Estado da direita: a decência é agora a excepção

(Por Valupi, in AspirinaB, 27/04/2021)

discurso do Presidente da República na Sessão Solene Comemorativa do 47.º aniversário do 25 de Abril foi um eficaz exercício de comunicação. No conteúdo, corresponde a uma aula de História ao nível do ensino secundário onde os objectivos didácticos sejam a ilustração dos conceitos de “relativismo moral” e de “comunidade”. O texto leva a sua audiência a contemplar a complexidade, a mistura, dos tempos dentro do tempo.

A cada tempo, a cada espaço no tempo, os seus valores. Dos valores vem o comportamento, conforme ou opositor. Se nos focarmos no último século (estamos quase a chegar a um data axial da contemporaneidade, o centenário do 28 de Maio de 1926), o discurso lido na Assembleia da República para comemorar uma mudança de regime apela a que se aceite a bondade de todas as partes. Eram bons os que fizeram maldades, pois não sabiam fazer melhor ao tempo. São bons os que querem fazer maldades por causa das maldades dos antigos, pois no seu espaço e no seu tempo sentem a pulsão da vingança e da revolta. Mas todos se devem perdoar e tolerar, sendo a esse desfecho que colhe chamar “comunidade”. Prova de que tal é possível? Aqui o discurso salta para o metadiscurso, num clássico golpe retórico, e o autor faz das suas palavras – e do momento da fala, desse καιρός – a evidência que reclama: ele tinha sido um dos maus e tornou-se bom. Portanto, sejam amigos, vá lá.

Este é um conteúdo simples, que não chega a cair no simplismo só porque a direita portuguesa há muitos anos que se barricou no grau zero da inteligência política. Desistiram de pensar a cidade, de ter projectos que sejam competitivos em eleições, e reduziram-se à chicana, ao golpismo e ao ódio. Nesse nível, a transmissão de mensagens apenas utiliza o berreiro como canal. E que se pode dizer a berrar? Tão-só que os adversários são o inimigo, o Diabo. É esse o papel do editorialismo e da indústria da calúnia, que em Portugal é um monopólio da direita.

Ora, perante esta decadência, um discurso repleto de bem-intencionadas vulgaridades, como o que Marcelo engendrou com arte, está a gerar uma comoção ditirâmbica. Como se fosse espantoso ouvir um tipo de direita a reconhecer um terreno comum, a apelar à união na diversidade, a ser decente. E a promover a empatia, inclusive para seu próprio benefício. Empatia que é antinómica, mesmo cognitivamente paradoxal e insuportável, com a exploração da frustração e do rancor a que a direita se entrega desde 2007.

Há dois subtextos, porém, no espectáculo oferecido por este actor tarimbado. O primeiro é o de na sua tese se sobrevalorizar aqueles com quem mais Marcelo se identifica, a rapaziada do seu tempo, apelando a que os outros, vítimas próximas ou distantes dos seus, acolham essa diferença. A esta pretensão se deve contrapor a daqueles que reclamam por não terem a sua diferença reconhecida de forma plena, ou suficiente, ou mínima. O segundo é o de Marcelo também ter na sua equipa a Cofina, o João Miguel Tavares e o Marques Mendes, para dar três exemplos que dispensam explicações. Esse Portugal onde a política é uma praxis da violência, do poder pelo poder através da tentativa de destruição de quem se lhes oponha, não é aquele nascido do 25 de Abril. Ao contrário, é contra ele que o 25 de Abril doa sentido à História.


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7 pensamentos sobre “Estado da direita: a decência é agora a excepção

  1. Estado do socratismo: a decência é agora a excepção
    27 ABRIL 2021 ÀS 9:02 POR VALUPI/estatuadesal/Um Jeito Manso

    […]

    Nota. Ora nem mais, 🙂 !

  2. Estado do socratismo: a indecência é agora a excepção
    27 ABRIL 2021 ÀS 9:02 POR VALUPI/estatuadesal/Um Jeito Manso

    […]

    Nota. Ora nem mais, 🙂 !!

  3. Já percebo porque a Estátua gosta tanto dos textos do Valupi: são sempre momentos de boa disposição. O fino recorte filosófico-literário dá-me sempre vontade de rir 🙂

    • Nota. O que o ó d’A Estátua não tem capacidade para dizer é isto: o que a personagem Valupiana vai escrevinhando no Aspirina B, espremido como se faz a uma esfrona, vale nada, niente, zero, bola, é quase sempre uma merda (e se muito uma bela merda). Quem resumiu bem o estado decadente das viúvas de Sócrates foi o Sérgio Sousa Pinto numa excelente entrevista, daquelas com forma e conteúdo!, assinada pela Maria João Avillez. Eis um naco sobre o que de tão criativo tem um dos lados da barricada para oferecer a Portugal, gente honrada e outra que há muito perdeu a vergonha…, no essencial aqueles a quem o Ségio injuria (!) como sendo os virtuosos segundo a narrativa… do assalariado teclistas da blogosfera e alguns espontâneos, no caso.

      […]

      Seja. Mas passaram-se décadas. Soares já
      não está. Como analisa os tempos de
      hoje?

      Vivemos um período marcado por duas
      narrativas alternativas: uma diz-nos que o
      regime está esgotado, sem capacidade de se
      reconstituir, não se vislumbrando ninguém à
      altura de o fazer. Seria então preciso passar a
      outra coisa qualquer. O novo partido Chega,
      juntamente com um populismo torrencial,
      vive da revolta de muita gente que perdeu a
      fé no regime e no actual sistema de partidos;
      o Chega exprime o que é,
      fundamentalmente, uma crise de
      representação. Foi a demagogia e a
      frustração reiterada de expectativas que
      produziram essa reacção populista.

      E a outra narrativa?

      A outra diz-nos que o grande problema de
      Portugal consiste na direita! Ou seja, que
      derrotar a direita e resolver os problemas
      nacionais é, afinal, a mesma coisa. O que
      está por detrás disto é um quadro mental
      quase de tipo religioso, profundamente
      maniqueísta, em que o tal “lado certo da
      história” — expressão pavorosa —,
      apropriado pela esquerda, defrontaria a
      reacção, a inimiga da verdade, do bem e da
      virtude; o “lado certo da História” consiste,
      portanto, na concertação entre as esquerdas
      e contra o quê? Não contra o atraso, as
      desigualdades, a pouca produtividade, a
      pobreza endémica — as nossas reais misérias
      — mas contra a direita, padroeira de todas as
      desgraças.

      E quanto a si? Como olha para isso?

      Eu? Dizendo que não é possível financiar a
      saúde, a educação, as pensões, etc. sem
      enfrentar o problema do desempenho
      económico medíocre do país. Ou mudamos
      ou acabaremos numa Suécia fiscal
      implantada numa Albânia económica. A
      classe média já exporta os filhos licenciados
      para fora. Um dia esses filhos enviarão
      remessas para financiar a velhice dos pais. O
      colapso da classe média significará a
      inviabilidade do país e do nosso regime
      democrático. Chega de propaganda, chega
      de atirar palavras contra a realidade. A
      realidade vence sempre.

      Online, à borla.

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