(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/09/2021)

Uns, criticam a opção de ter dado posse a Pedro Santana Lopes. É o meu caso. Sampaio considerava que a escolha de um português para liderar a Comissão Europeia prestigiava o país e apoiou esta opção do primeiro-ministro demissionário. Acho que o papel de Barroso na Comissão Europeia durante a crise de 2008 demonstrou que era indiferente. Assim como a liderança da ONU de Kofi Annan não fez grande coisa pelo Gana e a de Jean-Claude Juncker na Comissão Europeia não terá trazido grandes vantagens para o Luxemburgo. Os poderes fáticos na Europa e no mundo não mudam pela nacionalidade de quem ocupa estes lugares. Temos de abandonar esta obsessão nacional pelo “prestígio”. Uma economia robusta, uma atividade cultural vibrante e uma sociedade mais justa fazem muito mais pela influência de um país no mundo do que todos os cargos internacionais que os seus políticos ocupem.
O péssimo mandato de Barroso na Comissão Europeia e os quatro meses de delírio a que assistimos com Santana em São Bento vieram a dar razão a quem defendeu eleições antecipadas logo depois da demissão de Durão Barroso.
Outros, pelo contrário, criticam a dissolução que veio quatro meses depois. Correspondendo a uma leitura política do Presidente e não a um imperativo constitucional, é legitimo o debate em torno desta escolha, que do meu ponto de vista só pecou por tardia. E é objetivo que dar posse a Santana, quando Ferro Rodrigues era líder do PS, levando à sua inevitável demissão no meio do cerco da ignominiosa campanha de calúnias em torno do caso Casa Pia, e dissolver o parlamento quando Sócrates chegou à liderança do partido lhe abriu as portas do poder.
Mas dizer que foi Jorge Sampaio que colocou José Sócrates no poder, pretendendo com isso responsabilizá-lo pelo que aconteceu depois, incluindo o comportamento ético daquele que viria a ser o primeiro-ministro, não é apenas um insulto ao ex-Presidente da República. É uma desresponsabilização coletiva.
José Sócrates não foi eleito líder do Partido Socialista por Jorge Sampaio. Foi eleito secretário-geral do PS, em 2004, contra Manuel Alegre, pelos militantes socialistas. E não chegou a primeiro-ministro pela mão de Jorge Sampaio, mas pelo voto claro e expressivo dos portugueses, um ano depois. Talvez a curta passagem pelo poder de Santana Lopes e o abandono da pátria por Durão Barroso tenham contribuído para esse resultado. Isso, e a destruição moral de Ferro Rodrigues e da sua direção.
Não foi por ter galvanizado a esquerda que Sócrates conquistou a primeira e última maioria absoluta da história do PS. Pelo contrário, os partidos à esquerda do PS, que sempre fizeram oposição a Sócrates, passaram de menos de 10%, em 2002, para quase 14%, em 2005. De pouco mais de meio milhão de votos para 800 mil. Mais 264 mil votos do que nas eleições anteriores. O BE mais do que duplicou a sua votação. Com a substituição de Ferro por Sócrates, o PS perdeu votos para a esquerda. E, ainda assim, teve 2.588.312 votos, mais meio milhão do que nas eleições anteriores e a maior votação da sua história, incluindo em eleições em que muito mais gente votava.
A direita, pelo contrário, perdeu, com a chegada de Sócrates à liderança do PS, mais de 600 mil votos, apesar da abstenção ter sido menor do que em 2002. Foi o eleitorado de centro-direita que deu a maioria absoluta a Sócrates, em 2005. Nada que Sócrates não soubesse. “Sou o chefe democrático que a direita sempre quis ter”, disse José Sócrates, em 2013, numa entrevista a Clara Ferreira Alves. E é verdade. São muitos dos que agora dizem que Sampaio levou Sócrates ao poder que lhe deram uma maioria absoluta, em 2005. Provavelmente, com a ajuda da fuga de Barroso e da incompetência de Santana.
Bom sinal que alguém com o longuíssimo percurso de Jorge Sampaio tenha, em toda a sua vida, um único momento em que é merecedor de críticas mais profundas: o momento dramático em que teve de decidir o que fazer, quando Durão Barroso aceitou o convite para ser presidente da Comissão Europeia, demitindo-se da chefia de um governo que ele dizia estar a lidar com um país “de tanga”, e propôs que Pedro Santana Lopes (que nem deputado era) como seu sucessor.
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Daniel faz um exercício em vão, tudo está irremediavelmente tramado, entrelaçado. Foi TAMBÉM Sampaio quem abriu caminho para o que na altura era imparável, a ascensão inexorável de Sócrates. Foi Sampaio e muito, também, não só. Esse exercício agora de tentar separar os acontecimentos sociais para justificar a tremenda perseguição depois empreendida contra Sócrates sem macular Sampaio. Inútil e falsa.
Apesar de ser um criminoso prefiro o Sócrates ao Passos.
Com o Sócrates no poder no tempo da crise, mesmo que sacasse mais uns milhões, o país safava-se MUITO melhor do que com o Passos.
O Passos destruiu completamente o que restava da economia e era um tarado mais troikista que a troika.
Por isso não estou a ver a opção.
O Ferro consorrer tinha sido um desastre para o PS por causa das acusações de pedofilia.
Já estou a ver a PJ a vir buscá-lo para interrogatório a meio de um comicio da campanha eleitoral…
O Passos é pior do que o Sócrates para o país…
Sendo assim, ainda para mais não tendo o dom de adivinhar o futuro, acho que Sampaio fez o que tinha a fazer.
Tanto ódio para quem defende a presunção de inocência