Não temer

(Daniel Oliveira, in Expresso, 08/01/2021)

Daniel Oliveira
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Não vale a pena ignorar André Ventura. Ele já não é irrelevante e não faltam palcos alternativos. Claro que tem um destaque superior ao seu peso político. Ganhou-o por ser tão telegénico como um reality show grotesco. Apesar de Ventura ter 10% nas melhores sondagens e estar com dificuldades em chegar a um segundo lugar, os debates em que participou foram três dos quatro mais vistos, se retirarmos os que foram transmitidos em canal aberto. Só o frente a frente entre Ana Gomes e Marisa Matias competiu. E, no momento em que escrevo, ainda não conheço as suas audiências com Marcelo. Não se pode ignorar uma novidade perigosa. Porque, dos que gostam aos que a detestam, todos estão a olhar para ela.

Só há uma arma contra Ventura: a democracia. Porque não pode usar a força bruta e discricionária para se defender, a democracia é um jogo cheio de limites e não, como acreditam os seus apoiantes, uma luta sem regras. Ventura conta com o nosso medo para não ter de as cumprir. Nos debates, onde impede oponentes de falar. No Parlamento, onde exige um estatuto de exceção. No espaço público, onde viola a Constituição. Sempre que alguém quer que as regras lhe sejam impostas, há quem tema a vitimização. Mas Ventura não pode estar dispensado das normas de civilidade, do escrutínio mediático e do cumprimento de regras.

Nisto, não se cede. Porque a sua vitimização acabará onde acabou a de Trump: na recusa de resultados eleitorais. O impensável não estava escrito em qualquer guião. É a consequência inevitável da fanatização de apoiantes nas redes e da cobardia cúmplice de aliados de circunstância. Parem de relativizar: esta gente é mesmo perigosa.

Na história da democracia, não faltaram políticos desprovidos de convicções, dispostos a libertar todos os ódios — incluindo os que não sentem — com o exclusivo propósito de alimentar a sua ambição ou vaidade. Mas é irrelevante se acreditam, porque os monstros que libertam são reais e espalham-se de forma viral, tornando todo o espaço público num lamaçal. Por agora, Ventura tem 8% nas sondagens. Não o podemos ignorar, mas podemos travá-lo. Enfrentando-o sem medo. À hora que escrevo, não sei se Marisa Matias foi devorada pela gritaria. João Ferreira tentou resistir, mas a ausência de moderação tornou isso impossível. Já Marcelo, conseguiu resgatar Sá Carneiro e dois Papas das mãos oportunistas de Ventura e deixou muito claro tudo o que os divide. Mas disse, para meu espanto, que nenhuma ameaça para a democracia pode vir de um eleito. Nesse preciso momento, os apoiantes de um Presidente eleito há quatro anos invadiam o Capitólio.

O anónimo Tiago Mayan também foi explícito a traçar as linhas vermelhas. Não manda uma deputada para o país dela, não aceita ataques a minorias étnicas, não recusa os imigrantes que ajudam a construir este país. Mostrou que a fronteira entre a direita e a esquerda não se faz nestes adquiridos civilizacionais, mas nas questões económicas e sociais que me põem nos antípodas do candidato do IL. Ali, faz-se a fronteira da civilidade. Ao fazer esta escolha, Mayan deu uma lição aos líderes do PSD, do CDS e até do IL: só se vence Ventura não deixando que seja alguém que não acredita em coisa alguma a impor à direita aquilo em que ela deve acreditar. Não temendo que o rei do transformismo político chame “travesti de direita” a quem tem valores. No plano das ideias, só a direita pode travar Ventura. No plano dos comportamentos, só a imposição de regras e o escrutínio o farão. Para se proteger, a democracia tem de ser implacável.


7 pensamentos sobre “Não temer

  1. Chapeau, nem mais, não podemos deixar que se utilizem as possibilidades que só a democracia dá para rebentar com ela.

  2. Nota. Apesar do tom panfletário, acrescento que o debate com o actual PR foi o mais visto e que o da Marisa Matias ficou assinalado pela frase de política-pura segundo a qual o André Ventura é um cobarde, um troca-tintas e, na realidade, um vigarista!, destaco a performance do Mayan. Liberal na economia, mas liberal nos costumes e um homem livre: coisas que se afastam claramente do CDS pós-Chicão, e mesmo do Adolfo MN ainda muito ligado à imagem de Paulo Portas que, publicamente, era mais sopas do que sim; de alguns dirigentes dos herdeiros Cavaquistas e dos militantes do PSD profundo; e do rebanho dos militantes do PS que, tendo uma candidata socialista e outras escolhas, aparentemente se inclinam para votar em Marcelo seguindo as ordens dos caneleiros que acompanham o malfadado António Costa-com-tiques-de-Orban. A propósito, devido às palas leninistas se calhar, o Daniel Oliveira ao tempo não percebeu nada do que era a constelação da Iniciativa Liberal… daí a devida contrição disfarçada de análise política, bruxo!

  3. “Ganhou-o por ser tão telegénico”

    Nope.

    Ganhou-o porque há umas bestas da esquerda e do politicamente correcto que passam vida com provocações racistas como a “bosta da bófia” e “é preciso matar o homem branco” e selfies com criminosos enquanto se ignoram policias mortos e feridos em serviço e quartéis inteiros de bombeiros espancados por multidões de “vitimas do racismo estrutural” que aterrorizam a vizinhança.

    Enquanto continuarem com esta estupidez o Ventura tem eleitorado certo.

      • Sim, eu, os policias, os bombeiros, os trabalhadores dos transportes e o povo em geral é todo fascista.

        Com tanto fascista é estranho vocês dizerem que gostam muito do povo.

        Então isto não é tudo fascista ?

        Pela vossa conversa de merda já deu para perceber que vocês fazem-se muito nossos amigos é para subirem ao poder.

        Uma vez no poleiro revelam-se iguais aos fascistas, como fizeram em toda a parte onde tomaram o poder.

  4. Interessante o Oliveira sempre armado em cavaleiro branco da democracia (ou melhor, cavaleiro negro, para ser politicamente correcto) mas passou toda a vida a defender ditaduras.

    Do PCP ao bloco defendeu sempre ditadores de esquerda equivalentes ao Pinochet.

    Por exemplo o Lenine fez o mesmo que o Trump, derrubou um governo democrático e atacou uma assembleia democraticamente eleita.

    Mas ainda pior. É que enquanto o Trump teve 47% dos votos o partido bolchevique só teve cerca de 20% dos votos nas eleições para a assembleia russa – o que provocou a fúria de Lenine que lançou as suas milícias contra o voto popular.

    Mas para o Oliveira tudo ok e passou a vida toda a defender esse Trump de esquerda.

    PS

    Por mais que os aldrabões dos comunas tentem passar a ideia fake que os bolcheviques derrubaram ditadura do Czar;

    NÃO.

    Quem derrubou o Czar foram os democratas russos, quase sem o auxilio dos comunistas cuja direção estava exilada.

    Quem o Lenine derrubou na revolução de Outubro foi o democrata esquerdista Kerensky.

    Kerensky NÃO ERA o Czar cambada de aldrabões.

    Era o líder do partido socialista revolucionário que pouco depois GANHOU as eleições o que fez Lenine, o badalhoco Trump de esquerda DISSOLVER PELA FORÇA DE MILICIAS ARMADAS A ASSEMBLEIA ELEITA.

    É sempre bom lembrar isto, que estes aldrabões continuam a dar com as suas aldrabices – Lenine NÃO derrubou uma ditadura, o Trump de esquerda IMPÔS UMA DITADURA com as suas milícias armadas,

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