A extrema-direita é um gambozino

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/01/2019)

Daniel

Daniel Oliveira

Foi muitíssimo interessante verificar a reação de alguma direita à ida de Mário Machado ao programa de Manuel Luís Goucha. Interessante, por ser um caso limite. Estávamos a falar de um criminoso, com sequestros, homicídios, espancamentos. Estávamos a falar do facto de tudo isso ter sido escondido dos telespectadores. Estávamos a falar de uma entrevista sem qualquer enquadramento jornalístico, feita num programa de entretenimento, entre panelas e conversas ligeiras, a um nazi muitíssimo violento. Estávamos a falar, enfim, do indefensável. E mesmo assim alguns conseguiram vir a terreiro.

Como seria de esperar, a maioria das pessoas de direita sentiram o mesmíssimo incómodo e nojo. Outras, talvez por conhecerem mal o percurso de Mário Machado, meteram um piloto automático. Foi o caso de Pacheco Pereira, que já no passado tratara Mário Machado como preso político, ignorando claramente a extensão do seu cadastro.

Não vale a pena rebater as ideias de um criminoso (quando os crimes de delito comum foram cometidos com motivações políticas) se ele conseguir fazer-se passar, na televisão, como uma pessoa apenas “polémica”. Ele ter direito a falar não é o mesmo que ele ter direito a esconder. E é por isso que aquela entrevista é inaceitável e a mesmíssima entrevista a Jaime Nogueira Pinto, também ele um saudosista do Estado Novo, não o seria. Mas Pacheco Pereira reciclou uma ideia antiga sem prestar atenção ao facto de o único objetivo de Mário Machado ser o de aparecer como um político, por mais inaceitáveis que fossem as suas posições (isso era-lhe indiferente), em vez de continuar a ser visto como um criminoso. E a TVI participou nessa farsa.

Mas mais interessantes foram os que, afastando-se das posições de Mário Machado, não se limitaram a defender o seu direito a falar. Entregaram-se aos mais ferozes ataques às pulsões censórias da esquerda, naquele velho exercício que transforma quem se opõe ao fascista no verdadeiro fascista. E que até faz um esforço para normalizar, integrar e banalizar o próprio fascista. Como não podia deixar de ser, o caso mais evidente foi o “Observador”. Na divisão de tarefas, tem sido sempre assim: o “Correio da Manhã” cria o ambiente popular que naturaliza o discurso autoritário, o “Observador” trata da legitimação intelectual. Que vai do revisionismo histórico à tentativa de destruir o cordão sanitário que manteve a direita democrática separada das suas correntes antidemocráticas.

Segundo a página da Nova Ordem Social, organização política criada pelo homem que mais tempo esteve numa prisão de alta segurança em Portugal, “o melhor artigo a retratar a entrevista de Mário Machado e o alarido que se seguiu” foi o de Helena Matos. Não vou ser eu a desmentir. E se eles se sentem tão bem com aquele artigo é boa razão para o ler com atenção.

Não vale a pena entrar num debate semântico – a que Helena Matos nunca se entrega quando fala das várias correntes marxistas ou da esquerda – sobre o fascismo. Muito menos sabendo-se que Salazar sempre teve a arte de albergar debaixo da sua asa correntes muito diferentes da direita autoritária. Umas cooptou e integrou, outras afastou, mas sempre com um enorme pragmatismo agregador. E o mesmo fez com as suas referências ideológicas e estéticas. É daquele género de preciosismos que, quando estamos a falar do que é hoje a extrema-direita, em vez de servirem o rigor servem a confusão. E é especialmente disparatado quando se fala de Mário Machado, que só não é fascista porque sempre foi neonazi. Se Helena Matos tivesse perdido cinco minutos a vasculhar o percurso da figura sabê-lo-ia. Da iconografia aos heróis, do discurso ultrarrevolucionário às referencias estéticas, é isso que ele sempre foi. Pois mesmo perante um neonazi Helena Matos consegue ver uma esquerda à caça de fantasmas, “inventando fascistas”.

Também não vale a pena explicar a Helena Matos que o principal dever de um jornalista que entrevista Mário Machado não é “conhecer os livros”, é conhecer a pessoa que está à sua frente. Mas essa parte, apesar de eu saber que Helena Matos conhece, ela prefere ignorar.

Mais do que texto, interessa-me a reação desta direita, que pretende quebrar a fronteira entre os saudosistas do Estado Novo e os democratas conservadores, entre as correntes ultraliberais na economia e autoritárias na política. Sempre que há uma polémica deste género, a reação da direita “Observador” e os seus avatares é pavloviana: se for preciso defender o indefensável, defende-se o indefensável. No início os acólitos vão estranhar, depois vão deixar que se entranhe.

Parte desta reação é estúpida. Se a esquerda está irritada, eles estão satisfeitos. Se a esquerda odeia Bolsonaro, “viva o Bolsonaro”. Se está furiosa com o Mário Machado, não dá para dizer “viva Machado” (apesar de tudo o tipo esteve preso bastantes anos por andar a espancar pessoas), mas arranja-se uma forma de transformá-lo numa vítima da fúria censória da esquerda. É uma direita que ainda se sente menorizada e tem reações em vez de posições.

Mas parte da reação é inteligente: a radicalização da direita – tentada não surpreendentemente por algumas pessoas que vêm da extrema-esquerda, como Helena Matos e José Manuel Fernandes – é fundamental para a libertar de qualquer compromisso em torno do que já foi um consenso ao centro. Os compromissos ao centro impedem a agenda económica e social que esta nova vanguarda tem em mente e que é em tudo contrária ao DNA da direita moderada portuguesa. Tentaram tomar o PSD e radicalizá-lo. É possível que voltem a tentar e para isso têm organizado um cerco como não há memória a um líder do partido. Fora disso, têm de construir o seu espaço.

Só que a radicalização da direita tem um obstáculo aborrecido: a memória. Portugal teve uma ditadura de direita de meio século e isso não é coisa que se apague com facilidade. E teve uma revolução que deixou sementes políticas e determinou todo o sistema partidário.

Para reunir, também por cá, conservadores, ultraliberais e saudosistas numa mesma frente é preciso romper um velho cordão sanitário, relativizando essa memória e criando a ideia de que a extrema-direita é uma espécie de gambozino. Não só nunca existiu, como não existe ninguém que a defenda. E de cada vez que parece que estamos mesmo perante alguém com um perfil fascista, como Bolsonaro ou o neonazi Machado, logo dizem: lá estão eles com o papão do costume. Até o mais abjeto parecer normal.

A ridicularização de qualquer receio da extrema-direita é fundamental para que um país que lhe tem uma aversão que nasce da sua história recente baixe a guarda. E só assim esta nova direita poderá integrar nas suas fileiras as correntes mais radicais e agregar todas as forças que estão à direita do consenso que aproximou durante décadas PS, PSD e CDS.

Ao contrário dos que estão mais à esquerda, que mantêm há décadas um bloco político que vale entre 10% e 20% dos votos, esta direita nunca conseguiu crescer. Porque há um preconceito enraizado e justificado em relação a tudo o que exista à direita do CDS. Ou conquistam o PSD por dentro, como Trump fez nos EUA (num sistema eleitoral e partidário incomparável), ou têm de criar o seu próprio espaço. O caminho de trumpização e bolsonarização do debate político em Portugal é um elemento estratégico para que uma nova direita ganhe fôlego contra a direita tradicional. E para isso precisa de acabar com todos os interditos, tabus, pruridos e cordões sanitários que ainda existem. Mesmo que isso ponha em perigo a democracia. É, como foi no Brasil e nos EUA, o menor dos seus problemas.

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