Ai, liberdade!

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/10/2019)

Miguel Sousa Tavares

1 Eu, por mim, dispenso mais esclarecimentos sobre o sórdido caso de Tancos. O que li já me permite tirar as minhas conclusões, sem medo de ir ao engano. Temos o principal (embora haja tanto esforço para o tornar secundário): a vergonha do roubo em si mesmo e a inimaginável moscambilha montada pela PJM, em colaboração com a GNR, para se atribuir os louros da recuperação das armas, depois de uma negociação com o próprio ladrão, a quem ofereceram a impunidade contra as armas. Ficará para sempre como dos episódios mais vergonhosos das Forças Armadas portuguesas, em que um sector do Exército manchou a honra de todos os outros e das outras armas. Porém, se se tivesse seguido o curso da história tal como planeado, as consequências internas e únicas teriam sido a promoção e condecoração dos responsáveis militares envolvidos. Isto ficou perfeitamente esclarecido, documentado e provado. E diz muito sobre o estado a que as coisas ali chegaram.

Desmascarados pela PJ civil, seguiu-se o segundo episódio, em que os implicados trataram por todos os meios de se tentarem safar, implicando, como coniventes do seu infame segredo, os políticos ao seu alcance: o ministro da Defesa, o primeiro-ministro e, já agora, o Presidente da República. Com essa manobra, visavam desviar as atenções do principal e atraí-las para o acessório, refugiando-se atrás dos políticos (que passam a vida a criticar), como forma de não terem de enfrentar a responsabilidade dos seus actos e omissões. Isto diz muito também sobre esta gente, que eu quero acreditar e acredito que não representa os nossos militares.

E vem o terceiro episódio, a entrada em cena do Ministério Público, essa Sagrada Família que se atribui a si mesma o monopólio das virtudes cívicas e patrióticas, face a um meio devastado pela corrupção da política e dos políticos — todavia, eleitos e removíveis pela vontade popular, ao contrário deles. Apanhando, sôfregos, as bóias lançadas pelos implicados no crime, os magistrados do MP viram ali mais uma oportunidade de exercerem o seu imenso e insindicável poder de colocar os políticos à defesa, chamando-os para interrogatório — o que, como bem sabemos, é o primeiro passo para lançar na opinião pública uma suspeita que se instalará como verdadeira e inabalável enquanto durarem os anos necessários para que um processo chegue, se chegar, a um julgamento onde tudo poderá ser esclarecido.

Começou por ser um hábito, hoje é um vício: em processos mediáticos, o MP não afirma, insinua; não conclui, suspeita; não prova, supõe; não aposta na sala de audiências, mas nas fugas de informação para a imprensa. De todo o modo, por mais que já habituados, não deixa de ser espantoso que com base em simples recados e insinuações dos provadamente implicados, o MP se tenha atrevido a ir tão longe como pretender interrogar, como suspeitos da ocultação do crime, o PM e o PR.

E que apenas o bom senso do director do DCIAP os tenha travado — mas, mesmo assim, com o consentimento indignado deles. Isto demonstra bem até onde chega a surda luta pelo poder do MP e por que razão é determinante para eles manterem a maioria de membros da sua corporação no Conselho Superior do Ministério Público — o único órgão que teoricamente os poderia limitar e controlar nos seus devaneios. Viver assim é perigoso.

Claro que não esqueço que falta ainda esclarecer o que sabia ou não sabia Azeredo Lopes — antes da ocorrência da farsa montada para recuperar as armas, porque só antes é que isso terá relevância jurídica e política. Sabia o que os militares estavam a preparar ou apenas a sua tola vaidade e o respeito reverencial para com os militares (típico de quem desaguou ali sem saber como) o fez cair na armadilha que eles lhe montaram? Mas também, e mesmo que tenha sido José Sócrates a recordá-lo, não deixa de dar que pensar a coincidência de o MP conseguir envolver sempre o PS em casos de polícia, verdadeiros ou inventados, em períodos eleitorais: foi assim com o caso Casa Pia (que custou a eleição a Ferro Rodrigues), com o Freeport, com a Operação Marquês e agora com Tancos. Sabendo isto e tendo-se atrevido a ser o único que ousou pôr em causa o poder sem controlo do MP, é lastimável que Rui Rio não tenha resistido a cavalgar a oportunidade de fazer disto uma arma de campanha eleitoral. Apesar de tudo e ao contrário de Assunção Cristas e do seu vazio CDS, o PSD não está sob ameaça de extinção.


2 No primeiro dia do seu mandato, Marcelo Rebelo de Sousa resolveu agraciar Cavaco Silva com a Ordem da Liberdade, no seu mais alto grau, o Grande Colar. Fiquei estupefacto: o que fez Cavaco Silva pela liberdade em Portugal, antes ou depois do 25 de Abril? Que feitos lhe permitem ser comparado a um Mário Soares ou a um Salgueiro Maia? Depois, foi a vez de Maria João Pires receber também a mesma condecoração. Porquê, voltei a perguntar-me? Há outras condecorações reservadas a quem se distinguiu, como ela, nas artes, mesmo a altíssimo nível, mas a Ordem da Liberdade, porquê — por se ter auto-expatriado no Brasil, dizendo mal de Portugal, quando se lhe fechou a torneira dos apoios públicos?

Chegou agora a vez de António Lobo Antunes receber a mesma condecoração — “de surpresa”, por um súbito impulso de Marcelo, que disse estar a “interpretar a vontade do povo”, e não podendo dar ao escritor o Nobel pelo qual ele espera e desespera há tanto tempo. Ora, eu faço parte da geração que devorou, entusiasmada, os primeiros livros de Lobo Antunes, até ao “Fado Alexandrino”. Daí para a frente é outra história, que não interessa a ninguém, assim como não me interessa a ridícula discussão sobre se ele merece ou não o Nobel. A questão é que eu nunca soube nem dei notícia de que Lobo Antunes alguma vez se tivesse envolvido em qualquer combate sério pela liberdade, qualquer liberdade — igualmente antes ou depois do 25 de Abril. Antes, aliás, enquanto milhares de jovens portugueses se exilavam por objecção ao regime e à guerra de África, António Lobo Antunes servia na guerra colonial de Angola — e, a avaliar pelo afã com que tenta estabelecer um passado de herói de guerra, deve tê-lo feito com verdadeiro fervor patriótico, ou por devoção ao que então o regime entendia por Pátria. E, depois, quando outros se batiam para defender a liberdade acabada de conquistar e logo ameaçada, não me recordo de ver Lobo Antunes em trincheira alguma, a não ser em vagos flirts com os que ameaçavam essa liberdade.

É bem feito para Marcelo que Lobo Antunes, ao agradecer a “surpresa”, tenha feito um discurso em que, sem surpresa alguma, jamais entrou a palavra liberdade ou uma palavra de homenagem aos que por ela se bateram. Apenas, e como sempre, um discurso onde o único tema foi ele próprio, as “namoradas e namoradas e namoradas” que tinha com o seu sucesso literário e a crítica que, ao contrário dos seus milhares de leitores, não gostava dele porque “era bonito e tinha olhos azuis” (uma inverdade histórica: a crítica sempre o levou ao colo, até hoje; os leitores é que se cansaram dos olhos azuis). Eis como se banaliza a liberdade.


3 Os cidadãos da Guiné Equatorial — aquele país que, a troco da promessa (não cumprida) de injectar 100 milhões de dólares no Banif, comprou o direito de pertencer à CPLP — podiam ser os mais ricos de África, visto que o país tem o maior rendimento per capita de África. Mas metade deles vive abaixo do limar de pobreza porque as riquezas do país são roubadas há décadas pela restrita elite governante desta ditadura tropical. Esta semana, e para evitar o prosseguimento de um processo por corrupção e desvio de dinheiros públicos levantado pelas autoridades suíça, o filho do ditador, “Teodorin” N’Guema Obiang, concordou em “oferecer” para solidariedade 25 carros do seu parque automóvel estacionado na Europa: Ferraris, Lamborghinis, Bentleys, Aston Martin, Rolls Royce. Tudo junto rendeu 27 milhões de dólares em leilão — o suficiente para tirar da fome muitos dos seus compatriotas. Cada dia que passa sem que Portugal exija a expulsão da Guiné Equatorial da CPLP é um dia mais de vergonha nacional.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia




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7 pensamentos sobre “Ai, liberdade!

  1. Gosto muito dos escritos do Miguel Sousa Tavares . Agora aquele aviso de que escreve segundo a antiga ortografia, é que não entendo! Se assim é, não escrevendo de acordo com a ortografia legal , então está escrevendo com erros de português ! E ainda nos avisa ! Não lembra ao careca !!!!!!!!!!!!

    • Na verdade, mesmo não sendo linguista, temos de entender que uma língua não é resultado de um decreto. Quantas vezes se dizem e escrevem coisas que só mais tarde são adiocionadas aos dicionários pela força do uso? Podemos dize que é pouco didático para os pequenos que aprenderam a escrever com o novo acordo. Mas na verdade cada um escreve do jeito que quer , e o Miguel Sousa Tavares faz da sua gramática uma aformação cultural.
      Eu louvo a iniciativa.

      E, já agora, excelente artigo! Lembro-me de discordar bastante do MST há uns anos. Acho que ele tem ganho bom senso com os anos! 🙂

    • Carecas de vergonha deviam ficar os que tentam cumprir o acordo ortográfico sem o conseguirem. É uma vergonha, este acordo ortográfico. Já o leu? Consegue cumpri-lo integralmente? Deite-o ao lixo.

  2. Um pequeno reparo, quanto ao Grande Colar da Ordem da Liberdade atribuído ao Lobo Antunes e à sua participação na guerra, contrariamente ‘aos milhares de jovens que se exilavam por objecção ao regime e à guerra de África’. Não sei se ALA apoiava ou não o anterior regime e se foi do seu agrado participar nesta guerra. Só quero esclarecer que, dentre os milhares que nela participaram, a maioria, cuido, não apoiava o regime e muito menos a guerra.O autoexílio requeria condições de que esta maioria não dispunha.
    A nota que ‘MST escreve de acordo com a antiga Ortografia’, apenas, penso, quer dizer que não está de acordo com o Novo Acordo, passe o pleonasmo. Também eu. .

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