Depois de limpas as cinzas, está tudo na mesma?

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 26/01/2021)

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Marcelo ganhou com cinquenta pontos percentuais de vantagem sobre a segunda classificada, como se esperava. E teve mais votos de esquerda e do centro-esquerda do que as três candidaturas da esquerda. Assim, a ideia de uma segunda volta sempre foi uma fantasia patética. Nenhuma surpresa. Depois, Ana Gomes passou Ventura. Nenhuma surpresa, a não ser a escassez da vantagem, o facto é que ela não polarizou votos do PS e se limitou a um apelo de voto útil aos eleitorados tradicionais do PCP e Bloco. Depois, Ventura subiu e muito, levando consigo os tais votos “zangados”, arrasando o CDS e comboiando uma parte do PSD. Nenhuma surpresa, pois não?

A esquerda foi nisto derrotada, também aqui há pouca surpresa. Ana Gomes mostrou-o num discurso ressentido na noite de domingo, culpando o seu partido e todos os outros por não a terem apoiado, mesmo que ela própria tenha ensaiado, na reta final da campanha e contra o conselho dos seus apoiantes, reduzir-se a uma candidata de facção para promover uma escolha sucessória no próximo congresso do PS. O seu resultado, cerca de metade do de Sampaio da Nóvoa e muito inferior ao de Manuel Alegre, demonstrou como teria sido preciso alguém que representasse aquele espaço e o projetasse numa alternativa. As duas outras candidaturas da esquerda, que mostraram combatividade e preparação, sofreram com a polarização para Ana Gomes (e para Marcelo, é melhor não fingir que não aconteceu) e perderam. Marisa, apesar da brilhante última semana de campanha, ficou a menos de metade da sua votação anterior. Que o tenha reconhecido com humildade só lhe fica bem. E João Ferreira, que além do mais se deixou apresentar como candidato a secretário-geral do PCP, ficou colado à pior votação de sempre do seu partido, a de Edgar Silva, mesmo no Alentejo, como desde domingo se tem esforçado por provar.

Em todo o caso, faleceu a narrativa de que seria beneficiada a candidatura que representasse uma colagem ao governo, e bem que procurou mostrá-la, e que seria punida a que representasse uma crítica à incapacidade orçamental de defender o SNS e de promover respostas sociais à pandemia. Como é bom de ver, era uma lenda. Mas isso é o menor dos problemas para as esquerdas, que têm três desafios maiores.

O primeiro é a vitória de Costa. Ganhou com Marcelo, ganhou com a baixa votação de Ana Gomes (o que condiciona Pedro Nuno Santos a uma atitude defensiva no congresso), ganhou com a derrota das esquerdas e espera assim impor a restrição orçamental dos próximos anos ao PCP, e, sobretudo, ganhou com Ventura. Ventura vai ser o principal argumento de Costa para disputar o centro ao PSD e para procurar fazer transfigurar um governo cansado numa maioria absoluta. Vai ser uma festa. O único problema deste desenho é que é uma irresponsabilidade. Se o PS se entusiasmar com a ideia de que o governo pode continuar a prometer e a não cumprir, como fez nas contratações médicas ou nos apoios aos trabalhadores a recibo verde, aos desempregados, às trabalhadoras domésticas, aos gestores da restauração e a pequenos empresários, para se dedicar alegremente a um jogo político para atrapalhar Rui Rio, vai favorecer uma tempestade social. É preciso olhar para onde estão as soluções e nenhuma delas está numa aritmética de anúncios publicitários. Continuo por isso a pensar, perante tão insignes estrategas, erro meu certamente, que no fim e no princípio só importam as pessoas.

O segundo problema é Ventura. Os autarcas e alguns deputados do CDS vão, mais dia menos dia, arribar ao Chega, e o PSD vai acomodar-se à ideia de que essa aliança é matéria de sobrevivência. Já houve suficientes intelectuais de direita a clamar por isso para que se possa imaginar que é um fogo fátuo. A extrema-direita veio para ficar e a direita vai nesse caminho. E há duas respostas para isso: ou a sobranceria de centro, em nome de ilustres e bem vestidos princípios institucionais, ou a solução democrática que importa para a gente, a que cuida da vida de quem passa dificuldades. Há a solução de por a cartola e levantar o queixo ou há a de arregaçar as mangas e desenvolver a democracia na saúde e na economia.

O terceiro, o mais difícil, é discutir governo, ou como responder à pandemia. As duas sondagens publicadas desde domingo são algo contraditórias: a do grupo DN/JN/TSF, cujos dados são de há dez dias (é um curioso mistério porque não foi publicada entretanto), dá o PS a subir e o Bloco e o PCP a descerem, todos ligeiramente; a da RTP, com uma amostra grande no domingo eleitoral, dá o PS a descer, o Bloco a subir e o PCP a aguentar-se. Mas o que ambas confirmam é que a direita junta está abaixo do PS e que este partido está tão ou mais longe da maioria absoluta do que sempre esteve. Então, tudo na mesma?

Nem pense nisso. Começa agora a fase crítica da pandemia, mais um ano de emergência sanitária e que revelará a dimensão do furacão económico. O reajustamento exige tudo o que tem faltado: competência no planeamento e na definição de prioridades, recursos adequados, transformações estruturais nos serviços de referência para a o dia a dia da população. E essas transformações são o que está em causa na governação. A sensação de urgência e a resposta consistente de partidos que provem que sabem do que falam, que não se deixam iludir pelo imediatismo, que avançam propostas realizáveis e irrecusáveis no essencial da vida das vítimas da pandemia, isso é que vai contar quando se fizerem as contas.


11 pensamentos sobre “Depois de limpas as cinzas, está tudo na mesma?

  1. Nota. Discordo da maneira de atribuir responsabilidades directamente ao PS do António Costa no processo destas presidenciais, sou capaz de desvalorizar nomeadamente a reacção intempestiva Ana Gomes portanto, mas subscrevo quase tudo do restante. Se olharmos para os resultados do distrito do Porto, onde a Ana Gomes alcançou 15% e o André Ventura 8%, isso pode significar que o facto de as estruturas do PS, aparentemente, não terem mexido uma palha a favor da candidatura da Ana Gomes no resto do País é cri-mi-no-so, como diria a Graça Temido num momento de pura alucinação. E que, por si só, isto explicará uma parte importante do sucesso eleitoral do André Pedro Ventura já que, parece, uma candidata com o perfil não-alinhado da Ana Gomes se revelou muito eficaz na captação, digamos assim, do eleitorado populista urbano pelo menos (eleitorado onde se ganham eleições nacionais). Relembro que, não apreciando o espécimen como sabem, uma personagem chamada Tiago Barbosa Ribeiro é o actual líder da distrital portuense e, do aparelho do PS, foi o único que deu a cara pela sua camarada (o Vera Jardim anda de pantufas, o Paulo Pedroso saiu, o Pedro Nuno Santos é, de facto, de Aveiro mas por ali a Ana Gomes tem muito e honrosos anti-corpos dos chupistas Socráticos por exemplo…). Ora, é trágico mas é assim: sendo filho dos escândalos do José Sócrates e da CMTV, o André Ventura tornou-se em alguém para se levar a sério graças ao manhosissimo António Costa, ao abrunho Carlos César e ao cinismo do Augusto Santos Silva + rebanho dos militantes socialistas que, de Política a sério que é aquela que pugna pelos interesses dos portugueses, sabem um… pintelho (mesmo sabendo eu que não é isso que os move, claro). Portanto, chupem agora.

      • Adenda. É sim, há dias que eu ando a dizer o mesmo em versão para maiores de 12, só queria acrescentar um pormenor sobre os resultados do distrito de Aveiro (décimas arredondadas). Limpinho!

        Marcelo Rebelo de Sousa
        66%

        Ana Gomes
        12%

        André Ventura
        10%

        Marisa Matias
        4%

        Tino de Rans
        4%

        Tiago Mayan Gonçalves
        3%

        João Ferreira
        2%

      • Agora a culpa da subida do Ventura é do PS não apoiar a Ana Gomes.

        Como se o Ventura não tivesse a subir muito antes destas eleições.

        Continuem a fazer figura de idiotas e não reconheçam as vossas culpas no que está a acontecer.

        Por exemplo, continuem a chamar fascista, racista e machista a quem souber que a Coreia do Norte é uma ditadura ou não concordar com a mentira estúpida de o regime do 25 de Abril ser perseguidor de pretos e ciganos.

        Eu estou há anos a avisar do que ia acontecer neste mesmo blog.

        Por exemplo, eu avisei que ele roubar votos à esquerda e até ao PCP.

        E em troca sou insultado de fascista e ameaçado por vocês.

        É precisamente essa vossa mentalidade totalitária/bronca que está a fazer subir o Ventura.

        São burros e forrados do mesmo.

        • Meu caro. Perante a salganhada das tuas prosas, faço-te um desafio. Escreve e manda qual o teu programa político e elenca as soluções político-económicas para o país no momento atual. A Estátua publicará de bom grado. Pode ser que seja a génese de um novo partido….

          • A salganhada é minha?

            Apenas advogo um minimo de coerência e menos aldrabices da vossa parte.

            Por exemplo, é perfeitamente legitimo que vocês considerem barbárie o Ventura advogar a pena de morte.

            – O primeiro problema é que não advoga. Ele já disse uma data de vezes que é contra.

            – O segundo problema é que vocês enaltecem e apresentam como modelos a seguir uma série de figuras como Lenine, Trotsky, Che, Ho Chi Min, etc, que praticaram a pena de morte em larga escala.

            Ora isso não dá a bota com a perdigota. Faz-vos parecer broncos e aldrabões.

            Quanto ao meu programa, não tenho receitas milagrosas.

            Como eu disse, apenas peço um pouco de corência e menos aldrabices, seja a esquerdistas seja a direitistas.

            Sei que os dois lados vivem disso, pelo que vos parece estranho que alguém não seja assim.

            Mas vou pensar no seu desafio só pelo gozo.

  2. o mau resultaso de Marisa Matias camuflado com um ataque a António Costa ,deixemo-nos de inventar a Ana Gomes tem muitos anti corpos na sociedsde Portuguesa , e ,Antonio Costa sabia disso e não era preciso ser um génio para adinvihar o resultaso mais muitos que votaram Ventura votaram foi contra Ana Gomes.

  3. Este tipo fala bem.

    Só faz impressão é ver um trotskista armado em democrata.

    Trotsky derrubou a democracia russa, fuzilou familiares de desertores do exercito vermelho, envolvido no assassinato a sangue frio da família imperial russa e ainda se deu ao luxo de escrever um livro a defender o terrorismo de estado como método de governo.

    Democrata? Opááá…

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