Ó JESUS, MAKE IT STOP!

(Abílio Hernandez, 11/11/2018)

wari

Neste dia em que se comemora a assinatura do Armistício destinado a pôr fim à Guerra Mundial de 1914-1918, evoco, no excerto de um texto bastante mais longo que publiquei há 36 (!) anos, aquela que foi, talvez, a mais brutal de todas as batalhas então travadas: a batalha do Somme:

Às primeiras horas de 1 de junho de 1916, 110 mil soldados da infantaria inglesa lançaram-se ao assalto das posições alemãs, nas margens cobertas de papoilas do Somme. 60 mil morreram ou ficaram feridos antes que o sol atingisse o poente e empalidecesse o brilho das baionetas.

Durante muitos dias, o vermelho do sangue derramado cobriu o vermelho das papoilas na Terra de Ninguém. E os gemidos, que no silêncio das noites se ouviam, não eram do vento nem das aves noturnas, que não as havia já, mas dos feridos à espera de um auxílio que não chegaria ou chegaria demasiado tarde.

18 anos depois, Edmund Blunden, poeta e soldado desta guerra, escreve:

“By the end of the day both sides had seen, in a sad scrawl of broken earth and murdered men, the answer to the question. No road. No thoroughfare. Neither race had won, nor could win, the War. The War had won, and would go on winning.”

Quando as lamas de novembro cobriram os campos do Somme, as baixas dos dois lados tinham ultrapassado um milhão e duzentos mil homens. Alguns meses mais tarde, G. Bernard Shaw visitou as frentes de combate na Flandres e na Picardia, e descreveu o que viu no Somme:

“The Somme front in the snow and brilliant sunshine was magnificent. The irony of the signposts was immense. ‘To Maurepas’; and there was no Maurepas. ‘To Contalmaison’; and there was no Contalmaison. ‘To Pozières’; and there was no Pozières…”

Nas margens do Somme não morreram apenas homens. Também ali ficaram enterradas a inocência, as ilusões e o fervor patriótico que tinham acompanhado quase 3 milhões de ingleses a caminho da guerra. Depois da batalha, não era já possível cantar a beleza e os ideais da Pátria e pensar a guerra como uma cruzada heróica em que os jovens se lançavam ‘as swimmers into cleanness leaping’, como num poema de Rupert Brooke.

Era agora o tempo das trincheiras e do arame farpado, do gás que queimava os pulmões e das feridas incuráveis. O poeta-soldado descobre (e descobre-se em) um grito urgente, de indignação e raiva, eco das vozes dos homens imolados (como sempre) pelos interesses de Estados em guerra.

É o caso do poema “Attack”, de Siegfried Sassoon, cujo crescendo de tom até ao grito final exterioriza uma angústia longamente sufocada e sublinha a premência instante do tema:

At dawn the ridge emerges massed and dun
In the wild purple of the glow’ring sun,
Smouldering through spouts of drifting smoke that shroud
The menacing scarred slope; and, one by one,
Tanks creep and topple forward to the wire.
The barrage roars and lifts. Then, clumsily bowed
With bombs and guns and shovels and battle-gear,
Men jostle and climb to, meet the bristling fire.
Lines of grey, muttering faces, masked with fear,
They leave their trenches, going over the top,
While time ticks blank and busy on their wrists,
And hope, with furtive eyes and grappling fists,
Flounders in mud. O Jesus, make it stop!

 

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