Kharkov, o ponto de inflexão

(Por Pepe Escobar, in Resistir, 19/09/2022)

As guerras não são ganhas por psyops (operações psicológicas). Pergunte à Alemanha nazista. Ainda assim, é um pesadelo assistir os media da NATO sobre Kharkov, a gabarem-se em uníssono sobre “o golpe de martelo que vai derrubar Putin”, “os russos estão em apuros” e diversas inanidades.


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3 pensamentos sobre “Kharkov, o ponto de inflexão

  1. Eu não acredito em ninguém, mas se há algo que é excepcionalmente parvo é dizerem-me que há um “novo Hitler” ao mesmo tempo que me dizem que é melhor prolongar um conflito para desesperar um louco e colapsar o seu país; ora bem, tendo armas nucleares, é um objectivo um bocado estúpido, e nem é preciso perto de tanto para inviabilizar o país do povo que supostamente queremos defender.

  2. Pepe Escobar tem a fama e o proveito de ter acesso a fontes de informação confiáveis. Tudo o que ele divulga é muito bem documentado e merece ser seguido com atenção.

    Na verdade ele não diz nada muito diferente do que eu próprio deixei aqui num dos meus últimos comentários (“Valas comuns” ? Não. Fake news que nem 24h duraram), ainda que usando mais palavras. Eu ando um bocado preguiçoso no que toca à escrita.

    Disse em tempos o escritor Samuel Clemens, vulgo Mark Twain, ”As notícias da minha morte foram um pouco exageradas”. Também é o caso da suposta “vitória ucraniana” na região de Kharkov tão decantada na Imprensa ocidental e portuguesa em particular.

    “A importante vitória militar ucraniana em Kharkov, que tornou visíveis e audíveis mesmo dentro da Rússia as críticas à condução da guerra por parte de Putin”, parafraseando o impagável Viriato Soromenho na sua última crónica aqui reproduzida.

    Críticas de quem, exatamente?

    Convém lembrar que praticamente tudo o que sai na nossa Imprensa sobre a guerra na Ucrânia tem origem em Kiev. Mesmo as imagens de ações de combate no terreno que aparecem no Instagram e outras redes, de resto quase todas elas catastróficas para as forças de Kiev, são provenientes de gravações realizadas por soldados e mercenários ucranianos, militantes das RPD e populares. Os soldados russos estão sujeitos a uma disciplina férrea, não podem usar telemóveis em combate e estão proibidos de divulgar publicamente seja o que for. Provas documentais dos combates com origem russa, são apenas aquelas que são disponibilizadas pelo Ministério da Defesa da Rússia, geralmente com um “delay” de semanas.

    Agora que o Inverno se aproxima, os russos parecem ter achado que está na altura de fazer desaparecer todas as centrais energéticas ucranianas. Também mostram ter chegado a altura de cortar as vias de comunicação para impedir a entrega de mais armas ocidentais às linhas da frente. Foi a evidente escalada da guerra que obrigou a estas medidas que eles não queriam tomar. E não pode haver dúvidas de que a população civil ucraniana vai sofrer bastante, mas não me parece que isso possa afetar as decisões de Kiev e dos seus patronos americanos. Eles querem lá saber da população.

    Na verdade, eu estou até a pensar que a população civil da Ucrânia já devia estar a ser protegida pela Greenpeace. Dentro de dias deverá ter lugar uma nova mobilização, que será a sexta, pelo que todos os homens e provavelmente muitas mulheres que tenham duas pernas e dois braços deverão ser honrados. O tempo dos adolescentes até aos doze anos também chegará. Saiu a notícia de que Kiev ordenou a saída do seu contingente de Capacetes Azuis em serviço na República Democrática do Congo. É fácil de adivinhar para onde vão. Para esses acabaram-se as “férias” e chegou a hora de entrar no “moedor de carne russo”.

    Ainda sobre a destruição da infraestrutura ucraniana, há agora uma anedota engraçada na Rússia. Dizem que o exército russo está a ajudar os ucranianos a livrarem-se de uma vez por todas da herança do comunismo, uma vez que todas essas infraestruturas foram erguidas no tempo da URSS. Eles só têm motivos para estar felizes portanto.

    Como não estou com disposição para escrever muito, vou socorrer-me de um texto da autoria do repórter de guerra Alejandro Kirk, correspondente no campo de batalha: (1)

    “A Ucrânia lançou duas contra-ofensivas nos últimos dias: Kherson e Kharkov. No primeiro, foi um fracasso retumbante; no segundo, o avanço foi facilitado pela retirada russa, que, segundo especialistas militares, procurou impedir que as forças ucranianas (superiores na proporção de dez para um, segundo algumas fontes) estabelecessem um “bolso” em torno dele.

    Testemunhamos, na noite de domingo, 11 de setembro, os movimentos das tropas da Milícia Popular de Donetsk anteriormente estacionadas em Kharkiv.

    A retirada russa não significa que não houve combates, especialmente entre a Guarda Nacional Russa e os atacantes (a Guarda Nacional e o Exército Russo são entidades diferentes).

    Um general venezuelano me contou o seguinte sobre a ofensiva ucraniana; “Parece uma formação de bolso para destruir. Em uma operação muito clássica. Apenas um comandante e um exército com muito poder de fogo, mobilidade, poder de choque e cobertura aérea podem arriscar uma operação tão ofensiva.” E mais tarde acrescentou: “Se a informação fosse verdadeira, lançar 10:1 é suicídio. Com mísseis, drones, aviões, a Rússia vai cercá-los”.

    Isso é precisamente o que está acontecendo: a Rússia tem menos tropas no terreno, mas a Ucrânia não tem a “mobilidade, poder de ataque e cobertura aérea” para combater implacáveis ​​ataques aéreos, foguetes, mísseis e artilharia.

    Em todos esses domínios, a Rússia tem uma superioridade incontestável, e o que está acontecendo, portanto, é uma carnificina de bucha de canhão enviada por Kiev para a frente de batalha.”

    Nem mais.

    (1) https://observatoriocrisis.com/2022/09/13/que-pasa-en-ucrania-ofensiva-y-contraofensiva/

    P.S. 1: Sobre a “propaganda russa”, há uma coisa que os russos não fazem: subverter a verdade factual. Eles fazem as análises dos factos de acordo com o seu ponto de vista, claro, e ele é geralmente muito fundamentado e racional, mas não mentem. Eu acompanho a Imprensa russa/soviética há mais de quarenta anos e nunca lhes apanhei uma verdadeira mentira, ao contrário do que sucede com os americanos e os ocidentais em geral, cujas informações importantes disponibilizadas por eles e relacionadas aos assuntos em que são parte interessada, acabam mais tarde por ser completamente desmascaradas. Eles acham que a verdade e a mentira têm o mesmo valor e não se importam de passar vexames, porque sabem bem que a maioria do seu público tem memória de peixinho vermelho e vai esquecer tudo em três segundos. Estão há muitos anos a trabalhar para isso, cumprindo escrupulosamente os princípios enunciados pelo seu grande mentor nesse campo, o ministro da Propaganda alemão Joseph Goebbels.

    P. S. 2: Isto não significa que eu próprio seja um seguidor incondicional de Putin e da Rússia contemporânea. A Rússia atual ainda é um estado basicamente fascista, e Putin é um fascista. Serão precisos muitos anos para que os verdadeiros comunistas possam perdoar a traição russa à causa dos trabalhadores de todo o mundo. Talvez isso venha a ser possível no futuro, sobre as tumbas dos traidores mortos. Mas o inimigo do meu inimigo, é meu amigo por definição. A luta dos russos é indubitavelmente justa e existencial, e uma derrota clara das forças da NATO muito provavelmente levará à sua dissolução, abrindo assim caminho a uma nova era de autodeterminação dos povos. Então, não existem aqui grandes dúvidas no meu espírito. Sobre a posição oficial do Partido não posso nem quero falar. Como já expliquei neste blog, não sou militante.

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