O pântano

(Daniel Oliveira, in Expresso, 10/01/2020)

Daniel Oliveira

Para justificar o pouco que conseguiu nas negociações que António Costa simulou entre a poncha da Madeira e o tofu do PAN, o PCP disse que “o PS está hoje menos condicionado do que na anterior legislatura”. Não é verdade. PCP e BE continuam a poder inviabilizar qualquer orçamento. Deixaram de ser necessários os dois ao mesmo tempo, mas isso resolvia-se com uma coordenação entre eles, que o PCP recusa. Deixaram de ter um acordo escrito que amarrasse o PS a alguma coisa, mas o PCP também não o desejou. É um enfraquecimento autoinfligido que se traduz no argumento para não votar contra: “O que foi alcançado não anda para trás.” Maior caricatura do partido de resistência é impossível. O BE absteve-se por medo. Tal como o PCP, as conquistas são pouco mais do que simbólicas. Tão pouco que Costa se deu por satisfeito ainda antes de conhecer o seu voto. Já fizera saber que esperava que o BE viesse a reboque do PCP. A humilhação pública será a estratégia de Costa, que quer esvaziar de sentido o voto no BE. E o BE não reage porque teme a memória do PEC IV, onde votou ao lado da direita e depois caiu para metade. Não percebe que era outro o contexto, foram outros os erros e serão outras as consequências.

Era agora que BE e PCP definiam as regras desta legislatura. O Parlamento não pode ser dissolvido, a direita não é um risco e Marcelo, a preparar a reeleição, não quer uma crise. Talvez os eleitores não o entendessem agora, mas este é o momento para definir um padrão para a legislatura: assinarem de cruz todos os orçamentos ou terem o poder de determinar alguma coisa. E será isso, e não o estado de espírito atual, ainda marcado pela defunta ‘geringonça’, que decidirá o voto nas próximas eleições. Se os eleitores de esquerda estiverem satisfeitos e sentirem que BE e PCP não contaram para nada, votarão PS. Se estiverem insatisfeitos e sentirem que BE e PCP não fizeram oposição, votarão noutra coisa qualquer. Perdem sempre. É verdade que têm uma janela de oportunidade daqui a um ano: o Parlamento voltará a não poder ser dissolvido, por estarmos nos últimos seis meses de mandato do Presidente. Mas o tom foi dado agora: o PCP voltará a não ter perdido nada do que já foi conquistado e o BE voltará a ter medo de votar com a direita. Ao terceiro orçamento, se Costa lá chegar, estarão atados de pés e mãos, com um preço demasiado alto a pagar por uma crise política.

Vêm aí tempos perigosos. A direita estará em crise profunda, o PCP em hibernação e o PS apostado a ser um eucalipto, que seca tudo à sua volta sem mobilizar ninguém. Os sindicatos morrem lentamente e surgirão cada vez mais focos de contestação inorgânica, sobretudo entre os trabalhadores do Estado. E a extrema-direita estará, mais do que se julga, à espreita. É isto que me preocupa.

A conclusão deste processo negocial traduz um erro estratégico de toda a esquerda. Do PCP, porque desistiu de conquistas; do BE, porque tem medo de aparecer como radical; e de António Costa, porque tenta enfiar no bolso os seus interlocutores à esquerda, não percebendo que eles são a única barreira ao crescimento de um descontentamento antidemocrático. Quatro anos de orçamentos viabilizados de cruz, sem conquistas nem oposição, atirarão o país para um pântano. E BE e PCP para uma monumental derrota.



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10 pensamentos sobre “O pântano

  1. Se o PS for capaz de dosear as abébias que dá ao PCP e BE vai conseguir chegar ao fim da legislatura sem sobressaltos.
    Abábias são situações em que o PS legisla a favor dos mais desfavorecidos e deixa que as medidas sejam apropriadas pelos partidos de esquerda.
    Foi assim no passado e continuará a ser, do tipo; faz lá barulho nos média a pedir esta medida, que eu aceito, e tu ficas com os louros.
    E para as medidas menos populares diz; faz lá barulho a condenar esta medida impopular que eu mudo uma vírgula para tu te absteres na votação. Mais tarde serás compensado. E ao PSD-CDS diz; votem nisto se querem ser coerentes.
    Todos os partidos estão mais interessados em angariar eleitores do que em servir o país. É normal que assim seja. Os partidos pequenos não têm voz ativa…
    O Costa costuma ser um bom equilibrista nesta corda bamba.

    • Até ao dia que o castelo se desmorone, depois a história (mais estória, mas pronto) será escrita pelos que escreveram a dos antecessores.

  2. A análise do Daniel tem interesse mas peca por um defeito essencial. Ele ainda aceita que o pântano fedorento da AR serve para alguma coisa de favorável à multidão; e continua a manter a tradicional classificação de esquerda/direita onde só há gangs, maiores ou mais pequenos, alapados sobre os subsídios públicos, os favores da imprensa que vive das vacuidades dos membros da classe política para vender “shares” de audiência e obter publicidade. E, claro, para manter mansa a população mais pobre e menos qualificada da Europa Ocidental,

    Qualquer governo é um gestor do erário público, da hidra que todos os anos suga um pouco mais dos rendimentos da plebe; e que o utiliza em proveito próprio dos seus mandarins ou dos ditos empresários sempre gulosos de novos subsídios e vantagens fiscais

    Por exemplo. Porque será que a dívida das empresas para com a Segurança Social não para de crescer a despeito da alguma euforia económica iniciada com a Geringonça? Vejamos valores 2014 – 7196 M, 2015 – 7326 M, 2016 – 9142 M, 2017 – 9529 M (os dados de 2018 ainda não estão apurados pela pantanosa instituição que é a SS). Mais há uma cultura tradicional na SS, comum ao PS/PSD de “ajudar” os empresários faltosos deixando que as dívidas se acumulem até chegar a falência ou a prescrição.

    O IRS cobrado era 12230 M (2018) terá sido 12905 (2019) e trepará para 13586 M no ano em curso. Coisa pouca porque há impostos mais rentáveis e menos visíveis como o IVA – 16670, 17499 e 18334 M em 2018/20. Estes aumentos da ordem dos 5%/ano podem ser comparáveis com os 0.3% de aumentos para a função pública no ano em curso

    E recordemos os 23000 M de apoios ao sistema bancário…

    Para terminar, recordem-se da alegria dos mandarins quando “vendem ” dívida nos mercados financeiros ( milhões €)
    2013 – 219714,8 2014 – 226040,5 2015 – 231512,6 2016 – 240962,6 2017 – 242804,5 2018 – 245.558 e
    2019 – 249045,0 (nov). E, nesse período a taxa de juro implícita varia entre 3.74% e 3.27%, valores visivelmente muito… distintos e que fazem com que os juros da divida orcem normalmente os 8000 M euros desde… 2012 (portanto, com ou sem troika)

    Cuidado com o vosso ranger de dentes quando souberem que cada tuga (sobre)vivente na paróquia paga, anualmente, de juros de dívida pública, uns 800 euritos

    Perante isto, o folclore vivido no Pavilhão das Aves Canoras só deve provocar nojo

    Abraços
    VL

    • Ui?

      Nota. Ó Vitinho: hoje não há links do teu blogue ignoto? Então, pazinho, mudaste de estratégia politico-comunicacional e, agora, os incautos e os homens de boa vontade d’A Estátua têm de continuar a levar com as tuas ampolas de parvaria mas a frio? Vá, juízo (para ti uma arroba, ou mais ainda?, para mim nada qu’eu deixei de ler definitivamente as cenas do Daniel-versão-cadáver-que-por-enquanto-ainda-puxa-a-carroça-do-Eixo do Mal na SIC N).

    • > Porque será que a dívida das empresas para com a Segurança Social não para de crescer

      Quase que parece que é de propósito e que condiz com o que um certo partido vencedor tinha no programa.
      Desregula, filho, desregula, senão vem aí a globalização.

  3. Ao contrário do que defende o Daniel Oliveira eu penso que o BE percebeu, embora não o admita, que a estratégia de António Costa de relevar o pagamento da dívida neste primeiro orçamento de 2020 em detrimento da satisfação imediata de meia dúzia de avanços salariais nos quadros da Administração Pública, é a mais correcta. Se pensarmos que os juros da dívida em cada ano é superior aos gastos com a saúde e educação anualmente, por certo que ninguém no seu juízo perfeito ousaria em continuar a política de aumentar a dívida indefinidamente.
    Também penso que se o BE ousasse alinhar outra vez com o PSD/ CDS/IL/CHEGA no chumbo do Orçamento essa irresponsabilidade custar-lhe-ia em próximas eleições uma pesada derrota.

    • > ninguém no seu juízo perfeito ousaria em continuar a política de aumentar a dívida indefinidamente.

      Perfeito juízo é tornar o país em mais um estado europeu em que todos os jovens licenciados fogem se puderem, no mínimo do emprego público, onde os melhores não fazem falta nenhuma, isso é que é responsável.

  4. Paulo Marques

    Num país onde há poucos empresários e muitos negociantes; onde a fuga fiscal é estrutural, a SS por tradição é uma mina. Em 1995, Cavaco desviou uns muitos milhões da SS para colmatar o deficit do Estado.

    Na Alemanha, por ex, uma empresa que não pague as contribuições no prazo, recebe a visita de fiscais dias depois

    Recentemente voltou uma cultura na SS de que compete à instituição ajudar as empresas nas suas dificuldades – uma cultura que se procurou acabar no tempo do Guterres PM e que agora voltou com o Vieira da Silva
    A SS apesar de ter contas próprias, está contida nas contas públicas, o que nºao deveria ser
    As empresas muitas vezes aceitam planos de pagamento, com perdão de juros vencidos e pouco depois deixam de cumprir com muita passividade da SS

    Quando uma empresa está em pré-falência, os bancos muitas vezes têm garantias; a SS raras vezes. A máquina da SS é propositadamente pesada para alívio das empresas.
    Um caso de um eminente vigarista da área das limpezas é curioso. O tipo criava empresas umas atrás das outras e deixava para trás enormes calotes à SS; e tinha sempre uma – a mais recente – que estava com tudo em ordem para poder concorrer aos concursos

    Há uns 15 anos o clube Salgueiros tinha uma avultada dívida para com a SS por acaso, coberta por uma hipoteca; e o presidente do clube – ente pouco recomendável – tinha uma proposta do Metro do Porto para compra do terreno do campo de futebol para desenvolver a linha do Metro. O tal presidente teve dois azares. Um, que o negócio só se podia fazer desde que a SS fosse paga, antes do levantamento da hipoteca; o segundo é que o tipo da SS responsável pela área não era fácil de tornear, a despeito dos muitos telefonemas que recebeu para ser … “compreensivo”

    A SS é um género de fundo de pensões dos trabalhadores portugueses e a sua dependência para com o governo é absolutamente miserável; deveria ter uma gestão própria, separada do aparelho de estado. Os impostos pagos não têm uma afetação em termos de despesa; as contribuições têm – velhice, doença, invalidez – e, de acordo com o valor descontado

    Nem dá para perceber como as centrais sindicais nunca colocaram a questão, assistindo mansamente à drenagem de fundos dos trabalhadores portugueses para um empresariato manhoso, ignaro e incapaz, viciado nas “facilidades” oferecidas pela classe política. E não conheço qualquer partido que alguma vez tenha abordado esta questão da drenagem, que tem décadas

    Portugal é isto…
    VL

    • Já que fala em futebol, falta aí um perdão fiscal ao clube do regime, que nem uma retretezinha teve penhorada.
      Eu acho é que, por muito que se mascare, as contas de um estado são sempre consolidadas para financiar algo que seja necessário. Ainda mais num estado que não tem um pingo de soberania em troca de um número infindável de obrigações a serem pagas em moeda estrangeira. A bem ou a mal, e muito provavelmente a mal, há-de vir o dia em que as condições de idosos e/ou desempregados dá para o torto e muda isto tudo.

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