A agitação social e as suas motivações

(Carlos Esperança, 07/12/2018)

esperancax

Não discuto o direito à greve ou a legitimidade das que estão em curso e se multiplicam, às vezes sem assegurar sequer os serviços mínimos. Faltam-me elementos para julgar cada uma delas, e ninguém melhor do que os profissionais para as avaliarem.

Há aspirações legítimas para as quais pode não haver recursos e certamente outras cuja satisfação aumentaria as desigualdades e injustiças sociais. Não tenho ideias definitivas sobre o frenesim da agitação social nos mais variados sectores de atividade da função pública, a dez meses das eleições legislativas.

Temo, isso sim, as greves que não são mediadas pelos sindicatos e as movimentações sociais alheias aos partidos políticos. O ambiente é demasiado complexo para rotular as reivindicações, mas é suficientemente claro que há um efeito tóxico que pode contaminar as mais justas e urgentes, o efeito que causam na opinião pública e cujas consequência cabe aos sindicalistas avaliar.

Quem viaja nos transportes públicos frequentados por populações suburbanas, menos contidas nas emoções e mais exuberantes na sua exteriorização, não pode deixar de se arrepiar com a raiva e violência verbal que qualquer demagogo pode transformar em votos.

Sou apoiante deste governo e, sobretudo, da fórmula que o sustenta, o que raramente me sucedeu com outros, e temo menos a queda deste do que a chegada do próximo. Nunca apoiarei um governo de que não possa ser opositor nem um outro que, embora aceitando eleições livres, não respeite os direitos humanos.

A vida está difícil para quem deseja conciliar a independência de espírito, num ambiente que encerra inúmeras contradições e demasiadas incógnitas, e não prescinde de exprimir as suas opiniões e exercer a participação cívica a que se julga obrigado.

A viagem no autocarro 16, que entra na cidade de Coimbra e sai de volta aos arredores, onde se misturam pessoas de diversas faixas económicas e sociais, revela bem o rancor que cresce nas camadas mais desfavorecidas. É o efeito tóxico das reivindicações, ainda que justas, nas camadas mais desfavorecidas e despolitizadas.

É neste húmus que pescam os demagogos e populistas. Dá que pensar.

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