Rio chega tarde

(Vítor Norinha, in O Jornal Económico, 06/09/2019)

O líder do PSD tem uma preocupação maior que não é ganhar estas eleições, mas limpar metade do partido e preparar-se para daqui a quatro anos. Só que o PSD é um partido de poder, não vai esperar.

A entrevista do líder do PSD, Rui Rio, na TVI teve um impacto altamente positivo nas redes sociais. Apareceu um Rio renovado e muito à vontade ao falar tanto de temas de cultura como de temas de economia, num discurso anti elites, algo que entra muito bem no eleitorado do centro, e com soluções viradas para as pessoas e problemas reais e não para aqueles que vivem à margem das crises.

Mas o curioso de tudo isto é que a entrevista de Rio não passou nos opinion makers, muito deles virados para alguns temas de propaganda do Governo – como seja a Lei de Bases da Habitação, quando se quer assemelhar a habitação ao tema da saúde e da educação que são obrigações públicas – ou para assuntos de grandes massas, como foi a substituição do treinador Keizer no Sporting.

Nos assuntos sérios Rio é menos citado do que Catarina Martins e Assunção Cristas, que fizeram um debate onde se anularam. Mas por que razão só agora aparece Rio? Muitos questionam o timing. Se Rio tivesse esta postura há uns meses, o PSD teria líder. Antecipamos que Rio está renovado e de regresso àquilo que sabe fazer, porque necessita de uma prova de vida para o pós-eleições.

O líder do PSD tem uma preocupação maior que não é ganhar estas eleições, mas limpar metade do partido e preparar-se para daqui a quatro anos. Só que o PSD é um partido de poder, não vai esperar quatro anos e Rio terá muita dificuldade em manter-se depois da esperada derrota e, a acreditar nas projeções, com votações que não irão além dos 22%.

Na Europa do sul, esperar quatro anos para ser primeiro-ministro é algo inédito. Rajoy fê-lo mas é caso único. Rio continua a limpeza das antigas elites do PSD e precisa de uma bancada parlamentar nova. Quer seriedade e ética na política, mas uma derrota expressiva pode significar uma implosão do centro-direita e a emergência de novos protagonistas. O futuro é daqui a quatro semanas.

E se Rio aparece renovado mas com dificuldade em passar a mensagem na comunicação social tradicional, Costa tem de trabalhar como se precisasse de parceiros para uma coligação. Por aquilo que tem sido o registo, irá tentar manter os mesmos acordos, com os mesmos parceiros, mesmo que não necessite deles ou necessite apenas de um deles. Costa sabe que o pior que lhe pode acontecer é o partido ficar com a noção de que tem rédea solta com uma maioria absoluta durante uma legislatura inteira. Sem uma oposição de centro-direita eficaz e com uma média menos incisiva, tudo de mau pode acontecer.

Ficam dois partidos cujas líderes se auto anularam no último debate televisivo. De um lado uma líder do CDS com um discurso mais popular e mais afastado do antigo CDS, mas que não ganha votos com isso. Do outro uma Catarina a assumir-se como social-democrata num partido cujo núcleo duro é uma amálgama de extremismos, desde o estalinismo ao trotskismo. Catarina lembrou-se de Soares, Guterres e Sócrates e sabe que para chegar ao poder precisa de transformar o âmago do Bloco. E a social-democracia tem votos.

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