A política Nem-Nem

(António Guerreiro, in Público, 13/03/2021)

António Guerreiro
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Numa entrevista ao PÚBLICO, publicada no dia 4 de Março, António Costa teve o seu momento Nem-Nem amplamente citado e comentado. Foi quando disse: “Nem André Ventura nem Mamadou Ba representam aquilo que é o sentimento da generalidade do país”. O Nem-Nem é, aqui, a marca linguística da ponderação. “Ponderar”, do latim ponderare, significa “pesar”. É o que faz o nosso primeiro-ministro, numa operação de retórica balanceada, isto é, ponderada: coloca pesos e contra-pesos nos dois pratos e, com a exactidão do fiel da balança, arbitra sobre o que ele entende ser o maléfico equilíbrio dos extremos. Em nome do “sentimento da generalidade do país”, procede a uma dupla exclusão. É esse o gesto justo, isto é, ponderado, de um grande equilibrista Nem-Nem.

O seu a seu dono: devo esta categoria a Roland Barthes, que numa das “mitologias”, define uma crítica “Ni-Ni” como uma “doutrina” que encerra sempre um juízo moral e revela um “traço pequeno-burguês”. Escusado é dizer que tal designação, “pequeno-burguês”, já só a encontramos no baú das velharias. Sempre que a desenterramos, enchemo-nos de pó, mas ao mesmo tempo experimentamos uma satisfação que deve ser semelhante ao espanto dos arqueólogos.

Em vez de “pequeno-burguês”, que evoca ideias e figuras que já não fazem parte do mundo em que vivemos, por muito que gostássemos de restaurar ao menos o traço semântico do tédio que lhe estava associado, podemos talvez dizer “homem médio”. Sai Roland Barthes, entra Pasolini. Só muito parcialmente, porque não é exactamente o homem médio execrado por Pasolini que podemos reconhecer no Nem-Nem de António Costa. Colocando-se no centro de gravidade da nação, o primeiro-ministro sentiu-se no poder de resumir todas as forças vivas do corpo nacional (“o sentimento da generalidade do país”), tal como o centro de gravidade é capaz de concentrar num ponto todos os pesos diferentes. Este homem de pesos e medidas que indicam o grande equilíbrio Nem-Nem não é uma figura da mitologia pequeno-burguesa (demasiado anacrónica), mas também seria exagerado vê-lo como um agente do apocalipse, à maneira daquelas visões tremendas que Pasolini tinha da sua época e do papel central que nela desempenhava o “homem médio”. Não, se quisermos perceber o homem médio de feição costiana, o homem que, medindo o peso de uma embaraçosa dicotomia opta pela moral do terceiro e diz que aí reside o centro de gravidade do país, devemos remontar a uma teoria do homem médio, tal como ela foi formulada por um matemático, especialista de estatística, astrónomo e sociólogo, o belga Lambert Adolphe Quételet (1796-1784; Quételet ficaria fora do meu alcance, e não pretendo exibir uma erudição que não tenho, se não o tivesse encontrado referido no livro de um matemático e ensaísta francês, Vivre et penser comme des porcs, que tinha horror à mediania e à conformidade, chamado Gilles Châtelet). Para Quételet, homem da estatística e não das balanças, há uma excelência da média enquanto tal, seja ela da ordem do Bom ou do Belo. Na formulação de António Costa, a média diz-se de outra maneira; é o “sentimento geral do país”.

O pequeno-burguês entediante e modesto de Roland Barthes é um estereótipo de certas representações políticas e sociológicas de uma época que já não é a nossa; e o homem médio cretino e responsável pelo fim do mundo (ou, pelo menos, do fim de um mundo) de Pasolini também já não corresponde ao imaginário actual dos fins. Por isso, temos de ver no homem médio de Costa, um ideal implícito no seu expediente retórico do Nem-Nem, uma outra espécie de homem médio, muito mais próximo da concepção estatística de um “sentimento” nacional.

O homem médio em que Costa se revê e que lhe inspira a operação retórica do Nem-Nem fornece um ponto de apoio para buscar o consenso conservador, para eliminar qualquer posição crítica radical (e é preciso acrescentar que radical não é mesmo que extremo, apesar de encontrarmos hoje, em muitos discursos, essa equivalência), para deixar que o pragmatismo siga o seu curso, sem obstáculos. E assim nos vamos todos entediando, com o Nem-Nem de políticos fatigados e ponderosos, realizando a grande missão de equilibristas.


20 pensamentos sobre “A política Nem-Nem

  1. Zzzzzzz.

    Conversa de chacha para fingir que ainda não percebeu que o politico mais racista de Portugal é o Mamadu Ba.

    Nem o Mário Machado, ex-líder dos skins, teve a lata de exigir a “morte do homem negro” como o Mamadu exige a “morte do homem branco”.

    O lugar desses dois era na prisão, que é o lugar dos racistas.

    • Vai levar nas nalgas, fascista!

      Nota. Epá, ó d’A Estátua, como ele não tem um pingo de vergonha na tromba, acho que este fdp tem de levar um murro nos cornos para atinar um bocado, está visto! Onde é que é o curral onde moras?

  2. Ó Guerreiro, pode-se argumentar que Hitler terá sido o pior, mas há muitos da laia dele, a começar pela esquerda.

    Estaline, Mao, Pol Pot.

    Lenine e Troksy, deram o exemplo, como quando mandaram assassinar as crianças da família real russa ou fuzilar familiares de desertores do exercito vermelho, e muitos outros.

    E à direita também há alguns. O próprio Churchill com a fome na índia, o Kaiser com o extermínio dos hereros etc.

    Começaram primeiro que Hitler e foram os seus modelos. O rapaz apenas se esmerou para ser o mais famoso.

    O Mamadu é um aprendiz desta gente. Filia-se talvez mais nos Hutus que exterminaram os Tutsis já nos anos 90 ou na UPA de Olden Roberto, que iniciou a guerra colonial torturando e assassinando civis, a começar por mulheres e crianças.

    Todos começaram como ele, com apelos ao ódio contra determinados grupos.

  3. Nota, várias.

    Quem passa por Alcobaça, nomeadamente no @?#Twitter, teve oportunidade de se divertir com o contorcionismo dalguns pardais, pardalas e pardalões que, tendo ficado impávidos/as num primeiro momento perante a avalanche de críticas ao abrunho do António Costa, vieram depois “argumentar” sobre a essência e o alcance bacorada. Especialmente interessante, do ponto de vista do cientista habituado a analisar o comportamento dos ratinhos cem laboratório foi o que se viu na concorrida caixa de comentários di Aspirina B, vulgo a tasca da personagem Valupiana. O post está lá, o tweet do Paulo Pedroso também, assim como os comentários e não vou perder tempo com isso. No entanto, sublinho, a coisa tem ainda mais graça se, aos nicks coloridos, adicionarmos os nomes e as caras.

    Quero dizer duas coisas, ainda

    Uma, que a avalanche de comentários repudiando a bacorada do António Costa surgiu espontaneamente, em grande número, de activistas e líderes de opinião, digamos assim, de diferentes mundos, idem, credos, partidos (eu comentei o tweet de uns dirigente do Livre, coisa raras vezes vista). Em comum: o facto de serem jovens…

    • Ora, isto é prova-provada sobre as classes a que o PS está hoje reduzido no que eu venho chamando a atenção sobre a tal vão este grisalha… Só não vê quem teima em ser burro.

      Depois volto aqui.

    • [Sábado de sol, repetindo-me e continuando.]

      Ora, isto é a prova-provada sobre as classes [etárias] a que o PS está hoje reduzido no que eu venho chamando a atenção sobre a tal #pestegrisalha… Só não vê quem teima em ser burro.

      Duas, que comparar a tez indiana do António Costa com a negritude do Mamadou Ba (e ele gostará que o pintem assim…) que, entre outras características, tem a de ser um estrangeiro, português de direito muito embora, é uma enorme desonestidade intelectual.

      Puxando a cassete atrás, até porque não vi que ninguém que se tenha referido a isto: para além de ser necessário compreender o lugar especial que o mítico território de Goa ocupava no império colonial português, é primordial saber que as pouco desvendadas origens indianas dos Costas estão enraizadas numa élite local que, com a chegada dos portugueses como diz o jargão, se cristianizou. Ponto importante: os Costas são brâmanes, uma casta superior num pais em que a estratificação social se faz, desde logo, pelo sangue como em tempo se usava por aqui. António Costa tem, entre os seus ascendentes mais próximos, sangue de uma avoenga natural de Macau que, aproveitando as circunstâncias históricas que ligam ambos os territórios a Portugal, se instalaram entre a importante comunidade indiana de… Moçambique. Aí nasceu o seu pai, um intelectual do PCP, que como era comum entre as élites educadas circulou pelo império português, acedendo nomeadamente à metrópole, e que casou (?) com uma destacada jornalista pós-1974, feminista antes de drr socialista presumo, de seu nome Maria Antónia Palla. Ou seja, a mãe do PM.

      Em conclusão, é com esta patine que se deve olhar para o “racismo” de que António Costa terá sido vítima, ou não terá sido?, num antigo País então caracterizado como o do português suave onde se movimentavam as élites, mesmo as do reviralho, ou os democratas, com origens doutrinárias na 1.a República (gente que, durante o Estado Novo e por força das circunstâncias…, assentou em grande parte nos casamentos endogâmicos entre as diferentes proles i que explica muito do que era e é o PS), seja durante o Salazarismo tardio e o curto período do Marcelismo. Consta que o PM terá sido aluno do PR na Faculdade de Direito da UL, e um bom aluno, o que não o qualifica à partida para um servidor público, mas, dito isto e sendo inteiramente franco, o mais longe a que que me consigo referir é ao seu carácter exótico quando me ponho a observar retrospectivamente a figura do António Costa enquanto jovem quadro da JS e, neste caldo de bons e maus hábitos, uma promessa emergente na política nacional. E digo ainda mais: o ar exótico, apesar de evidente, foi provavelmente esbatido pela constelação dos marechais do PS da geração de Mário Soares, Almeida Santos, Tito de Morais, gente com experiências pessoais ou familiares nas colónias.

      Mamadou Ba, Joacine Katar Moreira, e os afro-descedentes residentes cem Portugal, eles sim, são a face verdadeira do racismo em face da cor da pele existente em Portugal.

        • Nota. Sim, palpitava-me, contento-me com uns 19 ou 21 para rebentar a escala que, o 20, não se atribui por aí à toa, por acoli ou por acolá. Um dia destes explico por aqui como é que, em minha opinião, o cabrão do António Costa e o Marcelo Rebelo de Sousa se cruzam nessas teorias desmioladas da miscigenação fofinha da colonização portuguesa e quê.

          🙂

          Entretanto, o fascista aparvalhado anda por aí a ganir… Só tu!

  4. Cara estátua.

    As tácticas de intimidação fascista-equerdistas do teu capanga não resultam comigo.

    Repito, quem incita à violência racial, como os skinheads e o Mamadu fazem, é um racista criminoso e devia estar preso.

    • Tornas a dizer bacoradas, como essa de “capanga” e vais pregar aos peixes. Não conheço o RFC de lado algum, a não ser do que aqui escreve. Depois vai chorar as mágoas e dizer que a esquerda te censurou… bla… bla,,,

      • Cara estátua.

        Peço desculpa.

        É que o outro hà um ano a ameaçar-me todos os dias de agressão, a mandar-me todos os dias levar no cu e tu a elogiá-lo e de volta e meia a ameaçar-me a MIM de censura, “como ele pede todos os dias,” parecia mesmo que estavam perfeitamente de acordo.

        Mas deve ser engano.

        Porque EU devo ter muito cuidadinho com o que digo.

        Eu que nunca ameacei nem insultei gratuitamente ninguém.

        Então diz lá, cara estátua.

        Se não tens nada a ver com o gajo que aqui me ameaça de morte e agressão e me manda levar no cu todos os dias, isso quer dizer que posso passar a tratá-lo.da mesma maneira, sem que tu intervenhas para o defender…

        Não é?

            • Caro Sócrates.

              Pois sim.

              Se eu fizesse um milésimo da merda que o RFC faz aqui já estavam todos a dizer que eram vitimas “do terror fascista” e a pedir a minha censura imediata.

              Já pedem só por eu não concordar com uns 30% das politicas de esquerda o que já é considerado intolerável pelos “democratas” do partido.

              Posso concordar em 70%, votar na esquerda e isso tudo.

              Mas não concordo com.alguma coisa ? Só posso ser “fascista”” e candidato a ser censurado e a ter uma espera de “democratas” à porta de casa para me “darem com o barrote” até concordar a 100% com a linha do partido.

              Só.pelo que se passa aqui se vê o que acontece quando tomam o poder…

              São tão obtusos que nem vêm que estão a justificar todas as criticas que lhes estão a ser feitas de totalitarismo e democracia fake.

              Tal como o racista Mamadu, o comuno-fascista RFC é propaganda da melhor para a direita.

          • “Para ambos”

            Lá lata não te falta

            Podes indicar algum exemplo de eu o ter ameaçado ou mandado levar no cu como ele fez todos os dias enquanto tu o elogiavas?

            Aqui mesmo ele está a querer saber a minha morada para me agredir e tu estás a dar-lhe “20 VALORES”.

            Agora que, ao fim de um ano de ameaças diárias, eu digo que se de facto não o estás a incentivar nesta manobra de intimidação então eu também posso passar a tratar o nazi-comuna como ele me trata a mim é que já apelas à calma mas falando como se estivessemos em pé de igualdade.

            Não cara estátua.

            Eu NUNCA aqui ameacei NENHUM DOS OUTROS PARTICIPANTES como faz todos os dias o nazi-comuna que tanto elogias.

            E já agora também NUNCA incentivei ao assassinato de pessoas de outras raças como faz o RACISTA Mamadu.

          • Nota. Epá, ó d’A Estátua, já ninguém atura o pivete que exala o fascista! Se um camarada lhe limpar o sebo tu prometes que o metes no forno? Sim, abrimos uma quite no Facebook e depois organizamos um banquete durante uma semana de farra e forró e, ainda por cima, convidamos os nossos amigos ciganos?

            🙂

            Que achas também, ó José?

          • Atão cara estátua, não respondes ?

            Perguntei se posso tratar o teu protegè como ele me trata a mim (acabou de me ameaçar de morte).

            Estás a assobiar para o lado ?

            Então e se for eu a ameaçar o teu mais-que-tudo de morte ?

            Tenho um sério aviso ou sou automaticamente expulso do blogue ?

            Estou a gostar do exemplo de “democracia avançada” que vocês querem para Portugal.

            • Nota. Ena, estou bastante desiludido: o fascista não escreveu mais uma daquelas loooooongas cartas sobre um amor incompreendido endereçadas a ti, ó d’A Estátua… Diz agora que o querem matar, depois do Mamadou subtilmente citar o Fanon e de travarmos amizade com o gajo do barrote d’Abrantes, para ele é tudo negro… Ora, só Deus sabe que eu só me comprometi que lhe dava um murro nos cornos! Um murro e despacho-o?… Aquela cabeça parece os carrilhões do convento de Mafra lá da aldeia, de quinze em quinze minutos dlim-dlão!

              E nós, no sofá, distraídos com as bonecas:

              – Robert ouvre la porte! C’est ton pére…

              🙂

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