De George Michael à tia do rei de Espanha, não há espaço para Ihor na consternação do Presidente

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/12/2020)

Daniel Oliveira

Ninguém escapa às condolências presidenciais. Até houve palavras oficiais para George Michael. Alguma coisa impediu que a consternação chegasse a Ihor, que morreu nas instalações do Estado, às mãos de agentes do Estado, de que Marcelo é a primeira figura. Diz que não fala sobre processos criminais em curso. Falou de Pedrógão e de Borba. Há um mês, a diretora do SEF assumiu as responsabilidades do Estado. Só não houve assunção de responsabilidades políticas. São essas que se espera que o Presidente exija. O que se lhe exige é clareza, não é conspiração.


Sobre um ministro que não pode continuar a sê-lo, mesmo que tenha a proteção e amizade do primeiro-ministro, já escrevi tudo o que tinha para escrever. Sobre os jogos de salão do Presidente da República, também. O que se lhe exige é clareza, não é conspiração. E nunca a teve, em todo este processo. No momento em que o país finalmente se agitou com tudo isto, o Presidente da República veio finalmente dizer qualquer coisa: “É importante verificar se há ou não um pecado mortal do sistema. Se há, então o SEF não serve, e tem de se avançar para uma realidade completamente diferente.”

O Presidente sabe que há um pecado original. Não é preciso verificar, porque foi verificado. Está escrito em relatórios, desde 2018. Foi repetido várias vezes pela Provedora de Justiça. E, sendo tudo isto público, o Presidente não abriu a boca sobre o caso durante longos nove meses, apesar de não haver nada que não comente. Até o homem que salvou outro no rio Tejo lhe mereceu comentário público. Tivesse sido o SEF a atirá-lo ao rio e teria de ficar calado.

Correndo a página da Presidência da República, encontramos inúmeras notas de pesar. Pelo falecimento de bispos e arcebispos portugueses e dos PALOP. Por militares de alta patente. Por figuras conhecidas ou mais obscuras da cultura. Por desportistas, empresários, gestores, ativistas, académicos, médicos. Por deputados, ex-deputados, autarcas, ex-autarcas. Por embaixadores portugueses e embaixadores estrangeiros em Portugal. Por figuras políticas do passado, com a generosidade de tratar Arnaldo Matos como “defensor ardente da democracia”. Por figuras internacionais, sejam antigos reis, tias de reis, maridos de rainhas, ex-presidentes, primeiras-damas, ex-primeiras-damas, antigos chefes de Estado de democracias e ditaduras. Tudo normal.

Nas notas do Presidente também aparecem falecimentos de anónimos ao serviço do país, sejam militares, polícias ou médicos no combate à covid. Como é evidente. Aparecem portugueses que morreram no estrangeiro, como as vítimas em grandes acidentes de viação em Andorra ou em França, um trabalhador raptado e assassinado na Nigéria, um sem-abrigo encontrado no metro de Londres. E aparecem embaixadores estrangeiros que morrem em Portugal. Tudo certo. O Presidente até tem palavras oficiais para George Michael, David Bowie ou Prince. Não se pode dizer que este seja parco em notas de pesar. Ninguém escapa às condolências presidenciais.

Alguma coisa impediu que as palavras que tem para portugueses anónimos que morrem no estrangeiro, vítimas do crime, do acidente ou da incúria; que as palavras que tem para estrangeiros que morrem em Portugal por razões fortuitas e estranhas ao Estado português; que as palavras que até tem para artistas sem qualquer relação com Portugal tenham chegado à família de Ihor Homenyuk. E, no entanto, Ihor não morreu vítima de um acidente de viação, numa qualquer estrada portuguesa. Morreu nas instalações do Estado, às mãos de agentes do Estado, de que Marcelo Rebelo de Sousa é a primeira figura. Do ponto de vista simbólico, é dele que deve vir a mensagem mais clara do Estado e do país. Se algumas das palavras de consternação que li não tivessem saído, seria uma falha no protocolo. Deselegante. Politicamente inconveniente. Falha de cultura geral ou de aprumo de Estado. Ou, em alguns casos que aqui assinalei, indiferente. O silêncio sobre Ihor é outra coisa. É cumplicidade política.

Numa entrevista à SIC (onde quase ensaiou o mesmo discurso do ministro, acusando os jornalistas de não lhe terem feito perguntas sobre o tema durante meses), Marcelo Rebelo de Sousa justificou o seu longo silêncio por não falar sobre processos criminais a correr. Além de nenhuma condolência interferir numa investigação criminal, não é verdade. Falou, sem qualquer problema e inúmeras vezes, com investigações, processos e exigências de indemnização em curso, sobre Pedrógão e sobre Borba.

Há um mês, a diretora do SEF assumiu as responsabilidades objetivas do Estado quando disse: “não tenho grandes dúvidas sobre uma situação de tortura evidente.” Só não houve assunção de responsabilidades políticas. E são essas que se espera que o Presidente exija. Em vez de o fazer, recebeu o diretor nacional da PSP para ser ele, e não o ministro que já não o devia ser, a dizer o que deve acontecer com o SEF, fazendo as vezes de Eduardo Cabrita em Belém.


12 pensamentos sobre “De George Michael à tia do rei de Espanha, não há espaço para Ihor na consternação do Presidente

  1. Eheheh.

    Este está mesmo com medo do Ventura para estar a defender pessoas brancas.

    Quando o Chega ultrapassar o bloco até se vai indignar com o o assassinato do estudante universitario no campo grande, por um gang de cabo verdeanos.

    Se o chega chegar a segundo partido até é possivel que se indigne com o espancamento de duas guarniçoes inteiras de bombeiros espancados por bandos de ciganos que ocorreram no mesmo ano e que foram quase silenciadas pela comumicaçao social. Ele que está sempre tão caladinho nestes casos.

    Pelo visto a extrema direita equilibra a extrema esquerda.

    Digamos que é uma balança equilibrada a merda dos dois lados.

  2. Já agora pergunto a estes cinicos jornalistas e editores com colunas e programas semanais na tv, de que se queixam do silêncio de nove meses sobre este caso ?

    Foi de vocês proprios estarem calados ?

    Foi preciso o porco do Ventura aproximar-se de un governo regional para vocês começarem a diversificar un pouco as tonalidades de pele das vitimas merecedoras da vozsa indignação, cambada de porcos neo-racistas.

      • O próprio Oliveira o reconheceu.

        Em Portugal deu-se muito mais importância ao criminoso Floyd do que ao europeu assassinado dentrro de portas.

        Se queres ser mais papista que o papa e mais oliveirinha que o Oliveira estás à vontade.

        Aliás neste blog fui eu o único a falar deste caso durante meses nas caixas de comentários enquanto vocês me chamavam de fascista por causa disso e a assobiar para o lado porque o gajo não era suficientemente preto.

        • Não queiras dar uma biqueirada nas nalgas do fascista, não, ó d’A Estátua, qu’ainda vais bater com os costados numa esquadra de polícia também.

          • Caro RFC.

            Eu sou fascista por dizer que o povo não é fascista ?

            Então se o povo é fascista afinal o 25 de Abril foi contra o povo ?

            E quem não concordar com as vossas contradições imbecis esquerdistas vai “para a esquadra” ?

            E ainda ameaças a estatua só por não aplicar censura ao blog ?

            Mas tu pensas que estás na Coreia do Norte ?

            Cada vez se torna mais dificil distinguir a esquerda do fascismo.

  3. Nota. Daniel, tem dó! Entretanto, na tenda da troupe o Aspirina B dedicada de há muito a exibir todos os favores sexuais explicitos possíveis e imaginários um dos seus clientes resolveu importunar a bela lambidela nos tomates do Eduardo Cabrita e do António Costa com que a personagem Valupiana vem presenteando os forasteiros e o admirável público em sessões contínuas…

    Joe Strummer em Podiam ter perguntado, né?

    A audiência serviu para demonstrar a literalidade com que o Cabrita exerce o cargo pois se é Ministro da Administração Interna, a sua função é gerir os processos administrativos das instituições à sua guarda “0 papel chegou nesta data, conforme se pode comprovar pelo carimbo, e transitou da secção x para a y, ficando a aguardar recurso…” ou seja a fita do tempo, conforme anunciado pelo (cada vez pior) Santos Silva, um álibi construído para consumo de entretenimento de viciados em séries de plataformas streaming.
    A dimensão e o entendimento da noção de estado, serviço público e responsabilidade política, nepia. Alumni Marcello.

    Isto do PS desesperante está lindo, lindas.

    • Nota, outra. Do melhor, que graça!, vi agora.

      Graça Tremido
      17 de Dezembro de 2020 às 12:58

      Valupi: com os fellatio que vais fazendo nos últimos tempos ao António Costa e antes demoradamente ao José Sócrates, agora que o PM está de molho por causa do mon ami Macron, tu não achas que deverias fazer também o teste para a Covid-19?

      😐

    • Nota. Schiii, não dão descanso ao queridinho do Aspirina B! O coitado deixa fazerem-lhe tudo o, salvo seja!, nem as sapatilhas do Obikwelu nem o descontrolo de IP’s sempre criativos nem as rezas a São José nem o pelotão da Marianinha e o Costismo para a caça ao discurso de ódio nem o medo do purgatório, ninguém, aparentemente ninguém!, é capaz de arrenegar o Demónio…

      Eric
      18 DE DEZEMBRO DE 2020 ÀS 13:23

      O seu comentário aguarda moderação. Esta é uma pré-visualização, o seu comentário será visível depois de ter sido aprovado.

      Valupi: agora com o camarada Arons de Carvalho no Conselho Geral da RTP esse gajo incompetente tem o destino traçado! Vai o João Adelino Faria e a Sandra Felgueiras que são do mesmo calibre, depois a máquina de propaganda sobrevivente ao carnaval do Socratismo tem de escolher umas carinhas larocas (infelizmente tu não podes, és literalmente a arma-secreta, e a Fernandinha com aquelas trombas também não dá)… Aliás, para sossegar o/a Graça Tremido de ontem que te mandou fazer o teste, aparentemente podes ficar descansado pois que, se o Arons com aquela idade e décadas seguidas de chupismo militante aos tipos do PS ainda não bateu a bota e está aí pronto para mais patifarias, não hás-de ser tu que morrerás de um miserável Covid-19 ou 20 ou 21. Entretanto, chupa à vontade que a malta gosta de ver…

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