto e sobre isto que se desenrola a campanha de esclarecimento. Histórias de becos e de vão de escada, de vidas comezinhas.

A alegoria da gruta de Platão é uma história retirada de A República, em que nos pedem para imaginar uma espécie de caverna subterrânea em que os seres humanos vivessem como prisioneiros desde sempre e possui uma parede de modo a que eles vejam somente o que se passa na parede paralela. Sombras do que os estão no exterior querem que eles entendam como realidade, a única imagem que os prisioneiros conseguem ver. Os de fora falam e gritam, criando ecos que os prisioneiros podem ouvir. Sombras e ecos são projeções distorcidas das imagens e dos sons reais. Saramago recriou de certo modo esta alegoria de sermos colocados em modo de ilusão em Ensaio Sobre a Cegueira.

Não abordar a questão da dependência de Portugal do estado do Mundo é fazer dos portugueses prisioneiros cegos. A melhor apreciação dos que criam este silêncio é o de ignorantes. A outra é a de manipuladores que utilizam a ignorância do seu público para lhes venderem ilusões.


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4 pensamentos sobre “Portugal é uma Ilha?

  1. E a colonização vai nos custar isto:

    A ESCASSEZ DE QUASE TUDO VAI SE TORNAR UMA NORMA…

    Bem, não quero ser pessimista do que todas as notícias de hoje, porque estamos apenas no início de uma gestão da escassez e dos recursos (água, petróleo, areia, metais, terras raras,etc,etc…). Ninguém quer ouvi-lo e, sobretudo, os nossos Políticos…Nós (nem todos) já sentimos isso.
    O Soylent Green foi um filme de ficção científica, mas acima de tudo um filme de antecipação. Esta realidade pela qual todos somos responsáveis e que nos recusamos a admitir, será cada vez mais complicada com o passar do tempo, especialmente porque nada está a ser feito para abrandar esta loucura Mortal.

    Hoje, os supermercados estão cheios de produtos e, especialmente, produtos baratos. Esquecemo-nos de quanto custa alimentar-nos e, mais ainda, alimentar-nos bem.
    Também a escassez de medicamentos é cada vez maior,mas ninguém dá importancia a isso,excepto quando precisam deles…
    Os hospitais farão muita falta então!

    E se existe alguma coisa, é porque há alguma energia e matérias-primas para o fazer.
    Não fico impressionado com estes assuntos, mas aliviado ao ver que as minhas reflexões não estavam isoladas. Por vezes, sinto-me só quando menciono estes temas à minha volta, as pessoas preferem esconder a realidade para continuar a “desfrutar” deste conforto excessivo.

    Não estou particularmente optimista face à procura de bodes expiatórios que estamos a ver para que o sistema capitalista continue com esta fuga. Mas constato a esperança da procura de sentido e de comunidade com que mudar e voltar ao básico.

    Os problemas económicos só existem porque há dinheiro que separa as pessoas através do confisco e da organização capitalista anárquica!

    Quanto à imensa inércia dos sistemas existentes e aos limites com que a transição energética nos confrontará inevitavelmente.
    O maior obstáculo à transição energética e “ecológica” é a enormidade dos investimentos feitos nos sistemas (de qualquer ordem) estabelecidos a nível global e por corolário da sua imensa inércia (de qualquer ordem também).

    Temos realmente de perceber que a “escassez” para os Portugueses é muitas vezes a norma noutros lugares, mesmo o luxo quando deixamos o continente europeu. Seria sensato definir prioridades, distinguir o essencial / o útil / o acessório / o fútil / o prejudicial.

    Teremos de aprender a ser autônomos, coloquem as mãos no chão, se possível, em grupo (não é fácil motivar as pessoas que preferem o sofá e a televisão). Não devemos acreditar que seremos imunes à realidade por muito tempo, a realidade física do mundo está a aproximar-se de nós…
    E, claramente, se não fizermos nada é energia abundante para a classe dominante e nada para os outros..
    Temos de acrescentar o problema da inflação .

    Os nossos dirigentes, um pouco acima do solo, não compreendem a escassez porque não estão preocupados com o aumento de 40 % a 60% no cabaz das famílias, esta despesa não representa muito no seu orçamento.

    Vamos ter de comer menos carne ou nenhuma,e peixe de modo igual… Mas alguns já estão a comer muitos produtos à base de carne, dado o aumento dos preços. E já posso dizer-vos o que vai acontecer nos próximos anos: A carne vai tornar-se cada vez mais rara, cada vez mais cara; e só os ricos vão continuar a devorar-se de bife de costela grelhado e de outros filetes gourmet!

    E vai ser exactamente o mesmo para os medicamentos, para a energia …. Talvez o povo se revoltará e tudo dependerá então da capacidade do estado repressivo de responder à mobilização!

    Outro grande problema vai surgir durante a escassez. Egoísmo e falta de civilidade.
    Espero estar errado, mas a dinâmica está a provar que estou certo!!
    Para mim, não é uma visão muito sombria do futuro, porque mostra o que é provável que aconteça!!!! Por conseguinte, obriga-me a reflectir sobre o que deve ser feito ou considerado para limitar os efeitos destas carências e não sofrer “o declínio”.

    Em Portugal e no resto da europa, os Portugueses vivem em um conforto ilusório no crédito graças à dívida e a economia, o PIB e o crescimento são artificiais. Os Portugueses terão de começar a trabalhar e a produzir riqueza para regressar a um sistema baseado numa realidade económica.
    Devemos falar cada vez mais destas questões e não necessariamente de ambientalistas fundamentalistas. Hoje pensamos que estamos longe deste cenário, mas numa visão económica e social mais detalhada tudo o que tenho dito acontecerá porque é inevitável.

    O verdadeiro problema é que estamos a aplicar remendos a curto prazo.
    Durante mais alguns anos, os EUA terão o privilégio da moeda. É a única razão pela qual podem gerir grandes défices sem grandes problemas. Mas atenção, este privilégio está a ser corroído à medida que as transacções em dólares diminuem face à concorrência dos Brics.
    Temos também de deixar de comprar petróleo russo aos indianos e à Arábia Saudita. E pagar uma grande margem por isso.
    Com um défice de 0,5% e um enorme défice comercial, já não podemos contrair empréstimos sem limites nos mercados. É esse o problema.

    A dívida está a crescer 3 ou 4 vezes mais depressa do que o PIB…
    Portugal não está a gastar para investir e produzir mais. Pelo contrário, Portugal está a gastar para produzir menos.

    O problema da dívida não é apenas contabilístico e de juros como eu na minha conta bancária. Mas as pessoas a quem Portugal pede emprestado são as mesmas pessoas que são donas das empresas, que têm dinheiro na bolsa e que influenciam as políticas públicas … dirigem os estados.

    Portugal vai seguir modelo americano …. entre o esforço ecológico e a segurança social, receio que os dois últimos não apareçam em nenhum dicionário ultra-capitalista…

    Parece-me, pela minha parte, que os parasitas burgueses-capitalistas conhecem as consequências das leis e decisões que tomam e que o efeito desejado é empobrecer-nos, precarizar-nos, colocar-nos de joelhos, incluindo entre países, impedir-nos de nos organizarmos denegrindo-nos e tudo isto para melhor nos manipular, para nos deitar abaixo!

    O problema para os políticos é a antecipação ou não do problema. Hoje, com os problemas actuais,(Guerras,Desdolarização,escassez de energia, declínio do ocidente etc,etc) é evidente que não se trata tanto de negar ou mentir.
    Não estou certo de que a maioria dos nossos concidadãos esteja disposta a abrandar o consumo de carne, gasolina, telemóveis, etc… E constato, infelizmente, que a velha geração dos anos 70, da qual faço parte, é vigorosamente egoísta.

    Portugal e o ocidente cavaram a sua própria sepultura.

    Ainda por cima temos o mesmo problema em Portugal e em toda a Europa, não é verdade? (Educação, envelhecimento, saúde pública, etc.). Degradação geral dos serviços públicos… e limitação da iniciativa privada aos “serviços” financeiros e/ou turísticos (para uma única classe social, a classe média alta (Não todos) e as oligarquias no poder, todas endogâmicas).

    Centenas de biliões para subsidiar os grandes industriais: não há problema, biliões para engordar consultoras: não há problema. dezenas de biliões para engordar o zelenski: não há problema, mas para financiar escolas, hospitais e serviços sociais: ah não, precisamos de poupar dinheiro!

    Os EUA sempre usaram uma propaganda terrível para fazer a guerra, a UE é a cabeça da ponte do império americano e vão usar-nos como fizeram com a Ucrânia.
    A segurança social vai acabar… em breve. Tudo vai ser destruído, já está muito avançado. O que estou a dizer é um disparate, basta ver o que estão a ousar fazer em Gaza … o horror, os terroristas do Hamas são filhos do coração face a décadas de terrorismo dos colonos: esta terra, esta casa já não é vossa, é minha, não é terrorismo; tudo isto encoberto pela nação muito religiosa US In god we trust, é a sua Liberdade igualdade fraternidade aqui já não faz sentido vamos ter de marchar de cabeça baixa sob as ordens da alemã Ursula…

    O nosso país está a afundar-se. Tenho a impressão de que estamos todos mais ou menos de acordo. Todos o vêem, sentem-no… exceto as nossas elites. A certa altura, temos de deixar de tomar as pessoas por idiotas.

    De onde virão as próximas poupanças? Já temos um sistema de saúde a cair aos bocados. Uma polícia sem recursos humanos e muito menos equipamentos. Um exército em mau estado de conservação. Edifícios públicos que rivalizam com os melhores da Coreia do Norte. Um sistema de ensino que só sobrevive graças à boa vontade dos professores… Há também o estado das estradas e o monte de lixo. Em suma, todo o serviço público está a cair na ruína!

    O que acho mais preocupante é o facto de os políticos estar constantemente a colocar as pessoas umas contra as outras .
    Dividir para conquistar, como diz o ditado!
    Ao dividir a sociedade desta forma, esperam impedir que todos se unam, colocando-nos em “caixas” separadas, impedindo-nos de ver que todos temos os mesmos problemas e que, no final, todos temos o mesmo objetivo.

    Para manter o poder e o dinheiro, estes corruptos organizaram um sistema de classes bem definido: para isso, é imperativo que a população seja ignorante e mantida impotente…

  2. Caríssimo Carlos Matos Gomes: É sempre um prazer ler o que aqui escreve, de forma clara e com rara lucidez sobre o mundo em que vivemos.
    Permita-me que lhe assinale nesta crónica um pequeno erro de referência: Não é em “Ensaio sobre a Cegueira” que Saramago descreve a alegoria da caverna, mas sim no romance “A Caverna”.

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