Visita ao manicómio

(Ruy Castro, in Diário de Notícias, 08/02/2020)

O escritor brasileiro Nelson Rodrigues disse certa vez que o verdadeiro Napoleão não era o corso, imperador dos franceses e génio da guerra, mas o Napoleão de hospício, aquele que pensa que é Napoleão, “porque ele não teve Waterloo”. Nelson não chegou a desenvolver a teoria, mas, a rigor, o próprio Napoleão seria também um Napoleão de hospício, porque só em imaginação e delírio seria capaz de fazer jus à sua ambição de conquistas – de ser Napoleão.

A psiquiatria tem dado enormes passos no estudo e tratamento dos distúrbios mentais, mas a figura dos Napoleões de hospício é indestrutível. Dia após dia, em toda a parte, a humanidade continua a produzi-los, com a agravante de que os casos mais graves, mesmo diagnosticados de saída, não são levados em camisa-de-forças e focinheira para um isolamento. Continuam à solta, com acesso a câmaras, microfones e redes sociais, com o que se tornam capazes de convencer as massas de que são a resposta para os problemas que as afligem. Com isso, candidatam-se a cargos públicos, elegem-se e passam a ocupar o posto máximo de seus países. Nos últimos anos, Donald Trump é o grande exemplo; Boris Johnson, em escala menor, é outro. Mas ninguém é mais de hospício do que Jair Bolsonaro – sob sua presidência, o Brasil está sendo transformado em um manicómio.

Bolsonaro não nos dá descanso, a nós, jornalistas. Quando se pensa que uma barbaridade perpetrada por ele de manhã será analisada e discutida nos programas de televisão daquela noite e nos jornais do dia seguinte, ele comete outra na parte da tarde, ainda mais absurda, e os comentaristas ficam sem saber o que discutir ou analisar. Entre uma e outra declaração, anuncia algo que desmentirá no dia seguinte, acusa a imprensa de ter distorcido as suas palavras, demite ou desmoraliza um político aliado e compra briga com algum país amigo, categoria profissional ou minoria racial ou de género.

Desde que assumiu a presidência, em janeiro de 2019, Bolsonaro já defendeu ditadores, torturadores e estupradores; ofendeu negros, índios, gays, lésbicas, estudantes, professores, artistas, ambientalistas, japoneses, noruegueses, argentinos, árabes e mulheres em geral – é a favor de que elas ganhem menos que os homens porque engravidam – e disparou os comentários mais grosseiros contra a chanceler alemã Angela Merkel e a primeira-dama francesa Brigitte Macron (a esta, chamou de velha, comparando-a à boneca inflável com quem é casado).

Mas seu alvo predileto é a imprensa. Apenas no seu primeiro ano de governo, desferiu mais de cem agressões contra os jornalistas, chamando-os cara a cara de “canalhas”, “raça em extinção” e “mentirosos”. As ofensas concentram-se quase sempre nas repórteres que, por dever, tentam entrevistá-lo em Brasília. Mas, há algumas semanas, sobrou também para um repórter, que Bolsonaro acusou de ter “uma cara terrível de homossexual”, o que, para ele, é uma ofensa.

Os veículos que ele mais detesta são a Folha de S. Paulo e a TV Globo – os mesmos que Lula e Dilma Rousseff classificavam de “media golpista” quando eles atacavam seus governos. Por provocarem igual ira nesses dois extremos políticos, deve haver alguma coisa certa com esses veículos. Na ânsia de prejudicá-los, Bolsonaro cortou a propaganda oficial que normalmente caberia a eles – a Folha é o jornal de maior circulação no país e a audiência da Globo é maior do que a de todas as outras redes de TV somadas. Em vez disso, Bolsonaro prefere favorecer os veículos que se acoelham diante de suas patranhices. A Folha e a Globo podem viver sem o governo Bolsonaro, mas a pergunta é se o governo Bolsonaro conseguirá sobreviver a si mesmo – descobriu-se agora que o secretário de Estado encarregado de distribuir as verbas publicitárias do governo favorece escandalosamente os veículos com quem faz negócios particulares através de sua empresa…

Para um político que se elegeu presidente denunciando a corrupção dos governos anteriores, Bolsonaro começa a competir seriamente com eles. Vários de seus ministros estão sendo acusados dos mais variados crimes, entre os quais peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Para piorar, um dos principais suspeitos do país é o seu próprio filho, o hoje senador Flávio Bolsonaro – recordista de estranhas transações que lhe rendem lucros astronómicos, autor de marotas declarações de bens, beneficiário de movimentações atípicas em dinheiro vivo e dono de uma loja de chocolates próspera no ano inteiro, menos, curiosamente, na Páscoa. E Flávio é só um dos três filhos de Bolsonaro (os outros, Carlos e Eduardo, ambos hidrófobos) que detêm hoje a maior quantidade de poder já concentrada em filhos na história do Brasil. Com eles, o Brasil está deixando de ser uma democracia e se transformando em filhocracia.

Os investidores estão com medo do Brasil – quem vai querer investir numa casa de loucos? Mas, em termos turísticos, o Brasil tornou-se uma grande atração internacional. Estamos abarrotados de turistas, interessados em conhecer não apenas o nosso Carnaval, mas um país em que o ministro da Educação escreve coisas como “paralização” e “imprecionante”; o ministro do Meio Ambiente odeia a Amazónia e quer desmatá-la; o encarregado da agência governamental dedicada aos negros é um negro para quem a escravidão foi uma coisa boa; um secretário da Cultura que imitou Joseph Goebbels em televisão nacional e, não se sabe por quê, foi defenestrado – poucas horas antes, Bolsonaro o classificara como o secretário perfeito. E por aí vai. Que outro país pode fornecer tais atrações?

E, há três ou quatro dias, Bolsonaro superou-se e afirmou que o Brasil devia trocar de povo. Não posso garantir, mas, se continuar a ser tratado desta maneira por Bolsonaro, o povo vai acabar se ofendendo.


Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros livros, O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues (Tinta-da-China).


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6 pensamentos sobre “Visita ao manicómio

  1. Bolsonaro é uma bolsa de alarvices, bestialidades e reacionarices
    E mantém-se porque as “democracias” de mercado gostam de mandatos cumpridos, aconteça o que acontecer
    Para serem democracias, qualquer eleito poderia ser objeto de impugnação, demissão, a qualquer momento, em votação do eleitorado de onde emanou

      • É possível. Mas a votação em instituições oligárquicas, quase sempre corruptas – os partidos, coligações deles, etc só favorece o aparecimento destes trogloditas.

        E, para mais, entende-se, em nome da estabilidade (dos cemitérios) dificultar ao máximo iniciativas de correr com os eleitos, sempre que não cumprem o prometido ou procedem de modo lesivo. Democracia direta é tomada como algo de impossível… Percebe-se porquê.

        Quanto mais os sistemas políticos estiverem polarizados em gangs; quanto mais as ditas esquerdas se tornarem oligarquias como as direitas, são as direitas fascizantes que capitalizam com a despolitização e o afastamento (induzido ou escolhido) da plebe

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