Não há greves populares

(Ana Sá Lopes, in Público, 07/08/2019)

Marcelo Rebelo de Sousa veio ontem fazer a sua tentativa de apaziguamento relativamente à iminente greve dos motoristas. O argumento mais forte do Presidente – que já protagonizou uma sessão de “afecto” com motoristas em Dezembro passado, quando viajou a bordo de um camião – é que os trabalhadores se arriscam a perder popularidade (que nunca tiveram). “Se de repente há na sociedade portuguesa um sentimento, uma reacção”, se a sociedade se “sentir refém da luta, deixa de se identificar com a luta”.

A posição de Marcelo Rebelo de Sousa é uma variação mais suave da que foi já expressa pelo primeiro-ministro, que afirmou existir, contra a greve dos motoristas, “um claro sentimento nacional de revolta e de incompreensão”.

A questão aqui é que este argumento tem valor idêntico para o caso dos motoristas de matérias perigosas como para outro sector de que dependa a vida das pessoas normais: médicos, enfermeiros, professores, trabalhadores dos transportes públicos… A história não retém um caso de uma greve popular. Costa acha a greve injusta, porque é desencadeada no meio de um processo negocial; Marcelo admite a justeza das reivindicações, ou pelo menos aceita que “os fins sejam legítimos”. “Há que ter atenção que não basta que os fins sejam legítimos, que as aspirações sejam legítimas ou justas, é preciso depois que os meios não venham a prejudicar os fins”, disse o Presidente.

É verdade que estava a decorrer um processo negocial em resultado da greve da Páscoa e a convocação deste novo round de paralisações vem dar o dito por não dito por parte dos motoristas. Por alguma razão (eleições, como apareceu naquele vídeo que foi divulgado?), o sindicato que o advogado lidera – mas não só esse – decidiram estragar o Agosto aos portugueses. Mas uma exigência de 900 euros de vencimento-base em 2022, numa profissão de especial desgaste e responsabilidade, é assim tão absurdo?

O sindicalismo “selvagem” floresce onde o sindicalismo bem-comportado não tem resultados. Misteriosamente, o PS já nem importância dá aos seus dirigente sindicais, colocando-os de fora das listas de deputados – o que é uma absoluta novidade num partido que se integra na história dos partidos trabalhistas europeus. 

Depois de o primeiro-ministro, foi a vez de o ministro das Infra-Estruturas, o mais à esquerda deste Governo, admitir que se tem de “revisitar” a lei da greve. Pedro Siza Vieira, o ministro da Economia, mais recentemente disse que a revisão da lei da greve “é uma questão que tem de ser equacionada do ponto de vista político e os protagonistas políticos têm de ponderar a necessidade de rever a lei da greve”.

Uma coisa sabe este Governo: esta greve e todas as outras são impopulares e quanto mais duro for com os grevistas, mais ganha na opinião pública. Margaret Thatcher também sabia.


9 pensamentos sobre “Não há greves populares

  1. Em estéreo.

    RFC diz:
    Agosto 7, 2019 às 9:13 pm

    Economia
    Governo fixa serviços mínimos para a greve dos motoristas de 50% a 100%

    18h15

    Hugo Franco e Miguel Santos Carrapatoso

    Nota. Então, o Pedro Nuno Santos está do lado do patronato?! Era uma esperança da esquerda do PS, e afinal… diálogo, nós? Eleiçoeiros, nós?

    19h04 Pardal Henriques critica serviços mínimos decretados pelo Governo: “Não vivemos numa democracia, vivemos numa ditadura”

    versus

    20h56 Motoristas. Antram considera “correta” declaração de estado de emergência energética e serviços mínimos

    No Expresso, tudo.

    • Adenda (sobre os protagonistas).

      Pedro Pardal Henriques, para além dos cadáveres que tem no armário e também por isso mesmo, pergunto-me sobre quem poderia desempenhar este papel em favor da classe dos motoristas de substâncias perigosas? É diferente da Ana Rita Cavaco, ou do Mariano dos estivadores, é mesmo? Descendente de camionista, licenciado tardiamente e advogado, pequeno (ou médio?) burlão, self made man, gel, óculos de design, eventual cordão de ouro e cachuços a luzir no indicador e no anelar, o Maseratti para os raides às manifs da classe, assim parece-me ser uma figura tipicamente portuguesa. Não será nestes tempos mais breves, só num estado policial isso poderia acontecer (!), mas não estranharia o facto de ser apanhado pela bófia. Isto ou, diz-se hoje, que poderá enveredar por uma aventura política ao estilo de Matinho e Pinto, o que reforçaria o perfil que esbocei no princípio. Seja como for, quer-me parecer que deixará para contar aos seus desendentes o facto de ter conseguido deixar um país moderno, vá lá!, de pernas para o ar no ano impensável de 2019. Isto e ter deixado uma classe política caquética com a cabeça a andar à roda, é ver ontem a performance do Viieira da Silva e a do Matos Fernandes com aquela voz de bebâdo (há ali um padrão de fascistazinho que se exponenciou aquando do prédio Coutinho, acho).

      versus

      André Matias de Almeida, advogado, militante do PS, parece ser um equivalente dos antigos boys socialistas… mas aditivado. À volta da mesa do Conselho de Ministros, nos cargos de secretários de Estado, nos serviços desconcentrados do Estado em cargos sob nomeação política e, principalmente, nos gabinetes ministeriais há dezenas de tipos socialistas vindos da JS com este… curriculum (cadastro, na verdade). E o seu ar modernaço casa bem com o seu discurso de jovem lobbysta, ou porta-voz, ao serviço da Antram ou de outro qualquer sector empresarial clássico, rendoso e decadente (poderia estar ao serviço da indústria extractiva, da pesca industrial, da indústria da pasta de papel, de uma CAP da agricultura intensiva, por exemplo). Dito isto, na verdade fala de igual para igual com as gerações mais novas do PS, do CDS ou do PSD, clean, que frequentam o ginásio e se encontram nos lugares informais do poder, só para homens!, cujos valores não vão para além do pragmatismo do dia de hoje, a quem ser culturalmente de esquerda lhes diz nada, sem formalmente o fazer, fazem parte da geração que faz carburar o governo… E é isto e um certo discurso autoritário mete medo, admito.

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  2. Vamos ver qual a postura que estes trabalhadores vão ter em plenária. Se for para a greve, e face ao “caderno de encargos” que tem de cumprir, espero uma greve longa e desgastante.

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