De como o Diabo tentou Cristas

(Mário João Fernandes, in Jornal i, 02/08/2019)

Cristo resistiu por três vezes à tentação do Diabo, aos políticos há quem exija que resistam três mil…


Satanás, sempre atento à modernidade e ao espírito do tempo, respeita o princípio da igualdade e procura tentar todos por igual, independentemente da raça, religião, origem política, género, dificuldades de orientação capilar ou instrução em matéria culinária. Nestes tempos estivais, o Maligno não dá descanso aos pecadores e lembrou-se hoje da líder do CDS-PP.
Diabo – São, São, andas esquecida de mim?
Cristas – Credo, vade retro!
D – Que é lá isso, não queres seguir o meu conselho?
C – Nanja eu, ó coisa ruim.
D – Andas esquecida. A inveja tolda o pensamento e a gula apaga a memória…
C – Invejosa, eu?
D – Sim, tu. Que outra coisa senão a inveja te faria seguir os passos de um dos meus mais fiéis discípulos? Porque cobiçaste tu os feitos de Mário Nogueira e confundiste o Largo do Caldas com a sede da Fenprof?
C – Não se tratava de apoiar Mário Nogueira, mas sim de fazer oposição ao Governo.
D – E era por esse caminho que te vias chegar a primeira-ministra?
C – Os caminhos do Senhor são misteriosos…
D – E os meus são auto-estradas sem portagem. Vê onde é que a gula te levou: não voltarás a ter um partido do táxi, mas não terás mais do que um partido da Hiace.
C – Isso é o que dizem as sondagens.
D – Inveja, gula e, agora, soberba. Continuas a pontuar. Estás a lutar pelo quinto lugar na lista dos partidos com assento parlamentar?
C – O diabo que carregue o PAN mailos amiguinhos dos animais! Eu sou pela festa brava!
D – E agora a ira. Lembra-te de não cobiçar o boi ou o jumento alheio. E tens alguma coisa a propor aos que não são animais?
C – É preciso ir buscar os votos onde eles estão, bater a todas as portas, não afastar ninguém.
D – Vê lá a que portas bates. Há coisas que se fazem e não se propagandeiam. Tens muitos correligionários que acham esse teu bater à porta alheia uma coisa demasiado “moderninha”.
C – Esses são os preguiçosos, os que nada fazem para crescermos em número de votos.
D – E os que vão votar nas novidades eleitorais, nos que não têm medo de chamar os bois pelos nomes.
C – Esses são os que já venderam a alma ao Diabo.
D – Ou os que se cansaram de esperar por um partido de direita. A preguiça é um dos pratos que não me canso de servir, tem sempre muita saída.
C – A avareza de espírito não ajuda ninguém. Temos as melhores ideias e passam a vida a roubar-nas.
D – Terás ideias, mas se são os outros que as propagandeiam cometes o pecado da luxúria, na modalidade do voyeurismo. Com que fitas atas essas ideias que dizes ter?
C – Já ninguém liga a rótulos: direita, liberal, progressista, nacionalista, popular… O que as pessoas querem é futuro, não podem viver agarradas à saudade.
D – São, São, não se pode servir a Deus e ao Diabo ao mesmo tempo… Eu sou pela fidelidade. Não gosto de modernices e de ménages à trois. Essas tuas ideias assustam-me. Olha à tua volta, aqui ao lado os saudosistas deram 10% dos votos ao Vox. A saudade envergonhada não gosta de pouca-vergonha.
C – Esses são os fachas! Em Portugal não temos disso.
D – Rapariga, tu estás possuída pelos esquerdalhos! Vou-te mandar para o Caldas meia dúzia de hóspedes que tenho no Inferno a ver se te recordam os bons ensinamentos. Começas com uma romagem a Santa Comba e vais recitando: “Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.”

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

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