As eleições europeias e a retórica partidária

(Carlos Esperança, 19/05/2019)

Quem chegue agora a Portugal e assista à campanha em curso, há de julgar que a União Europeia está domiciliada em outro continente, que o substantivo é um erro semântico e o adjetivo um equívoco geográfico.

Parece não haver interesses comuns, como se o espaço da UE não fosse já demasiado exíguo para a resolução dos problemas globais onde se joga o futuro do Planeta e a vida na Terra.

Quem siga com especial atenção a campanha desta direita onde sobressaem Nuno Melo e Paulo Rangel verá que os seus adversários eleitorais são Jerónimo de Sousa, Catarina Martins e, sobretudo, António Costa e os problemas da UE são os incêndios florestais, o julgamento de Sócrates e as estradas que os industriais de rochas ornamentais colocaram em risco. São bombeiros frustrados com vocação de pirómanos.

A Sr.ª Merkel, na Alemanha, preocupa-se com o perigo da extrema-direita, que ameaça a Europa, e a direita portuguesa vê perigos imaginários na extrema-esquerda que povoa as suas cabeças. Nuno Melo, pensa que o VOX espanhol não é de extrema-direita, tal como o tio-avô, devoto cónego, pensava que o ELP e o MDLP eram servidores da fé e que só matavam hereges, erigindo-se paladino da luta contra a extrema-esquerda.

Paulo Rangel esqueceu-se do escândalo que envolveu a quadrilha de ataque ao Governo com notícias falsas e réplicas nas redes sociais, e decidiu imitar o discurso trauliteiro do CDS, partido satélite do seu.

Não dá explicações sobre «quatro militantes do PSD de Lisboa – o consultor contratado há seis meses para trabalhar nas redes sociais do partido, Rodrigo Gonçalves, o seu pai, Daniel Gonçalves, e dois dos seus apoiantes mais próximos – as únicas figuras reais a interagir com perfis falsos.»,
(Ver o Diário de Notícias de 11 de Maio). Foram apanhados por jornalistas do DN que tiveram a colaboração de uma equipa do ISCTE, reputado centro universitário, que monitorizou a fraude, descoberta pelos jornalistas, um crime sem moldura penal.

Sobre o aquecimento global, o Brexit, a defesa da Europa e o lugar geoestratégico que pretendem para a UE, reina o silêncio em todas as feiras, ruas e ralis gastronómicos. Harmonização fiscal, relações com a China, Rússia, EUA e resto do Mundo são assuntos que não lhes interessam.

É deplorável que tudo o que diga respeito ao espaço comum de que serão deputados seja omitido. Talvez em outubro, nas eleições legislativas, venham a falar da Europa.


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