Útil é votar

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 21/01/2021)

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Tem vindo a gerar-se à esquerda um interessante debate sobre a necessidade de votar útil nas próximas eleições para a Presidência da República. Não por estar em causa uma qualquer questão de regime. Não por estar iminente a vitória de um candidato cujo programa e ação chocam em cada momento com os mais básicos e universais princípios democráticos. O apelo justifica-se com a vontade de colocar um travão nas ambições populistas e devaneios fascistas de uma candidatura, de modo a impedi-la de ser a segunda mais votada.

Tal como sucedeu na generalidade dos debates televisivos, uma vez mais é alimentado o logro de reagir, não em função de opções próprias e caminhos definidos com rigor, destinados a obter metas precisas, mas em resultado das diabruras do candidato cuja agenda está muito para lá do circunstancial resultado que possa obter no próximo domingo.

Dá-se assim o paradoxo de termos um alargado conjunto de democratas dispostos a votar, antes de mais, como resposta a uma provocação lançada por um candidato. Foi ele, e mais ninguém, quem inventou a delirante corrida ao segundo lugar. Foi ele, e mais ninguém, quem transformou o caso em assunto de vida ou de morte, ao assegurar demitir-se se não conseguir esse objetivo. Tem sido ele a encarregar-se de, em sucessivas ocasiões, demonstrar o nulo valor da sua palavra.

Logo, condicionar a opção de voto à resposta a uma fanfarronice é não apenas oferecer uma espécie de vitória a quem só merece uma derrota estrondosa, como alimentar o monstro e os dislates que em cada momento decide encenar.

Com a deserção dos partidos do centrão do necessário e indispensável combate à penetração na sociedade de um fantasma que tem vindo a assolar a Europa, e não só, cabe à esquerda mais consequente assumir uma batalha cujo fim está para lá de qualquer horizonte visível.

Será um combate longo, e tão mais difícil quanto fácil é uma atuação política assente na mentira, na demagogia, na deturpação dos factos e da realidade, na exploração dos sentimentos mais primários de uma população empobrecida e esmagada na voragem de gritantes desigualdades.

O dia 24 tem como objetivo eleger o Presidente da República. Ponto. Nesse sentido, é apenas uma etapa de um desafio mais vasto em defesa dos essenciais valores da democracia.

O terreno onde medram os medos, os instintos usurpadores da mais sadia convivência cidadã, está disponível e pronto a ser fertilizado. Não lhe faltam semeadores. Não lhe faltam instrumentos para tentar fecundar a partir da podridão.

O combate para expurgar o ambiente político e social deste ódio que envenena a vida será gigantesco e não se compadece com conjunturais estados de alma. Muito menos com arroubos momentâneos.

Aqui chegados, equacionemos então o apelo ao voto útil. A batalha que se avizinha exige, antes de mais, uma clara vitória das forças da democracia no ato eleitoral do próximo domingo. Impõe-se, por isso, do ponto de vista de quem se situa à esquerda, assegurar o reforço da votação nos diferentes candidatos que se reclamam desta área política. E aqui, sim, cada um terá as suas legítimas escolhas ou preferências.

No dia seguinte, surgirão infinitas leituras dos resultados eleitorais. Mesmo na derrota, não faltará quem propagandeie vitórias imaginárias dos que se propõem destruir a vivência democrática. Nada, porém, anulará o facto evidente de que a esmagadora maioria dos eleitores rejeita o apelo ao ódio, à discriminação, ao racismo, à violência política, verbal e social. Essa é a grande vitória. Essa é a fundamental utilidade do voto na democracia. Do voto em quem defende e não pretende subverter a Constituição da República. Em quem não negoceia valores democráticos. Em quem não abdica do respeito pelos direitos do homem. Em quem combate as desigualdades, económicas, políticas, sociais, de género, ou outras. Em quem não estabelece distinções entre portugueses. Em quem assume todos os desafios e consequências de uma aposta decisiva numa verdadeira democracia cultural. Em quem percebe a importância crucial de respeitar e fomentar os direitos económicos e sociais, bem como um Serviço Nacional de Saúde robusto e apto a dar resposta às necessidades de todos, seja no dia a dia, seja nas dramáticas situações de emergência sanitária.

Útil é votar em quem defende os valores e os princípios constitutivos de uma sociedade verdadeiramente plural e democrática.


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