“Guerra à Guerra”

(Raquel Varela, 23/03/2022)

(Mais uma vez a lucidez de Raquel Varela. Este conflito só pode resolver-se com negociações sérias entre a Rússia e os EUA porque a UE e a Ucrânia não passam de atores secundários. Mas isso Biden e quem o apoia não quer. Business is business. E a unanimidade da NATO/EUA/UE nas cimeiras de hoje assusta: nem uma palavra pela paz! Querem guerra e derrotar com “fisgas” uma potência militar que em 10 minutos, se tanto, tem poderio para destruir várias vezes o Planeta!! Está tudo demente!

Por este andar, talvez nem as formigas nem as moscas cá fiquem para contar a história do suicídio da espécie humana.

Estátua de Sal, 24/03/2022)


Hoje perguntei a um grupo de jovens o que fariam se fossem mobilizados para a guerra, a resposta foi “já combinámos todos, partimos um braço no skate para não ir”. Estes dias tenebrosos, para onde os líderes dos impérios nos levaram, normalizaram a guerra como um acto viril, de coragem, em que os homens fortes ficam a combater e as “pobres mulheres e crianças são refugiadas”. Sempre me impressionou, antes desta guerra, quando se referia que as mulheres eram as principais vitimas da guerra, porque eram a maioria dos refugiados. Evidentemente, são mulheres porque os homens ficam nas guerras a praticar, assistir e ser alvo das maiores atrocidades!

Eles, os homens, são as principais vítimas da guerra e sempre foram. Não são todos os homens, são os pobres que vêem no exército profissional a única forma de sobrevivência, são os mantidos na ignorância de um sistema económico que usa e abusa da pobreza de espírito, e são os filhos das classes médias/trabalhadoras, porque filhos de empresários, generais e accionistas nunca estiveram em risco.

Esta guerra – mesmo contra a mais básica mistificação e propaganda – não é diferente de todas as outras. Vende-se muita coragem, entrevistam-se voluntários, mas fazem-se leis para para mobilizar os homens à força, com leis de conscrição, que os proíbem de fugir. E cria-se um ambiente de perseguição aos que não querem ir para a guerra, acusando-os de cobardia ou traição à pátria. A pátria, esta ou qualquer outra, o que deu aos homens que morreram por ela? Com sorte, o nome num passeio, ao lado de uma estátua gigante de um General ou Presidente.

Um cadastrado por homícidio tatuado com uma suástica vai em missão “humanitária” para a Ucrânia, e os milhares que queiram de lá fugir não podem, não são entrevistados, não existem. E ainda lhes chamarão, sem pudor, “traidores à pátria”. Sem surpresa regressou neste mês, pela mão de democratas que ostentaram 30 anos pombas da paz, a necessidade urgente de “um exército europeu”, pago com a nossa saúde e educação, “ir para a Ucrânia combater”, regresso do “serviço militar obrigatório”. É só gritos de guerra, aqui e na Rússia, de quem nunca suja as mãos e mandam os outros lavarem-se em sangue. O cinismo encarregar-se-á de encontrar uma justificação para o injustificável.

As guerras são coisas de ricos, não as faremos por vós, dizia um cartaz de uma manifestação nos EUA. Que os jovens europeus vão todos andar de skate, e que sobretudo organizem a resistência ao militarismo, e renunciem a ser carne para canhão da economia de guerra é o meu desejo sincero. Guerras combatem-se com resistência política organizada democraticamente contra os reais fautores da guerra, foram assim as resistências na I e na II Guerra, uma guerra política e social contra a guerra económico-militar.

Guerras não se combatem até ao último homem dos filhos dos outros. Os homens, filhos de quem vive do trabalho, são as principais vítimas da guerra. Esperemos que sejam também, como tantas vezes foram no passado, os que lutarão contra as guerras.

Viril não ir à guerra, é desertar, viril e corajoso é fazer greves que doam a quem faz a guerra, nobre é, como na II Guerra, parar fábricas e transportes; corajoso é lutar por saúde e educação contra orçamentos militares. É aí que reside todo o humanismo radical – é na luta contra as guerras, pela humanidade como pátria, entre iguais, que nos tornamos dignos de respeito dos outros. Trair a humanidade, embarcando no militarismo, aceitando o negócio da destruição, é um acto cobarde, de quem não se quer enfrentar com quem tem realmente poder.


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9 pensamentos sobre ““Guerra à Guerra”

  1. Sim, sim, viril mesmo é ser-se objetor de consciência, fugir para Paris ou Tânger enquanto os outros combatem e são apelidados de fascistas, ser-se amante da paz e desconsiderar quem combate, e depois não ter qualquer pejo em usufruir os benefícios da paz que os outros conquistaram…

  2. “Guerras combatem-se com resistência política organizada democraticamente contra os reais fautores da guerra, foram assim as resistências na I e na II Guerra, uma guerra política e social contra a guerra económico-militar.” ? Jean Moulin, só para citar um resistente, fugiu para a Suíça, ou fez-se transportar de Londres até à França ocupada para lutar contra os Nazis ? Só as putas francesas, que dormiram com os alemães, foram consideradas traidoras, rapadas e levaram uma sova. Onde é que a Raquel “Tia” varela quer que eu a rape ?

  3. Estes falcões garnizés que por aqui aterram mereciam mesmo ir à guerra. É por causa do vosso sonho homo-erótico Machado ser mencionado que destila este fel? Heróis de sofá e ignorantes da realidade julgam que mandam nos corpos dos outros e dos seus filhos. A raiva contra quem faz uma leitura sã da realidade é tanta que lhes tolhe o senso. Os ricos e os filhos dos ricos vão à guerra? Ou arranjam cunhas e desculpas anedóticas para se esquivarem, estilo George W. Bush ou Trump? Ou como cá no ultramar? Um país como o nosso em que o desenvolvimento é travado pela ganância e corrupção dos de cima e a maior parte das pessoas nem mil-eurista é têm legitimidade para pedir o sacrifício supremo a quem explora em nome de interesses internacionais capitalistas manipuladores? Vão vocês, velhacos.

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