Dois casos graves, um timing irritante

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/09/2019)

Daniel Oliveira

Comecemos pelo assunto da semana passada. O caso das 70 mil golas inúteis compradas à empresa do marido de uma autarca do PS cheira mal. E perante outras suspeitas que se adensam, não me custa acreditar que a coisa é um pouco mais grave e vá um pouco mais acima do que o adjunto. Ao que parece, a suspeita é que o secretário de Estado José Artur Neves terá celebrado contratos de quase dois milhões, no âmbito da prevenção e sensibilização para o risco de incêndio, sem cumprir as regras e para beneficiar pessoas ligadas ao PS. A justificação da urgência e dos ajustes diretos para alguns contratos não batem certo com o tempo que se demorou a adquirir os bens e, no caso das golas, o seu objetivo.

Passemos para o caso desta semana. Cumprindo os prazos no limite, o Ministério Público deduz a acusação de Tancos. Cumpriu os prazos. Como poucas vezes em casos destes, não pediu adiamento nem tentou acabar antes. Ao contrário do que acontece no caso das golas, nada indica que os políticos envolvidos tenham procurado vantagens para si. Se a acusação for verdadeira, foram idiotas, ingénuos e inacreditavelmente irresponsáveis na tentativa de esconder a incúria das Forças Armadas. Mas nas consequências o caso é incomensuravelmente mais grave do que a história das golas. Só nos pode causar profunda indignação que o Estado seja cúmplice de criminosos para nos esconder a sua própria incompetência.

Sobre o envolvimento do nome do Presidente da República, nada tenho a dizer. Pelo menos até haver mais informações. Só espero que Marcelo Rebelo de Sousa passe a estar mais atento à costumeira utilização ilegítima de informação recolhida em investigações criminais para fins políticos. Sobretudo informação que depois não tem respaldo nas acusações. Está longe de ser a primeira vítima.

Qualquer ingenuidade sobre um maquinal e burocrático andamento das investigações é abalado pela experiência das duas últimas décadas.

É por isso que, à indignação que me provoca o que nos é dado a conhecer sobre o comportamento de Azeredo Lopes, que releva um profundo desrespeito pela dignidade do Estado, não consigo deixar de juntar algum incómodo ao ver o Ministério Público a surgir em quase todas as campanhas eleitorais. Num período onde o clima é obviamente mais propício ao julgamento extrajudicial.

Estou como Rui Rio: gosto pouco da justiça de tabacaria – veremos até onde será ele coerente com esta afirmação quando tenta conquistar votos. Pode ser que até esteja a ser injusto e apenas estejamos perante o cumprimento de prazos. Azar que no caso das golas a coisa tenha sido tão evidente.

É impossível não sentir estranheza quando um secretário de Estado é constituído arguido na abertura campanha e um ex-ministro é acusado a meio dela. Isto não retira gravidade ao caso, só aumenta um incómodo antigo. Nos próximos dias assistiremos ao julgamento político. E de fora ficará o estado de decadência moral das cúpulas das nossas Forças Armadas. Não tem interesse para a campanha.


5 pensamentos sobre “Dois casos graves, um timing irritante

  1. «A justificação da urgência e dos ajustes diretos»
    Dada a tendência lusitana para o improviso, nada a objectar-somos assim, quando feitos funcionários (públicos) políticos…Custa pensar a tempo, prever e decidir.
    «tentativa de esconder a incúria das Forças Armadas»
    Mas não são o MDN e PM a ‘escolher’ os eleitos Chefes dos Ramos?
    E os ilustres deputados (andaluzes) da Comissão Parlamentar de Defesa, a ‘controlá-los’ a par do ministro?
    «Estou como Rui Rio: gosto pouco da justiça de tabacaria»
    Como eu, a optar entre o BE e Rui Rio (que não o PSD)?
    «o estado de decadência moral das cúpulas das nossas Forças Armadas»
    Sorry caro Daniel, na fábrica de oficiais em Mafra-Estado Novo, o quadro dizia “O Exército é o espelho da Nação”; agora com o Novo Estado, virou “As Forças Armadas são o espelho do Regime”.
    E da ‘moral’ das cúpulas políticas, autárquicas e comércio-industriais e futebolísticas, estamos entendidos.
    Vale?

  2. Notas, várias.

    Até impressiona ver o nível de “análise política” do Daniel Oliveira, seja no Expresso ou no Eixo do Mal*, nomeadamente quando se põe a defender caninamente não se sabe muito bem o quê.

    Eis, pois, o teor de um comunicado-modelo assinado por um rematado aldrabão, que o Daniel só não analisou pois isso lhe estragaria o falso “brilho” perante os seus amiguinhos do #Twitter e da selva do FB e lhe fecharia algumas das portas no seu brilhante ipod… Está assinado, claro, e poderia ter sido escrito por José Sócrates ou Armando Vara ou Carlos Costa Pina ou Manuel Pinho ou algum dos esfomeados que andam a ganir na blogosfera indígena mas responde o desgraçado, desta vez, por… José Alberto Azeredo Lopes.

    Toda esta gente é feita da mesma merda, acrescento.

    […]

    Azeredo anuncia que solicitará a abertura de instrução, “não obstante ter consciência da minha condenação na praça pública, sem ter tido possibilidade de defesa”. E reitera que nunca foi informado, “por qualquer meio”, sobre o alegado encobrimento na recuperação das armas furtadas de Tancos. “Gostaria que ficasse claro que o então Ministro da Defesa não cometeu qualquer crime nem mentiu, tal como não o fez o cidadão José Alberto Azeredo Lopes”. Conclui o comunicado frisando que “não obstante esta acusação do Ministério Público”, confia na Justiça e está convicto, porque nada fez de “ilegal, incorreto ou sequer censurável, nem sequer politicamente”, que será “completamente ilibado” de quaisquer responsabilidades neste processo. “Chegou agora, finalmente, o tempo da minha defesa.”

    https://expresso.pt/sociedade/2019-09-26-Azeredo-reage.-Acusacao-e-eminentemente-politica-nao-tendo-provas-a-sustenta-la

    Asterisco. E agora sobre o Eixo do Mal, o de ontem. Sendo transmitido em directo, na SIC N, e tendo toda a gente acesso às notícias-pois-ontem-não-se-falou-noutra-coisa sobre o “papel” miserável desempenhado pelo Tiago Barbosa Ribeiro que está plasmado na acusação do MP, fazer o que o Daniel Oliveira fez é expôr-se ao ridículo quando tenta uma qualquer leitura atabalhoada (e desonesta) do conteúdo da troca de emails. Anda em fuga o Tiaguinho, como sucede habitualmente aos mais cobardes elementos de um gangue que foi apanhado: https://twitter.com/tbribeiro . Aliás, há mais: um tipo que se gaba de perceber todas as manhas de funcionamento dos partidos e que utiliza, recorrentemente, esse “argumento de autoridade” aprendido no PCP perante os terráqueos definitivamente, com que cara de pau é que omite que o secretário de Estado da Defesa da equipa do ministro Azeredo Lopes se chamava Marcos Perestrello? E que este simples facto abriu, seguramente, uma auto-estrada para o interior do PS com paragem obrigatória no António Costa (se o MP obteve provas é outra coisa)?

    Brincas ainda com os outros, Daniel?

    • «Só espero que Marcelo Rebelo de Sousa passe a estar mais atento à costumeira utilização ilegítima de informação recolhida em investigações criminais para fins políticos.», cito.

      Adenda. Noto que este ponto é importante, sublinho-o por isso, e recordo que ele terá antecedido tudo aquilo que hoje se sabe sobre um gajo da tropa (um tal João Cordeiro), que chefiava a Casa Militar do PR, com outro gajo da tropa que dirigia a Polícia Judiciária Militar (Luís Vieira, o careca) e, ainda, outro gajo da tropa que era o chefe de gabinete do ministro (Martins Pereira, que me parece estar confirmado que mentiu na AR). O ponto quente era, na altura, a guerra de bastidores que se processou entre a PJ Militar e a PGR sobre a legitimidade para assumir a investigação e que assim abarcou, portanto, o momento crucial da posterior encenação do pré-achamento dos explosivos furtados. É completamente patético, melhor, é criminoso segundo o MP, que, sabendo o Azeredo Lopes e o seu chefe de gabinete o que se passava nos bastidores sobre o assunto, aquando da voluntariosa visita presidencial a Tancos, tenha chamado para perto de si o presidente da República para “dar uma palavrinha” ao director da Polícia Judiciária Militar para que este se queixasse da decisão da antiga PGR. Ou é de uma enorme patetice, repito, de uma ausência de sentido de Estado para ocupar aquelas funcões ao serviço da Res Publica, ou então tratou-se de uma indecente jogada política do governo do PS que, assim, tentou entalar o PR havendo uma série de testemunhas prontas a usar contra si. Ora, se Marcelo Rebelo de Sousa reafirmou sempre que, apesar da veracidade destes factos, nunca teve lugar qualquer conversa ele saberá desde o princípio, melhor do que ninguém, com que associação de malfeitores estava a lidar… Militares, decerto, mas também o pessoal do PS. E todos os cuidados são poucos para se ser mais atento, concordo contigo ó Daniel.

      Tancos/Armas: Marcelo e Azeredo Lopes reúnem-se com chefias militares após furto

      2017-07-04

      https://www.jornaldeabrantes.pt/concelhos/tancos-armas-marcelo-e-azeredo-lopes-reunem-se-com-chefias-militares-apos-furto

      Adios.

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