Vêm aí os Russos

(Raquel Varela, 28/03/2022)

Não percam o documentário ontem na CNN sobre Zellensky, à noite, pelas 21 horas, mais ou menos.

Podem ver aqui.

Nada do que foi ali dito justifica uma invasão da Rússia, reitero que só no quadro da disputa interimperial se pode entender (não justificar) este conflito, os EUA armam oficialmente a Ucrânia, portanto estão em guerra por interposto país. O que fazer? Tentei contribuir para essa questão num artigo no Jornal I com o mesmo título. Feito este introito, o documentário, ainda por cima da CNN, é imperdível: Zellensky é um arrivista social, que tem um talkshow, na televisão de um oligarca ucraniano que é dono do canal privado, oligarca em fuga do país por desvio de fundos. Juntos criam um Partido com o mesmo nome do talkshow, e a última temporada do talkshow decorre durante as eleições! Melhor é impossível.

O grau de infantilização e desprezo pelos cidadãos não podia ser maior, não admira que a Ucrânia esteja, a par da Rússia, no fim dos índices democráticos internacionais todos. Zellensky ganha o concurso, perdão, as eleições. E soma escândalos. Está no Panama Papers; somam-se os membros do Partido e oligarcas a receber luvas, ele coloca-os em directo com um detector de mentiras para tentar provar que não receberam luvas; é colocada em público, por um jornalista, a gravação – sem possibilidade de desmentir – da conversa de Zellensly e Trump, onde Trump lhe promete 400 milhões em armamento em troca de Zellensky vigiar os negócios do filho de Biden na Ucrânia. Às vezes não sabemos se é um documentário do “líder do mundo livre” ou um capitulo do filme O Padrinho. E na CNN! A decadência máxima do capitalismo mundial, é de ficar de boca aberta. Zellensky fica aliás de boca aberta várias vezes quando é confrontado com os escândalos de corrupção, mas não se deixa abalar. Faz mais uma selfie – não estou a brincar. É ver para crer.

O documentário ignora olimpicamente o apoio do governo ucraniano à extrema-direita, a proibição da língua russa e ensino apoiada por Zellensky (falada por 45% dos ucranianos), passa ao de leve nas manifestações, antes da guerra, de ucranianos russos contra Zellensky, e explica, sem dúvida, que havia uma guerra civil no Donbass desde 2014 com 14 mil mortos – aliás admitida no discurso de tomada de posse de Zellensly que discursa dizendo que será a sua principal missão, acabar com a guerra num Donbass. O homem que agora viu o seu país transformado num palco de guerra interimperial, destruído na zona leste, com 4 milhões de pessoas em fuga. E que promete continuar a “resistir”, e acusa a NATO e UE de serem uns cobardes porque não aceitam uma terceira guerra mundial. Sim, todos os dias o comediante pede uma guerra nuclear, e aparece em capas de jornais ocidentais como o novo Churchill…A mesma NATO que armou, treinou o seu exército. Ele estava convencido que a NATO estava ali para defendê-lo, não percebendo que a NATO, por agora, luta na Ucrânia, para levar os seus países para a guerra vai ser preciso mais desespero económico. O comediante esqueceu-se que a vida não é um programa de TV. Achou, porventura, que as imagens da destruição e sofrimento eram suficientes para a NATO lançar bombas nucleares, esqueceu-se de duas coisas – a primeira é que para levar os povos europeus para uma guerra vai ser preciso mais do que fotos de prédios a cair, porque aqui deu-se a II Guerra Mundial, sabemos, de memória, o que é a barbárie. Morreram 80 milhões de pessoas nessa guerra. A segunda é que a NATO não se sensibiliza com fotos, de outra forma já tinham feito algo na Palestina, no Iémen, na Síria. As guerras dos impérios não são feitas para parar o sofrimento humano, mas para disputar matérias primas. Se Zellensky lesse qualquer coisa de história em vez de filmes do instragram talvez não se tivesse desiludido tanto.

Zellensky não conseguiu impedir que o seu país se tornasse um ringue de boxe mortal entre os EUA, a UE e a Rússia (o que sejamos sinceros não teria sido tarefa fácil, porque nem os EUA nem a Rússia abdicam das riquezas em jogo), e isso é dado como um caso de sucesso – todo o argumento do comentário, cito, é o “fantoche” de um oligarca e do Ocidente que se transformou num brilhante estadista. Como? Agora vem a cereja no bolo do documentário. Porque todo o enredo é a explicar que Zellensky é genial, ele é o primeiro presidente “infuencer” que ganhou o coração dos ucranianos com filmes no instragam às 7 da manhã a dizer “bom dia” e a fazer jogging. Ide ver, e que com muitas selfies passou pelos escândalos de corrupção e sobreviveu.

A quem venha aqui explicar-me que a Rússia é uma ditadura reitero, o inimigo do meu inimigo não é meu amigo. Já escrevi em livro amplamente sobre a ditadura na Rússia, e a sua história, na altura em que o Ocidente gostava da ditadura e a incentivava – fazia parte dos negócios. O Estado russo não salvará os ucranianos do Estado ucraniano, e são os russos, com os ucranianos, que poderão pôr fim a esta guerra, e não vai ser com o apoio de ambos os Estados – só os povos podem conquistar a paz, contra as guerras feitas por Governos. Nenhuma liberdade é conquistada com bombas.

Agora, que o autoproclamado Ocidente tenha transformado este Berlusconi das redes sociais, que está a ver o seu país devastado, num Churchill diz muito. Diz muito não sobre o comediante influencer, mas sobre o estado a que chegaram os Estados do Ocidente, que provocaram ou não impediram, e ainda armam esta guerra (sem nos consultar) em nome de, imaginem, “valores democráticos”.

Não fosse a imensa tragédia humana e o sofrimento atroz a que assistimos naquele povo ucraniano e, depois destas linhas, penso até como seria um talkshow com todos os líderes destes governos, da Rússia, Ucrânia, UE e EUA. Podia chamar-se “Vêm aí os Russos”. Um dia no futuro, sem mais ameças de guerra e guerras, poderemos colocar a realpolitik no caixote de lixo da história e fazer disto um talkshow. E rir-nos, olhando cada uma destas personagens, do legado do capitalismo.

PS: Na minha Breve História da Europa há um capítulo sobre a revolução russa, outro sobre a contra revolução estalinista, a II Guerra, a queda do Muro e um capítulo de conclusão sobre o papel da Rússia na Europa.


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O futuro da Ucrânia

(José Preto, in VK, 25/03/2022)

É natural que a destruição das infraestruturas militares e de abastecimento em campanha sirvam o primeiro objectivo territorial – a devolução das fronteiras próprias às Repúblicas do Donbass e a eliminação da ameaça que sobre elas pesava.

Libertado integralmente o território – o que não pode já tardar muito mais – os dois estados soberanos decidirão quanto haja de fazer-se.

É de notar que as duas repúblicas se perfilam em dissonância (amistosa) com o Kremlin.

São Repúblicas Populares. Ou seja, os pressupostos da estruturação socialista do Estado presidiram às respectivas proclamações de independência.

Já o Estado Federal Russo não comporta constitucionalmente mais do que a forma republicana de Estado e a forma de governo cristalizada na estruturação da Democracia Parlamentar com regime presidencialista.

A Rússia não tem intenções de ocupação ou anexação.

Evidentemente, se essas Repúblicas, ou alguma delas, decidirem – por eventual referendum – pedir a integração como estados federados, logo se verá.

Isto deixa interrogações quanto ao demais território de população russa, filorussa e russófona, maioritárias no sul e nordeste, com histórica expressão nos territórios a leste do eixo que una Kiev a Odessa.

O exército russo está já nesses territórios e as unidades das FFAA ucranianas estão nos “caldeirões” dos cercos respectivos. E a ideia de ver o vencedor abandonar “simplesmente” os territórios que dominou é repugnante por constituir uma auto-derrota.

Mas a verdade é que o exército russo não parece inclinado a substituir-se às populações locais. E estas perguntam se já “são russas outra vez”.

A resposta é que serão quanto quiserem ser, bastando para tanto organizarem-se para manifestar de modo suficiente a vontade política à qual haja lugar. O que é preciso, talvez, é evitar que as populações fiquem submissamente à espera de uma direcção política dos territórios saída da estrutura militar russa, enquanto o exército e o Estado Federal Russo esperam a estruturação política de iniciativa popular.

Falso impasse. É preciso dissipar esta hesitação.

Outra questão – e não é pequena – é saber o que ocorrerá na impropriamente chamada “Ucrânia ocidental”. Lvov e a Galicia, a Bucovina do norte e a Transcarpácia (com população originariamente eslovena e húngara, mantendo as suas tradições culturais).

A Polónia está visivelmente ávida relativamente a Lvov. E deve ser energicamente contrariada pela destruição da aberração greco-católica, igreja de nazis (vão dizer que não, mas é o que são nos tempos que correm e já o tinham sido no passado) e pela desarticulação do fascismo católico, que nem a liberdade de religião consegue respeitar na região onde ainda campeia.

Os nacional-católicos costumam demarcar-se do fascismo. Não são hegelianos, dizem. Pois não. A diferença está pois na recusa do estado como expoente máximo da consciência dos valores da sua época. Isso é para eles apanágio da igreja. Os resultados práticos são bastante piores. Designadamente no que à liberdade de consciência respeita. O papismo traz um fenómeno chamado “direcção de consciência”, convém não o esquecer. Pior, portanto. A designação de fascismo católico é uma solução expressiva e deve ser mantida por isso, no debate político.

Lvov deve cair também, do ponto de vista do objectivo – crucial para a segurança colectiva – da desnazificação da Ucrânia.

Efectivada esta, os locais decidirão o que fazer, como em todos os outros lugares. Um estado federal, ou confederal, não pareceria má ideia.

E não parece má ideia, mesmo que as liberdades próprias tenham de ser impostas, em alguns casos, manu militari. Não seria a primeira vez. O papismo é tão avesso às liberdades civis e políticas que provocou uma guerra civil entre os helvetas, na qual as liberdades — hoje pacificamente exercidas — tiveram de ser impostas aos papistas em seu próprio benefício. O papismo foi o último a aderir à independência romena (outro exemplo), o último a reconhecer Timor (para quem se tenha esquecido). O último, até, a reconhecer a independência portuguesa (o primeiro heresiarca só o fez depois do Rei de Espanha transigir). A liberdade gera ali um qualquer alarme de alma e é mais prático e mais fácil vencê-lo do que convencê-lo.

Mas o respeito pela cultura de cada comunidade não parece evitável, sem prejuízo do enraízado pluralismo de presenças étnicas e culturais. Estas devem naturalmente continuar a expressar-se, com a liberalidade à qual têm integral direito. A liberdade da existência das comunidades é uma condição da paz.

Não deve pois ser mal compreendida a atitude das FFAA russas. Elas não estão em solo ucraniano para exercerem uma tutela com o pressuposto da (abusiva) consideração da incapacidade das populações locais.

Elas eliminam os ukro-nazis e o sbu (estrutura de polícia política incumbida da intimidação maciça e assassinato como política quotidiana de “estado”). Foi quanto se propuseram. É quanto estão a fazer.

As populações têm de concretizar quanto lhes incumbe. As FFAA russas não são a estrutura adequada à instituição de novos governos estaduais ou regionais, com eventual fundamento num qualquer direito de conquista. Elas devolvem a liberdade às populações. Não foram assumidas ou fixadas, por ora, incumbências com outra amplitude.


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Agora que o imperador se recolheu à sua Torre

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 27/03/2022)

Agora, que o imperador regressou à capital após a visita aos confins do império, onde as legiões lutam para progredir em direção aos territórios dos bárbaros, acolhido em triunfo e despedido com promessas de servidão e lealdade pelos cônsules locais, recordei o “Discurso da Servidão Voluntária”, escrito em 1600 por La Boétie, companheiro e amigo do filósofo Montaigne. Este, um homem de Estado, de obediências, de ordem, monárquico, adepto de um chefe absoluto, considerou o livro do jovem amigo difícil prefaciar. Hoje em dia é ainda tristemente atual a dificuldade da sua análise. Pelo que vi, vimos, nas cerimónias de receção da Europa ao imperador, o ser humano (pelo menos os dirigentes europeus) aceita como boa medida para viver com alguma comodidade amarrar-se a si mesmo para melhor obedecer a um senhor. Como dizia Manuel J. Gomes, tradutor de La Boétie: Se em 1600 era tarefa difícil escrever um prefácio a La Boétie, hoje não é mais fácil. Hoje como nos tempos de La Boétie e Montaigne, a alienação é demasiado doce e a liberdade demasiado amarga, porque está demasiado próxima da solidão.

La Boétie escreveu, parece-me que com razão e premonição, que a Liberdade é coisa que os homens não desejam; e isso por nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá-la para a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de obter.

E, de seguida, La Boétie avança uma diatribe contra os povos que assim se submetem: Gentes miserandas, povos insensatos, nações apegadas ao mal e cegas para o bem! A vida que levais é tal que (podeis afirmá-lo) nada tendes de vosso. Mas parece que vos sentis felizes por serdes senhores apenas de metade dos vossos haveres, das vossas famílias e das vossas vidas; e todo esse estrago, essa desgraça, essa ruína provêm afinal não dos seus inimigos, mas de um só inimigo, daquele mesmo cuja grandeza lhe é dada só por vós, por amor de quem marchais corajosamente para a guerra, por cuja grandeza não recusais entregar à morte as vossas próprias pessoas.

Esse que tanto vos humilha tem só dois olhos e duas mãos, tem um só corpo e nada possui que o mais ínfimo entre os ínfimos habitantes das vossas cidades não possua também; uma só coisa ele tem mais do que vós e é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes!

E La Boétie faz as perguntas que ainda hoje são atuais e que nós, os europeus, devíamos fazer aos nossos tristes (mas sorridentes) representantes, se confiássemos que não fossem cobardes, a propósito da servidão voluntária ao imperador que os veio inspecionar:

Onde iria ele buscar os olhos com que vos espia se vós não lhos désseis? Onde teria ele mãos para vos bater se não tivesse as vossas? Os pés com que ele esmaga as vossas cidades de quem são senão vossos? Que poder tem ele sobre vós que de vós não venha? Como ousaria ele perseguir-vos sem a vossa própria conivência? Que poderia ele fazer se vós não fôsseis encobridores daquele que vos rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de vós mesmos?

Não nos queixemos pois da nossa futura pobreza, nem do desprezo a que os europeus e a Europa serão votados. Escolhemos a servidão.


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