Confinamento fofinho não salva nem o Natal nem a economia

(Daniel Deusdado, in Diário de Notícias, 20/11/2020)

Consegue-se ferver água a baixa temperatura? Quando se trata de bactérias (neste caso vírus), as nossas intenções são inúteis. Ou há eficácia, ou não há. As regras da natureza são claras. E esta é a principal razão porque é ineficaz tentar salvar vidas com boas intenções. O vírus não entende essa linguagem e está a progredir através de todas as brechas.

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A política é a arte de gerir expectativas e o primeiro-ministro tem-se esforçado para manter o país a funcionar com a liberdade possível e sem gerar uma despesa ilimitada no futuro. Mas este é um momento decisivo. Há uma luz ao fundo do túnel – a vacina. Trata-se agora de aguentar o Inverno com o menor número de vítimas possível.

Esqueçamos de vez a contrainformação e o nevoeiro dos que transformam a doença em política. Da mesma forma que o terror sobre a primeira vaga era excessivo, a displicência nesta segunda é assinalável. Só que a realidade não oferece qualquer dúvida: basta ver-se os números dos cuidados intensivos. Não há falta de oxigénio no sangue por razões psicológicas. Como abandonar os doentes covid sem cuidados médicos instantâneos? Como não priorizar doenças de socorro imediato (covid e outras) face a doenças de evolução mais lenta? Estamos num contexto de catástrofe mundial… Exigimos o impossível, depois de anos a desguarnecer o SNS.

Face a isto, e infelizmente, o confinamento ainda é a estratégia mais eficaz para impedir uma progressão exponencial do vírus. É altamente rudimentar e repleto de danos colaterais, mas funciona hoje como funcionou há séculos. Afinal nós, seres humanos do século XXI, continuamos igualmente vulneráveis aos vírus, tal como os nossos antecessores – vítimas da peste negra, da peste bubónica ou da pneumónica.

O Governo tenta, a medo, que este atual regime de confinamento a meio gás reduza os números. Mas, a este ritmo, a diminuição do contágio não está à vista. Pior: este sistema é a versão “soft” do que foi praticado entre Março e Junho. Por se tratar de uma segunda edição da mesma coisa, é muitíssimo destrutivo para alguns sectores económicos – volta a fazer recair sobre os mesmos os custos da paragem. Ou seja, restauração, cultura, em boa parte o comércio e, inevitavelmente, o turismo, estão outra vez debaixo de água.

Paralelamente, a indústria, a construção e a grande distribuição ficaram sempre de fora. É um tabu por causa dos custos?

Não seríamos mais eficazes com paragens gerais nos concelhos críticos? Foi isso que ontem no Infarmed se discutiu: diminuir a mobilidade das pessoas. Ora, porquê atingir sempre a mesma “metade” de pessoas e empresas?

Para o Governo agir mais depressa, precisa de abdicar de duas ideias-feitas.
– A primeira, a de que as escolas têm de se manter sempre abertas. O princípio teórico está certo, a inflexibilidade não. Qual seria o problema se as escolas fechassem duas semanas, entre os feriados do 1 e 8 de Dezembro, ou mesmo o mês de Dezembro todo? Porque a questão é: o contágio não sucede nas escolas, nem nos transportes, nem nos restaurantes, nem nos shoppings… Não acontece em lado nenhum… Mas a covid continua…
– Segundo ponto: o Governo pressupõe que confinamentos curtos, mas de choque, são piores para as empresas. Na verdade, não são. Sem um verdadeiro choque nas cadeias de transmissão, ou seja, uma paragem total de todos os sectores não essenciais, com indústrias e construção incluídas, congelando a mobilidade de pessoas, não será possível obter resultados em pouco tempo. Todas as regiões críticas da Europa acabaram por fazê-lo.
Daí ser uma pena perder-se a hipótese de duas semanas de paragem rigorosa e geral, entre 28 de Novembro a 9 de Dezembro, pelo menos nos concelhos em estado crítico. É a janela temporal mais barata e eficaz que temos à mão para abrandar significativamente a propagação. São cinco dias úteis que valem 11 – e as empresas que não podem continuar a laborar em teletrabalho deveriam excecionalmente suportar este custo (muitas delas parariam pela primeira vez).

É urgentíssimo. Estamos perante a tempestade perfeita. Além do risco de colapso do SNS, sabemos que as pessoas vão querer celebrar o Natal. A natureza humana é gregária. Deveríamos começar a dar sinais de que o Natal se deve fazer de forma menos alargada porque sabemos que as pessoas não vão querer ficar sozinhas. No entanto, não há forma de manter máscaras à mesa nem de separar avós e netos. Com que números vamos lá chegar? Com cinco ou sete mil casos por dia? Numa situação dessa gravidade, comemorar o Natal em família como habitualmente, representará o momento de maior risco em toda a pandemia covid.

Aliás, para evitar ainda mais consequências quanto ao Natal, deveríamos igualmente confinar entre 24 de Dezembro e 3 de Janeiro (de novo 11 dias) porque na prática, só 3 são dias completamente úteis (28, 29 e 30 dezembro) em muitas indústrias e serviços. Estes três dias poderiam entrar a desconto de férias de 2020 ou 2021 – seria um contributo nacional de todos. Dessa forma, o ambiente familiar ficaria em “bolha”, evitando a multiplicação exponencial de casos no pós-Natal. E, claro, infelizmente, nem vale a pena falar-se de reveillón…

Com clarificação e antecipação, as empresas e os trabalhadores podem saber com o que contam: quando podem fazer compras e em que horários; como organizar o trabalho em casa; quando se pode fazer uma viagem de Natal e para onde.

Pelo contrário, o atual confinamento fofinho deixa-nos em lume brando, semana após semana. Isso mata mais postos de trabalho do que gerar momentos-choque e, depois, deixar a vida correr, com a normalidade possível neste contexto.

Abrir-fechar-abrir-fechar. Com eficácia e noção de que o vírus não vai desaparecer. Estancar mobilidade. Abrandar o contágio, sabendo que depois ele subirá de novo. Gerir psicologicamente o estado anímico da população. Evitar-se o confinamento infinito como o da primeira vaga.

Estamos no momento decisivo para limitarmos uma hecatombe humana em Portugal, tal como sucedeu em Itália e Espanha. Aliás, se soubéssemos que haveria um bombardeamento nazi sobre a nossa cidade durante três meses, mas que a guerra acabaria logo depois, não nos manteríamos a pão e água num bunker durante esse tempo?

E neste caso, nem bunker, nem pão e água, nem bombas. Bom… talvez não sejamos da mesma fibra dos nossos avós.


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