Marcelo, fé, política e foguetes

(Ana Sá Lopes, in Público, 29/01/2019)

marcelo_papa

Em 17 de Outubro de 2017 Marcelo disse que a resolução dos problemas que levaram aos trágicos incêndios desse ano seria “um teste decisivo ao cumprimento do mandato”. Na prática, o Presidente colocou na capacidade do Governo de resolver todas as falhas do Estado que conduziram à tragédia o alfa e o ómega da sua recandidatura a Belém.

Depois de ter subido a pressão sobre o Governo a este nível estratosférico, Marcelo vem agora anunciar, na prática, que voltará a apresentar-se a eleições. Só que agora há uma diminuição brusca das condições: para o Presidente da República se recandidatar, a condição, como para qualquer coisa da vida, é “ter saúde” e a outra é “saber que não há ninguém em melhores condições para receber o Papa”. Entramos num nível quando “ser a melhor pessoa em condições para receber o Papa” se torna um activo eleitoral.

É extraordinária a falta de memória que o Presidente agora mostra da “anterior condição”, exposta numa comunicação ao país em Outubro de 2017 e repetida numa entrevista ao PÚBLICO em 8 de Maio de 2018. Há menos de um ano, “se tudo corresse mal outra vez”, Marcelo não se recandidataria a Belém. Depois de pôr a repetição do seu mandato dependente da resolução do problema dos fogos, o Presidente agora embarca numa euforia de uma festa católica para anunciar os portugueses que receber o Papa, isso sim, torna-se decisivo.

Está Marcelo agora a ser populista ou já estava quando pôs a condição de não se repetirem os fogos de 2017? Está certamente a ser contraditório ou, pelo menos, esquecido. E nem católicos nem laicos se revêem na instrumentalização de um acontecimento religioso para fazer a pré-abertura da corrida Belém 2021.

Paulo Portas costumava justificar o amplo uso que fazia de uma certa retórica nas margens do panfleto anti-imigração com o argumento de que não podia haver nenhum partido à direita do CDS. De certa forma, ao ir buscar esses temas – como o combate ao antigo rendimento mínimo garantido – tentaria afastar o fantasma do nascimento de um partido de extrema-direita.

Marcelo, que tanto tem zurzido o crescimento dos populismos, parece pensar o mesmo. Uma espécie de “fiquem sossegados, portugueses. O populismo sou eu e ninguém me vai bater neste campo. Eu encolho o espaço disponível”. Deve ser mais ou menos isto.

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5 pensamentos sobre “Marcelo, fé, política e foguetes

  1. A promessa, repetida várias vezes durante a campanha eleitoral, que só cumpriria um mandato foi aliás a maior garantia de descomprometimento que o pantomineiro mor ofereceu ao povo português. A mentir com quantos dentes tinha. Para quem até uma primeira dama foi arranjar à pressa…

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  2. […]

    «Marcelo, que tanto tem zurzido o crescimento dos populismos, parece pensar o mesmo. Uma espécie de “fiquem sossegados, portugueses. O populismo sou eu e ninguém me vai bater neste campo. Eu encolho o espaço disponível”. Deve ser mais ou menos isto.», cito.

    Manuel G, a tese é esta de facto (a ASL não descobriu a pólvora pois ela, de há muito, é conhecida).

    Nota, um. Entretanto, nestes tempos estranhos não é altura para ninguém cantar de galo, pois mesmo a solução parlamentar que o António Costa encontrou é, por natureza, provisória. Aliás, pense-se, se se adiou um problema para o PS é bom lembrar que, do outro lado do espelho, se criou um problema quase exactamente igual ao PSD (ou seja, não tivesse sido encontrada esta solução e seria o PS principalmente quem estaria em maus lençóis). Mérito para as lideranças políticas da/s esquerda/s, que me parece que entenderam perfeitamente a situação, seja ela a do PS como a do BE ou do PCP. O PSD de Pedro Passos Coelho, esse, andou dois anos a apanhar bonés… e ver-se-á o que espera toda a gente.

    _______

    Nota, dois. Por falar em fézada, que não em fé entenda-se, há um conhecido blogue chamado Aspirina B adminitrado pela firma Valupi, Tangas & C.ª, Limitada, ali ao lado conheces?, que se tenta salvar também (qu’isso de pensar em coisas importantes está quieto, cansa bué!). Como sabemos, a fasquia andava há meses em dois comentários, ou três, ou seis, e a solução foi este frenesim. Dá nas vistas, demasiado, mas não deixa de ser cómica (o post é da própria).

    Penélope
    29 de Janeiro de 2019 às 17:17

    Penélope
    29 de Janeiro de 2019 às 17:19

    Penélope
    29 de Janeiro de 2019 às 17:21

    Penélope
    29 de Janeiro de 2019 às 17:23

    Penélope
    29 de Janeiro de 2019 às 19:06

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    • Operação Marquês Ex-mulher de Vara sabia que filha tinha conta com pai na Suíça e não estranhou

      Mariana Oliveira | 30 de Janeiro de 2019, 20:28

      Nota. Uns bandidos, estes jornalistas (novamente de saias, ontem).

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