O general alemão Harald Kujat critica a Ucrânia por lutar “sem objectivo e apenas em benefício dos EUA”

(Por Alfredo Jalife-Rahme, in geopol.pt, 08/09/2022)

Imagem de capa por Fraktion DIE LINKE. im Bundestag sob licença CC BY 2.0

Não se deve desperdiçar muito tempo com disquisições baratas: o que está em jogo na Ucrânia é o fim da ordem unipolar anglo-saxónica e o início da nova ordem multipolar!


O antigo chefe do Estado-Maior do exército alemão (Bundeswehr) de 2000 a 2002 e chefe do comité militar da NATO (2002-2005), actualmente general reformado da Luftwaffe Harald Kujat (HK), escreve um artigo perturbador no Preußische Allgemeine Zeitung, no qual questiona o objectivo desenfreado na Ucrânia e critica a posição do governo multicolor da Alemanha (bit.ly/3BihyAa).

Já em 2014, o general HK criticou o fracasso flagrante da NATO na Ucrânia (bit.ly/3RkKJIL). Aliás, esta é uma visão que se está a tornar mais enraizada nos círculos académicos críticos do Ocidente e da Eurásia, para não falar do Sul global.

Embora reconhecendo o esforço da Ucrânia para defender a sua soberania, HK insta a não perder de vista a principal realidade estratégica em jogo: o povo ucraniano está a lutar pelos interesses geoestratégicos dos EUA, em rivalidade com duas outras superpotências, Rússia e China.

Cita o secretário da Defesa dos EUA Lloyd Austin: “Segundo o presidente Biden, o presidente russo Putin deve ser deposto (mega-sic!); as forças armadas da Rússia, permanentemente enfraquecidas numa guerra de desgaste”. Agora podemos compreender porque é que os multimédia globalistas neo-liberais germânicos estão a chamar General HK de russófilo.

Não se deve desperdiçar muito tempo com disquisições baratas: o que está em jogo na Ucrânia é o fim da ordem unipolar anglo-saxónica e o início da nova ordem multipolar!

O general HK pergunta: quais são exactamente os objectivos dos países que prestam apoio militar à Ucrânia? E (durante quanto tempo) o fornecimento de armas ainda é o caminho certo a seguir. Comenta que a realidade que a Alemanha e a Europa enfrentam é que os EUA não conseguirão eliminar a Rússia como seu rival geopolítico quando “a Rússia não se aproximará sequer de uma derrota militar nesta guerra por procuração (sic) sem a intervenção directa dos EUA e da NATO”.

Deve também assumir-se que uma derrota militar da Rússia também não é do interesse da China, pois “os EUA estão conscientes (sic) de que a China utilizará tal processo (sic) tanto para aliviar a Rússia como para fazer avançar os seus próprios interesses”. Ele sentencia que os EUA serão incapazes de travar uma guerra de duas frentes contra a Rússia e a China.

Esta questão de uma guerra de duas frentes dos EUA tem sido tratada de forma espantosa pela Foreign Policy (bit.ly/3KS9utg) e pelo insano Josh Rogin do Washington Post (wapo.st/3D3BUyz).

Referindo-se ao governo alemão, sob o título A rota opaca de Berlim, questiona se Berlim promove a segurança dos interesses da Alemanha e defende o bem-estar económico dos seus cidadãos e da sua indústria, devido aos “danos irreversíveis (sic) à economia alemã causados por sanções”, quando as capacidades da Bundeswehr já são extremamente limitadas.

Ele cita a posição do papa jesuíta argentino Francisco de que a guerra na Ucrânia “foi talvez (sic) de certa forma provocada ou não impedida”. O papa pode muito bem pedir aos seus dedicados paroquianos Joe Biden, Nancy Pelosi e John Kerry que descubram com certeza.

A realidade é que nenhum dos presidentes ucranianos, nem Poroshenko nem o cázar Zelensky, desejaram implementar os acordos de Minsk 2 para ganhar tempo enquanto reclamavam a vida de 14.000 russófilos-russófonos ortodoxos do Donbas.

O general HK comenta que através dos acordos de Minsk 2, os Donbas teriam adquirido autonomia sem a necessidade de se desintegrarem da Ucrânia (bit.ly/3cPf2Ij).

Hoje, a gravidade geoestratégica sombria da Ucrânia está a tornar-se cada vez mais aparente, representando, segundo os gostos cronológicos, uma nova guerra de 30 anos – com início em 1991, continuando em 2014 e atingindo o seu paroxismo em 2022 – ou uma guerra de 100 anos (bit.ly/3D3L91J), destinada à balcanização e desintegração da Rússia, que se baseia no axioma do britânico Sir Halford Mackinder em 1904 com o seu livro O pivô geográfico da História.

La Jornada


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