A guerra na Ucrânia e os novos inquisidores

(Armando Rosa, in Jornal Maisruibatejo.sapo.pt, 14/03/2022)

(Subscrevo este texto na íntegra e dou os parabéns ao seu autor. Responde com brilho e racionalidade à intolerância e primarismo mental de muitos que tem vindo aqui atacar este blog e a sua postura de revelar verdades “inconvenientes” sobre a guerra na Ucrânia, intoxicados que estão pelas manipulações de uma comunicação social vendida e sem cerviz. Temos que os perdoar porque estão hipnotizados. Mas devemos combatê-los para que acordem.

Estátua de Sal, 25/03/2022)


Ponto prévio: É claro para mim que a invasão da Ucrânia ordenada por Putin é uma grosseira violação do Direito Internacional e traz riscos gravíssimos para a paz mundial. Isso não me impede de relacionar esse ato com outros que lhe antecederam. Nada o justifica, apenas se podem entender as suas causas.
Dito isto vamos ao que interessa.

Esta guerra era inevitável?

Talvez nunca tenham existido tantos avisos e prenúncios para a realidade que estamos a viver neste momento. De facto, analistas conceituados, políticos experimentados e estrategas reconhecidos, escreveram, em tempo, sobre os perigos e as potenciais causas de um conflito entre a Rússia e o Ocidente. Seguem alguns exemplos, entre dezenas de outros igualmente premonitórios:
Mário Soares (11 de setembro de 2008).: “… a NATO, cercando a Rússia e instalando na Polónia e na República Checa bases de mísseis, (depois disso já instalaram nos países bálticos) começa a ser uma ameaça para a Rússia, que a pode tornar agressiva. Um perigo! A NATO, criada como organização defensiva, no início da «guerra fria», está a tornar-se, por pressão dos neo-conservadores americanos,
uma ameaça à paz. Cuidado União Europeia!

George Kennan, o maior estratega de política externa dos Estados Unidos no tempo da guerra fria, já em 1998, ele advertia que “a expansão da OTAN seria um erro trágico que pode provocar uma má reação da Rússia“.

Henry Kissinger no Washington Post em 2014:
«O Ocidente tem de perceber que, para a Rússia, a Ucrânia nunca pode ser apenas um país estrangeiro. Para o Ocidente, a demonização de Vladimir Putin não é uma política aceitável, é, isso sim, um álibi para a ausência de uma política».

John Mearsheimer, provavelmente o principal estudioso geopolítico nos EUA (Março 2022): “O Ocidente é o principal responsável pelo que está a acontecer hoje na Ucrânia e é o resultado da decisão de 2008, de integrar a Ucrânia e a Georgia na NATO”.

Douglas McGregor, Coronel e ex-assessor sénior do secretário de Defesa dos EUA, recentemente disse: “Os russos deixaram muito claro: o que eles querem é uma Ucrânia neutra. Isso poderia ter acabado dias atrás se Zelensky aceitasse. O presidente Zelensky está colocando um grande número de sua própria população em risco desnecessário”.

Os Novos Inquisidores

A superioridade moral dos Ocidentais está posta à prova e nas redes sociais o radicalismo e a intolerância vão de vento em popa; Abordar ou discutir as causas do drama, passou a ser para os Torquemadas modernos, desde que essas causam não casem com as suas convicções tantas vezes desprovidas de reflexão, uma espécie de traição e conluio com o que definem o seu inimigo.” Quem escreveu isto foi um Capitão de Abril do meu tempo, Coronel Rodrigo Sousa e Castro que muito prezo e que acompanho neste seu comentário.

São estes inquisidores que pululam pelas redes sociais e nos OCS de sentido único, onde os poucos que ousam pensar fora da caixa, intoxicada pelos jornalistas e comentadores de serviço, são severamente punidos com epítetos próprios dos intolerantes belicistas e censores de antigamente.

Quem são, como agem e pensam os censores modernos? Seguem catorze pontos que podem abranger esse universo:

1- Os novos inquisidores atuam especialmente nas redes sociais, insultam, discriminam e negam o contraditório a quem procura explicações e tem algum pensamento crítico sobre o que se está a passar. Não admitem qualquer responsabilidade pelas causas da guerra, em que entre a NATO, os EUA, ou a EU. Quem admite isso é imediatamente relegado para as chamas do inferno e apelidado de putinista, russófilo, traidor e até de comunista. É estranho mas de certo modo compreensível, que uma grande faixa destes novos inquisidores saia das entranhas do Partido Socialista. Felizmente lá ainda há quem veja a “big picture”, não idolatre os EUA e tenha pensamento próprio.

2- Os novos inquisidores não sabem, ou fingem não saber, que a UE está totalmente subjugada aos interesses dos EUA, agora e quando aconteceu a Conferência de Bucareste da NATO, em 2008. Lá estiveram presentes chefes de estado dos 24 países. A Alemanha e França seguidos também por Portugal, Espanha, Itália, Holanda e mais alguns países, achavam arriscado e não estavam disponíveis para avançar com a pretensão dos EUA de colocar na agenda a adesão à NATO da Ucrânia e da Geórgia. Com o espanto geral, o documento final que saiu dessa conferência foi imposto pelos americanos e a Ucrânia e Geórgia ficaram na mira da NATO com o respetivo mandato.

3- Os novos inquisidores sabem que numa guerra há sempre os que ganham e os que perdem militarmente. Mas também sabem que há muitos que ganham sem ir à guerra. Só um cego não vê quem está, de cadeira, a beneficiar com esta guerra: os EUA. A América salva a indústria de armamento que estava em sérias dificuldades e está a fazer tudo para acabar com o gasoduto Nordstream2 de modo a serem eles a fornecerem o gás à Europa. Também é um empurrão importante aos democratas que ganham algum folego para as eleições intercalares deste ano. Só um ingénuo é que acha que estes interesses nada têm a ver com o prolongamento da Guerra, ou até com a própria guerra e as suas causas. Mas, no geral os inquisidores modernos são inequívocos apoiantes dos EUA e não gostam de ouvir isto.

4- Os novos inquisidores aplaudem a censura e a retirada da cena cultural europeia de vultos universais da cultura russa, como são já muitos casos são conhecidos. Também, como bons censores que são, apoiaram as decisões da EU/EUA de calar as rádios russas, não fosse a sua audição pelas massas analfabetas do Ocidente, causar danos na perceção da verdade única e inquestionável, ditada pelos cínicos políticos que temos que aturar. Lembram-se das razões invocadas pelo Estado Novo? Pois são as mesmas.

5 – Os novos inquisidores, agora híper indignados com esta invasão, nunca se indignaram com as atrocidades provocadas por outras invasões perpetradas por países do Ocidente (NATO). Eis os mais recentes que lhes passaram ao lado: a instigação e a participação da NATO nas guerras da Jugoslávia e os seus 150 mil mortos; as duas Guerras do Golfo, a mentira que desculpou uma delas e os 100 mil mortos diretos que os combates provocaram; os mais de 100 mil mortos que o Iraque “protegido” pela coligação internacional lá instalada provocou; a presença norte-americana durante 20 anos no Afeganistão e os seus 65 mil mortos; os envolvimentos, desde 2001 na Síria (estimam-se 400 mil mortes). Os OCS ocidentais ignoram o que se passa na Somália e no Iémen; ignoram a ocupação da Palestina por Israel e, nos últimos anos, os 21 500 mortos desse conflito. Mas falar disto é whataboutismo….

6- Os novos inquisidores bem conhecem, mas omitem, a influência e o poder das forças de extrema-direita (partido Svoboda e neonazis nas forças armadas) na posição beligerante (embora defensiva) do presidente da Ucrânia e o extermínio dos russos nas províncias do Leste desde 2008 (mais de 14 mil mortos). Mas falar disso é ser russófilo.

7- Os novos inquisidores consideram Zelensky um herói, mas também sabem que ele distribuiu armas a milhares de jovens e idosos (entre os 18 e 60 anos), sem qualquer formação militar, para combaterem, se necessário for, até à morte. A chamada carne para canhão à sombra de um patriotismo forçado e uma coragem mortífera. Mas criticar isto é ser abdicacionista.

8- Os novos inquisidores também conhecem quem tem pedido intensamente a intervenção militar direta da NATO (fechando o espaço aéreo do país), conhecendo bem as consequências desse ato: um inevitável conflito nuclear e mundial. A posição, até aqui sensata da NATO, tem resistido a esse pedido. Mas lembrar isto é não ter em consideração o heroísmo do comediante.

9- Os novos inquisidores sabem, mas não querem admitir, que Zelensky é um presidente que não se importa de ver o seu povo massacrado e o seu país totalmente destruído. A primeira preocupação de um presidente deverá ser afastar o seu país dos horrores da guerra. Este, com a ajuda do Ocidente, está a prolongá-la. Até à solução final? Não é um herói, é um aventureiro impreparado, um perigo para a humanidade.

10- Os novos inquisidores que agora clamam (e com razão) pelo julgamento dos crimes de guerra russos, nunca se levantaram contra as atrocidades que o governo ucraniano cometeu, ou deixou cometer, contra a população russa das províncias de Lubansk e Donesk e que deixaram mais de 14 mil mortos desde 2008. Também nunca clamaram pelo julgamento dos responsáveis pelos setenta e oito dias e noites consecutivos de “bombardeamentos cirúrgicos” da NATO sobre a Sérvia que atingiram colunas de refugiados, hospitais, escolas, órgãos de comunicação, a embaixada chinesa, fazendo mais de 500 mortos entre os civis (dados do Humanitarian Law Center). Nenhum responsável político ou militar da NATO foi sequer julgado por crimes de guerra. As indignações parecem ter só um sentido. Falar disso é whataboutismo…

11- Os novos inquisidores vão batendo palmas sempre que há notícias de mais entregas de armamento à Ucrânia, por parte do Ocidente. Sabem bem que isso apenas levará a mais mortes e mais destruição e a uma escalada de imprevisíveis consequências. Também devem saber que grande parte dessas armas vão diretas para as milícias constituídas por nazis que, de toda a Europa, lá chegam e onde vão ter formação militar. Mas, como bons belicistas, gostam e querem mais. Quem se insurge contra isso e quer a paz rápida, é putinista e está a trair o invadido.

12- Os novos inquisidores não gostam dos generais que comentam nas TVs, porque eles não seguem a cartilha da comunicação mainstream. Para eles quem deve comentar a guerra não são militares na reserva, embora com larga experiência em operações NATO e na atual zona de guerra. Para comentar a guerra são sempre bem-vindos os do costume: os que tanto comentam os problemas das pandemias e da saúde, como desportivos, políticos ou outro tema qualquer. Esses comentam tudo e têm sempre as portas abertas nas TVs de pensamento único. Os militares com registos diferentes do discurso oficial e, paradoxalmente, bem mais moderados nos impulsos belicistas, quase que desapareceram.

13- Os novos inquisidores conhecem os termos da negociação e que bastam poucas (porventura difíceis) cedências por parte de ucranianos e russos para que se chegue a um acordo de paz consistente. No entanto, não clamam por efetivos esforços de mediação por parte de países neutrais, nem da principal organização que tinha por obrigação liderá-las, a ONU. A ONU, cujo responsável máximo já tomou partido, contra o que seria espetável, por parte do líder de uma organização com os estatutos das Nações Unidas. Só que agora, Guterres não tem espaço para mediar o que quer que seja.

14- Os novos inquisidores bem sabem que, quanto mais tarde se chegar ao final do conflito, mais sofrimento será causado, não só aos intervenientes locais, mas a todos nós que, na EU, iremos pagar com língua de palmo, a casmurrice e irresponsabilidade de políticos rascas e impreparados que atualmente congeminam na Europa. Mas, mesmo sabendo isso, continuam a apoiar o prolongamento da guerra e a entrada de cada vez mais armamento.


Epílogo

Não admito que alguém que venha a ler este meu desabafo seja mais contra a guerra do que eu. Sobre invasões de países soberanos, condeno-as todas, salvo as que motivadas por fins humanitários e a pedido do invadido.

Dito isto, apenas quis deixar aqui bem clara a minha posição sobre esta guerra e as suas consequências nas atitudes e na intolerância de muitos, dando algumas pistas para que as pessoas se informem melhor, em alternativa ao que lhes é impingido nos OCS, em especial nas TVs.

Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus.” (Albert Einstein)

Fonte aqui


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13 pensamentos sobre “A guerra na Ucrânia e os novos inquisidores

  1. Não vejo inquisição nenhuma. Vejo é uma tribo de gente teimosa, pseudo-intelectual, que perante o desenrolar uma guerra na Europa não se preocupam com outra coisa que não justificar constantemente a sua posição política, que é de defesa das ações do agressor.

    • Ainda não vi uma única defesa do agressor, neste caso. O problema é de quem quer à viva força fingir que nunca houve outras agressões. E que esta guerra caíu do céu aos trambolhões, sem antecedentes. Pseudo-intelectuais, só porque não engolem a propaganda que lhes impingem? Complexos de inferioridade são sempre mais conselheiros.

  2. ” Temos que os perdoar porque estão hipnotizados. Mas devemos combatê-los para que acordem” Surreal. O resto o é o que é: Os apóstolos da verdade em missão de catequização dos tresmalhados

  3. Eu sou mais forte que tu…
    Invado a tua casa, se é que a tens, porque não concordo com o teu estilo de vida, ou aquele quele que pretendes ter.
    Destruo tudo, porque posso, mato parte, quiçá toda a tua família que viva contigo, se é que a tens, porque quero.
    Somente tens de fazer algumas cedências, “porventura difíceis”, subjugar-te aos meus caprichos ou paranóias, para que possas viver, não livremente como qualquer ser humano, mas segundo a minha vontade.
    Porque é que não cedes? É fácil de resolver e podes passar a viver em “liberdade” de novo.

    Se fosse ao contrário, para resolver esta situação, um de nós sairia deitado com um fato de madeira. Aí sim, de uma forma ou de outra, eu atingia a paz.

    Mas isto é somente a minha opinião, um apologista da paz, mas de uma paz plena, que me permita a escolha, não uma paz que me é “imposta” sob determinadas condições.

    Sê feliz com a tua maneira de ser, mas não tentes evangelizar os outros, pois nem todos temos paciência para aturar pretensos “pastores” que afinal não passam de pobres ovelhas.

  4. Vou escrever aqui o mesmo que anteriormente cometei noutro post, mas acrescento que nos últimos meses isto parece um redondel de esquerdas radicais próximas do PCP e outros. Não, não inventem, não sou, nem fui anticomunista. Mas, se acharem, podem aconselhar-me a ir para um campo de reeducação. Aqui vai agora o que escrevi:
    Olá blogue que eu seguia! Isto por aqui passou a ser um blogue de campanha antiamericana, mas da mais rasca e sem qualidade. Nada disto me garante a credibilidade de quem escreve e de quem publica, e que seja tal e qual. Onde estão as fontes? Parece-me uma evidente propaganda pura e simples. E do outro lado, de quem manda na Rússia, está tudo bem? Lamentavelmente parece-me estar a ser um antro de facciosos sectários.

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