“Isto é o futuro”?

(Manuel Loff, in Público, 05/04/2022)

Manuel Loff

Parece que nem se reparou. O ultradireitista Viktor Orbán ganhou as quartas eleições consecutivas. Há doze anos no poder, Orbán transformou por via constitucional o sistema político húngaro, para dele fazer um caso paradigmático de liberalismo autoritário (liberal nas formas, autoritário no conteúdo), derrotou uma coligação verdadeiramente inacreditável de forças da oposição que vão desde os socialistas aos neofascistas do Jobbik, e que escolheu um candidato para disputar o Governo a Orbán que é toda uma metáfora dos tempos que vivemos: Péter Márki-Zay é um neoliberal de formação americana, contrário ao salário mínimo e a imposto sobre fortunas; católico conservador que, só para efeitos da campanha eleitoral, se comprometeu a deixar de opor-se ao divórcio e ao aborto; e defensor da política de Orbán de bloqueio à entrada de refugiados não europeus.

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O ter apoiado, contra a posição do Governo, o envolvimento húngaro na ajuda militar à Ucrânia contra a Rússia parece ter-lhe custado tantos votos que permitiu a Orbán aparecer como o homem que quer proteger a Hungria da guerra e ganhar por uma margem maior que a anterior. Se podem ser limpas e justas eleições disputadas no contexto autoritário que é o húngaro, essa é outra história; as dúvidas sobre a democraticidade da Hungria levantam-se num contexto de generalizada erosão democrática que tem as suas componentes centrais no securitarismo de Estado, na intimidação das minorias étnicas e políticas, na hipervigilância feita sistema, a que agora se soma uma nova corrida ao armamento.

Normalizada, integrada, assumida. A presença generalizada da extrema-direita por toda a Europa faz de Orbán, juntamente com o governo da extrema-direita católica polaca, mais um caso de sucesso que de exceção. De norte a sul do continente, partidos da extrema-direita povoam os corredores do poder político e/ou as suas agendas e as suas propostas são adotadas com mais ou menos adaptações por governos que se dizem democráticos depois de encenarem a rejeição do racismo, da xenofobia e do autoritarismo.

Ao contrário do que se tem escrito, a grande maioria da extrema-direita (a começar pela própria ucraniana) tem-se assumido como anti-Putin e, coerentemente com o seu discurso nacional-historicista, descreve a Rússia como o inimigo ancestral daquilo a que agora se voltou a chamar a civilização europeia – precisamente a mesma que outras extremas-direitas acham ter na Rússia de Putin um dos seus defensores. No poder (da Polónia, da Letónia, da Eslováquia), ela pode posicionar-se a favor de tudo quanto possa arrastar a NATO para uma guerra com a Rússia, ou, pelo contrário, como no caso da Hungria, manter com o governo russo uma relação semelhante àquela que se tem descrito haver (ou ter havido) entre a extrema-direita francesa, italiana ou austríaca.

O que a guerra tem propiciado é uma normalização das extremas-direitas do centro-leste da Europa, a começar pela polaca e pela ucraniana, descritas agora como “aliados fiéis” do Ocidente na luta contra a Rússia.

Não é, portanto, a posição perante Putin que define a extrema-direita, da mesma forma que tomar partido nesta guerra, como bem se percebe, não distingue quem é democrata de quem não o é. O que a guerra tem propiciado é uma normalização das extremas-direitas do centro-leste da Europa, a começar pela polaca e pela ucraniana, descritas agora como “aliados fiéis” do Ocidente na luta contra a Rússia. (Pensando bem, é exatamente o que elas diziam de si próprias quando por toda a região se aliaram a Hitler em 1941.)

Outra das lições destes anos de autoritarismo húngaro e polaco – hoje com atitudes diferentes perante a guerra na Ucrânia, mas que permanecem os aliados de sempre nas suas políticas racistas – é que nenhum deles pretende deixar a UE: o que eles querem, como sublinha Steven Forti (Extrema-derecha 2.0, 2021), é “mudá-la mas não destruí-la”. Toda a extrema-direita do leste da Europa (a começar por Orbán) é partidária da adesão quer à NATO, quer à UE, e aquela que na Europa ocidental pôs em causa não a primeira, mas a segunda, deixou de o fazer a partir de 2017-18. Podem húngaros e polacos enfrentar, com muita calma, de resto, a ameaça de sanções de Bruxelas (de que não mais se ouviu falar), mas nenhum dos dois governos pretende abandonar a UE. Pelo contrário, o que demonstra a reação ocidental à guerra é que eles têm ganho um significativo espaço de manobra. Como disse Orbán no domingo passado, “o que estamos a dizer à Europa é que isto não é o passado – isto é o futuro.”

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


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3 pensamentos sobre ““Isto é o futuro”?

  1. Sobre as ligações do regime russo com a extrema-direita europeia, alguns contributos:
    htps://www.theguardian.com/commentisfree/2022/mar/01/why-does-putin-have-superfans-among-the-us-right-wing
    ttps://www.france24.com/en/tv-shows/perspective/20211012-vladimir-putin-and-the-western-far-right
    https://gnet-research.org/2022/03/21/why-some-far-right-circles-are-contributing-to-vladimir-putins-disinformation-campaign/
    https://www.lexpress.fr/actualite/politique/video-pourquoi-la-russie-de-poutine-fascine-autant-l-extreme-droite_2169330.html
    https://www.ledevoir.com/monde/691977/guerre-en-ukraine-poutine-a-la-sauce-d-extreme-droite-ou-complotiste

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