Os que falam não sabem, os que sabem não falam

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 04/02/2020)

Falar do juiz Carlos Alexandre é constatar como a Justiça portuguesa bateu no fundo. Para além de ser um magistrado que alimenta o culto de personalidade na indústria da calúnia, e isto a troco de um serviço de informações politizado e/ou criminoso, estamos também perante um agente da Justiça que se permite violar os seus deveres de isenção, que difama o próprio sistema de que faz parte, e ainda ameaça com chantagens os seus pares. Tudo isto feio às escâncaras, publicamente, como se fosse essa uma condição e uma garantia da sua impunidade. Donde, ver a comunicação social a tratar a sua pessoa implica, inevitavelmente, descobrir qual a relação desses órgãos, jornalistas, comentadores e editorialistas com o Estado de direito democrático. Trata-se de uma dimensão onde, como se lê em Apocalipse 3:16, “os mornos serão vomitados”. Quem se cala é ainda pior do que aqueles que usam Carlos Alexandre para atacarem a cidade.

Ontem ficámos a saber que alguém no tribunal onde o “super juiz” interrogou Azeredo Lopes estava a relatar os acontecimentos em directo para os jornalistas. À hora de almoço já havia resumos e comentários à disposição e ainda faltava mais uma tarde de espectáculo. Claro, poderá ter sido o próprio Azeredo ou o seu advogado a fazê-lo, como gostam de sugerir os pulhas sempre que este tema vem à baila. Talvez eles tenham estado a responder de telemóvel na mão e a teclar desenfreadamente. Mas, nesse caso, será que iriam pintar o retrato que o Expresso, o Observador e a Cofina de imediato espalharam para açularem a matilha com deturpações, escárnio e mentiras? É pensar nisso.

Do que se conhece na rua sobre o desaparecimento e recuperação do material de guerra armazenado em Tancos, é possível admitir que Azeredo Lopes foi aquele que teve até agora a tarefa mais heróica. Tendo sido uma das testemunhas da conversa entre Marcelo e o director da PJM, onde este obteve uma qualquer espécie de promessa do Presidente da República para exercer a sua influência sobre Joana Marques Vidal (versão desmentida por Belém), e conhecedor a posteriori da encenação da recuperação do material (versão do ex-ministro), Azeredo igualmente sabia que os militares adjuntos à Presidência e ao Governo iriam ser parte, passiva ou activa, da pressão castrense que Luís Vieira estava a exercer sobre o poder político.

Só que toda a minha gente na hierarquia do Estado, sem excepção, sabia do mesmo. É claro que Marcelo e Costa, por maioria de razão, estavam contínua e preocupadamente ao corrente dos mais pequenos detalhes a que pudessem meter os garfos, mal de nós se não o fizeram. Este episódio da História de Portugal é tudo menos cómico. Na verdade, a usarmos uma categoria dramatúrgica, a indicada seria a tragédia. Porque a situação nasce de uma ameaça à honra de quem se sente responsável por um corpo humilhado pelos poderes civis e cada vez menos relevante no seu estatuto – quiçá, um pilar do regime profundamente apodrecido, como o próprio caso de Tancos sugere. O nome com que a Judiciária carimbou a sua investigação a respeito – Operação Húbris – não tem nada de metafórico.

Para investigar o que se passou em Tancos, como é necessário a bem da República, é preciso sacrificar Azeredo Lopes, achincalhá-lo de forma bronca e maníaca no editorialismo e no comentariado, e usá-lo para a chicana partidária e para as campanhas negras? É pensar nisso. E, de caminho, tomar por sinceras as palavras com que o primeiro-ministro sempre se referiu ao seu papel na crise. O papel de quem não tinha poder sobre os militares que prepararam uma armadilha ao Governo onde era ministro da Defesa, em relação directa com outras violações graves das suas responsabilidades enquanto oficiais de alta patente das Forças Armadas Portuguesas. O papel de quem, inesperadamente, teve de proteger todas as partes envolvidas pois a situação foi levada para o grau máximo de conflito institucional subterrâneo num contexto de selvagem exploração mediática e política.

Quem disser que faria melhor do que Azeredo Lopes nas circunstâncias, ou não sabe do que fala ou não fala do que sabe.


8 pensamentos sobre “Os que falam não sabem, os que sabem não falam

  1. Claro o título diz tudo. Só fala quem não sabe e o Juiz ainda não percebeu nada de nada. Barata tonta no meio de tudo com o objetivo de prejudicar o Poder Político que odeia, por pura inveja.

  2. «O papel de quem não tinha poder* sobre os militares que prepararam uma armadilha ao Governo onde era ministro da Defesa»-Quem no Governo, não tem poder sobre os militares?
    Em abono do MDN*, este e os antecessores: porque não foram os paióis de Tancos encerrados em 2004 com o fim do SMO?
    * Ministros, e deputados, que faz correr los deputados andaluzes em S. Bento?
    “O colapso das Forças Armadas” – André Pardal no Público (26Jul19)
    «Querem isso, Exército sem soldados?» -Nuno Rogeiro, na Sábado (4Jul19)
    «Uma reforma que define um novo modelo para a DN» -Aguiar Branco (2013)**
    «A reforma da instituição militar estará concluída em 2007» – Severiano Teixeira (2006)**
    «O ministro está a fazer uma revolução tranquila no MDN» – Luís Amado (2005)**
    «O Exército marcha para a mudança» – General Viegas CEME (2002)
    «Exército português na ruína» -El País (2002)
    «FA -o caminho do futuro, que tropa queremos?» – General Alvarenga CEMGFA (2002)
    «Reforma das FA -uma reflexão» – Jorge Sampaio PR (1999)
    «Desafios das FA no virar do século» – Veiga Simão (2Abr98)**
    «Racionalização dos efetivos, um imperativo de modernidade» – Fernando Nogueira (1992)**
    «Vamos combater a nossa inércia» – General Loureiro dos Santos CEME (1991)
    ** Os dotados ministros da varanda do Restelo, esforçados gestores de FA do século XX,
    bem acompanhados por ‘ajudantes’, deputados e assessores.

  3. «Los que lo quieren no lo pueden, los que lo pueden no lo quieren»
    De pensador espanhol, num dos manuais da Sociologia algures.

  4. Se atentarmos ao facto que no Brasil o Sr. Moro participou activamente na catástrofe que se abateu lá, que Trump põe e dispõe dos juízes, que nos países em que os governos autoritários (Polónia, Hungria, etc.) não conseguem controlar os juízes, mudam a constituição, chegamos à conclusão que no Processo de Fascização Em Curso a Justiça é um dos eixos fundamentais.

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