“Se eu fosse a Rússia não teria pressa em ajudar a resolver o problema dos pagamentos”

(Michael Hudson entrevistado por Saker, 27/03/2022)

A seguir ao anúncio de Putin acerca da venda de gás por Rublos só para nações hostis, decidi contactar Michael Hudson e fazer-lhe perguntas (ao meu nível, primitivas). Aqui está a nossa troca completa de emails:

Andrei: a Rússia declarou que só venderá gás a “países hostis” em troca de Rublos. O que significa que aos países não hostis continuará a vender em dólares/euros. Será que estes países hostis ainda podem comprar gás da Rússia, mas através de países terceiros?

Michael Hudson: Parece haver duas meios para os países hostis comprarem gás russo. Um parece ser através de bancos russos que não estão banidos da SWIFT. O outro meio na verdade parece passar por procurar desenvolver um intercâmbio formal ou informal com um banco de países terceiros. A Índia e a China parecem ser os mais bem posicionados para este papel. Diplomatas norte-americanos estarão a pressionar a Índia para impor as suas próprias sanções à Rússia e existe ali uma forte influência pró-EUA. Mas mesmo Modi vê os óbvios benefícios superiores de beneficiar da posição geopolítica da Índia com a Rússia e a Belt and Road Initiative da China em relação ao que quer que os EUA disponham.

Nos anos 60, o Ocidente lidou com a União Soviética através de acordos de permuta. A organização desta permuta tornou-se um grande negócio bancário. A permuta é a típica “fase final” da deterioração de uma economia de crédito numa economia de moeda que se decompõe. A médio prazo, é preciso criar uma nova organização financeira internacional como alternativa ao FMI dolarizado para lidar com tais transacções intra-bloco no novo mundo multipolarizante de hoje.

Andrei: Estas nações hostis pagariam mais por esse serviço extra, mas elas não teriam de obter Rublos. Será que isso é mesmo possível?

Michael Hudson: Presumivelmente a Rússia não absorveria os custos bancários adicionais de evitar as sanções dos EUA. Ela simplesmente os acrescentaria ao preço, depois de estabelecer o preço que espera conseguir – de preferência à taxa de câmbio “antiga” rublo/euro ou rublo/dólar original, não à taxa depreciada pós-ataque.

Andrei: Pergunta: Acredita que a UE concordará em pagar os Rublos ou aceitará a perda total de 40% da sua energia?

Michael Hudson: Eles pagarão – ou serão destituídos do cargo. Se eles cortarem as suas importações de energia da Rússia, os preços desconfortáveis do gás subiriam e haveria uma escassez drástica que abalaria a economia. Energia é produtividade e PIB. Para a Rússia, é claro, esta é uma oportunidade de efectuar a ruptura agora ao invés de mais tarde – e deixar a NATO assumir a culpa pela interrupção do fornecimento. Portanto, se eu fosse a Rússia, não teria pressa em ajudar a resolver o problema do pagamento estrangeiro. O mesmo se aplica às matérias-primas não petrolíferas, desde o néon ao paládio ao titânio, ao níquel e ao alumínio.

Andrei: Até agora, isto aplica-se apenas ao gás natural. Acredita que a Rússia estenderá a medida também ao petróleo, trigo e fertilizantes e, em caso afirmativo, qual será o efeito disto para a economia mundial?

Michael Hudson: Todas as exportações russas são afectadas por estes controlos da divisa, porque todas as transferências bancárias são sancionadas do modo acima discutido. A Rússia não tem uso para dólares ou euros, porque estes podem ser tomados à força (grabbed). Ela precisa ter o controlo completo sobre quaisquer activos monetários que receba, agora que as antigas normas do direito internacional e da política financeira não mais se aplicam.

Andrei: A Rússia tem muitos recursos naturais assim como tecnologias/ commodities. Se ela for bem sucedida nos seus esforços para ser paga em Rublos, será que o Rublo – o qual seria então uma moeda apoiada em recursos naturais/commodities – poderia tornar-se uma importante divisa de “refúgio”?

Michael Hudson: Não sei bem o que é uma divisa de “refúgio”, mas o rublo tornar-se-á uma divisa autónoma. Se a sua balança comercial e de pagamentos melhorar, o problema poderá ser impedir o rublo de subir. Se isso acontecer, a questão será se uma subida do rublo obrigaria os compradores das exportações russas a pagar mais na sua própria divisa. Um novo sistema financeiro multilateral está em vias de ser estruturado quando estamos a ter esta discussão. Haverá especulação? Venda a prazo? Short squeezes e razias do tipo Soros? Quem serão os participantes e sob que regras…?

Andrei: Quão duramente, potencialmente, esta decisão russa atingiria o dólar? E as MBS [Mortgage Backet Securities] a negociar com a R. P. da China para as vendas de petróleo em Renminbi? Pensa que a China e a Rússia deitarão abaixo o Petrodólar e que veremos um Rublo e um Yuan garantidos por mercadorias a substituir o Dólar?

Michael Hudson: O petrodólar permanecerá entre os Estados Unidos e os seus aliados. Mas ao seu lado, existirão os acordos saudi-yuan e Índia-yuan para o comércio de petróleo, minerais, produtos industriais e provavelmente investimento internacional. O comércio destes produtos poderá ocorrer em várias moedas, provavelmente numa série de trocas. Não está claro se se poderá desenvolver alguma arbitragem formal ou informal entre estas áreas. Isto faz parte do que deve ser concebido. Para supervisionar e regular os resultantes acordos financeiros e comerciais, é necessária uma alternativa ao FMI. Os EUA não aderirão a nenhuma organização em que não tenham poder de veto, pelo que veremos uma divisão do mundo em diferentes áreas comerciais e monetárias. O resultado não é tanto um conflito, mas sim duas filosofias operacionais bastante diferentes, pois o mundo não americano desenvolve a sua alternativa ao neoliberalismo financiarizado.

Andrei: Os EUA basicamente roubaram ouro [1] e divisas estrangeiras russas. Os russos afirmam que os EUA deram um tiro no próprio pé e que isto arruinará a reputação do dólar, concorda com isso?

Michael Hudson: Absolutamente: Irão após o Xá ter sido derrubado, as reservas estrangeiras do Afeganistão no início deste ano, o ouro da Venezuela detido no Banco de Inglaterra, e agora a Rússia. Mesmo a tímida Alemanha pediu que os aviões começassem a voar o seu ouro detido no Fed de Nova Iorque de volta para a Alemanha! [2]

Andrei: pensa que a Rússia irá retaliar contra os EUA/Reino Unido/UE e nacionalizar/apreender os seus activos na Rússia ou mesmo em países amigos da Rússia (China?)?

Michael Hudson: A Rússia é muito cuidadosa em fazer tudo de acordo com o direito internacional – que, claro, tem uma grande variedade de precedentes e desculpas, e cujos tribunais tendem a ser dominados por juízes americanos que apoiam as versões americanas do que é legal sob a chamada “ordem do dia baseada em regras” ao invés do “Estado de direito” segundo as linhas da ONU. Na medida em que os investidores da NATO abandonam os seus activos na Rússia, estes podem ser vendidos – talvez com um desconto de aflição – a compradores que prometam manter o negócio. A Rússia pode impor multas severas por abandono, como quando os senhorios abandonam edifícios causando despesas locais com custos de limpeza. O abandono causa um “incómodo público”.

Seria uma causa para confisco imediato o não pagamento de impostos correntes, rendas e salários ou fornecedores (incluindo electricidade e combustível). Pense no que aconteceria se a conta do gás não fosse paga e as tubagens congelassem e inundassem uma propriedade. Há todo um mundo de penalidades que poderiam ser aplicadas.

O direito internacional prevê alguma recuperação de activos indevidamente confiscados – como parecem ser os confiscos dos EUA de reservas e bens pessoais de propriedade russa. Neste momento, a Rússia não tem realmente nada a perder. Parece que não vai haver muito investimento cruzado russo-europeu durante bastante tempo. A Rússia finalmente abandonou as suas esperanças posteriores a 1991 de “virar-se para o Ocidente”. Foi um sonho que se transformou num pesadelo e o Presidente Putin e Lavrov exprimiram o seu desgosto com a Europa por actuar de modo tão pouco civilizado. Assim, para a Rússia – e cada vez mais outros países – a Europa da NATO e a América do Norte são os novos bárbaros à porta. A Rússia está a virar.

É precisamente esse o objectivo da política dos EUA – trancar a Europa na sua própria ordem neoliberal dolarizada, bloqueando qualquer prosperidade mútua alcançada pelo comércio e investimento com a Rússia ou, por detrás desta, com a China. Parece que as sanções actuais são permanentes para os próximos anos. Portanto, é claro que a Rússia precisa de manter em funcionamento empresas anteriormente pertencentes a países da NATO.

Deixar que os investidores da NATO recebam compensação a partir daquilo que os Estados Unidos sequestram à força. (Pista: os Estados Unidos podem simplesmente começar a sequestrar as reservas da China ou da América Latina ou do Próximo Oriente para pagar a investidores da NATO que tenham perdido na Rússia. Este é o modelo de utilização do dinheiro afegão para pagar às vítimas do ataque do 11/Set da Arábia Saudita duas décadas atrás).

Andrei: finalmente, que pergunta, se é que há alguma, me esqueci de fazer e o que lhe responderia?

Michael Hudson: As suas perguntas são sobre problemas e soluções específicas. Mas a resolução global tem de ser global e não uma manta de retalhos. Estes problemas específicos não podem realmente ser resolvidos sem uma profunda reestruturação institucional do sistema financeiro internacional, comércio mundial, um tribunal mundial e uma ONU sem o poder de veto dos EUA. E uma tal reforma institucional requer uma doutrina económica para providenciar os seus princípios básicos. Uma Nova Ordem Económica Internacional será construída sobre princípios não-neoliberais – na linha do que costumava ser chamado socialismo, quando era isso que as pessoas esperavam que o capitalismo industrial evoluísse.

Andrei: muito obrigado pelo seu tempo e perícia!!

25/Março/2022


NR
[1] Não é verdade que reservas-ouro do Banco Central Russo tenham sido congeladas/confiscadas/roubadas pelo governo Biden pois elas estavam e estão totalmente em território russo. O que Biden fez foi o congelar/confiscar/roubar cerca da metade das divisas estrangeiras (~US$300 mil milhões) que o BCR tinha depositado em bancos ocidentais. O ouro russo que efectivamente saiu para o ocidente não era o das reservas do BCR e sim o que foi comprado por bancos privados russos a empresas mineradoras russas e vendido no mercado de Londres (~600 toneladas). No entanto, é verdade que os referidos bancos privados não poderiam ter feito tais operações sem o sinal verde do BCR.
[2] Deve-se acrescentar à lista as 40 toneladas de ouro do Banco Central da Ucrânia que o Fed levou para os Estados Unidos em 2014, assim como as reservas-ouro misteriosamente desaparecidas do banco central da Líbia após a violenta derrubada do governo Kadafi.


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Biden verifica a realidade na Europa

(M. K. Bhadrakumar, in Resistir, 26/03/2022)

A viagem europeia do Presidente dos EUA Joe Biden nos dias 25-26 de Março é miserável. Vozes discordantes levantam-se na Europa à medida que as sanções ocidentais contra a Rússia começam a explodir com aumentos de preços e escassez de combustível e electricidade. E isto é só o começo, pois Moscovo ainda não anunciou quaisquer medidas de retaliação como tais.

A parte mais cruel de tudo isto é que o Ministério da Defesa russo escolheu a viagem de Biden como cenário perfeito para enquadrar as verdadeiras proporções do êxito da sua operação especial na Ucrânia. A credibilidade dos EUA e da NATO está perigosamente próxima de ser irremediavelmente prejudicada, uma vez que o carro de guerra russo rola através da Ucrânia com o duplo objectivo da “desmilitarização” e “desnazificação”.

Estado-Maior Geral russo revelou, na sexta-feira, que as louvadas Forças Armadas Ucranianas, treinadas pela NATO e pelos EUA, sofreram perdas devastadoras: A força aérea e a defesa aérea ucranianas estão quase completamente destruídas, ao passo que a Marinha do país deixou de existir e cerca de 11,5% de todo o pessoal militar foi posto fora de acção. (a Ucrânia não tem reservas organizadas).

De acordo com o Vice-Chefe do Estado-Maior Geral russo, Coronel General Sergey Rudskoy, a Ucrânia perdeu grande parte dos seus veículos de combate (tanques, veículos blindados, etc), um terço dos seus MLRS (Multiple Launch Rocket System) e bem mais de três quartos dos seus sistemas de defesa aérea de mísseis e sistemas de mísseis tácticos Tochka-U.

Dezasseis dos principais aeródromos militares na Ucrânia foram postos fora de acção, 39 bases de armazenamento e arsenais destruídos (os quais continham até 70% de todos os stocks de equipamento militar, material e combustível, e mais de 1.054 mil toneladas de munições).

Curiosamente, na sequência dos intensos ataques de alta precisão às bases e campos de treino, mercenários estrangeiros estão a abandonar a Ucrânia. Durante a semana passada, 285 mercenários escaparam para a Polónia, Hungria e Roménia. As forças russas estão a destruir sistematicamente os carregamentos ocidentais de armas.

OBJECTIVOS ALCANÇADOS

Ainda mais importante, a missão de libertação do Donbass está prestes a ser cumprida. Em termos simples, os principais objectivos da primeira fase da operação foram alcançados.

Além de Kiev, as tropas russas bloquearam as cidades do norte e leste de Chernigov, Sumy, Kharkov e Nikolaev, enquanto que no sul, Kherson e a maior parte da região de Zaporozhye estão sob pleno controlo – com a intenção não só de encadear forças ucranianas como também de impedir o seu agrupamento na região do Donbass. (Ver o meu artigo Dissecting Ukraine imbroglioTribune, 21 de Março de 2022)

“Não planeámos atacar estas cidades desde o princípio, a fim de evitar a destruição e minimizar perdas entre o pessoal e os civis”, disse Rudskoy. Mas, acrescentou ele, tal opção também não está excluída no período que se segue.

É evidente que Washington e as capitais europeias estão bem conscientes de que a operação russa está a decorrer como previsto e que não há como impedi-la. Assim, a cimeira extraordinária da NATO de 24 de Março confirmou que a aliança não está disposta a entrar num confronto militar com o Exército Russo.

Em vez disso, a cimeira decidiu reforçar a defesa dos seus próprios territórios! Quatro novos grupos de combate multinacionais da NATO de 40.000 militares serão instalados na Bulgária, Hungria, Roménia e Eslováquia, numa base permanente. A proposta da Polónia de instalar unidades militares da NATO na Ucrânia foi rejeitada liminarmente.

Contudo, a Polónia tem alguns outros planos, nomeadamente, instalar contingentes nas regiões ocidentais da Ucrânia para apoiar o “fraternal povo ucraniano”, com a agenda inconfessa de recuperar o controlo sobre os territórios historicamente disputados naquelas regiões. Que pacto faustiano terá sido selado em Varsóvia a 25 de Março entre Biden e o seu homólogo polaco, Duda, permanece pouco claro. Claramente, abutres estão a circular sobre os céus da Ucrânia. (Ver o meu blogue Biden wings his way to the borderlands of Ukraine, 24 de Março de 2022)

Na verdade, se a Polónia fizer um lance por território ucraniano (com o apoio tácito de Biden), será que a Bielorrússia ficaria muito atrás para assumir o controlo das regiões de Polesie e Volyn na Ucrânia? Possivelmente não. Basta dizer que, no período desde o golpe apoiado pela CIA em Kiev, em 2014, quando os EUA assumiram o lugar do condutor, a Ucrânia perdeu a sua soberania e está agora perigosamente próxima de desaparecer por completo do mapa da Europa!

Washington – Biden pessoalmente, tendo sido o homem no ponto da administração Obama na Kiev de 2014 – deveria carregar esta pesada cruz nos livros de história.

PROPOSTA ESPANTOSA

Quanto aos líderes europeus, encontram-se num mundo surrealista, fora de contacto com as realidades espantosas de uma nova ordem mundial. Biden, de oitenta anos, com uma compreensão limitada do fluxo torrencial dos acontecimentos, fez uma proposta espantosa na sua conferência de imprensa em Bruxelas, na quinta-feira, de que a Ucrânia deveria substituir a Rússia no G20!

Mas Biden tem uma alma gémea na chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, cuja última ameaça é que as empresas russas de petróleo e gás “não serão autorizadas a exigir o pagamento de combustível em rublos”. Ela felizmente está inconsciente de que a UE não tem mais meios eficazes para pressionar empresas russas!

O Presidente russo Vladimir Putin apanhou de surpresa os líderes ocidentais amontoados em Bruxelas com o seu anúncio de que a Rússia começará prontamente a cobrar rublos aos países “inamistosos” pelo fornecimento de gás. Há mais de 45 países hostis na lista – os EUA e os membros da UE mais Reino Unido, Austrália, Canadá, Singapura, Montenegro e Suíça. (Ver o explicador da RT, What buying gas in rubles means for Russia and the West).

Efectivamente, Moscovo está, por um lado, a reforçar o rublo enfraquecido, enquanto que, por outro lado, está a enviar a mensagem de que é a pioneira a nível internacional numa nova vaga para contornar o dólar como divisa para commodities.

No entanto, Moscovo continua também a fornecer regularmente gás russo para trânsito para a Europa através da Ucrânia para atender os pedidos dos consumidores europeus (109,5 milhões de metros cúbicos a partir de 26 de Março!). A questão é que, apesar da retórica altissonante, recentemente a Europa aumentou as suas compras de gás à Rússia de forma significativa, contra o pano de fundo de preços spot astronomicamente elevados!

O Conselho Europeu reunido em Bruxelas a 25 de Março com a presença de Biden falhou em adoptar quaisquer medidas concretas para fazer face ao crescimento dos preços da energia e não conseguiu chegar a uma abordagem unificada à decisão da Rússia de receber pagamentos pelo seu gás apenas em rublos.

Acerca da proposta da Comissão Europeia de estabelecer um novo sistema de compra comum de gás para impedir ofertas mais altas de preços, a declaração final do Conselho Europeu limita-se a dizer que os líderes concordaram em “trabalhar em conjunto na compra voluntária comum de gás, GNL e hidrogénio”, o que significa que as compras comuns só podem ser efectuadas pelos países da UE que estejam dispostos a unir-se. [Ênfase acrescentada].

É um longo caminho para a Europa dispensar o gás russo. O Presidente sérvio Aleksandar Vucic disse ontem: “Há escassez de gás, e é por isso que precisamos conversar com os russos. A Europa avançará no sentido de reduzir a sua dependência do gás russo, mas poderá isto acontecer nos próximos anos? Isto é muito difícil”.

“A Europa consome 500 mil milhões de metros cúbicos de gás, enquanto a América e o Qatar podem oferecer 15 mil milhões, até à última molécula… Foi por isso que os políticos alemães e austríacos me contaram: “Não podemos simplesmente destruir-nos a nós próprios”. Se impusermos sanções à Rússia no domínio do petróleo e do gás, nos destruiremos a nós próprios”. É como dar um tiro no próprio pé antes de nos precipitarmos num combate”. É assim que certas pessoas racionais no Ocidente vêem as coisas hoje”.

Com as previsões catastróficas de um fracasso militar russo na Ucrânia começando a desintegrar-se e com o ricochete das sanções da Rússia a começarem a morder, os europeus estão apanhados numa armadilha. Ficarão raivosos com o passar do tempo.

O autor é antigo embaixador da Índia, analista político.


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Assim vai a Europa… – Alguns comentários sobre a situação presente

(Carlos Esperança, in Facebook, 27/03/2022)

Enquanto a maior ditadura do mundo, com 1.400 milhões de habitantes, ganha a guerra na Ucrânia, limitando-se a assistir, a Europa recebe o imperador Biden, que combaterá ao lado de Zelensky até ao último europeu, promovendo a venda de armas do complexo militar-industrial dos EUA e valorizando o gás de xisto e os cereais dos EUA.

Nem sequer os jornalistas lhe censuram a falta de autoridade moral para usar linguagem de almocreve e acicatar a guerra na Europa, destruindo as instituições que genuinamente se batem pela paz, nomeadamente a ONU e o Vaticano, provocando a desorientação dos países e a desordem das consciências, e deixando a fatura para os europeus.

O pensamento único vai regressando à Europa, colocada em estado de estupor, perante a violência da guerra ucraniana, sem estratégia própria, a navegar ao sabor dos interesses geoestratégicos alheios. Putin, que apoiou a extrema-direita europeia, conseguiu destruir a Ucrânia e Rússia, a última à espera de se tornar uma nova Jugoslávia onde o fascismo islâmico se prepara para a desintegrar e criar novos estados fantoches apoiados pelos responsáveis da sua desintegração.

Dizer que nenhuma potência gosta de que lhe ponham mísseis na fronteira, devia ser um truísmo tautologicamente demonstrado, e passou a ser a arma ao serviço do pensamento único, sob meaça de ser um argumento a favor do czar Putin.

A Paz é um mero pretexto retórico para a eliminação do adversário escolhido pela Nato, e o presidente da Ucrânia foi promovido a herói das democracias liberais, mesmo depois de ter proibido os partidos da oposição. O histerismo com que se veiculam as posições de Zelensky chega ao despautério de exaltar a sua censura ao governo de Portugal por não ser tão belicista quanto desejava, à Nato por ter medo da Rússia e à Europa por não dar pretexto ao holocausto nuclear envolvendo-se diretamente na guerra que procura estender ao Mundo.

A Europa, herdeira do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Francesa, arrisca a desintegração. Os nacionalismos já a corroem, o belicismo dos que não aceitam pagar a fatura da sua imprudência ameaça as instituições democráticas, a extrema-direita anda aí nas ruas, de Lisboa a Kiev, e a Polónia e a Hungria, que tinham suspensos os fundos por desrespeitarem os direitos humanos, já integram o paradigma das futuras democracias, que constroem muros para impedir a entrada de refugiados de tez escura, mas abrem as portas a caucasianos.

Quando aceitamos censura à informação e nos resignamos às verdades únicas, é a ruína dos valores que promovemos, a democracia que pomos em jogo e o futuro coletivo que hipotecamos.

Ninguém se preocupa já com alterações climáticas, com a fome que aumenta em África por cada dia que se prolonga a guerra na Europa, com os refugiados da Síria e do Iémen, com os regimes teocráticos que se multiplicam, com a Turquia na sua deriva islâmica e antidemocrática a forçar a integração na UE, enfim, com a subversão dos valores que nos moldaram e tínhamos por irreversíveis.

O mundo não é a preto e branco e os que resistem são difamados. Podem calar-nos, mas não nos renderemos.


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