O CDS e a (des)educação

(Marisa Matias, in Diário de Notícias, 03/08/2019)

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Não é preciso ler livros como Pedagogia do OprimidoPedagogia da Autonomia ou Educação: Prática da Liberdade, do enorme Paulo Freire, para perceber o papel fundamental da educação. As sociedades diferem, os contextos também, mas é inevitável não pôr em causa, em nenhuma sociedade ou contexto, a educação. Lembrei-me muito destes ensinamentos de Paulo Freire a propósito da inenarrável proposta apresentada pelo CDS na última semana.

Entrar a “preços de mercado” em universidades públicas para quem não tiver notas suficientemente altas é a proposta.Não se trata de notícia falsa, mas parece. Ou isso ou falta de vergonha na cara. Equiparar a escola pública e a universidade pública à lógica do privado é uma ideia totalmente fora do quadro constitucional e um ataque direto a uma democracia que se queira inclusiva, e é seguramente uma aberração sob qualquer ponto de vista.

O CDS, que sempre defendeu que devia ser a meritocracia a vingar em todos os setores da sociedade, parece sofrer de amnésia seletiva. O que esta proposta demonstra é que o CDS entrou no “vale tudo”, antes fosse efeito da silly season.

Sabemos que a verdadeira intenção do CDS é ir contaminando todo o setor público até que dele pouco reste. Tem-no tentado fazer na saúde, na segurança social e, claro está, na educação. Mas a diferença na educação é que, até agora, as propostas passavam por esvaziar a escola pública por via do subfinanciamento ou pela desconsideração dos profissionais da educação, ao mesmo tempo que propunham desviar os dinheiros públicos para o setor privado. Esta proposta agora apresentada vai uns passos mais à frente. Mantém-se a sempre inalterável intenção de subverter a escola pública à lógica dos privados, mas a incoerência com o que o próprio partido vem defendido é de tal ordem que roça o insulto.

Uma das dimensões das desigualdades sociais em qualquer sociedade é que existem fatores de opressão que prevalecem nas vidas quotidianas. Os que têm mais recursos acabam por ter vantagem sobre as classes populares. Quem viveu a realidade da pobreza ou de poucos recursos sabe bem o que isso é, da mesma forma como sabe que a escola pública ou a saúde pública a funcionarem no seu sentido pleno são dos melhores antídotos a essa opressão. A escola pública no seu verdadeiro sentido promove princípios como a autonomia e a liberdade. É na escola pública que podem encontrar-se as ferramentas necessárias para o desenvolvimento da consciência social. É na escola pública que reside um dos maiores garantes para a igualdade. Deturpar estes princípios pela via da introdução de corredores abertos para quem tem mais recursos, pela simples razão de ter mais recursos, é a anulação da própria democracia. O CDS provou, mais uma vez, com esta proposta que anda longe de encontrar-se. Insistir na divisão de um país é um caminho perigoso e não serve a ninguém.

Eurodeputada do BE


3 pensamentos sobre “O CDS e a (des)educação

  1. OS CIDADÕAS MAIS AVISADOS CONHECEM BEM A AGENDA DESTE DECRÉPITO CDS…Desde a retirada dos crucifixos das escolas e, dos locais públicos do Estado que estas direitas ficaram com um ódio ao PM da altura e até hoje não conseguem digerir…A campanha dos “amarelos” que andavam e construir escolas privadas,(coléginhos…)..
    nas áreas das escolas públicas com a intenção clara de as esvaziar….passando pela saúde onde o desinvestimento de 2011 a 2015 foi de cerca de 1000 milhões/ano….!!!
    Um destes dias vêm com a conversa das reformas passarem para as seguradoras….e com sorte, ainda vão privatizar as morgues….!!!
    Varrer esses neo-liberais de vez….!!!!

  2. A mentalidade pragmática portuguesa destruiu as universidades privadas e a D. Cristas anda agora aflita porque não há sítios de jeito que aceitem a sua cunha e os sobrinhos idiotas.
    Em países como o Reino Unido e USA, as universidades privadas convertem as altas propinas em excelência, rigor de investigação e o melhor staff académico. Mas em Portugal a educação é um conceito difícil de entender para muita gente. Para o típico português, se se paga mais por alguma coisa, no final há que ter algo nas mãos. As universidades privadas portuguesas, incapazes de impor o modelo de governação de um MIT, Cambridge, Oxford ou Princeton, depressa entraram nesta mentalidade e depressa se transformaram em fábricas de canudos.
    Nas décadas após o 25 de Abril, os pobres penavam durante o secundário para conseguir entrar nas universidades públicas. Os ricos andavam os mesmos 3 anos a brincar à nobreza e depois lá iam uns dias para a Moderna ou Lusófona de onde saiam “formados” em qualquer coisa inócua como Literatura Moçambicana do séc. XIX ou História da Sociologia Marroquina. Não interessava pois o mais importante era a cunha para ir gerir uma sucursal do tio.
    Mas o tempo não foi simpático para a universidade privada. A sua atitude mercenária e mercantil depressa removeu qualquer espécie de renome ou prestígio e o tecido empresarial português assim o sabe. O melhor aluno em toda a universidade privada continua a estar muito abaixo do pior aluno em toda a universidade pública e os patrões sabem disto melhor que ninguém.
    O que actualmente coloca um grande dilema para com a D. Cristas e as gentes que ela representa: muitos dos miúdos nascidos no privilégio afinal não são assim lá muito espertos (até admira..). O que fazer com alguém que é demasiado burro para conseguir entrar numa universidade pública de renome mas demasiado rico para ir tirar um curso profissional ou ficar apenas com o secundário? O que fazer com as dezenas de alunos da escola de verão?
    Melhorar a reputação das universidades privadas seria a melhor opção. Como se viu nos EUA no ano passado, é possível andar uns anos a passear cadernos por Harvard e sair formado desde que o papá aceite construir uma nova biblioteca ou ginásio. Desde que a maioria dos alunos seja sério, é possível meter uns quantos privilegiados pelo meio sem que ninguém note. Mas agora é tarde demais. Daí que a D. Cristas se tenha lembrado da segunda melhor opção… Pois, o CDS apenas insistiu na sociedade meritocrática até se ter dado ao trabalho de ver o que é que realmente isso implicava

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