Guião para a direita seguir o exemplo de Bolsonaro

 

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 30/10/2018)

LOUCA3

 

Que entusiasmo, o homem ganhou, tudo é possível, o mundo é nosso, Portugal ainda há de ser um imenso Brasil, afinal só nos faltam as milícias na rua, o ódio aos homossexuais, o fervor evangélico, uma multidão de vendedores de rua a gritar pela ditadura militar, pois mulheres a ganharem menos do que os homens já temos, negros espancados nas esquadras também, jovens precarizados a saltar de biscate em biscate é o pão nosso de cada dia.

Só que não basta querer, é preciso saber. Deixem-me por isso, caro dirigentes da direita, que vos apresente alguns conselhos, obviamente desinteressados, para vos ajudar por esse caminho em que, imitando Bolsonaro, ascenderão aos píncaros da glória e arrematarão as eleições. Não é fácil, é preciso é tenacidade e total falta de escrúpulos, de que timidamente já deram provas.

O primeiro problema da direita que quer imitar Bolsonaro (ou Trump) é que a condição da sua vitória é virem de fora. Não é bem de fora, na verdade, Trump já por lá andava e Bolsonaro foi um deputado medíocre durante quase trinta anos, mas tem de parecer que não são “do sistema”, que irrompem, que desprezam os “políticos”, que têm notícias espantosas a dar. Má onda para Cristas ou Santana, ela e ele são tudo menos caras novas (Rui Rio, como é bom de ver, não entraria neste filme). Não basta mudar de fato e ensaiar um discurso mais agressivo para lá chegar, fica algo ridículo e parece cambalhota política. Se querem trumpizar, melhor dar a vez a Nuno Melo ou substituir a liderança unipessoal da novel Aliança, talvez recrutando algum colunista ou youtuber atrevido, é aí que está o mercado. Não é fácil, os dirigentes de sempre querem parecer novos e não querem sair do seu lugar.

O segundo problema é que é preciso criminalizar o adversário, é preciso que uma parte do eleitorado deteste o PS e os partidos de esquerda e repita “geringonça nunca”. Há várias formas de lá chegar. Um caminho são as centrais de ódio nas redes sociais, alugar uns trolls e contratar uns robôs frenéticos, mobilizar uns bolsominions repetitivos. A Catarina passeia-se com um relógio de 21 milhões de euros, deve ter sido o pagamento da corrupção no contrato dos submarinos. Seria bem apanhado, mas nada bate certo, é melhor tentar outra vez, ponham-lhe a fotografia com um helicóptero privado ou, melhor ainda, um jato, ela vai para casa de jato privado, aterra em Gaia, e leva o relógio.

Ou, o Costa é amigo dos venezuelanos, quer impor o socialismo em Portugal, confiscar os supermercados e impor senhas de racionamento do arroz. Que aborrecimento, o último Governo a negociar com Chávez e Maduro foi o do PSD-CDS e, para azar dos Távoras, ficaram as imagens desses abraços amigos. Mas não importa, é preciso é inventar, estou certo de que o Costa vai com o relógio dos milhões da Catarina e no seu jato privado passar férias com Maduro e conspirar sobre o socialismo.

Outra forma de mostrar como o adversário é detestável é usar a justiça. É sempre mais solene. Mas já houve duas oportunidades, a da Casa Pia, em que os entusiastas pensavam envolver o então secretário-geral do PS, e falhou, e a do processo de Sócrates, em que ninguém se lembrou de aproveitar para pedir que Mário Soares e António Costa fossem postos a “apodrecer na prisão”, assim à Bolsonaro, uma versão do “ponham-na atrás das grades” que se cantava nos comícios de Trump. Com franqueza, se os imitadores portugueses não têm topete para seguir o augusto exemplo dos Presidentes dos EUA ou do Brasil, como querem colher os mesmos resultados?

Resumindo, não é fácil. O pessoal disponível está gasto e não se atreve muito nos temas. A religião está acima da Constituição, mulher que aborte é presa, é proibido comer camarão, o ensino do criacionismo substituirá as aulas pagãs sobre Darwin e a evolução, nada disso entusiasma o povo. O programa económico é outro problema: vamos vender a floresta, vamos privatizar as empresas públicas, os CTT, a Galp e a EDP, são ideias brilhantes, mas está tudo feito. A segurança social, falta a segurança social, mas o Brasil a imitar o Chile de Pinochet é dificultoso, o esquema deu num mar de corrupção, em pagamentos régios a administradores e na falência dos fundos financeiros, que deixaram de pagar as pensões. Alguém vem para a rua em Portugal para exigir a privatização da segurança social de modo a combater este perigoso “socialismo” que paga as pensões?

Não desanime, caro dirigente da direita. Já esteve bem ao afirmar a sua equidistância face aos “candidatos extremistas” no Brasil, cá para o nosso burgo essa atitude parece sensata, mas mostrou que esteve sempre de olho no que iria criar “menos instabilidade”, como nos explicou o “Observador” naquela coça que deu a David Dinis, não é que ele se atreveu a sugerir que a liberdade devia ser levada a sério. Afinal, os mercados aplaudiram e o que seria de nós sem os mercados? Agora, se quer sucesso, vai ter que se esforçar. Isto com umas feiritas e uns comícios não vai lá. Não há notícia. Prometa que manda prender os ciganos, resulta sempre, ou impor aos professores a lei marcial para darem aulas. Lei marcial é boa ideia. Ou que vai distribuir armas para resolver as quezílias na assembleia geral do condomínio. Assim coisas saborosas. Se não sabe criar temas apaixonantes e puxar pela lágrima, dedique-se a outro negócio, há quem queira ocupar o seu lugar.

Tenho mesmo uma candidata, melhor do que o que o mercado agora oferece. Creio que se devia pôr os olhos na Maria Vieira para dirigir a direita. Qual Ventura, esse é um copinho de leite. Qual Melo, é um fidalgote. Quais cromos repetidos, são enfadonhos. É preciso uma figura emergente, devota, impiedosa com os infiéis, amiga de armas, de créditos firmados na luta contra o socialismo pagão. Seria a melhor figura que a direita teria para o cargo de primeira-ministra.

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