O império contra-ataca

(José Gabriel, 02/07/2019)

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Sempre que os EUA espirram, a Europa – entenda-se Europa ocidental – tem uma pneumonia. Sempre os norte-americanos se resolvem a uma das suas intervenções, as vítimas não são só os seus alvos directos; sobra sempre para nós. E os yankees têm sempre pronta aquela retórica de ir – ou vir – libertar alguma coisa, de defender os (seus) justos interesses, de liderar o mundo livre e tudo o mais.

O nosso drama é que a Europa, cada vez mais reduzida à irrelevância, não é, geralmente, só vítima: é cúmplice. Se nem sempre em unanimidade, pelo menos com a maioria de cerviz caída. Na verdade, quando vemos os EUA ameaçar algum país ou países com sanções – ou, pior, com libertações -, já sabemos que, sem grande subtileza, estão a impor sanções, mesmo que não declaradas, contra a Europa.

Esta, pelo seu lado, ainda nos vende, pela voz da maioria dos seus governantes, a velha treta de os norte-americanos estão constantemente a salvar a Europa. Na verdade, “salvam-na” quando ela não está a cumprir com eficiência aquilo que os seus patronos lhe ordenaram. E como isto é um processo contínuo, apenas com variações de frequência, aí está mais uma ofensiva que, a propósito das sanções ao Irão, atinge os europeus em cheio.

Não que os EUA, sendo uma economia forte, seja invulnerável; mas o que lhe falta em poder económico sobra-lhe em poder militar. O crápula Netanyahu, essa musa inspiradora do executivo de Trump, já deu hoje ordens aos maiores países europeus para que rompam o que resta do acordo com o Irão e agravem as sanções, que os americanos já o fizeram. Em resumo: os países da Europa, apesar dos acordos estabelecidos, não podem ter relações económicas com esse país, não lhe podem comprar um litro de petróleo – mesmo que daí advenha uma catástrofe humanitária – sem que sofram, eles próprios, sanções. É assim que funciona.

Já estou a ouvir os dos costume: “então apoias o regime iraniano?!” – porque estes países, nestas alturas, passam a designar-se como “regimes”. Os mesmos que perguntavam se gostava do governo de Sadam, de Gaddafi, al-Assad, Milošević e outros que governavam países objecto da gula imperialista dos Estados Unidos e seus aliados – ou servos – com os resultados que estão à vista. Como se perceber e combater os golpes do império implicasse, de algum modo, uma identificação politica com as vítimas. Não, não é assim. Mas também não nos peçam que nos identifiquemos com o agressor.

Todos nos lembramos: na obscena invasão do Iraque – apoiada pelo que de mais rasca tinham os governos europeus – o primeiro míssil foi contra o recém-nascido Euro. Vêm aí outros, mas as explosões não se ouvem. Sentem-se, olá se sentem.

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