António Costa e a maioria absoluta

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 31/08/2019)

Miguel Sousa Tavares

Num mundo demasiadamente perigoso, com sinais de incerteza e de alarme em todas as frentes, pede-se a António Costa e ao PS que façam o favor de não se baterem pela maioria absoluta daqui a menos de seis semanas e que se abstenham de dizer que um governo minoritário, forçado a negociar alianças pontuais ou para toda a legislatura, será manifestamente melhor para a estabilidade política de que o país vai precisar nos tempos turbulentos que aí vêm.

Há semanas, perante a perspectiva de uma greve por tempo indeterminado, que se anunciava capaz de paralisar o país e arruinar as férias de milhões de portugueses residentes, de emigrantes de visita à terra e de turistas, ninguém abria a boca, mas, em surdina, todos esperavam que o Governo estivesse preparado para, desta vez, derrotar a greve à nascença. E, quando o fez, quando usou todos os meios para o fazer, e quando se percebeu que tinha ganhado aos grevistas e salvado as férias de todos, então saiu à rua um coro de vozes indignadas, até aí de férias ou em silêncio: aqui d’el-rei que o Governo tinha matado o direito à greve, tinha montado um circo mediático apenas para efeitos de propaganda política, tinha instalado um clima de histeria pública absolutamente injustificado e apenas para se apresentar como o garante da ordem, colhendo votos à direita e abrindo mais uma auto-estrada em direcção à desejada maioria absoluta. Meus caros, há muito que não assistia a tamanha hipocrisia! O mesmo Governo que fora acusado de ter sido apanhado de calças na mão em Abril, pela ofensiva de um sindicalismo de tipo novo, deixando o país à mercê dos grevistas, era agora acusado de não ter sido apanhado desprevenido! E Rui Rio, o pretenso líder da oposição, que escolheu ir de férias, sem nada dizer, embora sabendo há dois meses que havia a greve dos camionistas marcada para a mesma data das suas férias, emergiu depois, já com tudo resolvido, para chamar circo à actuação do Governo, sem todavia dizer ainda o que teria feito de diferente. Costa, que não anda em jogo para perdoar golos de baliza aberta, disparou-lhe: “Não lhe telefonei porque foi público que o doutor Rui Rio queria manter-se em férias nesse período e eu respeito o direito a férias de quem quer manter-se em férias”.

Pobre Rui Rio, nada lhe correu bem, neste querido mês de Agosto! Logo depois, foi o editorial do “Finantial Times” a classificar a situação da economia portuguesa como um exemplo e uma esperança para a Europa, e ele, desnorteado, nada de melhor arranjou para contrapor do que dizer que “o jornalista” do “FT” estava “longe da Europa e de Portugal” para perceber o que se passava — como se o mais prestigiado e bem informado jornal económico do mundo tivesse de andar a contar as galinhas nas capoeiras para saber a situação económica dos países sobre que escreve. E, todavia, o PSD até apresentou um programa eleitoral que é uma boa base económica alternativa, se o doutor Rio e os seus pares se empenhassem em aprofundá-lo, explicá-lo e vendê-lo, em lugar de andarem tão obcecados com António Costa e a sua maioria absoluta que se gastam em apagar fogos sem sentido e atear incêndios por si próprios, num tamanho e tão evidente desespero estratégico que dia após dia só ajudam Costa a cimentar a imagem que ele agora mais quer dar: a de ser o grande estabilizador, o homem de confiança do país. Basta ler Paulo Rangel para se perceber que toda a frustração do PSD não está no vazio de ideias para o país, de que ele acusa o PS. Está na inveja, no desespero de constatar que, com esse mesmo vazio de ideias, ou até bem pior, o PSD podia estar agora no lugar do PS, com o poder absoluto à vista, em vez da perspectiva de mais quatro anos de inóspita travessia do deserto. Bastava que, há quatro anos, em lugar de prometer mais austeridade, cortes de mais 700 milhões na Segurança Social, Passos Coelho tivesse prometido o mesmo que Costa e Centeno: aumento de pensões e salários, reposição de cortes, férias e 35 horas na função pública. “O Diabo”, chamou-lhe Passos Coelho, convictamente. Mas o Diabo derrotou Deus, porque a economia tem menos de fé e de ciência do que de gestão de oportunidades e de expectativas criadas. Pode fazer-se sofrer muitos durante algum tempo, não se pode fazer sofrer todos durante demasiado tempo.

Aparentemente, António Costa meteu a direita ao bolso e entre ele e a maioria absoluta só estará o BE. É sem dúvida estranha esta ingratidão de Costa para com o BE, em contraste com as bóias de salvação que estende ao PCP, pois que a grande e fundamental diferença ideológica entre os socialistas e os partidos à sua esquerda não é com o BE, mas sim com o PCP e chama-se, simplesmente, democracia. É verdade que, a prazo, não custa salvar um partido em vias de natural extinção (embora sempre adiada), em contraste com outro partido que passa a vida a chamar velho ao PS e a arrastá-lo para alegadas causas modernas e fracturantes que já começam a desgastar muitos socialistas: deve ser essa irritação que Costa deixou transparecer quando lhe chamou “um partido de mass media”. Resta saber se a ofensiva contra o BE não produzirá o resultado contrário: se o eleitorado de esquerda, convencido de que só o BE poderá evitar a maioria absoluta dos socialistas, não tratará justamente de o fazer. Porque uma maioria absoluta do PS assusta.

A mim assusta-me, mas por razões quase todas opostas às dos bloquistas. Porque, como notou António Barreto, após leitura do programa eleitoral do PS, a sua filosofia mantém-se profundamente estatista e antiliberal em todos os domínios da vida em sociedade. O PS continua a acreditar que o Estado tudo deve comandar, controlar, incentivar e tornar dependente. Por isso e para isso, o Estado do PS precisa de gastar 50% da riqueza do país, precisa de cobrar sempre mais e nunca menos impostos, precisa sempre de mais e nunca de menos funcionários públicos (e do PS), e, por isso, fatalmente e como infelizmente sabemos, acaba por estabelecer uma teia de influências políticas que contaminam e envenenam toda a vida empresarial, cultural e social. Mais uma vez, os dados da última execução orçamental trimestral mostram-nos o paradigma do que nos espera com uma maioria absoluta do PS: a receita fiscal subiu 5%, mas a despesa pública subiu 1,5%. O aumento da carga fiscal podia servir integralmente para abater a dívida ou para potenciar investimento público produtivo, mas não é, serve para financiar despesa corrente, não produtiva: nesta legislatura, sob Governo PS, ficámos na cauda dos 28 no que respeita a despesa pública produtiva, aquém mesmo dos tempos da troika: por cada seis euros de despesa pública, só um euro foi para investimento produtivo. Tivesse o Estado libertado um euro de impostos por cidadão, em lugar de o gastar com ele, e a criação de riqueza no país teria sido infinitamente maior!

É esse Estado — gastador, improdutivo, cobrador até ao limite, central de empregos para amigos e camaradas — que um Governo de maioria absoluta do PS nos irá servir nos próximos quatro anos. Apesar de Mário Centeno, apesar das lições do passado. Porque é assim a regra do jogo, com o PS ou com o PSD. E, no topo do bolo, talvez ainda nos sirvam a cereja da regionalização, para os poucos do partido que não arranjarem emprego e para sossegarem os da oposição.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

7 pensamentos sobre “António Costa e a maioria absoluta

  1. Antônio Costa tem de ter muito cuidado até 6 de outubro…não vão ele conseguir a maioria absoluta….o que era muito mais para o PS….

    • Adenda. Por falar em gaijas, qu’até vi agora que o Sancho do Jumento deixou a dondoca d’Um Jeito Manso aos pulinhos com um post a revelar os pormenores sanguinários de uma caçada à professora da TVI que deu uns bananos ao nosso António Costa, não pensaram o mesmo? Onde anda a filha Rita, a Ferro Rodrigues, a Fernandinha, a tendência United Colors of Benetton do Livre, aquilo do Rui Tavares, ou a turba LGBTI+ que lika estas cenas quando são precisos cá em casa, pá?

      Zero Feministas
      criticaram até agora o
      papel decorativo que
      a mulher de Costa tem
      nos seus vídeos sobre
      o seu périplo pela
      Estrada Nacional 2

      António Costa colocou uma camisa de
      fim-de-semana e umas calças de ganga
      e foi para a Estrada Nacional nº2 fazer
      uns vídeos de pré-campanha. Sempre
      acompanhado pela mulher, a opção do
      primeiro-ministro por um modelo de
      dominação social e cultural milenar
      não está desta vez a incomodar nenhuma activista pelos direitos das mulheres. “Aqueles vídeos em que a mulher
      dele aparece ao lado a ser usada meramente como objecto de validação
      pessoal e social do marido a sorrir e
      sem dizer absolutamente nada do iní-
      cio ao fim do vídeo não nos desperta
      nenhum ódio contra o heteropatriarcado. Eu sei que ali está todo o papel
      tradicional da esposa que não tem vida
      própria e que andamos a batalhar há
      décadas para tentar mudar, mas o Costa é dos nossos. O Costa é do PS e o PS
      é de esquerda e nós somos de esquerda. Agora temos de ficar quietas e não
      podemos fazer nada. Agora, se fosse
      um político de um partido de direita a
      fazer uns vídeos com a esposa ao lado
      a fazer de biombo, íamos fazer uma
      enorme escandaleira durante mais de
      duas semanas”, explicou uma feminista. JH

      Fonte: P. (Inimigo Público), 30.8.2019, p. 2.

        • Ui?

          Nota. Pedro: há algum problema intelectual por aí, desculpe: eu vi as suas respostas ontem e fiquei a pensar que não me entenderia (e ainda ponderei auto-chicotear-me, veja lá!). Como afinal o seu mal é de fabrico e não entende os outros, percebi, agradeço-lhe sinceramente por me tirar esse peso de cima.

          • Desculpe.

            Não tinha percebido que é um grande intelectual que está muito acima de poder (conseguir) explicitar as suas posições.

            É que para uma pessoa da rua como eu, as suas posições, assim, sem explicação, parecem mesmo muita burras.

            Mas isto sou sou eu que não tenho a sua fina intelectualidade muito acima do comum.

            Assim, por exemplo, alguém que não ocupa qualquer cargo político não tem nada que se por a fazer discursos nos comícios só porque é casada ou amante de um politico.

            Um feminista que pretendesse o contrário teria de muita burra ou uma grande intelectual como você.

            Mas isto sou eu, reles homem da rua, não um fino intelectual de nível internacional como você.

  2. Artigo lúcido que só não subscrevo no que respeita ao penúltimo parágrafo.
    Será que MST considera que o BE, ao invés do PS, não é estatísta e controlador da máquina do Estado? Só o não tem feito porque, felizmente para todos nós, nunca foi governo, e assim espero que continue.

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