Vírus Ventura

(Ricardo Salazar, in Público, 21/01/2021)

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O candidato presidencial André Ventura não tem idoneidade para o cargo. Ao passear com a frase “Presidente dos Portugueses de Bem” ou a garantir que não vai ser Presidente de todos os Portugueses, André Ventura não possui o mínimo para poder concorrer ou sequer poder-se admitir que ocupe o cargo, caso fosse eleito. Porque não respeita a Constituição da República Portuguesa e porque a sua mensagem cria clivagens e divisões na Nação e no Povo português.

O seu discurso, sem ideias mas pleno de frases de efeito, é destinado a fomentar o ódio. O ódio à diferença, ao outro e a quem não pensa igual. É um discurso pleno de inverdades e de contradições, seja quando garante que vai ocupar o seu cargo de Deputado com exclusividade, seja quando afirma que se demite se ficar atrás de Ana Gomes nestas eleições. O Candidato Ventura não tem limites. Usa pessoas como troféus, quando exibe duas alegadas pessoas de etnia cigana num gesto triste nunca antes visto na política portuguesa. Quando o Deputado André Ventura, em publicação dirigida para os seus seguidores propõe que a Deputada Joacine Katar seja “devolvida para o seu país de origem”, as suas palavras ecoam no homicídio de Bruno Candé, onde o seu confesso homicida proferiu “Preto do caralho, vai para a tua terra”. O que fez André Ventura, com a sua falta de sentido: manifestações a afirmar que não há racismo, porque palavras para a família da vítima não colhem votos entre os racistas que negam o racismo.

André Ventura mostra-se capaz de fazer um pleno de faltas. Para além de faltas à Assembleia da República, tem falta de educação quando insulta adversários políticos, chamando “bêbado” a Jerónimo de Sousa, “contrabandista” a Ana Gomes e “fantasma” ao Presidente da República em funções. E diminui todas as mulheres quando faz da luta política um ataque à forma física e imagem de Marisa Matias, sendo reflexo de um pequenino e mesquinho sexismo, onde antes já habitava um racismo, xenofobia e cobardia simplória de se tornar pavão perante os fracos e cheio de desculpas perante os que nele mandam.

André Ventura tem falta de sentido de Estado. Não tem postura e idoneidade para ser deputado, pois é insultuoso, segregacionista e incendiário. Não tem uma palavra boa, construtiva ou de união. Ventura vive no conflito, existe pela fama e fortuna dos que trocam o amor a um País por 30 moedas, como Farage. Sem divisão, o André do comentário desportivo não é nada. Sem muito barulho e luta na lama, Ventura é apenas mais uma cara de extrema-direita para vender aspiradores, um ‘Brexit’, um muro ou ridicularizar Rui Rio, que lhe perdeu respeito e agora ganhou medo ao vender os Açores numa bandeja de prata. E quando um grupo de media e um clube de futebol lhe dão palco, o céu é o limite, pois tudo serve para criar polémicas e para ganhar notoriedade, desde que o caos dê clicks e as caixas de comentários se encham de uma tensão que não irá agora sossegar sem explodir. E é esse arar de tempestades que revela a falta de sentido de responsabilidade do Deputado, que tem uma missão divina, para seu cargo.

Numa altura de uma Pandemia que traz nas suas asas a morte e a crise, André Ventura é a prova provada de um erro na nossa Democracia e será a nossa Democracia a salvar Portugal de André Ventura e do que ele representa: o retrocesso.

O Chega é um partido de ideais de extrema-direita que não gosta que o desmascarem. Sente-se ofendido quando é intitulado de “racista” porque há sempre uma desculpa para a culpa da vítima. Sente-se incomodado quando lhe chamam “fascista” porque pensa que o desejo de mudar a Constituição é uma luta contra a corrupção que nem sequer lhe passa na cabeça que seja um golpe de estado à velha maneira dos messias de outrora.

O Chega, pese embora seja formalmente legalizado está, com a sua postura e apoios, a caminhar a passos largos para ser extinto, devendo nós estar vigilantes para que tal aconteça, em respeito pelos Portugueses e pela Democracia. E a arma para afastar fascistas é o voto e dizer que André Ventura e quem comanda os fios das marionetas não passarão.

Tal como os seus modelos, André Ventura tem falta de vergonha e tem falta de noção. Usa todos os truques que Donald Trump usa, é capaz de demonizar jornalistas e de usar as redes sociais como a “nova verdade”, usando as suas intervenções na Assembleia da República como cenário, cortadas e coladas como exemplo do macho branco que diz as verdades, quando na verdade nada diz. É o mais fraco candidato de sempre e simultaneamente o mais perigoso. Porque tal como Trump, não respeita a Lei fundamental do País que nós temos no coração, Portugal, semeando divisões que levam à revolta popular, que transformam pessoas boas em fanáticos, que fazem as birras e a não aceitação de resultados em invasões como a do Capitólio, ou a algo pior que está para vir.

André Ventura é um vírus. As suas palavras são uma doença e a pandemia está a crescer com o aumento dos apoiantes do Chega.  É a Covid-21, que infecta corações e mentes e que terá de ser curada votando. Para que a personagem que encarna possa servir como exemplo futuro, às gerações que criamos e que cuidamos, daquilo que escolhemos para Portugal, como uma terra de amor ao outro, de sentimento de comunidade, de luta pela nossa Democracia e de respeito por nós próprios.

Advogado


8 pensamentos sobre “Vírus Ventura

  1. SEM QUALQUER REBUÇO, SUBSCREVO INTEGRALMENTE O ARTIGO. FELICITO O SEU AUTOR PELO RETRATO QUE AQUI NOS DEIXOU, SOBRE TÃO SINISTRA PERSONAGEM EM TÍTULO.

  2. Tretas.

    Quem provocou o aparecimento do Ventura foram os fascistas de esquerda ainda mais radicais do que eles. Alguns exemplos.

    – Temos o PCP e o Bloco a celebrar um golpe contra a democracia igualzinho ao de Trump . o golpe de 1917 em que Lenine destruiu a democracia na Rússia derrubando com milícias o governo democrata de esquerda de Kerensky.

    – No verão quente de 1975 tivemos outra tentativa de golpe como a do Trump, com episódios como o sequestro dos deputados da assembleia constituinte por forças afectas ao PCP. Como Lenine em 1917 e agora Trump, os comunistas não gostaram de ter perdido as eleições e tentaram “cancelar” a democracia…

    – A organização terrorista mais assassina em Portugal foram os comunistas da FP-25. Até um bebê assassinaram.
    Não, esse bebê nunca será lembrado pelos “humanistas” da extrema esquerda. Nunca haverá uma manifestação de memória nem palavras de conforto aos pais desse bebê. A esquerda demonstra o seu seu humanismo assim. Ainda por cima era branco a merda do bebê…

    – Ainda há pouco tempo tivemos os comunistas do MRPP a colocar cartazes de grandes dimensões com o slogan MORTE aos traidores. Hu… Muito humanista… E depois é só o Ventura, que NUNCA defendeu a pena de morte que é um bárbaro…

    – A UDP, comunistas estalinistas que formaram o bloco foram os primeiros, logo em 1975 a inaugurar as táticas de rua dos skinheads dos anos 80, ao atacarem em bandos armados com barras de ferro. Num desses ataques assassinaram um dirigente do rival comunista MRPP.
    Os esquerdistas vão lembrar-se sempre dos skins mas nunca se lembram do que eles próprios andam a fazer. Porque será ?

    – E depois temos o bloco, com o racista Mamadu a incitar ao ataque ás instituições e ao ódio racial com a “bosta da bóia” e que “é preciso matar o homem branco”.

    Sim, o Ventura é uma bosta.

    Mas vocês são feitos do mesmo material.

  3. “O ódio à diferença, ao outro e a quem não pensa igual.”

    Isso não é a descrição dos esquerdistas que aqui, com o incitamento da estátua, me tentam censurar, me insultam, ameaçam chamar a policia e constantemente me ameaçam de agressão ?

    E eu voto neles. Imagina se não votasse.

    Tudo por eu saber coisas como que o Lenine NÃO derrubou o Czar mas uma democracia ou por discordar que o povo português seja nazi e ande a perseguir pretos.

    Só por causa disso vocês queriam apanhar-me numa rua escura para, como é que um de vocês me disse ? Ah, para me darem dez vezes com um barrote nas costelas a ver se atino.

    Como os vossos camaradas da UDP fizeram ao dirigente do MRPP rival, que assassinaram num ataque em bando com barras de ferro como bons skinheads de esquerda que são.

    Curiosamente esses gangs de caceteiros assassinos da UDP formaram depois o bloco que anda sempre a dizer que os outros é que são violentos…

  4. Pedro isso está complicado. 1975 foi um ano chave mas não é por ter derrubado leninismos nem estalinismos, quem em boa verdade nunca se conseguiram instalar, tal como a extrema direita também não tinha conseguido. O tempo estava mau para estes últimos pois tínhamos saído de uma ditadura de direita. Tinha tudo os olhos bem abertos para esse lado, quanto a esquerda leninista e estalinista foi derrotada em 1975. Temos uma democracia e sim a extrema direita quer dar cartas, mas não é com o Ventura que vai lá. Têm de arranjar outro politicamente mais inteligente.

    • Em 75 não conseguiram, mas como o Trump tentaram e como o Trump falharam.

      Em certos aspectos foi igualzinho. Só não tinham um tipo com cornos porque os americanos ultrapassam tudo na arte do show bizz.

      Em 1975 o sequestro dos deputados da constituinte, depois do PCP perder as eleições. Tal como o Trump tentou fazer com no congresso quando perdeu as eleições, foi paradigmático.

      Os deputados e o governo da nação estiveram sequestrados quase dois dias, pelos cantos da assembleia, sem dormir por medo de um ataque e praticamente sem comer. Quando saíram foram insultados pela turba – menos os do PCP que foram aplaudidos.

      Sim, os comunistas nunca conseguiram impor a sua ditadura em Portugal. Mas não foi falta de vontade, é que logo a seguir os próprios militares de abril cortaram-lhes as asas no 15 de novembro impedindo a repetição de vergonhas como o sequestro de governos e assembleias inteiras.

      Aliás os comunistas parecem ter uma coisa qualquer com as constituintes.

      Já o Lenine destruiu a democracia russa liquidando a assembleia constituinte eleita depois de ter perdido as eleições.

      E agora o PCP e o bloco festejam essa trumpalhada avant la lettre, visto que a que tentaram cá não resultou.

      Mas quando se fala de radicalismo só se lembram do chega.

  5. Queria dizer cortaram-lhes as asas no 25 de novembro.

    Os próprios militares de abril.

    Como sempre a esquerda diz que os militares do 25 de novembro eram “fascistas”.

    Mas os lideres do 25 de novembro, Eanes, Jaime Neves e Vasco Lourenço eram militares de abril. A sua facção era a majoritária no MFA.

    Até o Costa Gomes, não era propriamente um “fascista”. Mas para esquerda radical vale tudo. Até chamam fascistas uns aos outros.

  6. O que é triste é o facto de os comentadores políticos que atacam ferozmente os agentes da viragem à direita que se está a processar no Ocidente Democrático, não saberem explicar as verdadeiras razões dessa viragem. Isto é, não atribuem a atual situação a decisões tomadas pelos governos democráticos do pós guerra, durante 50 anos.
    1. A autorização de concentrações capital que criaram empresas grandes de mais para poderem falir e grandes de mais para não pagarem impostos.
    2. A autorização de criação de offshores e dos mecanismos que autorizam as empresas a usá-los para fugir aos impostos.
    3. A criação de leis da comunicação social que protegem os jornalistas quando publicam notícias comprovadamente falsas. Em qualquer outra atividade quem vende gato por lebre fica sem alvará para continuar a vender.
    4. O não combate à criação de lóbis dentro do sistema judicial, que conduzem a perda do direito à justiça para grande parte da população.

    Eram problemas que, nos anos 50, não tinha expressão, mas que são fundamentais corrigir agora para conseguirmos inverter a viragem à direita das intenções de voto.

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