O estranho desaparecimento da OSCE

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 03/12/2022)

O que aconteceu à OSCE? Finou-se em segredo! Raptaram-na? O desaparecimento da OSCE tem um significado: a tentativa dos EUA de impedir o multilateralismo nas relações internacionais.

A guerra na Ucrânia, é um dos resultados do desaparecimento da OSCE e da reposição da ordem bipolar — bons e maus; nós e os outros — da guerra fria. O desaparecimento sem dor nem deixar rasto da OSCE é a vitória da política de confronto, de alinhamentos, da ideia de quem não é por mim é conta mim, da visão do mundo a preto e branco. Os atuais dirigentes europeus enfiaram a Europa nesse beco sem nada terem perguntado aos europeus. Antes pelo contrário, ludibriando-os, iludindo-os, metendo questões inconvenientes debaixo do tapete. Onde está OSCE?

A OSCE — a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa — desapareceu. Segundo as notícias antigas, incluindo do governo português no seu site, a dita criatura havia nascido na sequência de um processo político, iniciado em 1973, intitulado “Conferência para a Segurança e Cooperação na Europa” (CSCE), que visava melhorar o clima entre o bloco soviético e o bloco NATO, e reforçado em 1990, com a “Carta de Paris para uma nova Europa”, adotada na sequência do fim da União Soviética.

A OSCE tornou-se numa organização com sede e instituições permanentes a 1 de janeiro de 1995. A OSCE, segundo os arquivos, era um fórum político e de segurança que procurava, “de forma cooperativa e através do consenso, promover a paz, a democracia e os direitos humanos.” A organização, segundo os seus pais fundadores, destacar-se-ia pela sua abordagem abrangente, recorrendo a instrumentos como a diplomacia preventiva, a gestão de crises, medidas de criação de confiança e reabilitação pós-conflito. Segundo as últimas notícias trabalhavam nesta organização de que se desconhece o paradeiro cerca de 2500 funcionários, entre eles um Secretário-geral. Todos desaparecidos!

Lembrei-me da OSCE a propósito do papel dela na Conferência de Helsínquia onde, entre vários assuntos relativos ao conflito Leste-Oeste e à Guerra Fria, ao controlo de armamentos e à divisão do mundo em zonas de influência foi decidido o futuro regime de Portugal que seria implantado a 25 de Novembro de 1975.

A atual guerra na Ucrânia seria uma oportunidade para a intervenção da OSCE — afinal trata-se de um conflito na Europa. Mas nada. Já no ataque da NATO à Sérvia e ao desmantelamento da Jugoslávia a OSCE não fora vista.

A “Ata Final de Helsínquia”, assinada em 1975, foi considerada a maior conquista da diplomacia da época, prenúncio de uma nova era nas relações Leste-Oeste. No entanto, desde então, os problemas aumentaram na Europa com o final do período soviético e a OSCE foi sendo substituída pelos Estados Unidos na condução do processo da Guerra Fria.

Em1990 ainda decorreu uma cimeira da estrutura, que passou designar-se “Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa” (CSCE), que incluía os países da NATO e os do Pacto de Varsóvia. A cimeira adotou em Paris a “Carta para uma Nova Europa” (Carta de Paris) que deveria marcar o fim da “era de confronto e divisão do continente’, e proclamou a eliminação de obstáculos à construção de uma verdadeira “casa europeia comum” sem linhas divisórias.

O facto é que o “Ocidente” não tomaria nenhuma atitude para transformar esses compromissos em ações concretas. A opinião pública ocidental fora iludida na crença “do fim da História” com a vitória da democracia liberal, mas os líderes sabiam a verdade: a História é um continuo de ações de força. Ainda em Paris e em 1990, o então Secretário de Estado dos EUA, John Baker, advertiu o presidente dos EUA de que “é precisamente a Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa que pode representar uma ameaça real para a NATO” (e a NATO era a máscara dos EUA).

De facto, no final da Guerra Fria, muitos políticos e cientistas políticos sensatos e previdentes consideravam ser melhor abandonar agora não só o Pacto de Varsóvia, que já havia desaparecido naquela época, mas também a Aliança do Atlântico, e fazer todo o possível para garantir que a OSCE se tornasse uma verdadeira ponte entre o Oriente e o Ocidente, uma plataforma para a alcançar objetivos comuns baseados no equilíbrio dos interesses de cada um dos participantes.

O problema é que esse objetivo da OSCE ia contra os interesses de domínio dos EUA sobre o Ocidente, o que explica o rumo seguido que foi o do alargamento da NATO, retirando a importância do significado principal da OSCE como instrumento coletivo para garantir uma segurança igual e indivisível entre as duas antigas europas.

Era importante para os Estados Unidos provar quem era o dono da casa europeia comum, que todos se comprometeram coletivamente a construir. O papel do Reino Unido foi o de dificultar a afirmação europeia e de agir como o perturbador ao serviço dos EUA: foi assim nas questões do alargamento da União Europeia sem cuidar dos princípios (o que conduziu aos atuais conflitos com a Polónia, a Hungria e os estados bálticos), do alargamento da NATO, da agressão contra a Jugoslávia (violando os princípios da OSCE estabelecidos em Helsínquia) até que, cumprido o seu papel de cavalo de Troia, o Reino Unido sai pela porta pequena do Brexit.

É interessante verificar o resultado dos compromissos obtidos pela OSCE: Em 1999 foi a adotada, em Istambul, a Carta de Segurança Europeia e o Tratado sobre Forças Armadas Convencionais (CFE), que fora renegociado depois do desaparecimento do Pacto de Varsóvia. Após negociações difíceis, o Tratado CFE foi assinado em 1999 em Istambul. Em seguida, foi aprovada a Carta para a Segurança Europeia, reconhecida como “a pedra angular da segurança europeia”. Os Estados Unidos proibiram os seus aliados de ratificar o Tratado CFE e retiraram-se do Tratado de Limitação de Sistemas de Mísseis Antibalísticos, Eliminação de Mísseis de Alcance Intermediário e de Curto Alcance, e também recusaram o “Tratado de Céus Abertos”. A OSCE assistiu a tudo como se nada lhe dissesse respeito. Os europeus obedeceram.

A OSCE foi o fórum onde se estabeleceram e acordaram os princípios de que a segurança dos Estados deve ser igual e indivisível, de que cada Estado tinha o direito de escolher alianças, mas ao mesmo tempo não tinha o direito de garantir a sua própria segurança em detrimento da segurança dos outros. Uma declaração importante foi a de que nenhum país ou grupo de países tem o direito de reivindicar um papel exclusivo no campo da segurança na área euro-atlântica. Mas a OSCE desapareceu enquanto os Estados Unidos conduziam a expansão da sua zona de ação para Leste com a adesão à NATO de novos Estados, de 16 para 30 e o avanço das suas fronteiras de cerca de mil quilómetros para Leste, com a integração da Polónia, da Hungria, da Roménia e dos países Bálticos, aos quais se acrescentariam mais mil quilómetros com a integração da Ucrânia, que os Estados Unidos estavam a promover com clareza e determinação desde 2014, dos acontecimentos da praça Maidan e que levaram ao poder Zelensiki como seu homem e dos oligarcas aliados de Washington. Para a história ficaria a frase “Fuck the Europeen Union” proferida em Fevereiro de 2014 por Vitoria Nuland, ao tempo diplomata do departamento de Estado e atual subsecretária de Estado, numa conversa telefónica com o embaixador americano em Kiev sobre o futuro do país.

Utilizando uma blague que infelizmente não será tão desajustada à realidade como devia ser, os cidadãos das democracias liberais distinguem-se dos cidadãos das democracias iliberais por terem os mesmos direitos dos monarcas britânicos: serem informados. Utilizando esse direito, os cidadãos europeus têm o direito de perguntar aos políticos europeus o que fizeram da OSCE. É que, além de terem enclausurado em parte incerta a OSCE, os políticos europeus têm aberto outros clubes e tertúlias de acesso privado, deque se sabe pouco mais do que o nome na porta.

O que é a “Comunidade Política Europeia” que teve uma reunião inaugural em Praga? O que é a “Cimeira da Democracia” convocada pelos Estados Unidos? Se a Europa dispõe de uma estrutura inclusiva, a OSCE, e no formato global existe a ONU, para que multiplicar organizações, capelas e capelinhas, a não ser para dividir e para inviabilizar soluções consensuais, multilaterais, democráticas e não sujeitas a uma lógica de bipolarismo, que apenas interessa aos EUA?

Ao menos anunciem o funeral da OSCE e o local da sepultura. Aqui Jaz mais uma utopia de uma Europa! Quanto à Europa Ocidental, esta resume-se hoje a ser uma parcela da NATO, a um “espaço” e um “teatro de operações”, a “uma acompanhante de luxo” dos EUA, uma empresa que durante a sua existência dificilmente se consegue registrar pelo menos uma “história de sucesso” real para si mesma, da agressão contra a Sérvia e a Líbia à invasão do Iraque, dos vinte anos de ocupação do Afeganistão aos continuados problemas no Kosovo.

A opção da Europa pela NATO, uma aliança militar, com uma inegável sujeição ao domínio político, económico e estratégico de uma potência hegemónica, os EUA, em detrimento do reforço da pertença à OSCE, a uma organização multilateral inclusiva, para segurança e cooperação, os atuais líderes europeus optaram pela sujeição, pelo bipolarismo americano contra o resto do mundo, em que são figurantes, em vez do multilateralismo em que podiam ser atores.

Os cidadãos europeus ficaram, democraticamente, arredados da decisão e nem sequer tiveram direito a informação, mas sim a bombardeamento informativo e manipulação em doses cavalares. Somos, os europeus, os bagageiros dos que mandam!


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O fim do começo e o começo do fim

(Por Batiushka, Reseau Internationale. 03/12/2022, Tradução Google Tradutor)

 “Deus não está na força, mas na verdade” (Santo Alexandre Nevsky)

Introdução: Quanto tempo mais?

Muitos se perguntam quanto tempo mais durará a guerra dos EUA contra a Rússia, Bielo-Rússia e Ucrânia? Alguns dizem mais dois ou três meses, outros muito mais, até cinco anos ou mais. Por minhas próprias razões, digo mais dezoito meses, até 5 de maio de 2024. O que quer que você pense, tudo depende de até que ponto a elite neocon/neoliberal da América, por meio de seus aliados da OTAN, em particular o Reino Unido, a seita Zelensky e seus assassinos de aluguel (os ”  mercenários – porque restam poucos nacionalistas de Kyiv para lutar), querem intensificar sua guerra. E eles terminam, e é por isso que nem tudo terminou em março passado, quando poderia. Em outras palavras, o quanto a elite americana deseja que seus povos subjugados na América do Norte, Europa Ocidental e Ucrânia sofram?

Parece que a elite americana quer que eles sofram até que estejam todos mortos. Mas isso não vai acontecer, porque o vento mudará, muito, muito antes disso. De fato, na Ucrânia de hoje, onde a energia e a água são limitadas, algumas tendências já estão se invertendo. E mesmo as pessoas famintas e geladas da Europa Ocidental e da América do Norte também estão se transformando. O que a elite quer e o que o povo, especialmente na Ucrânia, aceitará são duas coisas diferentes. Tudo poderia acabar amanhã, se a elite quisesse. É muito mais provável que demore algum tempo, porque a guerra não é entre a Ucrânia e a Rússia, mas entre os Estados Unidos e a Rússia. A Ucrânia é apenas o campo de batalha. Não, repito, espere pacientemente até maio de 2024.

Mil anos de inferno

O que nunca aconteceu entre 1857 e 1945 aconteceu: a guerra entre o Império Russo e a Grã-Bretanha. (Aconteceu em Sevastopol em 1856, e a Rússia ainda não fez o establishment britânico pagar o preço de sangue por isso). O que nunca aconteceu entre 1945 e 1991 aconteceu: A guerra entre a URSS e os Estados Unidos. É verdade que o Império Russo/URSS agora é chamado de Federação Russa e a Grã-Bretanha/Estados Unidos agora é chamada de ”  OTAN (na verdade, são principalmente gangues de mercenários internacionais) e que o campo de batalha é a fronteira sudoeste do antigo Império Russo/União Soviética, agora chamada de Ucrânia. E o motivo não é a disputa entre capitalismo anglo-saxão e monarquia/comunismo, mas entre a tirania global dos oligarcas e a liberdade e soberania dos povos do mundo. É o conflito entre o Pouco e o Muito.

O mundo ocidental, e hoje significa simplesmente os Estados Unidos, que se esconde atrás da palavra “globalização”, quando na verdade é americanização, e palavras como “Ocidente”, “OTAN”, “o mundo civilizado”, “o mundo comunidade”, “a ordem baseada em regras”, conhece apenas um sistema: o feudalismo. E não passa de um esquema de pirâmide de bandidos criminosos. Como Michael Hudson escreveu com tanta precisão :

” O análogo da Europa medieval para a nova Guerra Fria da América contra a China e a Rússia foi o Grande Cisma de 1054. Exigindo controle unipolar sobre a cristandade, Leão IX excomungou a Igreja Ortodoxa centrada em Constantinopla e toda a população cristã que fazia parte dela. Um único bispado, Roma, isolou-se de todo o mundo cristão da época, incluindo os antigos patriarcados de Alexandria, Antioquia, Constantinopla e Jerusalém.

Essa ruptura criou um problema político para a diplomacia romana: como manter todos os reinos da Europa Ocidental sob seu controle e reivindicar o direito a subsídios financeiros deles. Esse objetivo exigia a subordinação dos reis seculares à autoridade religiosa papal. Em 1074, Gregório VII, Hildebrand, anunciou 27 Diktats papais delineando a estratégia administrativa de Roma para bloquear seu poder sobre a Europa.

Essas exigências papais apresentam um paralelo impressionante com a diplomacia americana de hoje. Em ambos os casos, os interesses militares e mundanos exigem sublimação sob a forma de um espírito de cruzada ideológica para cimentar o sentimento de solidariedade que qualquer sistema de dominação imperial exige. A lógica é atemporal e universal . »

Hoje, o Papa Joe está no poder, ou melhor, os interesses pessoais daqueles que estão atrás de seu trono estão no poder. Mas esse poder está sendo destruído militarmente (a OTAN perderá todas as suas armas no atual ritmo de desgaste), financeiramente (quem quer dólares sem valor de um estado falido e dividido?) minoria?)

Depois da vitória

Quando, com o tempo, a Rússia vencer o que é realmente apenas a última fase de nossa luta milenar, tudo mudará. O mundo inteiro se libertará gradualmente da camisa de força americana, finalmente cortará as grades, deixará cair os lençóis e sairá do manicômio de Washington.

Em primeiro lugar, existem a quinta e a sexta colunas da Rússia. Nós os estimamos em 5% da população – essa é a cifra daqueles que apoiaram o traidor da CIA, Navalny. (O fato de a CIA ter tentado envenenar Navalny, culpando a Rússia no estilo MI5, é quase uma prova de que o perpetrador era a CIA. Assassinato é o que a CIA sempre faz com seus agentes não mais necessários, de inúmeros ditadores lixo latino-americanos e asiáticos a Saddam Hussein e Osama Bin Laden). Ou a quinta e a sexta colunas deixam a Rússia (algumas já o fizeram, para a Finlândia, a Geórgia e, acima de tudo, Israel), limpando assim a Rússia de sua presença, ou se arrependem de sua traição. A Grande Limpeza da Rússia apenas começou, classe criativa  ”e os pervertidos e carreiristas obcecados por dinheiro da hierarquia da Igreja, todos terão que ir.

A América Latina pode então se livrar dos ditadores malignos impostos pela CIA, dos traficantes de drogas e da dependência dos mercados de drogas norte-americanos. América do Sul, América Central, Caribe e México podem começar a recuperar suas civilizações avançadas destruídas pelos exploradores espanhóis e portugueses, os ”  conquistadores  “, que fizeram com que os sobreviventes abandonassem seus palácios, templos e aldeias para viver em lugares remotos que se tornaram selvas.

E depois há os vassalos dos Estados Unidos na orla asiática (os Estados Unidos nunca conseguiram penetrar na Eurásia, sendo expulsos até da península do Sudeste Asiático) Oriente, assim como Irã, Iraque, Afeganistão e logo Europa, que só penetraram até a Ucrânia): o Japão pode se libertar de seus ocupantes depois de mais de três gerações e se lançar no caminho da redescoberta de sua verdadeira identidade; a península coreana pode ser reunificada; Taiwan pode finalmente se juntar à pátria; na Ásia Ocidental, Israel é forçado a fazer a paz com os povos indígenas cujas terras roubou e renomeou como Palestina.

Os vassalos dos Estados Unidos no noroeste da Eurásia poderão então virar as costas ao oceano cinzento, frio e vazio, com suas nuvens, vento e chuva, e olhar para onde já olham suas capitais, Reykjavik, Dublin e Londres – leste – em direção ao nascer do sol, em direção às suas origens na Eurásia, o coração das nações soberanas. As construções tirânicas e parasitárias da UE e do Reino Unido, impostas por elites odiadas e estrangeiras ao Estabelecimento, podem cair no passado, inúteis e mal amadas. Como a Ucrânia, os Estados Bálticos também se dissolverão após serem libertados de seus regimes fascistas.

A Afro-Eurásia representa sete oitavos da humanidade, liderada industrial e economicamente pela China e Índia, ideológica e militarmente pela Rússia, bem como o enorme potencial humano e de recursos da África, uma vez criada sua infraestrutura.

A Oceania, que pode ser renomeada como Polinésia, as muitas ilhas, com sua ilha central ainda chamada pelo nome latino estrangeiro de ”  Austrália  “, mas que pode ser renomeada como ”  Ilha Grande  ” , pode redescobrir sua identidade original do leste asiático.

Finalmente, o Canadá e os Estados Unidos serão deixados para se dissolver em uma série de Primeiras Nações, dentro das quais seus povos originais podem desempenhar um novo e importante papel, tendo desaparecido a antiga centralização. Levará tempo até que possam prosperar novamente, pois estão fortemente sobrecarregados com as dívidas do imperialismo militarista, mas existe o potencial para uma modesta recuperação no futuro.

Quanto às instituições “  internacionais  ”, que nunca foram internacionais, as instituições financeiras do FMI e do Banco Mundial, lideradas pelos Estados Unidos, provavelmente poderiam simplesmente ser fechadas. Eles estão, junto com sua ala política e econômica européia chamada UE, atualmente sendo falida por seus governantes suicidas, e sua ala militar européia chamada OTAN, atualmente sendo aniquilada na Ucrânia.

O vassalo da América, a chamada ONU, será renomeado e movido para o centro do mundo, longe de sua borda primitiva na América do Norte. Talvez um nome como “  Aliança do Povo  ” (PA) funcionaria? Talvez ao lado de Ekaterinburg, na fronteira do coração da Europa e da Ásia? Ou talvez naquele centro da civilização antiga, Teerã, mais perto do centro da Afro-Eurásia?

Conclusão: A longa, longa caminhada para a liberdade

Estamos vivendo o fim deste velho mundo ocidental e testemunhando o nascimento do novo mundo multicêntrico. Este é o mundo que teria existido desde o início, não fosse pela interrupção desviante milenar da história pelo Ocidente. O Ocidente retomará a história de onde parou, ou melhor, de onde foi forçado a se desviar tantos séculos atrás. Como Michael Hudson escreveu acima, ”  o análogo da Europa medieval à Nova Guerra Fria dos Estados Unidos contra a China e a Rússia foi o Grande Cisma de 1054  “. À medida que nos aproximamos de 2054, o Ocidente será forçado a se libertar do fardo milenar de seu passado.

Outros também entenderão que a Operação Especial Russa foi uma operação para libertar um país de sua ocupação pela elite neofeudal americanizada. Este último derrubou ilegalmente o governo democraticamente eleito da Ucrânia em 2014, quando esta Terceira Guerra Mundial de uma década começou. Mas o mesmo vale para toda a Europa Ocidental, ela também foi ocupada. Só que tem sido ocupada pela sua própria elite feudal desde pelo menos 1054, quando esta nova elite impôs uma nova mentalidade e depois manipulou os povos, desqualificando-os como servos, plebeus e vilões. A libertação da Ucrânia fará com que os ocidentais fora dos Estados Unidos pensem: Não somos nós também vassalos das elites, manipulados por elas? Sejamos livres e sejamos quem devemos ser, quem realmente somos, antes que as elites nos capturem. Liberte-nos das correntes da escravidão da elite. Sejamos livres, como antes  ”. É o fim do começo e o começo do fim.

Deixe-me citar novamente. Desta vez, não o brilhante economista Michael Hudson, mas o ex-presidente da Federação Russa, Dmitry Medvedev, que escreveu estas palavras de verdade hoje:

“  O que está contra nós hoje faz parte de um mundo moribundo. É um bando de nazistas enlouquecidos e drogados, pessoas zumbificadas e intimidadas por eles, e uma grande matilha de cães latindo de canis ocidentais .”

Com eles veio um rebanho heterogêneo de porcos rosnantes e burgueses tacanhos do império ocidental em ruínas, com saliva escorrendo pelo queixo devido à degeneração. Eles não têm fé ou ideal, exceto pelos costumes lascivos que inventaram e pelos padrões de pensamento duplo que implantaram, negando a moralidade concedida às pessoas normais. Portanto, ao nos levantarmos contra eles, ganhamos poder sagrado…

Por que ficamos tanto tempo calados? Estávamos fracos, devastados por tempos ruins. E agora nos livramos daquele sono pegajoso e da névoa sombria das últimas décadas, na qual a morte da velha Pátria nos mergulhou. Outros países aguardavam nosso despertar, violados pelos senhores das trevas, escravistas e opressores, que sonham com seu monstruoso passado colonial e aspiram a manter seu poder sobre o mundo. Muitos países não acreditam mais em seus absurdos há muito tempo, mas ainda têm medo disso. Logo estarão bem acordados. E quando a podre ordem mundial desmoronar, ela enterrará todos os seus arrogantes sumo sacerdotes, seguidores sedentos de sangue, lacaios zombadores e zumbis idiotas sob uma pilha de toneladas de seus próprios detritos.

Quais são as nossas armas? Nossas armas são variadas. Temos a capacidade de enviar todos os nossos inimigos para a Geena Ardente, mas essa não é nossa tarefa. Nós ouvimos as palavras do Criador em nossos corações e as obedecemos. Essas palavras nos dão um propósito sagrado. O objetivo é parar o governante supremo do inferno, qualquer que seja o nome que ele use…..Pois seu objetivo é a morte. Nosso objetivo é a vida. Sua arma é uma mentira complexa. E nossas armas são a Verdade. É por isso que nossa causa é justa. Portanto a vitória será nossa!

Original aqui.


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Um impasse chamado Portugal. E o Mundial

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 02/12/2022)

Miguel Sousa Tavares

A propósito da notícia de que a Roménia nos ultrapassará no PIB nacional em 2024, fui “revisitar”, como agora se diz, a entrevista que fiz a António Costa em Setembro do ano passado, um dos meus últimos trabalhos televisivos. Aí, perguntava-lhe justamente como era possível que a Roménia — um país que eu conhecera umas décadas antes como quase medieval —, que entrara para a UE apenas 14 anos antes, e 20 anos depois de nós, estivesse à beira de nos ultrapassar, em termos de riqueza produzida. António Costa respondeu que quando tínhamos entrado na UE o nosso PIB era 53% da média europeia e agora é 73%: tínhamos convergido, portanto. Contrapus que isso era um facto, sustentado em 160.000 milhões de euros, recebidos da Europa desde 86, mas que a questão é que os outros, vindos de trás e depois de nós, tinham convergido mais e mais depressa (a Roménia cresceu cinco vezes mais neste século). António Costa, que nunca deixa de ter resposta pronta para tudo, disse que a diferença é que quando nós aderimos 72% dos portugueses tinham apenas o ensino básico, enquanto que nos países do Leste que entraram depois 70% tinham qualificações superiores a isso. Bom, mas a verdade é que quando eles entraram as qualificações dos portugueses já não eram as de 1986, mas sim iguais, pelo menos, às dos novos membros, fruto de investimentos brutais na “paixão” da educação — e isso não impediu que nós e a Grécia ficássemos a marcar passo onde estávamos, enquanto que os outros aproveitavam a oportunidade para dar o grande salto em frente.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Essa é a grande questão. Enquanto os fundos europeus nos permitiram fazer obra pública em infraestruturas que estavam por realizar — umas necessárias, outras inúteis ou sumptuárias —, enquanto o investimento público foi a alavanca do desenvolvimento, Portugal cresceu. Mas a partir da viragem do século foi como se tivesse batido contra uma parede. Podemos discutir indefinidamente se o mal foi a adesão ao euro ou se, mais genericamente, foi a entrada numa economia mais competitiva e menos protegida pelo Estado, para a qual décadas de embalo e já dois resgates financeiros nos tinham desaprendido de viver. Facto é que, a partir de então, concluídas todas as auto-estradas e centros de congressos do país, Portugal passou a viver de pacote em pacote e de empréstimo em empréstimo, com todo o investimento público canalizado para a paixão educativa e o financia­mento do próprio Estado e o investimento privado todo virado para o turismo e o imobiliário. Sem nenhum pensamento estratégico de médio ou longo prazo, assistimos impávidos à venda a estrangeiros das poucas empresas portuguesas com dimensão fora do sector do retalho e ao desmantelamento ou desaparecimento de clusters industriais onde outrora liderávamos. Depois veio nova crise financeira do Estado e novo resgate e, no rescaldo, foi-se a banca em mãos nacionais e sectores determinantes da própria soberania nacional, em termos de política económica. Para o Estado restou a gestão dos problemas acumulados e insolúveis: o desastre demográfico, a desertificação do país, a sustentabilidade financeira da Segurança Social, o sorvedouro insaciável e ingerível da Saúde e das empresas públicas eternamente ruinosas e más prestadoras de serviços. Basta assistir às discussões anuais para a aprovação dos Orçamentos para constatar que, seja qual for o governo, a nenhum é consentida qualquer reflexão financeira sobre o futuro do país, mas apenas um regateio sobre o dinheiro a atribuir a todas e cada uma das clientelas do Orçamento. E assim, em lugar de fomentar uma sociedade de gente livre e empreendedora, onde se incentiva e premeia o risco e a iniciativa, transformámo-nos aos poucos numa sociedade de dependentes do Estado, hipotecando qualquer hipótese de futuro em nome da satisfação das reivindicações do presente.

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É verdade que alguma coisa, apesar de tudo, fizemos com tanto dinheiro da Europa, dos contribuintes e dos empréstimos lançados aos quatro ventos. Porém, a maior parte das vezes, é difícil perceber o benefício das coisas. Lideramos na utilização de energias renováveis, mas, através de uma nebulosa incompreensível de esquemas jurídicos e contratuais, continuamos a ter das energias mais caras de todas — o que é um imposto oculto para as famílias e um travão à competitividade das empresas; temos a “geração mais qualificada de sempre”, mas condenada a trabalhar em call centers ou a ganhar ordenados humilhantes e sem casas onde viver; gastamos fortunas, todos os anos acrescidas acima da taxa de inflação, na Saúde, mas só vemos é filas de espera intermináveis para tudo, demissões em bloco nos hospitais, cada vez mais horas extraordinárias pagas e menos médicos nos serviços; temos um centro cultural em cada freguesia do país mas uma cultura que só existe subsidiada.

Mas, acima de tudo, temos intermináveis discussões sobre tudo e mais alguma coisa, com debates, conferências, grupos de trabalho e de missão, especialistas, estudos, pareceres, andando à roda e à roda de cada problema sem jamais mostrar qualquer pressa em resolvê-lo.

Na “ferrovia” (como gostam de dizer em tom pomposo), andam há cinco anos em anúncios e planos tão grandiosos que, quem se distrair, até vai achar que, ao contrário da realidade, nestes cinco anos já foi construído um só quilómetro a mais de via férrea ou ganho um quilómetro a mais de velocidade média nas principais ligações. No hipotético futuro Aeroporto de Lisboa (se é que ainda se lhe pode chamar assim), 50 anos de discussões e estudos culminaram com um acordo entre PS e PSD para prolongarem os estudos por mais um ano, e ainda esta semana, num encontro de altíssimo nível entre a nata dos especialistas na matéria, tivemo-los a defenderem cinco alternativas diferentes: Montijo, Alverca, Ota, Alcochete e Santarém (e ainda falta alguém dos que defendem o Aeroporto de Lisboa… em Beja). E, quando a coisa for finalmente decidida, vamos ter, além de mais discussões sem fim, providências cautelares e acções judiciais — de quem foi escolhido e não quer ser e de quem foi preterido e queria ser escolhido.

É assim que funcionamos. E depois admiramo-nos de que a Roménia, e outros mais, nos passem à frente. Sobre isto, também assisti a um debate televisivo, com quatro ilustres economistas e conhecedores do funcionamento do Estado, que prometia algum esclarecimento: porque razão vamos ser ultrapassados pela Roménia e qual o motivo, ou os motivos determinantes, da nossa eterna apatia. Uma hora depois, desisti de tentar perceber. É tudo muito, muito, complicado.

2 Já li alguns textos em que uns candidatos a aiatolas defendem a tese de que quem criticou a realização do Mundial de Futebol no Catar, por coerência, não deveria sequer ver os jogos. Ver o Mundial seria pois um privilégio reservado para os que não enxergaram nada que os incomodasse nas circunstâncias em que este Mundial foi atribuído pela FIFA e erguido pelo Catar. Não só há cada vez mais gente a querer mandar nos outros como agora até querem mandar dentro das nossas casas. Mas eu percebo-os: uns querem ter o exclusivo da crítica; os outros querem que ninguém a tenha para que o futebol possa continuar a ser um planeta à parte. Ignorando alegremente a sua fatwa, eis as minhas impressões sobre a primeira fase deste Mundial:

— De há muito que fui cimentando esta ideia: os treinadores estão a matar o futebol. Todas as equipas, das grandes às pequenas, das europeias às africanas, jogam um futebol igual — cauteloso, defensivo, sem riscos, em que metade dos passes é feita para trás e metade do tempo é gasto em passes entre o guarda-redes e os defesas. Há dias, um comentador dizia: “Agora, o jogo tornou-se caótico, como nós e o público gostamos e os treinadores detestam.” É exactamente isso: o futebol de que o público gosta é aquele de que os treinadores fogem.

— O melhor jogador de Portugal tem sido Bruno Fernandes, que nem sequer era titular de caras, na equipa de Fernando Santos. Dentro do campo, foi determinante nos dois jogos e, fora dele, foi o único que se pronunciou sobre o incómodo de jogar em estádios onde muitos trabalhadores morreram para os construir. Num golo que toda a gente viu que fora dele, como a FIFA confirmou, tratou de o atribuir a Ronaldo, enquanto este, contra a tecnologia e a evidência, e o insaciável ego contra o espírito de equipa, o atribuía a si mesmo.

— Pelo contrário, mas como é habitual, o nosso trio de estrelas — Ronaldo, Bernardo Silva e João Félix — todos indiscutíveis para Fernando Santos, até agora, não jogaram nada. Continuando assim e sempre com lugar cativo, dá para perceber porque razão Rafa desistiu de servir a Selecção.

— Espero que os árbitros portugueses estejam a aprender alguma coisa com as arbitragens deste Mundial e a meditar que não é por acaso que não está lá nenhum árbitro português. Por feliz coincidência, os dois erros mais evidentes que vi foram a nosso favor: os penáltis contra o Gana e o Uruguai, ambos inventados. Também não será por acaso que o único treinador expulso até agora é português: Paulo Bento.

— Melhores equipas até agora: Espanha, França e Brasil, mas todas só a espaços. E Portugal? Melhorou do primeiro para o segundo jogo, sobretudo em atitude, mas ainda sabe a pouco quando olhamos para aquele banco. Até onde podemos ir? Talvez até onde o treinador deixar.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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