O sofá alugado, a vida num quarto e o despejo à vista

(Isabel Leiria e Raquel Albuquerque, in Expresso, 07/12/2019)

É no sofá da sala numa casa em Odivelas que Natércia dorme três noites por semana. Não tem direito a mais do que duas gavetas de uma cómoda e a partilhar casa de banho e cozinha com mais duas pessoas. São estas as condições a que a professora de Matemática de 44 anos, a dar aulas há 20, teve de se sujeitar para conseguir uma renda mais baixa.

Ficou a pagar €10 por noite e uma parte das despesas da casa. Feitas as contas, ao fim de um mês, é bem menos do que os €350 que lhe pediram por um quarto nos arredores de Lisboa. E foi a única solução para conseguir manter-se, pelo sexto ano consecutivo, a dar aulas na capital, a 300 km de Santa Maria da Feira, onde tem a família que tenta visitar todas as semanas, acrescentando mais €200 às despesas mensais fixas. Mesmo optando pela estrada nacional, que sai mais barato. “Não tenho espaço para as minhas coisas e tenho de andar de mala às costas. Mas é melhor que um hostel, onde nem duas gavetas teria.”

Conseguir arrendar uma casa ou apenas um quarto tornou-se um problema nos centros urbanos devido ao aumento das rendas e atingiu em cheio milhares de professores colocados longe da área de residência. A Grande Lisboa e o Algarve são as zonas do país que mais precisam de professores mas onde se tornou mais difícil encontrar casa acessível. Basta somar as despesas com renda, deslocações e alimentação, retiradas de um salário de cerca de 1100 euros limpos, para que muitos professores nem aceitem a vaga. E por isso há horários por preencher desde o início do ano letivo (ver texto em baixo).

“Se já é complicado para um professor com um horário completo ter dinheiro para as despesas, é incomportável quando é incompleto. Nesses casos, recebem entre 400 e 500 euros. Isso já quase não chega para um quarto”, alerta César Paulo, porta-voz da Associação Nacional de Professores Contratados. “A maioria destes professores tem mais de 40 anos e crianças em idade escolar, o que os leva a não continuarem a fazer estas deslocações. E os que têm menos de 30 anos, e que estariam mais disponíveis, são muito poucos e têm o problema das rendas.” Júlia Azevedo, presidente do Sindicato Independente de Professores e Educadores (SIPE), não duvida que a falta de professores tem vindo a agravar-se. “A curto ou médio prazo, a situação será mesmo insustentável.”

Questionado pelo Expresso, o Ministério da Educação avança que estão “em análise e em articulação com outros ministérios soluções que visem incentivar a colocação de professores em certos territórios”, sem concretizar hipóteses ou prazos.

Guilherme, professor de Geo­grafia, faz parte de 1% dos docentes com menos de 30 anos, e dos muitos mais que juntam à precariedade de não saber se têm trabalho, de um ano para o outro, a dificuldade de encontrar casa. Natural da Covilhã, sem hipóteses de colocação em escolas da região, sabe que tem de procurar no resto do país uma oportunidade que lhe permita somar tempo de serviço para ficar efetivo.

“Já tinha posto Lisboa e Porto de parte por causa das rendas. E comecei a concorrer para o Algarve. No ano passado, em Lagos, tive sorte em encontrar um estúdio barato. Mas este ano, em Loulé, foi um desespero completo. A maior parte dos anúncios pede para sairmos em maio ou junho, por causa dos turistas, e nós trabalhamos até 31 de julho. E os preços são um abuso”, descreve Guilherme, que chegou a encontrar um T0 a €750. A solução acabou por recair na partilha de casa com dois colegas, onde paga €200 por um quarto, fora as contas. “A minha rotina diária, antes de adormecer, é ver os sites do OLX e do Custo Justo à procura de um T0 ou T1 que possa pagar e ter a minha privacidade.”

Colocada também no Algarve está Liliana Vieira, professora de Geografia há 12 anos, natural de Vila Verde (Braga) e sempre colocada em escolas diferentes. Dá agora aulas em Faro, mas só arranjou apartamento a cerca de 15 km, em Loulé. E admite ter sido uma sorte. “Estou a pagar €320 por um T2, de uma professora que foi deslocada para outra zona. Há quem peça €500 por um T0 ou entre €350 e €450 apenas por um quarto.” Tal como Guilherme, também vive o problema do turismo. “Em julho, há professores a ficar em sofás ou em casas de outros, porque perdem aquela onde estão.” E em setembro, quando começam as aulas, a dificuldade repete-se, pois muitos senhorios só disponibilizam a casa em outubro, depois de acabar a época alta.

Liliana dá aulas no Agrupamento Pinheiro e Rosa, onde o diretor, Francisco Soares, todos os anos tem dificuldade em arranjar professores para completar os horários. Em setembro, tinha “seis ou sete por preencher”. A situação já melhorou, mas a baixa médica de uma professora de História deixou os alunos do secundário sem aulas no último mês. “Já fizemos tudo, mas quem telefonava não aceitava receber €1000 e ficar a pagar €350 por um quarto ou €600 por uma casa”, conta. Sem candidatos, o horário vai ser atribuído a outros professores do agrupamento. “Sai mais caro, com as horas extraordinárias que têm de ser pagas, mas são alunos que vão ser sujeitos a exame nacional e tínhamos de encontrar uma solução.”

QUARTO SEM VISTA POR €350

No Facebook, há vários grupos para ajudar professores a encontrar casa e um deles tem quase 13 mil membros. “Vemos aparecer de tudo e optamos por eliminar casos indignos, como o de um quarto com cama e mesa de cabeceira em Lisboa por €350, sem janela e sem acesso à cozinha”, conta Ana Branquinho, uma das gestoras do grupo e também ela professora, em Viana do Castelo. “Perante a realidade, assim como eu, muitos outros professores já desistiram de concorrer para o Sul do país. Não vale a pena e também não quero deixar cá as minhas filhas. Só que ficar aqui obriga a ter mais empregos.”

Nascida em Aveiro e colocada em Lisboa, Paula tem 39 anos, um filho de 12 e outro de dois. Há mais de dez anos que todas as semanas deixa a família em casa para ir dar aulas, tendo passado por uma dezena de escolas. Nos últimos anos conseguiu dois contratos consecutivos e só lhe falta um para vincular. “É esse o meu único objetivo”, realça. O problema é que a casa que tem estado a partilhar, em Loures, acabou de ser vendida. “Temos de sair até ao fim deste mês e não temos para onde ir”, conta a colega de casa, Cláudia, 41 anos, que também deixa a filha de oito anos todas as semanas com os avós. “Se no início do ano letivo já é difícil encontrar quarto, agora é impossível. Ninguém quer arrendar uma casa por sete meses. Além disso, não dá para pagar uma renda de €500 porque já temos despesas fixas com as nossas famílias.”

Há formas de tornar as contas menos pesadas e Inês, professora do Porto contratada em Lisboa, optou por entrar num grupo de boleias partilhadas criado no Facebook. Foi lá que conheceu a proprietária da casa onde mora e que partilha com mais duas docentes — uma de Braga e outra de Macedo de Cavaleiros —, a €300 o quarto. “É absurdo pagar isto, mas tenho a noção de que não é dos mais caros.” Aos 40 anos, espera mais uma renovação de contrato que lhe permita vincular. “Só a partir daí posso pensar em ter casa só para mim.”

As Câmaras de Lisboa, Oeiras e Faro já aprovaram moções a pedir ao Governo que arranje soluções para este problema. “Tem de ser garantido um subsídio de alojamento e ajudas de custo para a deslocação”, defende Júlia Azevedo, do SIPE. Estes apoios já existem para médicos ou juízes. Mas César Paulo defende que é preciso ir mais longe. “Estes apoios são apenas paliativos. É preciso estabilizar o corpo docente nas áreas geográficas mais próximas das suas residências. Assim, garantia-se que ficavam no ensino e estancava-se a perda de professores que, perante este cenário, nos últimos anos têm procurado noutras profissões uma alternativa de vida.”


NÚMEROS

42

anos é a média de idades dos professores contratados, segundo as contas de Arlindo Ferreira e Davide Martins, do blogue ‘ArLindo’

€1100

é o valor aproximado do salário líquido de um professor contratado com horário completo

58%

dos professores poderão aposentar-se até 2030. Entre os grupos mais envelhecidos estão Educação Tecnológica e Estudos Sociais/História

€300

é o valor abaixo do qual é quase impossível encontrar um quarto em Lisboa. Valores chegam a ultrapassar os €400173118181201

3 pensamentos sobre “O sofá alugado, a vida num quarto e o despejo à vista

  1. «no sofá da sala numa casa em Odivelas»-por um punhado de 30 euros na semana!
    Tratados, os professores do meu país, há décadas, como novos ‘miseráveis’ pouco acima dos sem-abrigo do PR.
    Um espanto, graças ás elevadas competências dos elaborados especialistas, ministros, ajudantes ou assessores, com que os imaginativos Premier adornam e arrastam o país.
    Produzem estudos e planos estratégicos sem fim, modo tão português de empatar. Um ‘estudo’ está resolvido.
    Desconhecendo a geografia e os sectores sob a manta do Estado, os atingidos que façam por si, alugar uma cama.
    Na Portela junto ao aeroporto de Lisboa, jaz um grande aquartelamento militar, antigo RALIS, práticamente vazio e quase sem uso.
    Tão simples, quanto pouco oneroso, se com um PM capaz de lhe dar um destino social útil.
    Nada a fazer, salvo esperar por paródias como a de Tancos, ou que chegue Godot.

  2. Uma vergonha. Deviam aplicar o mesmo princípio aos Senhores Ministros, Deputados, Juízes e outros “sortudos”…….

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