O centro da questão

(Fernando Rosas, in Público, 27/08/2019)

Estou de acordo com o que o primeiro-ministro, António Costa, quis significar acerca da questão central que se coloca nas próximas eleições legislativas: saber se o Partido Socialista tem ou não maioria absoluta (ver entrevista aoExpresso de 24/8/2019). Dito de outra forma: perceber se à esquerda (só nela existe essa possibilidade), há ou não força social e política para impedir a governação absoluta do PS. E esse é, na realidade, o centro da questão neste pleito eleitoral.

O PS e António Costa são prudentes na formulação do seu apetite por ir ao almejado pote da maioria absoluta. Disfarçam-no, todavia, sob uma série de eufemismos que mais descobrem do que ocultam a ânsia afogueada de lá chegar. Sabem que a evidenciação do propósito é eleitoralmente muito embaraçosa. Ninguém esqueceu no país que as duas maiorias absolutas do cavaquismo e a do PS de Sócrates se traduziram no abuso absoluto. Um partido governante com maioria absoluta, ensina-nos o nosso historial recente desse tipo de situações, acha-se dispensado de falar às pessoas, de prestar contas à cidadania, de negociar e de debater dentro ou fora do Parlamento as suas decisões, anula facilmente o contraditório, tende a controlar os media em proveito próprio, ilude com muito maior facilidade a fiscalização possível dos seus atos, fomenta quase inelutavelmente o compadrio e a corrupção a todos os níveis. Ninguém se esqueceu em Portugal que as maiorias absolutas pretéritas do PSD e do PS significaram arrogância e autoritarismo, privatizações obscuramente negociadas dos sectores estratégicos da economia, ataques devastadores ao emprego e aos direitos do trabalho, corrupção e promiscuidade atravessando horizontalmente a banca, os negócios e a política, tudo a desaguar no colapso financeiro, na troika e no memorando de entendimento com ela preparado por aqueles dois partidos, a magna carta da austeridade.

É, pois, natural que na citada entrevista António Costa tente não dizer claramente ao que vem, ainda que o propósito seja evidente: regressar a uma maioria absoluta e declarar guerra preventiva a quem a possa política e eleitoralmente obstaculizar. Para esse efeito, e partindo da evidência que as direitas estão impotentes para assumir tal risco, o secretário-geral do PS debruça-se sobre as esquerdas. E, num exercício não isento de alguma desfaçatez, não hesita em destratar os parceiros de ontem (que afinal viabilizaram a governação socialista e as suas benfeitorias), agora reduzidos pelo primeiro-ministro ou a muletas de apoio ou a adversários a neutralizar. Com paternal condescendência, António Costa passa um atestado de “bom comportamento” ao PCP, o que não pode deixar de soar como algo insultuoso aos ouvidos de um partido fortemente empenhado em demarcar-se do PS e do seu Governo. E assim, reduzido, aliás injustamente, ao estatuto de parceiro menor e obediente. Ao contrário, o Bloco de Esquerda é eleito adversário preferencial, implicitamente apontado como força política suscetível de congregar os apoios dos muito defensores da “geringonça” que não desejam o regresso de uma maioria absoluta do PS. E por isso Costa despeja-lhe os anátemas de partido “inorgânico”, sequioso de mediatização e inseguro nos compromissos: ninguém diria que durante uma legislatura o Governo contou com a sua colaboração para existir e atuar como governo…

Não só por isso as acusações são algo surpreendentes pois parecem obnubilar o sentido das realidades do primeiro-ministro: quando fala da sede mediática estará a esquecer-se do secretário-geral do PS que se dedica por estes dias a percorrer de norte a sul a EN2 para aparecer, não só ao “meio-dia”, mas em todos os noticiários de todas as televisões, como o improvável “amigo do interior”? E quando na referida entrevista insinua a insegurança dos compromissos não ocorrerá a António Costa que foi o Governo do PS, pressionado pelos grandes interesses ou pelos patrões, que à última da hora deu o dito por não dito relativamente a compromissos formalmente assumidos no Parlamento em casos como a tributação das rendas da energia, a TSU dos patrões, a legislação laboral ou a lei de bases da saúde?

Nem se diga, como sugere António Costa ao Expresso, que o risco de recessão económica enfatiza a necessidade de um governo “seguro”, isto é, de maioria absoluta. O certo é que não há nada de menos seguro para o emprego, para os direitos de quem trabalha, para os pensionistas, para o Estado Social, do que um governo de maioria absoluta do PS ou da direita a gerir uma eventual crise. Pela simples razão, como a história recente da Europa demonstra (em França, na Alemanha, na Itália, em Espanha…), que nada de essencial separa a austeridade dos partidos socialistas no poder da dos governos da direita. Afinal foi o Governo do PS e do Eng.º Sócrates que chamou a troika e se entendeu com ela. O Governo PSD/CDS agravou o que já fora começado. Se há situação em que o condicionamento à esquerda da governação se torna mais urgente e necessária é precisamente para enfrentar com equilíbrio e justiça social uma situação de crise.

Dito isto, devo dizer que me confesso apoiante da experiência política que foi a “geringonça”, a despeito das suas limitações e incompletudes. Desejaria que o governo a sair das próximas eleições pudesse levar a cabo muito do que não foi feito no domínio dos direitos do trabalho, na resposta à urgência climática, no reforço dos serviços públicos essenciais, na recuperação nacional de setores estratégicos da economia, na melhoria das condições salariais e do nível de vida.

Para que tal aconteça, entendo ser indispensável dar dois passos. O primeiro, não haver uma maioria absoluta de nenhum partido, designadamente do PS. O segundo, constituir as forças à esquerda do PS como garantia eleitoral e política da continuidade, aprofundamento e alargamento de políticas de justiça social no sentido das que estes partidos viabilizaram na legislatura agora finda.

Veremos se é possível criar uma relação de forças que permita ir por aí. Afinal, o povo é quem mais ordena.

Historiador e fundador do Bloco de Esquerda

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16 pensamentos sobre “O centro da questão

  1. Do abuso absoluto
    28 AGOSTO 2019 ÀS 16:06 POR VALUPI

    […]

    Nota. Entretanto, como normalmente dando sinais nevróticos de histerismo e do amor doentio com que ecoa nas caixas dos comentários, a personagem Valulupiana já alinhavou à pressão umas bacoradas no Aspirina B para servir outra zurrapa aos seus ébrios clientes. «Fazer equivaler as maiorias de Cavaco (1987-1995) com a de Sócrates (2005-2009), seja no que for (repita-se: seja no que for; acrescente-se: seja no que for; registe-se em acta: seja no que for; grave-se numa placa de mármore: seja no que for), permite – obriga – a inferir o seguinte: QUE O JOSÉ SÓCRATES FOI APANHADO NUMA INFINDÁVEL SÉRIE DE ESQUEMAS DE CORRUPÇÃO, QUE O LEVARÁ ATÉ AO BANCO DOS RÉUS ATÉ AO FIM DA SUA VIDA BIOLÓGICA, A QUE SE SOMA UM SECRETO ESTILO DE SOBREVIVÊNCIA INDIGNOS PERANTE OS OLHOS E OS OUVIDOS DOS GAJOS SÉRIOS E DAS GAIJAS QUE VIVEM NESTE PAÍS enquanto que o detestável Aníbal Cavaco Silva, SUBLINHADO!, goza nas suas casa da Quinta da Coelha e da Travessa do Possolo os anos que lhe restam e as poupanças das suas reformas sem que até agora tenha sido incomodado pela bófia (as patifarias do gangue do BPN são posteriores às suas maiorias absolutas, lembre-se). Usos e abusos, pois.

    • Sim, o Cavaco roubou e dexou roubar muito mais espertamente.

      O Sócrates, com os seus sacos de dinheiro dos amigos foi um amador no mundo da alta corrupção da qual Cavaco foi um senhor.

      Nunca nenhum tribunal conseguirá provar qualquer crime nos casos das incríveis falcatruas cavaquistas com ações do BPN e imobiliário com que Cavaco e família foram brindados.

    • Penélope
      28 DE AGOSTO DE 2019 ÀS 18:11
      Até porque, toda a gente sabe, o Bloco, se pudesse ter maioria absoluta, não a quereria.

      Adenda. E quem é que poderia faltar à cerimónia para mamar os papalvos e enfeitar a pocilga, quem é? Pois, pás. 🙂

  2. Quo usque tandem abutere,RFC, patientia nostra? Quam diu etiam furor iste tuus nos eludet? Quem ad finem sese effrenata iactabit audacia?
    When, RFC, do you mean to cease abusing our patience? How long is that madness of yours still to mock us? When is there to be an end of that unbridled audacity of yours, swaggering about as it does now?

  3. “Afinal foi o Governo do PS e do Eng.º Sócrates que chamou a troika e se entendeu com ela. O Governo PSD/CDS agravou o que já fora começado. “.
    F Rosas quer à viva força branquear a atuação no BE na estória do PEC IV .
    Toma mas é Fosfopro Ferrero para ver se não perdes a memória !

  4. Concordando com quase tudo, tenho de observar que é uma completa hipocrisia;

    – O bloco só não tem maioria absoluta porque não consegue e não porque a recusasse se conseguisse.
    Não estou a ver a Catarina a não aceitar o resultado das eleições se ganhasse com maioria absoluta.
    O senhor Rosas pensa que somos todos parvos…

    – Não foi o Sócrates que chamou a troika. Foi a “geringonça” parlamentar da esquerda com o PSD-CDS que o obrigou a chamar.

    Os anos da troika devemo-los não só ao PSD-CDS que reinaram absolutos, mas também ao bloco e ao PCP que possibilitaram esse reino.

    • – Não foi o Sócrates que chamou a troika. Foi a “geringonça” parlamentar da esquerda com o PSD-CDS que o obrigou a chamar.

      Os anos da troika devemo-los não só ao PSD-CDS que reinaram absolutos, mas também ao bloco e ao PCP que possibilitaram esse reino.», hum?

      Nota. Pedro, já que deu um nome à coisa, que ideia mais estafúrdia herdeira das tangas do maior adrabão da blogosfera portuguesa que nos anima ali ao lado, no Aspirina B, digna de um qualquer nharro que não vê nada para além do dedo e que, ainda, come a “narrativa da fuga” que permitiu ao Socratismo ir filosofar e viver à custa dos rendimentos para Paris até bater com os costados na prisão de Évora ou, então, de algum anjinho com asas…

      http://videos.sapo.pt/boRpfj1Io7Rk0H7Yns4q

      Se quiser ser mais completo, e ver as coisas com algum contexto leia a pela pena do Paulo… Pena.

      Afinal, quem chamou a “troika” em 2011? | Prova dos Factos | PÚBLICO
      https://www.publico.pt/2015/09/10/politica/noticia/a-prova-dos-factos-afinal-quem-chamou-a-troika-em-2011-1707458

      • Os seus links não têm nada nada a ver com o que eu disse.

        Todos os links que indicou foram depois do chumbo do pec4, que tornou inevitável chamar a troika.

        Mesmo assim o seu segundo link mostra que ainda assim Sócrates ainda resistia e só a chamou pressionado por todos os políticos de direita, banqueiros, PR, governador do banco de Portugal etc – Sócrates era o único que não queria chamar a troika.

        Entretanto PCP e bloco, depois de terem feito a bosta de se aliarem á direita para chumbar o pec, tornando inevitável chamar a troika, assobiavam para o lado com ar inocentinho.

        Quanto á negociação do programa da troika propriamente dita, foi feita pelos três partidos do arco da governação, PS-PSD-CDS.

        Porque se sabia que o PS estava de saída e que era necessário um consenso para um programa com a duração de vários anos.

        Todos esses partidos assinaram o memorando e o PSD, que toda a gente reconhecia como o que ia suceder a Sócrates daí a uns meses, andou com Catroga anos a fio a gabar-se de ter tido o papel principal na negociação.

        Agora que toda a gente está a perceber que só fizeram bosta, dizem que não têm nada a ver…

        • Ui?

          «Sócrates era o único que não queria chamar a troika.», peço desculpa mas estou a correr… eheheheheh! Qual é a parte do «que não vê nada para além do dedo e que, ainda, come a “narrativa da fuga” que permitiu ao Socratismo ir filosofar e viver à custa dos rendimentos para Paris até bater com os costados na prisão de Évora», é que não percebeu? A “narrativa da fuga” que relembro, para além da solenidade teatral das conferências de imprensa de José Sócrates no interim, teve direito a um troante, dramático e aterrador discurso do seu braço direito no púlpito da AR a apontar o PCP e o BE como antu-patriotas ou quase (tendo esta estratégia comunicacional sido gizada no inner circle da pandilha de São Bento ao tempo conduzido pelo Pedro Silva Pereira e pelo Luís Bernardo, nomeadamente), a fuga para Paris e o condoído e encenado regresso do “menino de ouro” para as conversas em família pro bono através da RTP, sublinho a fuga ela própria!, ou os dias de Évora estão devidamente encadeados. Se o Pedro não entende, paciência.

          • Sim, de facto é difícil de entender.

            O que terá tudo isso a ver com o facto de o PCP e o Bloco terem-se aliado á direita para sabotar o primeiro programa de ajuda que vinha com o pec4, obrigando a chamar a troika e possibilitando a subida ao poder do PSD-CDS para aplicar o mesmo programa mas em condições dez vezes piores para o país – e desta vez sob supervisão da direção mais direitista radical de sempre do PSD .

            Mas já vi que não quer é entender.

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